segunda-feira, 16 de maio de 2022

AS VIDAS TRISTES DE ALMAS TORTURADAS


Face ao quotidiano massacrante, tenho tentado aligeirar a situação relendo gente de que gosto muito. Já vos falei do Manuel António Pina, do Eduardo Guerra Cerneiro, do José Saramago, tenho`também andado às voltas com a Autobiografia do Woody Allen, mas gosto mais do cineasta do que do biógrafo de si próprio.

Hoje é domingo, os dias de quase autêntico Verão que têm feito, foram substituídos por fortes ventanias e chuva.

Parei na página 338 de A Propósito de Nada, com Allen a escrever sobre um dos seus filmes-assim-assim Setembro e em que volta a encaixotar a Farrow:

 

«A versatilidade de Mia era incrível. Ela era capaz de desempenhar a alheada miúda dos cigarros em Os Dias da Rádio, passar para a afetada colunista de sociedade e, depois, apresentar um desempenho extraordinário no filme seguinte, Setembro, um drama que põe a questão: poderá um grupo de almas torturadas fazer as pazes com as suas vidas tristes, quando dirigido por um tipo que ainda devia estar a escrever piadas fáceis para colunistas da Broadway?

Aqui, como já disse, queria fazer algo tchekhoviano; um set, pessoas numa casa de campo. Emoções em conflito e baralhadas. Estruturei-o de forma a poder ser filmado no interior de uma casa no set construído por Santo, com atores espantosos, todos eles presos a emoções ansiosas. Deveria evocar o estado de espírito de fim de verão, melancólico, e eu seria louvado como um poeta trágico e talvez pudessem batizar uma sandes do Carnegie Deli com o meu nome. Para m dos papéis masculinos contratei Chris Walken, com quem já tinha trabalhado antes em Annie Hall. Ele desempenhava o papel do irmão louco. Chris é um dos nossos melhores actores, e quando as coisas não estavam a funcionar procurei o motivo no lugar errado. Estudei o seu desempenho para tentar perceber o seu problema, mas deveria ter examinado a escrita. Deve-se olhar sempre primeiro para a escrita quando algo não está a funcionar. À medida que os dias iam passando, Chris foi ficando cada vez mais desconfortável no papel. Por fim, da forma mais simpática e digna de um cavalheiro, desistiu, garantindo-me, contudo, que eu era um realizador brilhante, que tinha um grande futuro, uma vez ultrapassado o problema da idolatria delirante. Separámo-nos em bons termos, amigáveis, mas sempre lamentei ter desiludido este grande ator. Substituí Chris por Sam Shepard, de quem gostava muito. Sam nunca se sentiu confortável a dizer o meu texto e, sendo um bom escritor, preferia alterar constantemente os meus diálogos. Nunca me importei e, até este dia, não me importo quando um ator prefere colocar as coisas nas suas próprias palavras, desde que a ideia da cena passe.

De qualquer maneira, dei-me bem com Sam, conversávamos muito sobre jazz, dado que o pai dele tocava bateria. Sam tinha uma fraca opinião de mim enquanto realizador e afirmou publicamente que Robert Altman e eu nada sabíamos sobre direção de atores. Cruzei-me com ele e falámos sobre isso, sempre em termos amigáveis, sempre francos, sempre em bons termos. Quando o pai de Sam faleceu, deixou várias caixas de discos de jazz e Sam enviou-mos todos de presente. Era um tipo espantoso e mais um ator que desiludi. Perguntei-me se seria o drama o meu métier, talvez a minha praia fossem as personagens físicas, que envergassem bulbosos narizes de borracha e brandissem bexigas de porco».

Segundo o próprio Woody Allen, Setembro foi um flop.

Houve mesmo necessidade de a história ser reescrita e muito do material voltar a ser filmado, porque alguns actores foram saindo, inclusive o Sam Shepard que  não se entendeu mesmo com os diálogos de Allen deixou aquela deliciosa observação de que Altman e Allen não sabiam nada sobre direcção de actores.

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