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sexta-feira, 5 de julho de 2019

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Na abertura de Jangada, Romeu Correia deixou indicações para os eventuais encenadores da sua peça. Pormenores importantes e chamo a atenção para o parágrafo final em que Romeu Correia evoca toda a ambiência do rio que olhou desde criança e que tanto amava:

«Esta farsa é o derradeiro conflito de uma família pequeno-burguesa, vítima de preconceitos de classe que não lhe diziam respeito e da solidão do lugar onde sempre permanecera.
Três mulheres dialogam sobre o destino (as duas mais idosas teimosamente amarradas a um passado morto; a terceira, que é jovem e viva, rebela-se contra o marasmo e o erro quotidiano e reivindica a felicidade que o meio ambiente lhe nega).
Ao longo de duas horas – será esta a duração da farsa? – por vezes assistimos a cenas retrospectivas de quando a família era completa e todos viviam contentes com a sua sorte. E há então figuras que rejuvenescem a ainda uma outra que entra na pele de sua mãe para mais urgente e cómoda exemplificação.
Estamos, portanto, diante de uma farsa trágica, que se desenrola no seguinte cenário único:
Na mole de uma fábrica (edifício alto e facetado, com três ou quatro janelas em lugar de evidência e a característica chaminé de tijolo, tendo, como fundo, as paredes de uma rocha) há um compartimento, no rés-do-chão, utilizado para residência. Percebe-se que as três mulheres que o habitam estão ali por anuência caritativa dos donos da indústria, pois o espaço de que dispõem é limitado por pilhas de caixotes e outros materiais arrecadados. Uma divisória de pano pode ocultar uma boa metade do fundo do cubículo. Numa lateral deve ver-se alguns degraus da escada de pedra que dá acesso ao cais. Por todo o espaço ser pouco para s cenas retrospectivas (e aqui a tal divisória de pano pode correr, mostrando-nos um melhor recheio doméstico dos dias passados), as figuras descem com frequência para um terraço anexo, gradeado por um varandim, donde divisam o estuário do rio, o céu imenso e a cidade.
Quanto a adereços e mobiliário, tudo isso fica ao gosto de perícia do encenador, pois as rubricas e o diálogo ao longo da farsa são suficientes como indicação ( E não é verdade que a luz, a cor ou a penumbra, sobre velhos caixotes, podem sugerir coisas maravilhosas, quando o passado é acção?).
Há ainda uma sugestão de ambiente: quem vive num cais à beira de um rio navegável ouve com frequência o apito distante ou perto de navios e o grasnar das aves marinhas…»

Legenda: Romeu Correia no Café «O Farol», fotografia de autor desconhecido, tirada do blogue Largo da Memória de Luís Eme.

OLHAR AS CAPAS


Jangada

Romeu Correia
Capa: João da Câmara Leme
Colecção O Livro de Bolso nº 41
Portugália Editora, Lisboa s/d

CAROLINA (sombria): Que viver tão triste que tem sido o nosso! (Comovida) Quando penso na nossa existência entre estas quatro paredes… choro, choro, só me sinto bem a chorar!...
LUZIA (igualmente comovida): Se tivéssemos casado, nada disto teria acontecido. Mas este maldito cais onde o papá se meteu… Nós, umas raparigas, entaipadas entre o mar e o céu…
(Pausa)
CAROLINA: Há mulheres que nunca se conformariam entre estas quatro paredes!
LUZIA (reagindo): Mulheres sem princípios!
CAROLINA (digna): Mas a nós, graças a Deus, nunca eles nos faltaram!
(Pausa)
LUZIA: Os nossos pais prenderam-nos demasiado… - foi o que foi!
CAROLINA: Nisso de severidade, a mamã levava a palma ao papá.
LUZIA: Era ela que nos aturava de manhã à noite. Ao passo que o pobrezinho só nos via quando regressava do trabalho… Aquele homem viveu mais horas sob o telhado da fábrica que junto da esposa e dos filhos.