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quinta-feira, 7 de novembro de 2024

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


Num dia triste para a América, num dia triste para o mundo, deu-me para ir ao Outro Lado as Estantes buscar um importante documento.

Os catálogos do ciclo O Musical trabalho conjunto da Cinemateca Portuguesa e da Fundação Calouste Gulbenkian, em que de 20 de Dezembro de 1985 a 27 Março de 1986 foram vistos 180 filmes.

O catálogo são quatro volumes metidos em duas caixas, com cerca de 2.000 páginas.

«A expressão  «Cinema Musical adequa-se a qualquer filme (antes ou depois do da invenção do sonoro) em que a música tenha tido um papel importante», João Bénard da Costa dixit.

PRIMEIRO VOLUME

Tem o título de Aberturas com  intervenções de Carlos de Pontes Leça, João Bénard da Costa, João Paes, Luís de Pina, Miguel Esteves Cardoso.

SEGUNDO VOLUME

Titulado com Libretos, com intervenções de João Bénard da Costa. Manuel S. Fonseca, João Lopes, João Gabriel Trindade dos Santos, José de Matos Cruz, José Manuel Costa, Luís de Pina

TERCEIRO VOLUME

Chamaram-lhe As Pautas e tem colaboração de Miguel Esteves Cardoso.

QUARTO VOLUME

Com o título de As Letras tem colaboração de João Bénatd da Costa

De cada volume fizeram-se 2.000 exemplares, há muito esgotados e que, provavelmente, não voltarão a a ter outra edição.

Quem gosta de Cinema, quem gosta de musicais, tem aqui a tudo e mais alguma coisa.

Não tenho memória do primeiro musical que vi. Quase de certeza deveriam conter os passos de magia de Fred Astaire, as pernas de Cyd Charisse. O último direi com  a certeza das certezas, e não só por ter sido visto há poucas semanas: One From The Heart, o mais grandioso filme, o sonho mais louco  de Francis Ford Coppola que o levou à falência.

A primeira vez que vi Do Fundo do Coração foi na magnífica sala do Apolo 70. Depois fui a quase todas as exibições que aconteceram na Cinemateca Portuguesa.

Diga-se que há dias morreu Teri Garr que não sei onde se juntou a Raul Julia um dos seus comparsas na noite fabulosa daquele 4 de Julho, amores conquistados, amores perdidos, amores reconquistados, tudo à volta da genial banda sonora de Tom Waits.

Não resisti à tentação de reproduzir a crítica que Manuel S. Fonseca escreveu para este catálogo com a alegria que é importante destacar  que a crítica seja parcial e entusiasmante.



Claro que nunca poderemos esquecer  que a América, de novo, foi capaz de eleger para presidente  um criminoso, um aldrabão capaz de tudo e de mais alguma coisa.

É isso que o novo ano trará ao mundo. 

Fatalmenete?

Lembrava José Pacheco Pereira: «As democracias não deviam permitir que alguém que é criminosos, que despreza as leis e a Constituição tenha condições para se candidatar».

domingo, 18 de agosto de 2024

CANÇÔES DE ENTARDECERES


 Esperar o crepúsculo nestas janelas.

Não todos os dias, mas quando possível.

E o possível é quando? Já agora, o impossível também entra?

Certamente haverá quem não compreenda que dois tipos, um no 2º andar, o outro no 4º andar olhem os pôr-de-sol.

Os entardeceres batem à porta em cada dia.

Para onde vão quando os últimos lampejos ficam, por momentos, agarrados no horizonte?

«Na cidade quem olha par o céu?», perguntou um dia o poeta Carlos Queiroz.

Tratado de filosofia à vista!...

Acabamos, mais cedo ou mais tarde, por acreditar no silêncio.

No filme «Smoke» de Wayne Wang, com argumento de Paul Auster,  Auggie, dono de uma tabacaria em Brooklyn, explica a Paul, cliente, escritor e fumador de «Schimmelpennincks», que todos os dias, tira fotografias na esquina da Rua Três com a Sétima Avenida, às oito da manhã.

«Quatro mil dias seguidos com todos os tipos de tempo. É por isso que nunca passo férias. Tenho de estar no meu posto todas as manhãs. Todas as manhãs no mesmo sítio à mesma hora. É o meu projecto. Aquilo que se poderia chamar a obra da minha vida.

São todas a mesma coisa. Tem aí manhãs brilhantes de sol e manhãs sombrias. Tem aí a luz do Verão e a luz do Outono. Tem aí os dias de trabalho e os fins-semana. Tem aí pessoas de sobretudo e galochas e as pessoas de cações e T-shirts. Às vezes são as mesmas pessoas, às vezes são outras. E às vezes as outras tornam-se as mesmas e as mesmas desaparecem. A Terra gira à volta do Sol e todos os dias a luz do Sol incide na Terra com ângulos diferentes.»

Auggie, quase, quase, no final do filme ainda a filosofar com Paul:

«Merda. Se não podemos partilhar os nossos segredos com os amigos, que raio de amigo seríamos.»

A conversa vai longa, chegado é o tempo de pôr a rodar uma canção que, por não mera coincidência, faz parte da banda sonora de »Smoke» e é cantada pelo Senhor Tom Waits: «Innocent When You Dream»

Somos inocentes, enquanto sonhamos?

Ou voltar ao principio do filme quando Dennis, um outro cliente da loja de Auggie, aparece com uma T-shirt com estas palavras estampadas:

 «Se a vida é um sonho, o que é que se passa quando acordo?»


quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

MÚSICA PELA MANHÃ

A segunda canção de (não) Natal pertence a Tom Waits.

 Tom Waits é um respeitável rapaz, a long time ago, muito cá de casa.

Uma das vantagens de gostar de Tom Waits é que não o podemos catalogar com facilidade. Há quem o ame, há quem o odeie, alarvando que o homem está sempre bêbado, não diz coisa que se entenda. Tom já há muito esclareceu que ele nunca está bêbado, o piano é que sim.

Com simplicidade, David Shoulberg, disse que ouvi-lo é «como caminhar por uma cidade fantasma, onde tudo é rangedor e arrepiado de que nasce uma estranha sensação de paz».

Esta canção não será verdadeiramente de (não) Natal dado que aparece no filme Smoke de Wayne Wang, a propósito de «Conto de Natal de Augie Wren» escrito por Paul Auster.

Legenda: fotografia de Tom Waits da autori ade Edward Coilver

segunda-feira, 27 de junho de 2022

OLHARES

Café Império.

O seu desaparecimento esteve anunciado, os trabalhadores, os velhos clientes, juntaram-se, a Câmara ajudou, e o que era uma ameaça do fim de mais um café da cidade, não se concretizou.

O piano está à esquerda de quem entra e fica por esse piso.

Os pianos tocam sozinhos?

Não, não senhor, o piano é que está bêbado tal como no cantar calmo de voz de alcatrão do Tom Waits, a quem o madeirense-tripeiro JoséViale Moutinho dedicou um poema.

Sim, o piano está à esquerda de quem entra e fica por esse piso.

Mais que uma vez, entro café dentro e olho o glamour daquele piano.

«Toda a gente gosta de música; o que tu realmente queres é que a música goste de ti.», uma grande verdade expressa pelo senhor Tom Waits.

domingo, 14 de março de 2021

MURIEL


Desde que deixaste a cidade, Muriel, os clubes fecharam

E há mais um candeeiro fundido na rua principal

Ali onde costumávamos passear.

Muriel, ainda assombro os mesmos velhos antros

E tu segues-me sempre onde quer que eu vá

Muriel, vejo-te num sábado à noite na casa de jogos

Com o cabelo apanhado, atrás

E aquele brilho de diamante no olhar

E a única aliança que alguma vez te comprarei Muriel.

E, Muriel, quantas vezes abandonei esta cidade

Para me esconder da tua memória

Que me persegue

Mas nunca vou além do bar mais próximo

Onde compro outro charuto barato e te encontro em cada noite

Muriel, Muriel...

Olá amigo, tem lume?

 

Tom Waits em Nocturnos

Legenda: pintura de Vincent Giarrano

terça-feira, 14 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Voltamos a começar com a meteorologia.

Hoje, de novo a chuva, acompanhada de trovoada, também granizo.

Tempo cinzento, triste.

De longe a vida nos aponta, de perto é a morte que nos aperta, para lembrar um verso de David Mourão-Ferreira que estou a citar de memória.

Não sei se vou aguentar, até final de Maio, a reclusão doméstica a que estou forçado. 

Horrorizei-me, ontem, quando a senhora Ursula von der Leyen, líder da Comissão Europeia, disse que os idosos têm de estar confinados até ao fim do ano.

Apaguei a luz, não adormeci logo,  e fiquei a pensar o tempo suficiente para concluir que isto assusta mesmo.

Pela manhã, manhã não, quase meio-dia, andamos com as horas todas trocadas, quando comia a primeira torrada de pão alentejano, concluí que a senhora não deve saber do que está a falar.

Olha-se a figura e não ressalta uma faúlha sequer de sabedoria política, cultural, seja do que for.

Medo.

Uma palavra das muitas e muitas que lemos e vamos guardando.

Alguma vez sabia eu o que era medo?

Posso agora dizê-lo: não!

Os livros que fui lendo, ao longo de grandes tempos, falavam de medos, medos tantos e tão diversos.

Fiquei sempre com a ideia de que o medo é uma situação de impotência, vinda sabe-se lá de que cantinho do que somos, e acontece num pedaço de tempo que pode durar uma eternidade.

O filho da mãe do Covid-19 está a pôr-nos à prova.

Isolou-nos do mundo sem que nos apercebêssemos.

Diane, no filme Setembro do Woody Allen, já por aqui citado, queria estar preparada e perguntava:

Onde é que está a vodka?»

Decerto vou precisar de mais alguns gins, para tentar esquecer esta trágica evidência de não saber se haverá manhã.

Tom Waits, com aquela sua voz que tem alcatrão suficiente para asfaltar uma autoestrada inteira, como um dia escreveu a «Rolling Stone», dá-nos música, mas continua a dizer que o piano tem andado a beber… ele é que não…ele é que não...


1.

O meu filho diz que eu sou um bota-palavra-em-tudo-o-que-é-assunto, que tirei, sem que me tivesse apercebido, uma pipa de mestrados.

Arrisco a minha inconsciente irresponsabilidade: enquanto não houver vacinas para este vírus, o que as gentes diariamente dizem nas televisões são meras histórias para entreter camelos.

E isso precisa de tempo agarrado a mutações que não se sabe como evoluem.

2.

Se esta pandemia é uma guerra, a cantiga é uma arma, tal como ensinou o Zé Mário Branco.

«Esta ideia de que a austeridade é uma forma de lidar com crises é um erro. É uma construção ideológica.

Mariana Mortágua, deputada do BE

3.

O FMI acredita que Portugal pode ter recessão de 8% em 2020 e o desemprego pode disparar para perto dos 14%. Admitem ainda que a recessão económica será muito maior do que nos anos da crise financeira.

4.

O serviço europeu de polícia anunciou ter detectado um esquema fraudulento de máscaras faciais, devido à pandemia da Covid-19, que terá lesado autoridades de saúde alemãs em milhões de euros, que já motivou duas detenções, máscaras faciais que nunca existiram.

5.

Um inquérito feito pelo Instituto Nacional de Estatística e pelo Banco de Portugal às empresas, revela que muitas empresas da restauração já se encontravam, antes da pandemia, em situação difícil e não voltarão a abrir.

Para as restantes tudo o que está a ser feito são moratórias, alívios temporários, que vão causar, a breve tempo, custos enormes que as empresas não vão conseguir saldar.

O alojamento e restauração são os sectores que apresentam um maior impacto.

6.

As autoridades de saúde recomendam agora que todas as pessoas utilizem máscara sempre que estejam em espaços fechados e frequentados por muita gente, como supermercados, lojas, farmácias e transportes públicos.

7.

Os negros números:

O número de mortes em Portugal subiu para 567.

A Itália 21.067 mortos a França regista 15.729 mortos.

Na Grã-Bretanha as vítimas mortais são as 12.107,  enquanto os Estados Unidos registam um número de 23.500 mortos, sendo que 7.905 se verificam no estado de Nova Iorque.

Em todo o mundo já morreram 125.123 pessoas.

8.

 «Nascer é inaugurar a solidão.»

Álvaro Guerra em O Capitão Nemo e Eu

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

QUEM ME DERA ESTAR EM NEW ORLEANS


Ficam aqui algumas das fotografias da enorme exposição de garrafas que o Luís Miguel Mira viu em Nova Orleans, bem arrumadas em bonitas estantes de madeira.
Fica também a canção do Tom Waits, I Wish I Was in New Orleans, que pertence ao álbum Small Changes de 1976, bem como a tradução feita pelo João Lisboa em Nocturnos.






Quem me dera estar em New Orleans
Estou quase a ver-me num sonho
De braço dado por Burgundy abaixo
Uma garrafa, os meus amigos e eu
A deitar abaixo umas canecas bem geladas
A jogar «pool» e a escutar aquele sax tenor
Que chama por mim
E quase oiço a banda a começar
When The Saints Go Marching In
Juro pela minha saúde
New Orleans aí vou eu!

Beberei mais do que todos
E de nariz vermelho iremos passear
Pelos velhos antros
O que eu quero é feijão com arroz
Vestir o fato de que mais gosto
Encontrarmo-nos todos no velho saloon
E que não falte uma lua do sul
New Orleans aí vou eu!

Dar cartas, lançar os dados
E diabos me levem se aquele não é o velho Chuck E. Weiss…
Pela Clayborn Avenue eu, tu,
Sam Jones, todos
Quem me dera estar em New Orleans
Estou quase a ver-me num sonho
De braço dado por Burgundy abaixo
Uma garrafa, os meus amigos e eu
New Orleans aí vou eu!

terça-feira, 5 de junho de 2018

BOLETIM METEOROLÓGICO EMOCIONAL


Pelo fim da noite e pela manhã
Nuvens baixas com probabilidade de nevoeiro
Possíveis aguaceiros pela tarde
Com nebulosidade densa mas variável
E vento forte, vento forte que pode ocorrer na esquina de Sunset Boulevard.
As coisas ficarão feias
Quando a trovoada começar a desenvolver-se
Crescendo pelas zonas sudeste e sul-central do meu apartamento
Vou-me irritar e então uma linha de tempestade
Surgirá pela manhã
Uma frente fria em deslocação lenta mas implacável
Com alarmes de tornado
Emitidos pouco antes do meio-dia de domingo
Para as áreas que incluem a zona ocidental da minha saúde mental
E a parte norte da minha capaci9dade para lidar racionalmente
Com a minha desconcertada e precária situação emocional.
Faz frio aí fora,
Mais frio que o sorriso do bilheteiro do Ivar Theatre num sábado à noite.
Alarmes de cheia cobriram a zona sul da minha disposição
Pela tarde fora não houve agravamento do tempo
À excepção de um golpe de vento isolado no quarto
Um centro de altas pressões cobrindo a zona oriental de uma pequena comunidade
                                                                                                                 suburbana
Com pressão máxima de 103 milibares
E uma crista de baixas pressões
Que se me estende dos olhos até à face
Pois desde que me deixaste e aprisionaste a minha saúde mental
A previsão para um período indefinido de tempo até que voltes
É hoje bom, amanhã mau
Com previsível precipitação.

Tom Waits em Nocturnos

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

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Tom Waits, numa entrevista datada de Maio de 1979:

«O que eu faço é só, só isto: tentar escrever sobre o que observo. Sou um pouco como um detective. Também não me falta compaixão pela condição humana. Procuro conferir uma erta dignidade a todas as situações que descrevo. Procuro conferir uma certa dignidade a todas as situações que descrevo e às pessoas sobre quem escrevo. Mas, frequentemente, a inspiração para uma canção não tem nada a ver com o que eu descrevo nela. As histórias não são mais que uma metáfora para qualquer coisa de que quero falar. Sou um "songwriter", não um jornalista. Cito imensos locais e nomes, mas geralmente, são apenas metáforas para algo de diferente.»

I Wish I Was In New Orleans, faz parte do álbum Small Change.

QUEM ME DERA ESTAR EM NEW ORLEANS


Quem me dera estar em New Orleans
Estou quase a ver-me num sonho
De braço dado por Burgundy abaixo
Uma garrafa, os meus amigos e eu
A deitar abaixo umas canecas bem geladas
A jogar «pool» e a escutar aquele sax tenor
Que chama por mim
E quase oiço a banda a começar
When The Saints Go Marching In
Juro pela minha saúde
New Orleans aí vou eu!

Beberei mais do que todos
E de nariz vermelho iremos passear
Pelos velhos antros
O que eu quero é feijão com arroz
Vestir o fato de que mais gosto
Encontrarmo-nos todos no velho saloon
E que não falte uma lua do sul
New Orleans aí vou eu!

Dar cartas, lançar os dados
E diabos me levem se aquele não é o velho Chuck E. Weiss..
Pela Clayborn Avenue eu, tu,
Sam Jones, todos
Quem me dera estar em New Orleans
Estou quase a ver-me num sonho
De braço dado por Burgundy abaixo
Uma garrafa, os meus amigos e eu
New Orleans aí vou eu!

Tom Wits em Nocturnos

sábado, 15 de outubro de 2016

POSTAIS SEM SELO


É um grande dia para a Literatura e para o Bob quando um mestre da sua forma original é celebrado. Antes de contos épicos e poemas serem escritos, viajaram ao sabor do vento pelas vozes humanas e nenhuma voz é maior do que a do Dylan.

Tom Waits sobre o Nobel de Dylan

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

CHRISTMAS POSTCARD FROM A HOOKER IN MINNEAPOLIS

A canção de Tom Waits faz parte do lado A de Blue Valentine.
A imagem é um pormenor da contra capa do LP.


OLHAR AS CAPAS


Nocturnos

Tom Waits
Tradução, introdução e organização do texto: João Lisboa
Colecção Rei Lagarto nº 18
Assírio & Alvim , Lisboa, Outubro de 1989

Postal de Natal De Uma Puta Em Minneapolis

Olá Charley, estou grávida
E a viver na rua 9
Mesmo por cima de uma livraria nojenta
À beira da Euclid Avenue
Deixei de meter droga
E parei de beber Whisky
O meu homem toca trombone
E trabalha no caminho de ferro

Ele diz que gosta de mim
Ainda que o bebé não seja dele
Diz que o vai criar como a um verdadeiro filho
Ofereceu-me um anel que a mãe costumava usar
E sai comigo para dançar
Todos os sábados à noite.

E Charley, penso sempre em ti
Todas as vezes que passo numa bomba de gasolina
Por causa da brilhantina que usavas no cabelo
E ainda tenho aquele disco de Little Antony e os Imperials
Mas roubaram-me o gira-discos
O que é que se há-de fazer?...

Olha Charley, quase dei em doida
Quando o Mário foi de cana
Por isso voltei para Omaha
Para viver com os meus velhos
Mas toda a gente que eu conhecia
Ou morreu ou estava presa
Então voltei para Minneapolis
E desta vez penso que vou ficar por cá

Sabes Charley, pela primeira vez desde o acidente
Parece-me que sou feliz
Só queria ter agora todo o dinheiro
Que costumávamos gastar em droga
Comprava um parque de carros usados
E não vendia nenhum
Para usar um diferente em cada dia
A condizer com a maneira como me sentisse

Oh Charley, por amor de Deus,
Queres saber toda a verdade?
Não tenho nenhum marido
Ele não toca trombone
E preciso de dinheiro emprestado
Para pagar ao advogado
E, olha, Charley, devo sair com pena suspensa
No dia de S. Valentim.


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Toda a gente gosta de música; o que tu realmente queres é que a música goste de ti.


Legenda: pintura de Juan Carlos Boveri

terça-feira, 1 de setembro de 2015

CANÇÕES DE ENTARDECERES



O sol hojepôs-se às 20,08 horas.
Estão complicados os por-de-sol deste quase findar de Verão.
Agosto foi um mês imprestável e Setembro segue-lhe os passos.
Mas também existem entardeceres com nuvens.
E há inda um risco branco que é tão só um avião a cruzar o céu.

A música escolhida é Broken Bicycles da autoria de Tom Waits e que faz parte da banda sonora desse lindíssimo filme de Coppola Do Fundo do Coração.
Interpretações de Anne Sophie von Otter e Elvis Costello e, como não poderia deixar de ser, de Tom Waits. 



terça-feira, 28 de julho de 2015

IDEIAS NO FUNDO DA CABEÇA


Uma das primeiras colaborações tive-a com o Tom Waits, em meados dos anos 80. Só mais tarde descobri que ele nunca antes tinha escrito nada a meias com ninguém, a não ser com a Kathleen, a sua mulher. O tom é um espécime único e maravilhosos, um escritor de canções particularmente original. Fazer alguma coisa com ele era uma ideia que sempre tinha estado no fundo da minha cabeça.

Keith Richards em Life

Nota de Tom Waits: Mick Jagger entrou em três canções de Rain Dogs: em Union Square, em Blind Love, onde cantámos juntos, e em Big Black Mariah, onde tocou uma guitarra ritmo impecável. Para mim, só isso bastou para pôr o disco lá em cima. Quero lá saber de quanto vendeu. Na parte que me tocava, já estava amais que vendido.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Sou um coppoliano inveterado.

Coppola é um homem em quem se pode confiar: faça filmes, faça vinho, o que quer que seja.

Filme para a tal ilha deserta?
Indubitavelmente One From The Heart.

Vinte e seis milhões de dólares, de que se recuperou um milhão e que levou à falência a Zoetrope.

Quem corre por gosto não cansa.
 Poucos filmes de Coppola existirão que não estejam rodeados de lendas, algumas de desgraça.


Por norma, os filmes incompreendidos pelas maiorias são os melhores.


Um 4 de Julho em Las Vegas, amores e desamores, uma extraordinária banda sonora composta por Tom Waits, por ele interpretada a que se junta Cristal Gayle e o resultado é um dos mais belos filmes da história do cinema, um acto de amor, de ternura, de vontade, do fundo do coração.
Um filme fascinante, um mergulho na luz, no som e no desencanto, belo até às lágrimas
.
Hollywood sempre olhou Coppola de soalaio.

Não gostaram de o ouvir dizer:

O cinema não é só para ver. O cinema é para amar. E quem não ama o cinema guarda, no seu íntimo, qualquer coisa de inacabado e, quem sabe? Uma discreta dose de imbecilidade.

Tudo isto para vos dizer que amanhã a Cinemateca exibe One From the Heart e se há filmes que apenas podem ser vistos numa sala escura, este é um deles:

ONE FROM THE HEART

DO FUNDO DO CORAÇÃO

de Francis Ford Coppola

com Frederic Forrest, Teri Garr, Raul Julia, Nastassja Kinski, Harry Dean Stanton
Estados Unidos, 1982 - 100 min

Legendado em português | M/12
Sala Dr. Félix Ribeiro 15,30 Horas

Com esta feérie romântica, Coppola propôs-se reinventar o musical numa Las Vegas de estúdio e com grandes inovações técnicas. Aqui tentou fazer nascer a sua companhia, a Zoetrope, e aqui se afundou economicamente o realizador, mesmo que o filme tenha ficado como uma das obras mais decisivas dos anos oitenta. É o filme de Coppola com a célebre banda musical de Tom Waits e Crystal Gayle, com, entre outras canções, I Beg Your Pardon, This One’s from the Heart e a canção que abre o álbum entretanto editado que começa ao som da moeda a cair.


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

NOTÍCIAS DO CIRCO


Estavam os ricos postos em sossego na Comporta a brincar aos pobrezinhos, e os pobrezinhos postos em sossego no Torel, quando rebentou o petardo. O tomara-que.não-cais pariu um inconseguimento; o BES, ao contrário da Torre de Pisa, caía mesmo, Os portugueses que tendem a esperar sempre o pior, confirmavam a sua filosofia milenar (mais século, menos século). Já esquecidos do Conselho da Revolução, começaram a ouvir falar do Fundo de Resolução, Bem lembrados do BPN e etc., Começaram a ouvir falar de bancos bons e bancos maus. E depois nascia o novo Banco! Os portugueses, sabiamente, mantiveram a rotina de férias. Uns na Comporta, outros no Torel. Outros na Manta Rota. Outros no raio que os parta, Haverá quem invoque o velho timoneiro: “Reina uma grande desordem no céu. A situação é excelente”; mais sensato será lembrar Tom Waits: “Acho que estamos no meio de uma revolução e ninguém sabe de que lado vêm as pedras». E ainda agora é Agosto.

Ana Cristina Leonardo no Expresso

Legenda: Praia da Comporta, imagem do jornal I.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

TOM ATACA!


Uma das vantagens de gostar de Tom Waits é que não o podemos catalogar com facilidade. Há quem o ame, mas há quem o odeie, alarvando que o homem está sempre bêbado, não diz coisa que se entenda. Tom já há muito esclareceu que ele nunca está bêbado, o piano é que sim.

Com simplicidade, David Shoulberg, disse que ouvi-lo é "como caminhar por uma cidade fantasma, onde tudo é rangedor e arrepiado de que nasce uma estranha sensação de paz.”

Leitor atrasado de jornais que já disse que era, não dei pela história, mas o Miguel Alves, em Washington, chamou-me a atenção para um artigo do “Público” assinado por Claudia Carvalho. Vou seguir os passos deste texto e digo-vos, que um destes dias, pelo gosto que tenho pela rapaz, voltarei por um destes dias,  e que o vídeo pode ser visto aqui:
Sete anos depois, Tom Waits volta com treze canções inéditas. O novo álbum do músico só chega às lojas no dia 25 de Outubro mas já está a dar que falar, ou não se tratasse do controverso Tom Waits. Nem para dar a novidade aos fãs, o norte-americano fez questão de passar despercebido. Pelo contrário, lançou um vídeo, carregado de ironia. “Bad as Me” é o novo álbum, mau como ele e igual a si mesmo, Tom Waits está de volta
.
Primeiro um novo single, “Bad as Me”, e depois as novidades sobre o novo álbum, com o mesmo nome. E qual a melhor forma de anunciar isto, se não um vídeo com o próprio Tom Waits? Foi isso mesmo que fez, ao seu bom estilo. Não poderia deixar de ser irreverente, ironizando e criticando a era da Internet e os seus efeitos na música.

Parece que o músico não gostou nem esqueceu o episódio da semana passada com a Amazon. É que Tom Waits, numa nota deixada no seu site, prometeu novidades sobre o material novo para o dia 23 de Agosto mas a Amazon adiantou-se e aproveitou a deixa para marcar o lançamento do single “Bad as me” para esse dia, estragando a surpresa que o músico queria fazer os fãs.

“Eis a forma como eu vejo isto”, diz Waits sentado numa sala, cujo cenário é preenchido com elementos antigos, do telefone ao rádio. “Se fosse o teu aniversário e eu chegasse primeiro e comesse o teu bolo e abrisse os teus presentes e começasse a brincar com os teus brinquedos, ficarias bem com isso?”

Mas vai mais longe: “Ou se a tua mulher estivesse grávida e te quisesse contar que estava grávida e eu te ligasse primeiro e dissesse: Papá...”

No vídeo, a que o cantor apelida de “Private Listening Party” (“Festa de escuta privada”- tradução livre), Waits está a ouvir o seu novo álbum e é interrompido pelo toque do telefone, como se alguém lhe dissesse que não está sozinho naquela sala.

“Bem, temos um problema. Peço desculpa mas tivemos que cortar. Aparentemente já não há essa coisa de privacidade. É uma coisa da internet, dizem que tudo se espalha por todo o lado...”, diz o músico, depois de parar a música, garantindo que agora vai ter que repensar tudo novamente. “Eu darei novidades sobre o que me ocorrer.”

“Jesus. Umas quantas maçãs podres arruinaram tudo para toda a gente. Agora vou resolver isso”, termina Waits, antes de sair de cena.

Legenda: fotografia de Edward Colver

sábado, 11 de dezembro de 2010

OLÁ, CHARLEY


“Blue Valentine”de Tom Waits não é um álbum de Natal e “Christmas Card From a Hooker In Minneapolis”não é, necessariamente, uma canção de Natal, mas tem dias que penso que sim. Fica aqui, numa excelente tradução de João Lisboa::

“Olá Charley, estou grávida
E a viver na rua 9
Mesmo por cima de uma livraria nojenta
À beira da Euclid Avenue
Deixei de meter droga
E parei de beber Whisky
O meu homem toca trombone
E trabalha no caminho de ferro

Ele diz que gosta de mim
Ainda que o bebé não seja dele
Diz que o vai criar como a um verdadeiro filho
Ofereceu-me um anel que a mãe costumava usar
E sai comigo para dançar
Todos os sábados à noite.

E  Charley, penso sempre em ti
Todas as vezes que passo numa bomba de gasolina
Por causa da brilhantina que usavas no cabelo
E ainda tenho aquele disco de Little Antony e os Imperials
Mas roubaram-me o gira-discos
O que é que se há-de fazer?...

Olha Charley, quase dei em doida
Quando o Mário foi de cana
Por isso voltei para Omaha
Para viver com os meus velhos
Mas toda a gente que eu conhecia
Ou morreu ou estava presa
Então voltei para Minneapolis
E desta vez penso que vou ficar por cá

Sabes Charley, pela primeira vez desde o acidente
Parece-me que sou feliz
Só queria ter agora todo o dinheiro
Que costumávamos gastar em droga
Comprava um parque de carros usados
E não vendia nenhum
Para usar um diferente em cada dia
A condizer com a maneira como me sentisse

Oh Charley, por amor de Deus, queres saber toda a verdade?
Não tenho nenhum marido
Ele não toca trombone
E preciso de dinheiro emprestado
Para pagar ao advogado
E, olha, Charley, devo sair com pena suspensa
No dia de S. Valentim”.