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segunda-feira, 16 de maio de 2022

AS VIDAS TRISTES DE ALMAS TORTURADAS


Face ao quotidiano massacrante, tenho tentado aligeirar a situação relendo gente de que gosto muito. Já vos falei do Manuel António Pina, do Eduardo Guerra Cerneiro, do José Saramago, tenho`também andado às voltas com a Autobiografia do Woody Allen, mas gosto mais do cineasta do que do biógrafo de si próprio.

Hoje é domingo, os dias de quase autêntico Verão que têm feito, foram substituídos por fortes ventanias e chuva.

Parei na página 338 de A Propósito de Nada, com Allen a escrever sobre um dos seus filmes-assim-assim Setembro e em que volta a encaixotar a Farrow:

 

«A versatilidade de Mia era incrível. Ela era capaz de desempenhar a alheada miúda dos cigarros em Os Dias da Rádio, passar para a afetada colunista de sociedade e, depois, apresentar um desempenho extraordinário no filme seguinte, Setembro, um drama que põe a questão: poderá um grupo de almas torturadas fazer as pazes com as suas vidas tristes, quando dirigido por um tipo que ainda devia estar a escrever piadas fáceis para colunistas da Broadway?

Aqui, como já disse, queria fazer algo tchekhoviano; um set, pessoas numa casa de campo. Emoções em conflito e baralhadas. Estruturei-o de forma a poder ser filmado no interior de uma casa no set construído por Santo, com atores espantosos, todos eles presos a emoções ansiosas. Deveria evocar o estado de espírito de fim de verão, melancólico, e eu seria louvado como um poeta trágico e talvez pudessem batizar uma sandes do Carnegie Deli com o meu nome. Para m dos papéis masculinos contratei Chris Walken, com quem já tinha trabalhado antes em Annie Hall. Ele desempenhava o papel do irmão louco. Chris é um dos nossos melhores actores, e quando as coisas não estavam a funcionar procurei o motivo no lugar errado. Estudei o seu desempenho para tentar perceber o seu problema, mas deveria ter examinado a escrita. Deve-se olhar sempre primeiro para a escrita quando algo não está a funcionar. À medida que os dias iam passando, Chris foi ficando cada vez mais desconfortável no papel. Por fim, da forma mais simpática e digna de um cavalheiro, desistiu, garantindo-me, contudo, que eu era um realizador brilhante, que tinha um grande futuro, uma vez ultrapassado o problema da idolatria delirante. Separámo-nos em bons termos, amigáveis, mas sempre lamentei ter desiludido este grande ator. Substituí Chris por Sam Shepard, de quem gostava muito. Sam nunca se sentiu confortável a dizer o meu texto e, sendo um bom escritor, preferia alterar constantemente os meus diálogos. Nunca me importei e, até este dia, não me importo quando um ator prefere colocar as coisas nas suas próprias palavras, desde que a ideia da cena passe.

De qualquer maneira, dei-me bem com Sam, conversávamos muito sobre jazz, dado que o pai dele tocava bateria. Sam tinha uma fraca opinião de mim enquanto realizador e afirmou publicamente que Robert Altman e eu nada sabíamos sobre direção de atores. Cruzei-me com ele e falámos sobre isso, sempre em termos amigáveis, sempre francos, sempre em bons termos. Quando o pai de Sam faleceu, deixou várias caixas de discos de jazz e Sam enviou-mos todos de presente. Era um tipo espantoso e mais um ator que desiludi. Perguntei-me se seria o drama o meu métier, talvez a minha praia fossem as personagens físicas, que envergassem bulbosos narizes de borracha e brandissem bexigas de porco».

Segundo o próprio Woody Allen, Setembro foi um flop.

Houve mesmo necessidade de a história ser reescrita e muito do material voltar a ser filmado, porque alguns actores foram saindo, inclusive o Sam Shepard que  não se entendeu mesmo com os diálogos de Allen deixou aquela deliciosa observação de que Altman e Allen não sabiam nada sobre direcção de actores.

sábado, 27 de março de 2021

POSTAIS SEM SELO


O meu pai tem uma colecção de discos metidos em caixas de papelão, arrumadas contra a parede do quarto, que se vai enchendo da poeira do Novo México. Nesta colecção, o campeão é um Al Johnson original em 78 rotações, com a capa colada com fita adesiva e até a fita está meio rasgada. Da última vez que o vi, tentou convencer-me a levar o disco para L.A. e a vendê-lo por uma boa maquia. Está convencido de que vale, pelo menos mil dólares. Talvez mais, consoante o mercado. Diz que, nos últimos tempos, tem perdido o contacto com os negócios.

Sam Shepard em Crónicas Americanas

Legenda: fotografia Shorpy

sábado, 24 de outubro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS

Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.


RELACIONADOS

 

Ao longe, a morte acena a Sam Shepard e ele fica com o entendimento que os seus leitores, ele próprio, merecem um último olhar sobre tabernas de cidades de fronteira ou perdidas no meio do deserto, terras de apaches e saguaros, sonhos e desventuras, olhar o céu, senti-lo perto de si, adormecer e acordar ao som do cântico dos tordos, uma espécie de melancolia, deitado à espera que alguém o encontre, algo de muito seu que lhe faça companhia na última viagem.

«Há alturas em que não posso deixar de pensar no passado. Sei que o presente é o lugar para se estar. Sei que me foi recomendado por pessoas muito sensatas que permanecesse no presente o mais possível, mas o passado apresenta-se. O passado não vem como um todo. Vem sempre em partes.»

 Quem é que Sam espia?

 Quem é que espia Sam?

 Nem ele se lembra, ou sabe.

 «Visto à distância. Isto é, a ver do outro lado da estrada, é difícil dizer qual a idade dele por causa do alpendre fechado com rede a toda a volta. Por causa dos óculos escuros a toda à volta. Roxos. O Mascarilha. Bandido mascarado. Não sei o que está a proteger. Está efectivamente dentro de um alpendre fechado, com insectos que zumbem, aves que chilreiam, todo o tipo de coisas estivais que vão ocorrendo, no exterior – borboletas, vespas, etc. -, mas é muito difícil dizer com exactidão a esta distância e a idade que tem. O boné de beisebol, as jeans encardidas, o colete velho.»

Sam Shepard começou a pensar no livro no ano de 2016.

Escreveu-o depois em rascunhos manuscritos já que a esclerose lateral amiotrófica que o atacou, impedia-o de dactilografar. Quando já não conseguia escrever à mão, passou a gravar os textos e os filhos faziam a transcrição para papel.

Patti Smith, amiga e antiga companheira, apoiou-o na edição do manuscrito, quem mais o poderia fazer, ela que é uma eterna frequentadora de sombras, fragilidades várias, visões de cemitérios perdidos pelos mundos?

 Sam fez a revisão do livro e ditou a versão final alguns dias antes de morrer, a 27 de Julho de 2017. Tinha 73 anos.

 «A Lua está a ficar cada vez maior. A Lua dos Morangos (lua cheia do mês de Junho, Strawberry Moon, segundo nota do tradutor). Iluminando a nossa pequena trupe. A Lua Cheia. Dois filhos e o pai, com toda agente atrás. Seguindo pelo meio de East Water Street, e agora a noite está mesmo clara. A lua cheia. Conseguimos e coxeámos pelas escadas acima. Ou melhor, eu coxeei. Os meus filhos não coxearam, eu coxeei.»

 Nas suas breves noventa e sete páginas, um livro desesperado mas um belíssimo livro.

 Não sabemos o que pensar daquelas palavras dos seus últimos dias, não sabemos o que fazer quando fechamos o livro e o deixamos suspenso entre as mãos.

  «Aliás, já estou vazio. Do género de uma concha», escreveu Sam, no aproximar da página final quando sente que já não sabe como suportar a monotonia.


Texto publicado em 29 de Outubro de 2018.

domingo, 31 de maio de 2020

QUANDO DEI COM A FIGURANTE


quando dei com a figurante que dobrava a “star”
ao abrirem-se as portas do elevador
e eu ia a sair
e ela ia a entrar
às 4 da manhã
e reparei que ela estava literalmente pedrada
perguntei-lhe com quê
6 valiuns e vinho branco respondeu
porque tinha sido o último dia de filmagens
por isso pensou que havia de celebrar
metendo-se com alguém da equipa
pedradamente
visto que esta era a sua terra natal
e ela teria de continuar precisamente ali
e a angústia de não passar de uma sósia local
abandonada
numa cidade de onde queria desertar
estava a deitá-la abaixo
se estava
e de repente senti-me mais que envergonhado
por ser actor num filme
por provocar ilusões tão estúpidas
por isso levei-a para o meu quarto
sem qualquer desejo pelo seu corpo
nenhum
e ela ficou desesperadamente desiludida
tentou atirar-se da janela abaixo
eu disse-lhe olha que não vale a pena
não passa de um idiota de um filme
ela respondeu não tão idiota como a vida.


Sam Shepard em Crónicas Americanas

segunda-feira, 30 de março de 2020

SAM SHEPARD - MR. WILLIAMS


No seu livro de crónicas de viagem “Days Out of Days” (2010), que na minha edição francesa se chama “Chroniques des Jours Enfuis”,  Sam Shepard tem um texto acerca da morte de Hank Williams.

Não é das melhores peças saídas da mão do autor de “Crónicas da América”, mas tem a enorme vantagem de se poder juntar a nós à conversa, como que aderindo à versão da morte no hotel.

Nessa crónica a história é contada através do porteiro do hotel, que jura ter visto Mr. Williams morto e bem morto… Morto e rígido como uma estaca… E terá sido o médico, com a injeção que lhe deu, quem o matou...

Mas vestiram-no assim mesmo...

Um fatinho azul claro.

Uma camisa de um branco imaculado.

Uma gravata amarela com uma pequena palmeira bordada a meio.


Botas de um preto cintilante, com pequenas guitarras e notas de música encrostadas.

E um chapéu Stetson branco creme bem enfiado na cabeça.

Arrastaram-no assim até ao carro, o “chauffeur” de um lado, o porteiro do outro.

Ao atravessarem o “hall”  de entrada o rececionista meteu-se com eles, perguntando se Mr. Williams não teria bebido um copito a mais…

Mas o mais estranho, conta ele, é que, apesar de morto, um estranho ruído rouco saia da boca de Mr. Williams, como um impercetível som de folhas levadas pelo vento. O murmúrio da morte, certamente, o último pedaço de ar que se escapa do corpo...  

Vê-se tanta coisa quando se é porteiro de um hotel, mas uma destas nunca antes tinha visto.

Um som terrível, de facto.


Estranha coisa esta um homem que passou a sua vida inteira a cantar como um pássaro sublime, acabar os seus dias com um som como este…




PS:

A crónica de Sam Shepard é muito curta e anexo-a, para quem por ela se interessar.

Texto de Luís Miguel Mira

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

UM LUGAR NO TEMPO


Há um tordo fortuito que desce e pousa e entoa a sua cantiga. Uma cantiga que imitou. Uma cantiga que recolheu. São avezinhas estranhas. Costumava acordar com o som dos tordos. Costumava adormecer com o som dos tordos. Todos entoavam cantigas que tinham inventado. Nos candeeiros à noite. Uma avezinha caprichosa. A qualquer hora do dia. Têm uma espécie de melancolia. Para mim têm uma espécie de melancolia, mas não é triste. Uma ave que é típica de um lugar, só isso. Um lugar no tempo.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

CREPÚSCULO


Era aquela altura do dia de que tanto gosto. Sobre a quala houve quem escrevesse poemas. A altura do dia em que a tarde caminha para noite. Crepúsculo, acho que é assim que se chama, e esgueirei-me para o outro lado da estrada, na expectativa de dar uma espreitadela antes que começasse uma conversa qualquer com alguém visível ou invisível.


Legenda: pintura de Théodore Rousseau

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

À ESPERA DE UM AUTOCARRO QUE NUNCA CHEGA


Numa cidadezinha onde os trabalhadores migrantes estão encostados nas esquinas à espera de trabalho. Sentados numa paragem de autocarro à espera de um autocarro que nunca chega. Que não parecem preocupados com o facto de arranjarem emprego ou não. Juntam-se todas as manhãs apenas por razões de camaradagem. A conversa. Todos estes trabalhadores migrantes a falarem as suas línguas. Apenas pelo gozo de estabelecer contacto com o conhecido.

Sam Shepard em Espião na Primeira Pessoa

Legenda: imagem Shorpy

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

A MINHA AMIGA RÁDIO


Peça museu da casa, este é o Blaupunkt de olho verde em que ouvia o Em Órbita.

Não sei como se poderá dizer aos jovens de hoje, eu não sei, o que foi o Em Órbita e o que representou.

Aqueles rapazes criaram um gosto, uma cultura musical na esmagadora maioria dos que  viviam enrolados na música francesa, italiana, espanhola, portuguesa.

Passei a conhecer Simon and Garfunkel, Mamas and Papas, Bob Dylan, Bee-Gees, Peter Paul and Mary, Moody Blues, tanta, tanta, tanta gente.

Se disser que graças ao Em Órbita sou uma pessoa diferente, talvez não acreditem ou não entendam o que estou a dizer. As melhores histórias são as que vêm do nada e a história do Em Órbita é uma grande história.

Ficam aí com o indicativo musical do programa, o instrumental Revenge dos Kinks e uma canção divulgada, uma das muitas, no programa: O Crispian St. Peters  a cantar «The Pied Piper» e eu ainda estou a ouvir o Cândido Mota, a melhor voz, o mais competente dos que apresentaram o Em Órbita, «um programa feito por todos e dito por mim», as primeiras espiras a rodarem e ele a dizer: «sigam-me que eu sou o tocador da flauta mágica».

Em memória de Jorge Gil, relembro este texto de San Shepard de que gosto muito:

 «Conheci um guitarrista que dizia «a minha amiga rádio». Sentia um parentesco menos com a música do que com a voz da rádio. A sua qualidade sintética. A sua voz única, distinta das vozes que a atravessam. A sua capacidade de transmitir a ilusão de gente a grande distância. Dormia com a rádio. Falava para a rádio. Discordava da rádio. Acreditava numa Terra Longínqua da rádio da Rádio. Como achava que nunca encontraria esta terra, reconciliou-se consigo mesmo a ouvir a rádio. Acreditava que tinha sido banido da Terra da Rádio e condenado a errar eternamente pelas ondas sonoras, ansiando por um posto mágico que o devolvesse à sua herança há muito perdida».



quarta-feira, 17 de julho de 2019

RECOMENDADO POR PESSOAS MUITO SENSATAS


Há alturas em que não posso deixar de pensar no passado. Sei que o presente é o lugar para se estar. Foi sempre o lugar para se estar. Sei que me foi recomendado por pessoas muito sensatas que permanecesse no presente o mais possível, mas o passado apresenta-se. O passado não vem como um todo. Vem sempre em partes.

domingo, 30 de junho de 2019

POSTAIS SEM SELO


Eu só me pus a cantar para me sentir menos só.

Sam Shepard em Atravessando o Paraíso

domingo, 23 de dezembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


 Cometi alguns erros, mas não faço a menor ideia de quais tenham sido...

terça-feira, 6 de novembro de 2018

CONTIGO NÃO HÁ DISTÂNCIA


«Não consigo lembrar-me como é que era antes de te conhecer. Eu era sempre assim? Lembro-me de mim perdido. Quanto a isso nenhuma dúvida. Deambulando. De nada em nada. De alucinada em alucinada. Permanecendo, por vezes, apenas o tempo suficiente para compreender que o desnorte delas era mais pronunciado do que o meu. Pelo menos é assim que elas me aparecem. Mas não me lembro de estar assim nervoso como estou agora; assim em frangalhos. Observava-as muito de longe, muito à distância: pedradas, ensaiando banhos de esponja nos seus lavatórios; aparando bolas pretas de haxixe com lâminas de barbear; movendo-se como rainhas em câmara lenta. Depois, transformavam-se em raparigas em quintais de já lá vai muito tempo, desfazendo-se em risinhos e aninhando as longas pernas debaixo do aconchego dos seus corpos: a maneira como se afundavam sobre os seus macios calcanhares e depois meneavam muito o cabelo como cavalos sacudindo as caudas.
Mas contigo não há distância. Todos os movimentos que fazes, sinto-os como se viajasse na tua pele; as tuas espreitadelas da janela, como se tu estivesses completamente sozinha e sonhando num outro tempo qualquer. De nada me serve dar aos braços a dizer adeus. Agora, está tudo ao contrário.»

Sam Shepard em  Atravessando o Paraíso.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Ao longe, a morte acena a Sam Shepard e ele fica com o entendimento que os seus leitores, ele próprio, merecem um último olhar sobre tabernas de cidades de fronteira ou perdidas no meio do deserto, terras de apaches e saguaros, sonhos e desventuras, olhar o céu, senti-lo perto de si, adormecer e acordar ao som do cântico dos tordos, uma espécie de melancolia, deitado à espera que alguém o encontre, algo de muito seu que lhe faça companhia na última viagem.

«Há alturas em que não posso deixar de pensar no passado. Sei que o presente é o lugar para se estar. Sei que me foi recomendado por pessoas muito sensatas que permanecesse no presente o mais possível, mas o passado apresenta-se. O passado não vem como um todo. Vem sempre em partes.»

Quem é que Sam espia?

Quem é que espia Sam?

Nem ele se lembra, ou sabe.

«Visto à distância. Isto é, a ver do outro lado da estrada, é difícil dizer qual a idade dele por causa do alpendre fechado com rede a toda a volta. Por causa dos óculos escuros a toda à volta. Roxos. O Mascarilha. Bandido mascarado. Não sei o que está a proteger. Está efectivamente dentro de um alpendre fechado, com insectos que zumbem, aves que chilreiam, todo o tipo de coisas estivais que vão ocorrendo, no exterior – borboletas, vespas, etc. -, mas é muito difícil dizer com exactidão a esta distância e a idade que tem. O boné de beisebol, as jeans encardidas, o colete velho.»

Sam Shepard começou a pensar no livro no ano de 2016.

Escreveu-o depois em rascunhos manuscritos já que a esclerose lateral amiotrófica que o atacou, impedia-o de dactilografar. Quando já não conseguia escrever à mão, passou a gravar os textos e os filhos faziam a transcrição para papel.

Patti Smith, amiga e antiga companheira apoiou-o na edição do manuscrito, quem mais o poderia fazer, ela que é uma eterna frequentadora de sombras, fragilidades várias, visões de cemitérios perdidos pelos mundos?

Sam fez a revisão do livro e ditou a versão final alguns dias antes de morrer, a 27 de Julho de 2017. Tinha 73 anos.

«A Lua está a ficar cada vez maior. A Lua dos Morangos (lua cheia do mês de Junho, Strawberry Moon, segundo nota do tradutor). Iluminando a nossa pequena trupe. A Lua Cheia. Dois filhos e o pai, com toda agente atrás. Seguindo pelo meio de East Water Street, e agora a noite está mesmo clara. A lua cheia. Conseguimos e coxeámos pelas escadas acima. Ou melhor, eu coxeei. Os meus filhos não coxearam, eu coxeei.»

Nas suas breves noventa e sete páginas, um livro desesperado mas um belíssimo livro.

Não sabemos o que pensar daquelas palavras dos seus últimos dias, não sabemos o que fazer quando fechamos o livro e o deixamos suspenso entre as mãos.

 «Aliás, já estou vazio. Do género de uma concha», escreveu Sam, no aproximar da página final quando sente que já não sabe como suportar a monotonia.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

FATS DOMINO


O livro de crónicas de Sam Shepard, “Day Out of Days” (2010), contém uma deliciosa história  acerca da forma como Fats Domino foi salvo, nas inundações de New Orleans de 2005 provocadas pelo furação Katrina. Vou tentar abreviar, embora a crónica tenha onze páginas…

As equipas de salvamento, que procuravam avidamente sobreviventes da catástrofe em locais menos acessíveis, depararam com Fats Domino sentado em cima do telhado de sua casa, que era a única parte da dita que não se encontrava submersa pelas águas. Fats estava impecavelmente vestido de smoking, laço e sapatos de verniz italianos, como se tivesse sido apanhado pela borrasca no preciso momento em que se preparava para sair de casa para dar um concerto.

Com alguma dificuldade, o avantajado Fats foi transferido para o barco de salvamento, tendo-se sentado na parte traseira com ar pensativo. A crónica não o diz, mas imagino que a parte dianteira do barco se tenha empinado um bocadinho…

Passado algum tempo um grito estridente assustou toda a gente… O barco balouçava perigosamente e Fats, de pé, apontando para algo que estaria dentro das águas e que só ele parecia ver, gritava como um louco: “O meu piano! O meu querido piano branco…! É preciso salvá-lo…”

Antes que alguém pudesse fazer qualquer coisa já Fats saltava para dentro de água e, nadando desajeitadamente, tentava alcançar o seu piano.
Era um piano enorme de cauda, que devia ter sido belíssimo nos seus tempos áureos.

Fats, com toda a sua determinação, conseguira alcançá-lo e agarrava-se a uma das pontas com quantas forças tinha. Mas a força da água era muita e de tempos a tempos piano e Fats submergiam, para voltarem à tona alguns metros mais adiante.

As equipas de salvamento, entretanto, alcançaram-no e insistiam com ele para que largasse o maldito piano e regressasse ao barco, perante a situação de risco em que se encontrava. O piano era enorme, diziam-lhe, e não havia qualquer hipótese de o transportar…

Mas Fats recusava-se a largar o piano, agarrando-se ao que podia dele como se fosse a coisa mais preciosa que existisse na sua vida. Ou se salvavam ele e o piano, dizia, ou não se salvaria nenhum deles…


Perante tamanha intransigência e não se sabe vinda de onde, uma corda enorme foi atada ao piano e Fats Domino, sempre agarrado a ele como o Capitão Ahab à baleia branca, foi finalmente transportado em segurança até terra firme.
Shepard afirma que a história lhe fora contada por um desconhecido durante uma viagem de avião e que, já quase ao aterrar, não resistiu a perguntar ao seu interlocutor se a história que este lhe tinha acabado de contar era  mesmo verdadeira... O outro hesitou, suspirou, olhou o teto do avião e por fim exclamou: “Mas que diferença é que isso faz…?”

Factos são factos e é sabido, de fonte segura, que Fats Domino foi efetivamente salvo quando se encontrava sentado no telhado da sua casa… A questão do traje a preceito e do piano branco, essa já poderá ser outra história…

Mas, como diriam os nossos amigos italianos, “si non e vero, e bene trovato”…!
Lembrei-me desta história quando me dirigia de carro para a casa de Fats Domino em New Orleans, no número 1208 da Caffin Avenue.

Naquela manhã de Agosto chovia copiosamente, como nós, europeus, não sabemos o que é chover… Em poucos minutos as ruas ficaram inundadas e quanto mais o maldito «gps» me mandava virar à direita ou à esquerda, mais me aproximava de zonas onde a altura da água era cada vez maior… Via-me rodeado de Jeeps e camiões e eram cada vez menos os carros ligeiros, como o meu, que encontrava…

Pensei em desistir da aventura, mas sabia muito bem que nunca me iria perdoar a mim próprio  não ter ido ver a casa de Fats Domino, estando já lá tão perto.  Tanto mais que Fats era um dos meus músicos favoritos dos anos 50 e “Blueberry Hill” uma das que certamente escolheria se tivesse de fazer uma seleção pessoal das músicas desse tempo.

Avancei, portanto, rezando baixinho, e lá acabei por descobrir a casa.
A água, por essa altura, chegar-me-ia quase aos joelhos se porventura cometesse a loucura de sair do carro. E abrir a janela seria ver todo o interior do carro inundado, rapidamente…

Depois de várias tentativas, consegui uma única fotografia que se visse…
E não pude andar por lá a bisbilhotar, como sempre gosto de fazer. Pisguei-me rapidamente, não me fosse acontecer a mim o que sucedeu ao pobre Fats: ser encontrado sentado em cima do tejadilho do meu carro. E sem qualquer piano branco a que me agarrar…   


Texto e fotografia de Luís Miguel Mira.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Um solitário que não se revela um grande apreciador da solidão.

Patti Smith no prefácio a The One Inside, último livro de Sam Shepard, citado por João Gobern em Diário de Notícias, 19 de Setembro de 2017.

Legenda: capa de The One Inside de Sam Shepard editado por Alfred A. Knopf.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

SAM SHEPARD (1943-2017)


Morreu Sam Shepard.
Tinha 73 anos.
Conheceu Patti Smith no Chelsea Hotel:
 «Estávamos apenas a tentar falar de dois sonhadores que se encontraram mas que estavam destinados a ter um fim triste. Era a verdadeira história de Sam e eu. Sabíamos que não poderíamos ficar juntos. Ele iria voltar para a sua mulher e eu continuaria a minha vida»., contou Patti Smith.
Escreveu Sam Shepard em O Grande Sonho doParaíso:

«Não faço ideia de qual a cidade onde me encontro. Não importa. Não faço ideia de qual a cidade para onde vou. Não tenho planos.»

domingo, 30 de abril de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Os filmes de Wim Webders foram, há semanas, revisitados no Nimas, em Lisboa, sim ainda é uma sala de cinema.

E, necessariamente, teria de ser exibido Paris,Texas esse belíssimo filme de Wim Wenders, pensado, escrito, filmado em total estado de graça, tudo envolvido na magnífica banda sonora criada por Ry Cooder, que teve o feeling de ir buscar uma velha canção mexicana, uma canção que tem tanto de bonita como de arrepiante: 

Qué lejos estoy del suelo donde he nacido
inmensa nostalgia invade mi pensamiento
y al verme tan solo y triste cual hoja al viento
quisiera llorar, quisiera morir de sentimiento.

De notar as extraordinárias interpretações e de Harry Dean Stanton no papel do solitário Travis e de e Nastassja Kinski, no papel de Jane.

 O filme foi escrito por Sam Shepard e tem um dos mais extraordinários diálogos, arrepiante diálogo, do cinema: «I Knew These People.»

Há uma boa dezena de anos, copiei, do blogue «Paixões e Desejos», feito por Paula e Rui Lima, o longo diálogo entre Travis e Jane.

Nunca mais consegui aceder a este blogue.

Desconheço os motivos. 

O que quer que se tenha passado, lamento.


Distinguido com o Grande Prémio do Festival de Cannes de 1984, Paris, Texas conta a história de um homem que sofre de amnésia e da sua luta para reconstruir uma vida feita em pedaços. Travis regressa a Paris, no estado do Texas, ao fim de quatro anos, porque uma das poucas coisas de que ainda se lembra é de a sua mãe lhe ter dito onde ela e o seu pai fizeram amor pela primeira vez.

Paris, Texas é um filme de solidões e de solitários. Travis, boné vermelho na cabeça, pelo Deserto Mojave à procura dos passados que cada um de nós transporta, amarguras profundas, nostalgias, melancolias, o outro lado do arco-íris.

Há quem diga que só andamos por aqui a administrar a nossa solidão.

Nascer é inaugurar a solidão, escreveu o Álvaro Guerra.

Nunca aprendemos a dizer adeus, ou se aprendemos, aprendemos mal.

Alguém terá que andar só para os outros andarem acompanhados, deixou escrito Virgílio Ferreira.

O que fica?

Talvez um perfume ligeiro, uma qualquer ventania a varrer o Deserto Mojave, ou qualquer outro deserto, que abre o coração ao  meio  e que talvez permita alguém falar, com alguma peculiaridade, de um bem-estar na solidão.

Perguntaram isso ao Alexandre O’ Neill.

Ele respondeu: a solidão procurada é boa a não procurada, às vezes, é chata.


Quem viu o filme, lembra que o diálogo entre Travis e Jane ocorre numa pequena sala de "peep-show", separados por um vidro que lhe permite a ele vê-la a ela, mas  não o contrário:

Travis – Posso dizer-lhe uma coisa?
Jane – Tudo o que quiseres!
- Vai levar tempo.
- Tenho o tempo todo.
- Eu conhecia-os.
- Quem eram?
- Duas pessoas... Amavam-se uma à outra... A rapariga era muito nova, 17 ou 18 anos. E o homem era bastante mais velho. Era rude e selvagem. E ela era muito bela.
- Sim.
- Ambos faziam de tudo uma aventura. E ela gostava disso. Uma simples ida à mercearia já era uma aventura. Riam de coisas estúpidas. Ele gostava de a fazer rir. Pouco se importavam com o resto, pois só queriam uma coisa... estarem um com o outro. Estavam sempre juntos.
- Deviam ser muito felizes...
- E eram. Verdadeiramente felizes. Ele amava mais... do que julgava ser possível. Não suportava estar longe dela quando trabalhava. Então largava o trabalho. Só para estar com ela em casa... Quando faltava o dinheiro arranjava outro trabalho. E deixava-o também. Mas não tardou que ela se inquietasse.
- Porquê?
- Pelo dinheiro, suponho. Por não ter bastante.
- Uhm...
- Por não saber quando chegava o cheque
- Sei o que isso é.
- Ele então começou a atormentar-se.
- Como assim?
- Por ter de trabalhar para a sustentar, mas não suportou estar longe dela.
- Ah!
- Quanto mais longe dela estava mais enlouquecia. Até que enlouqueceu mesmo. Pôs-se a imaginar coisas.
- Que coisas?
- Que ela encontrava outros homens na sua ausência... Ao voltar do trabalho acusava-a de ter estado com outro. Berrava, partia coisas na caravana.
- Na caravana?
- Sim, eles viviam numa caravana.
- O senhor não veio ver-me no outro dia? Sem ser indiscreta...
- Não.
- Oh! Julguei reconhecer a sua voz.
- Não! Não era eu.
- Continue.
- Ele então começou a beber muito. Voltava tarde, para a pôr à prova.
- Pô-la à prova como?
- Para ver se ela tinha ciúmes.
- Ah!
- Queria que ela tivesse ciúmes, mas ela não os tinha. Só se inquietava por ele, o que o enfurecia ainda mais.
- Porquê?
- Por pensar que ela não queria saber dele. Os ciúmes seriam sinal de que o amava. Então uma noite... ela disse-lhe que estava grávida. De três ou quatro meses, e ele não sabia. Então tudo mudou. Ele deixou de beber e arranjou um trabalho fixo. Convenceu-se de que ela o amava, pois trazia um filho dele. Ia consagrar-se inteiramente a dar-lhe um lar. Mas aconteceu uma coisa estranha.
- O quê?
- De começo ele nem reparou que ela tinha mudado. Desde que nascera o menino, tudo a irritava. Tudo a enfurecia. Mesmo o menino lhe parecia uma injustiça. Ele esforçava-se por lhe agradar. Dava-lhe presentes. Levava-a a jantar fora, todas as semanas. Mas nada a satisfazia. Durante dois anos, ele fez tudo para voltarem a ser como eram no começo. Mas acabou por compreender que era impossível. Então voltou a beber, mas as coisas azedaram. Quando voltava tarde ela não estava inquieta, nem ciumenta. Estava enraivecida. Acusava-o de a ter sequestrado fazendo-lhe um filho. Dizia-lhe que sonhava fugir. Não sonhava com outra coisa: fugir. Via-se a correr de noite... toda nua, através dos campos, sempre a correr. E sempre que ela estava prestes a invadir-se, ele aparecia a detê-la. Aparecia e detinha-a. Quando ela lhe contava esses sonhos, ele acreditava. Sabia que se a não detivesse ela fugiria. Prendeu-lhe uma campainha ao tornozelo, para a ouvir, se ela tentasse levantar-se de noite. Ela aprendeu a abafar a campainha com uma peúga, e a esgueirar-se da cama. Mas a peúga caiu quando ela já ía na estrada. Ele agarrou-a e amarrou-a ao fogão com o cinto. Deixou-a ali e tornou-se a deitar. Ouviu-a gritar, sem se mover. Depois ouviu o filho aos gritos... e admirou-se de não querer saber de nada. Tudo o que queria era dormir. E, pela primeira vez desejou estar longe dali. Perdido num vasto país onde ninguém o conhecesse. Num lugar sem linguagem e sem ruas. Sonhou com esse lugar sem lhe saber o nome. E quando despertou.... estava a arder. Chamas azuis queimavam os lençóis da cama. Correu para os dois únicos entes que amava... Mas tinham partido. Tinha os braços em brasa. Saiu para fora da casa e rolou-se no chão molhado... E depois correu. Nunca se voltou para ver o fogo. Só correu. Correu até ao nascer do sol. Até não poder mais. E quando o sol se pôs tornou a correr. Correu assim durante cinco dias. Até que sem deixar sinais... desapareceu.
- Travis...
- Se apagares a luz aí dentro, poderás ver-me?
- Não sei... nunca experimentei.
- Podes ver-me?
- Sim.
- Reconheces-me?
- Oh! Travis...
- Trouxe o Hunter comigo. Não queres vê-lo?
- Sim. Queria tanto vê-lo, que não ousava imaginá-lo. A Anne mandava-me fotografias dele. Pedi-lhe que deixasse de as mandar. Não suportava a dor de o ver crescer longe de mim.
- Porque não ficaste com ele?
- Não podia. Não tinha aquilo de que ele necessitava. Não queria utilizá-lo para encher o vazio da minha vida.
- Ele agora precisa de ti Jane. E quer ver-te.
- Ele quer?
- Está à tua espera.
- Onde?
- Na cidade. Num hotel. Le Meridien... quarto 1520.
- Tu não te vais embora, pois não?
- Eu não posso ver-te Jane.
- Não vás ainda... Não vás ainda... Fazia-te grandes discursos depois de partires. falava-te a toda a hora, mesmo só. Enquanto caminhava, meses a fio. Agora... não sei o que dizer. Era mais fácil quando te imaginava que me respondias, tínhamos longas conversas os dois. Era como se lá estivesses. Via-te, sentia o teu odor. Ouvia a tua voz. Ás vezes a tua voz despertava-me, a meio da noite, como se estivesses ali. Depois... tudo se dissipou lentamente. Já não podia imaginar-te. Tentei falar-te, mas em vão. Já não te ouvia. Então... renunciei. Tudo parou. Tu... desapareceste, simplesmente. Agora, trabalho aqui. Oiço a tua voz a toda a hora. Cada homem tem a tua voz.
- Vou dizer ao Hunter... que vais chegar...
- Travis...
- Sim.
- Lá estarei.
- Óptimo.
- Hotel Meridien...
- Sim. Quarto 1520.






Na banda sonora, Cancion Mixteca é cantada por Harry Dean Stanton.

sexta-feira, 31 de março de 2017

NESSA NOITE, FUI DESPEDIDO


Naquele tempo, costumava levar gelo à Nina Simone. Era sempre simpática comigo. Tratava-me sempre por “Queriiido”. Levava-lhe uma bandeja cinzenta de plástico cheia de gelo, para ela pôr no “Whisky”.
Ela descascava a cabeleira loura e atirava-a para o chão. Por debaixo da cabeleira, o seu cabelo verdadeiro era miudinho, como o pelo de um cordeiro negro tosquiado. Descascava as pestanas postiças e colocava-as ao espelho. As pálpebras eram salientes. Pintava-as de azul. Faziam-me sempre pensar numa dessas rainhas egípcias como as que eu tinha visto no “National Geographic.
A sua pele brilhava de molhada. Enrolava uma toalha azul à volta do pescoço e depois inclinava-se para a frente, descansando os cotovelos sobre os joelhos. O suor rolava-lhe pela cara abaixo, salpicando o chão vermelho de cimento entre os seus pés. Habitualmente acabava o espectáculo com a canção “Jenny The Pirate” de Bertold Brecht.
Cantava sempre esta canção como se se tratasse de uma vingança sua, muito profunda, como se tivesse sido ela própria a autora do poema. A sua actuação era como um tiro, que alvejava, primeiro, a garganta de uma audiência branca. Depois o coração. Finalmente a cabeça.
Nesses tempos, ela disparava a matar. A canção do seu espectáculo que realmente me punha fora de mim era “Que bom era ter-te à minha espera.” Sempre que a cantava, eu ficava assombrado, hipnotizado. Andava a recolher copos de Whiskey Sour quando ela atacava aquele piano, que desabava sobre nós, retumbante, com a sua voz fantasmagórica, serpenteando através do amontoado das cordas.
Os meus olhos subiam para o palco e por lá ficavam, enquanto as minhas mãos continuavam a trabalhar. Uma vez, estava ela a cantar essa canção, derrubei uma vela. A cera quente espirrou para cima do fato de um homem de negócios, sujando-o todo.
Fui chamado ao escritório do gerente. O homem já lá estava, com os salpicos de cera quente espalhados pelas calças abaixo. Parecia que se tinha vindo para cima do fato. Nessa noite, fui despedido. Lá fora, na rua, ainda podia ouvir a sua voz atravessando as paredes: “Seria o paraíso ter-te à minha espera”.


Sam Shepard, em Crónicas Americanas

quarta-feira, 15 de março de 2017

UMA HERANÇA HÁ MUITO PERDIDA


Conheci um guitarrista que dizia «a minha amiga rádio». Sentia um parentesco menos com a música do que com a voz da rádio. A sua qualidade sintética. A sua voz única, distinta das vozes que a atravessam. A sua capacidade de transmitir a ilusão de gente a grande distância. Dormia com a rádio. Falava para a rádio. Discordava da rádio. Acreditava numa Terra Longínqua da rádio da Rádio. Como achava que nunca encontraria esta terra, reconciliou-se consigo mesmo a ouvir a rádio. Acreditava que tinha sido banido da Terra da Rádio e condenado a errar eternamente pelas ondas sonoras, ansiando por um posto mágico que o devolvesse à sua herança há muito perdida.

Sam Shepard em Crónicas Americanas