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terça-feira, 14 de janeiro de 2025

O POEMA QUE HEI-DE ESCREVER

O poema que hei-de escrever para ti, dando notícias
Do último reduto das coisas, das profundidades intactas,
Nasce, adormece e referve-me no sangue
Com a íntima lentidão dos teus seios desabrochando,
Porque, sei, não estás longe (nem da minha vida!), meu mistério fiel.
Hoje a nossa companhia é a tua inconsciência e o teu instinto: puro
Instinto que eu, de longe, embalo e velo
E acordará («em frente!») às primeiras palavras
Do poema, quando ele despontar.

Cristovam Pavia

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

ÚLTIMAS DISPOSIÇÕES DO H.M. E.

Para começar tirem-me este trapo da cara, que faz cócegas,
e amortalhem nele o meu gato e enterrem-no
ali onde era o meu jardim cromático.

Levem a coroa de latão de cima do meu peito
e atirem-na às estátuas erguidas no entulho,
e ofereçam os laços às putas, para que com eles se enfeitem.

Rezem as orações a um telefone antiquado e sem fio
ou embrulhem-nas num lenço de assoar cheio de farelos
para os estúpidos peixes do charco.

O Bispo que fique em casa e se emborrache,
deem-lhe uma garrafa de rum
(o sermão vai fazer-lhe sede).
E deixem-me em paz com lápides e chapéus altos!
Com o belo basalto pavimentem uma viela
onde ninguém more,
uma Ruazinha para pássaros.

Na minha mala há muito papel amarelo para o meu primo miúdo
fazer com ele avionettes que hão de voar, bonitas, da ponte
e ir mergulhar no rio.


O mais que fica (umas cuecas, um isqueiro, uma linda opala
e um despertador) isso é para oferecer a Calístenes, o trapeiro,
com a devida gorjeta.

Quanto à ressurreição da carne, entretanto, e à vida eterna,
dessas coisas trato eu, se estão de acordo:
É cá comigo, não acham? Então, adeus!

Na banca de cabeceira há ainda alguns cigarros.

Cristovam Pavia

quarta-feira, 17 de julho de 2024

SÚBITOS MERGULHADORES...

Súbitos mergulhadores descendo nas águas inimigas
Com os olhos fitos e os peitos esmagados,
Descendo devagar, ao som lento de segundos vertiginosos como séculos
Todos nós vos acompanhamos e juntamos todas as nossas forças na mesma meditação.
Aqui, da terra firme,
Entre nuvens e terra,
Entre o suor e o orvalho,
Esperamos o termo com todas as nossas forças.
E sabereis a nossa mensagem:
Só há saída pelo fundo.

Cristovam Pavia

terça-feira, 12 de março de 2024

AO MEU CÃO

Deixei-te só , à hora de morrer.
Não percebi o desabrigado apelo dos teus olhos
Humaníssimos, suaves, sábios, cheios de
aceitação De tudo… e apesar disso, sem o pedir,
tentando Insinuar que eu ficasse perto,
Que, se me fosse, a mesma era a tua gratidão. 

Não percebi a evidência de que ias morrer
E gostavas da minha companhia por uma noite,
Que te seria tão doce a minha simples presença
Só umas horas, poucas.
Não percebi, por minha grosseira incompreensão,
Não percebi, por tua mansidão e humildade,
Que já tinhas perdoado tudo à vida
E começavas a debater-te na maior angústia, a debater-te com a morte.
E deixei-te só, à beira da agonia, tão aflito, tão só e sossegado.

Cristovam Pavia em O Tempo e o Modo nº 42 Outubro de 1966

quinta-feira, 7 de março de 2024

PRELÚDIO

Levanta-se da rocha a flor esmagada

Mais dura do que a rocha e cristalina.

Raízes, caule, pétalas, angústia.

 

Raízes para sempre ali cravadas,

Caule verticalmente inexorável,

Pétalas miraculosas: pura água.

 

         Minhas mãos são chagas

         Para te colher...

         Minhas mãos são chamas,

         Pedaços de gelo...

 

Levanta-se da rocha a flor esmagada.

Cristovam Pavia

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

CONSTRUO A POESIA COMO UMA CASA

Construo a poesia como uma casa
Sem pressa e apenas com a pedra
Alheia. Duramente a construo.
Os meus versos ominados e compactos
Ligo-os com barro cor de sangue,
Amasso-os na água, mais pura do que as lágrimas.
Se comovo, é comoção não minha.
Se os meus versos são inúteis,
É inútil todo o trabalho.

Cristovam Pavia em Resumo: a poesia em 2010.


terça-feira, 9 de janeiro de 2024

SERRA

Andam velhos sobressaltos
Descaindo destas rochas,
E advinha-se uma tontura desgrenhada
Na paisagem rude.
A xara tão sensual
Lembra-me com seu perfume
Passados sonhos sonhados
Por algum solitário pastor.
Tenho o súbito desejo
De ficar aqui parado,
De ficar aqui estupidamente à espera
Que a minh'alma se confunda com a alma da serra,
E que o meu corpo se transforme num sólido bloco de granito.

Cristovam Pavia

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

NÃO FUGIR...

                                     ao Nuno

Não fugir. Suster o peso da hora
Sem palavras minhas e sem os sonhos,
Fáceis, e sem as outras falsidades.
Numa espécie de morte mais terrível
Ser de mim todo despojado, ser
Abandonado aos pés como um vestido.
Sem pressa atravessar a asfixia.
Não vergar. Suster o peso da hora
Até soltar sua canção intacta.

 

Cristovam Pavia

domingo, 10 de julho de 2022

POEMA

Súbitos mergulhadores descendo nas águas inimigas
Com os olhos fitos e os peitos esmagados,
Descendo devagar, ao som lento de segundos vertiginosos como séculos
Todos nós vos acompanhamos e juntamos todas as nossas forças na mesma meditação.
Aqui, da terra firme,
Entre nuvens e terra,
Entre o suor e o orvalho,
Esperamos o termo com todas as nossas forças.
E sabereis a nossa mensagem:
Só há saída pelo fundo.

Cristovam Pavia

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

TRÊS FRAGMENTOS À MEMÓRIA DE CRISTOVAM PAVIA


1

O fundo esse por onde tu saíste
qual é ele? Só uma coisa sei:
que é, e por aí
foste encontrar as glicínias virgens.
E mais do que nunca no maior silêncio
nos repetes teu branco telegrama.
Nos caminhos da quinta, as doninhas
também elas se calam, e as palmeiras:
o mundo inteiro é tua testemunha.


2

Quando já era tarde e eu não mais falava
(eu; que tu amavas dentro)
as ruas eram ocas, transparentes,
começava a nascer o outro dia.
Porque era ainda cedo.

3

E hoje o teu rosto é uma faca
que nos divide em um.


(1968)


Pedro Tamen, de Inéditos e Esparsos em Tábuadas Matérias,