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sábado, 13 de março de 2021

OLHAR AS CAPAS


O Labirinto da Saudade

Eduardo Lourenço

Capa: Armindo Lopes

Gradiva, Lisboa, Dezembro de 2020

Se um ensaísta é um experimentador do possível, Sérgio não foi no pleno sentido do termo um autêntico ensaísta. De algum modo, o seu reino foi o do impossível que ele soube apresentar como o possível, por essa passagem quase fatal que liga o ser ao dever ser. Sérgio foi um utopista. Não o dizemos nem para o censurar, nem para nos dessolidarizarmos imaginariamente dele. Sob a nossa pluma é o supremo elogio. Ao realismo da aceitação do inaceitável preferiremos sempre a luta pelo ainda não possível e até pelo impossível. O mais profundo sentido do idealismo de Sérgio vive desta inspiração e por isso deve e merece viver em nós e integrar-se na linha de cumes que ele idealizou mas sem os quais a nossa marcha não tem sentido. O nosso urgente dever continua sendo o de pensar com o máximo de claridade e na suposição de que se a Razão não move o mundo deve movê-lo. Mas desse dever faz parte pensar essencialmente o que se opõe na realidade e em nós mesmos a esse apetite insanável de transparência. Não basta nomear o irracional para o vencer, nem sequer em sonho. A sua função é converter-se em pesadelo. Necessária, a ilusão idealista não deixa de ser uma ilusão e, sob o plano da História, uma maneira subtil de ser vencido pelo que imaginávamos vencer pensando-o. A História foi e é ainda cabeça de Medusa. Só cortando-a, aboliremos (acaso) a sua horrível fascinação. Sérgio acreditou heroicamente que bastava olhá-la de frente e desmontar o seu mecanismo. O seu próprio exemplo nos ensina a modéstia. O pensamento não se pensa senão para chegar a pensar-se. Com uma lentidão e uma dificuldade extrema, que o seu destino é sopesar e sublevar num mundo que já está aí, nos excede e não nos basta.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


Os Militares e o Poder

Eduardo Lourenço
Capa: Vítor Santos
Editora Arcádia, Lisboa, Novembro de 1975


Temos de ajustar-nos ao que realmente somos e podemos para  partir daí construirmos um Portugal possível e não uma quimera. O que somos é considerável e nada desprezível, como nos grandes momentos de realismo e unanimismo pátrio provámos. E o que podemos, se soubermos adequar os meios de que dispomos à invenção do país possível, permite a esperança de dominar o desafio incomum que a situação actual e a nossa aposta histórica requerem. Mas é perfeitamente inócuo e nocivo recriar sob outra roupagem novos «orgulhosamente sós» ou exaltar-se com o pavor suposto ou efectivo que inspiramos neste momento a um «certo mundo» como demagogos em delírio o apregoam. Somos um povo nu, mas adulto. Todas as esperanças nos são consentidas se como adultos nos comportarmos. Todas as decepções, se não resistimos ao pendor lusitano de nos supormos já maravilhosamente vestidos com «a palavra» Socialismo.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

OLHAR AS CAPAS


O Fascismo Nunca Existiu

Eduardo Lourenço
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 1976

A Democracia não é esse regime óbvio, fácil, pai de facilidades, que os seus ingénuos ou excessivamente sabidos defensores nos querem inculcar. Por definição, é o mais difícil e imperfeito dos regimes políticos uma vez que a perfeição para que tende não tem um fim assinalável. Regime de participação efectiva, e não apenas delegada, como a democracia parlamentarista o concebeu, implica uma presença activa e crítica da e na própria estrutura quotidiana. Por isso é, por essência, programa para novos adultos e não o paraíso de pacotilha visionado pelos seus demagogos. Para nós, portugueses, herdeiros de uma dupla tradição de intolerância e paternalismo – à qual os democratas não escapam -, a perspectiva democrática só pode constituir acesso a consciência política mais completa e exigente – embora mais honrosa – que a requerida pela repercussão (já bem complicada…) de um pensamento político ao abrigo da contestação. A Política em geral é uma realidade implacável e surda a slogans e bons propósitos.