Mostrar mensagens com a etiqueta Memórias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Memórias. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

CRONICANDO POR AÍ


 O gosto pelas Crónicas, o desejo único de que o espírito de Abril se mantenha pelos tempos fora, «Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os Estados Sociais, os Estados Corporativos e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem não quiser sair, fica aqui!», Salgueiro Maia ainda em 24 de Abril de 1974:

«Tinha nove anos. Os meus pais eram comunistas: «a nossa senha é Salgado Zenha», naturalmente. Levava para a escola primária dos Olivais autocolantes com um Z. 

Desde cedo, aos seis anos, que ia a pé para a escola, quinze minutos de deslocação com um colega e amigo. Éramos miúdos e estávamos por todo o lado, por toda a cidade. 

Lá estava a inscrição na parede ao pé de casa: «Não à lei Barreto/77». Havia política por todo o lado. Hoje também há, mas é mais invisível, mais elitista, menos democrática. E isto já não é bem um país, como sabeis, dada a perda, sempre reversível, de soberania. Ainda é uma pátria. Mas não há crianças nas ruas, aos bandos. Envelhecer deve ser isto. Prossigamos.

Os meus colegas de direita tinham todo o tipo de bugigangas do Freitas do Amaral, dizia-se que era a primeira campanha «à americana». Na sua autobiografia, Freitas do Amaral, já agora, usa o termo neoliberal para descrever as suas orientações e as do seu CDS. Sim, sou um respigador destes usos de uma palavra que alguns ainda rejeitam de forma ignorante.

Invejava os meus amigos de direita secretamente. Uma vez fui passar a tarde a casa do Pedro e fomos com a mãe dele às compras. De passagem, fomos dizer olá à avó, que estava a trabalhar numa sede de campanha do Freitas, ali na Cruz de Celas. A avó queria dar-me um sortido kit de campanha: «este menino é do Zenha», antecipou a mãe. Pois sou, confirmei, como se uma meta-preferência ético-política contrariasse a preferência imediata pela cor, pelo plástico.

Irritava-me o hino de Freitas do Amaral, o do «prá frente Portugal», que me ficou no ouvido até hoje, tal como o do «pão, paz, povo e liberdade» do cavaquismo ascendente. O Rafael, o meu melhor amigo, era do PSD e eu, aparentemente, tinha-o apodado de «fascista» quando soube disso, no dia em que nos conhecemos, fazia três anos. Conta essa história até hoje, mas eu não me lembro. A memória depende de outros, como tudo na vida. Aprende-se, imitando, claro. 

Lembro-me de ir a um entusiasmante comício de Salgado Zenha, que julgo ter sido no Teatro Avenida. Estava a abarrotar. Agitei uma bandeira com alegria, como ainda hoje gosto tanto de o fazer. O Teatro já não existe, substituído há muito por um mamarracho hediondo. 

Lembro-me de se achar que Maria de Lurdes Pintassilgo só servia os interesses da candidatura de Soares. Soares, esse sim, era odiado. O meu pai tinha sido advogado sindical na última década antes das eleições, a da queda brutal do peso dos salários no rendimento nacional depois do grande avanço do glorioso PREC.

Chorei no domingo da primeira volta, sempre tive a lágrima fácil: «perdeu-se uma batalha, mas não se perdeu a guerra», consolou-me o meu pai, ao mesmo tempo que dizia que jamais votaria em Soares. «É claro que vamos votar no Soares», disse a minha mãe, antecipando a deliberação coletiva proferida por Álvaro Cunhal. 

Andei então com um autocolante de Soares e tive mais companhia no recreio nessa altura. A seguir, logo em 1987, Soares foi Soares, nunca se pôde confiar nele, realmente. Mas a unidade possível era função do inimigo principal num tempo antes deste terrível consenso neoliberal. O neoliberalismo era só um movimento entre outros, não era ainda o regime europeu que Soares sempre endossou, retórica à parte.

E ainda não vi o documentário na RTP da autoria de Ivan Nunes e de Paulo Pena, de que já me falaram, sobre as eleições de 1986. Vou agora ver, provavelmente com melancolia de esquerda. 

Antes, porém, há que dizer e redizer, sem qualquer melancolia: «com o povo, por Abril, por Portugal». Sim, muito obrigado, António Filipe, por esta campanha imprescindível. Poder e razão não são sinónimos e nunca esta distinção foi tão importante. Pode perder-se e ainda assim ter razão, muitas razões.

Agora, vou votar no candidato que não se chama Ventura. Pensarei em Cunhal e no meu pai. Não é difícil votar. Difícil foi conquistar o sufrágio universal. E aí os comunistas foram, como sempre, imprescindíveis.

A vida, a luta e a resistência não terminaram no passado domingo, nem terminarão no dia 8. É papel dos democratas rejeitar Ventura, mas a luta não se esgota aí. De facto, continua a ser imprescindível derrotar o consenso neoliberal, desde logo tendo presente que rejeitar Ventura, não é apoiar as ideias de Seguro. 

A luta social terá de se intensificar e muito. Os perigos para a democracia não se encontram apenas em Ventura, mas nos projetos mais vastos de exploração, desde logo no pacote laboral. Sabemos quem continua a ser imprescindível para derrotar tudo isso.»

João Rodrigues em Abril, Abril

domingo, 23 de novembro de 2025

CONVERSANDO


 Os velhos anúncios a dizerem-nos que nove de cada dez estrelas usam LUX.

Por lá andaram Marlene Dietrich, Sophia Loren, Elizabeth Taylor, Audrey Hepburn, até a nossa Amália Rodrigues.

Mas venho por outro sabonete: O Feno de Portugal.

Nasci em 1945, o sabonete em 1930, e foi o meu sabonete nos primeiros dias de por aqui andar.

Ainda hoje ando com ele.


É daqueles produtos que não se esquecem. 

Neste caso pela particularidade do nome, é certo, mas também pelo bucolismo que foi transmitido nos anos 80 pelo anúncio televisivo onde uma jovem loura esvoaçava graciosamente no meio de feno, flores pelo, cores e aromas.

O slogan era: Feno de Portugal, o encanto da natureza.

 O grafismo da embalagem tem mudado, o aroma do sabonete do meu tempo de nascer, também.

Um aroma pode ficar na memória?

As mãos de minha mãe percorrendo o meu corpo?

O fim da vida que se vai aproximando, não lembrar o que almocei, mas sentir o cheiro do meu primeiro sabonete.

Gestos de puxa e empurra, memórias...

domingo, 2 de novembro de 2025

DIA DE FINADOS


Dia de finados.

A minha avó Brígida marcava o dia de finados acendendo, numa grande cómoda, de madeira muito antiga, lamparinas que se reduziam a um pires com azeite e um paviozinho, colocadas junto aos santos de devoção e às fotografias dos seus mortos.

O  meu avô exasperava-se com esta devoção. Dizia-me que o que devemos é respeitar e amar as pessoas enquanto andam ao nosso lado, o resto é hipocrisia e os fantasmas devemos deixá-los em seu sítio.

No livro A Breve Vida das Flores de Valérie Perrin:

«Sabemos que hoje estarias connosco se o céu não fosse tão longe.» 

sábado, 11 de outubro de 2025

CONVERSANDO

Não se distinguia nada, apenas o prazer de estar a olhar, de ver passar as noites de Verão junto a companheiros da rua.

sexta-feira, 27 de junho de 2025

A MEMINA DANÇA?


Lembranças do José Duarte, lembrança dos tempos em que havia programas de rádio.

Quando soube da morte do José Duarte, procurei este papel. Não o encontrei. Apareceu agora, quando procurava algo completamente diferente:

«Por um dia, um dia que seja, mande a televisão dar uma curva ao bilhar grande. Sente-se num poltrona e ouça rádio. Aos domingos das dez à meia-noite, na Rádio Comercial, «A Menina Dança?»

Mas é travessa a menina, pois só dança com o José Duarte, para desespero nosso.

Músicas dos anos 30, 40, 50. A música das «big bands», as orquestras dos «Dias da Rádio». Também as canções do Sinatra, como não podia deixar de ser. Músicas ao som das quais apanhei grandes «tampas» que, de imediato, afogava em taças de vinho branco fresquinho a cinco c’roas cada que gelavam dentro dum grande alguidar de zinco, repleto de blocos de gelo, nos bailes de bombeiros da Trafaria. Aquilo é que eram bailes. Com as avós, as mães, as tias, sentadas em cadeiras de madeira, rigorosamennte, vigiando os passes das meninas, as mãos do dançante. Com damas ao bufete e «swing».

Torne-se, pois, diferente em cada noite de domingo, e enquanto os outros vêem televisão, ouça rádio. E dance.

- A MENINA DANÇA», Rádio Comercial, FM Stereo, 97,4, aos domingos, 22,00/24,00 Horas.

segunda-feira, 2 de junho de 2025

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Conheceu Luís Pinheiro de Almeida através do seu blogue «Ié-Ié». 

Num dos seus textos lembrava um conjunto italiano dos anos 60, Andrea Tossi, que tinha vindo a Coimbra tocar na Queima das Fitas de 1961. Ele tinha um disco do Andrea Tossi e propôs oferecê-lo. Pelo meio lembrava uma frase de Truman Capote que vem em Os Cães Ladram: «Já me aconteceu oferecer um pesa-papéis a algum amigo muito especial, e dou sempre algum dos que mais aprecio, porque como disse Colette naquela tarde remota, quando eu protestei que não poderia aceitar de presente algo que ela tão obviamente adorava: "Meu caro, na realidade não faz sentido nenhum oferecer um presente a não ser que tenha valor para nós.»

Então, foi assim:

«Para fazer a entrega de um disco do Andrea Tosi, marcou encontro com Mr. Ié-Ié.

Foi na esplanada da Mexicana, ali à Praça de Londres.

Aí se conheceram e, pela tarde soalheira de um Janeiro, ficaram a contar histórias um ao outro.

Quando convidado para colaborar no blogue, argumentou que não sabia nada de música.

Mr. Ié-Ié, perentoriamente, disse que ele também não.

Pela parte que lhe diz respeito, tem largamente comprovado a afirmação.

No que toca a Mr. Ié-Ié, tratou-se de uma retumbante mentira.

Ainda adiantou que, por falta de meios, teria que fotografar as capas dos discos, o que se revelava um péssimo número.

Foi-lhe dito que não havia problema nisso.

Mais tarde, por um Natal, a família ofereceu-lhe um scanner e houve, então, a possibilidade de repor as capas com a dignidade a que têm direito.»


Luís Pinheiro de Almeida, no livro a que chamou Viagens no Tempo, reúne as memórias das viagens que fez enquanto jormalista, homem da rádio.

«Enquanto jornalista, corri o Mundo, fui actor e protagonista de circunstâncias que só acontecem uma vez na vida de uma pessoa. Estive na ilha do marechal Tito na Jugoslávia, ainda em sua vida, apertei a mão a Ceausescu, em Bucareste, estive com Fidel Castro em Guadalajara (México). Diverti-me com Samora Machel em Maputo, apreciei a sabedoria de Aristides Pereira na Cidade da Praia, participei nas cerimónias de independência de Angola, com Agostinho Neto em Luanda, entrevistei Pinto da Costa em São Tomé. Falei com Indira Gandhi em Nova Deli, conversei com Joseph Luns na sede da NATO em Bruxelas, apertei a mão de Jimmy Carter na Casa Branca. Passeei com Erico Berlinguer na Setenave, assisti em Teerão aos últimos momentos do Xá, estive lado a lado com Mubarak no Cairo. Conheci as “favelas” do Rio de Janeiro e os “ranchitos” de Caracas, experimentei a loucura do trânsito em Lagos, Nigéria, e em Banguecoque, Tailândia, encharquei-me nas cataratas do Niagara, sentei-me na sala do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Beijei a mão do Papa João Paulo II, em Lisboa, estive com Mugabe no Zimbawe. Andei pela cidade das mil e uma noites, Bagdad, vi o muro de Berlim e a muralha da China, ande num dos helicópteros de Jivkov na Bulgária. Fui roubado em Goa e Cuba, roubei uma pedra da pirâmide de Gizé e outra do Coliseu de Rima, tenho água do Jordão, areia do Saará, balas da Bósnia. Gritei em Delfos (Grécia), fiquei esmagado com Cabora Bassa, deslumbrei-me em Salzburgo. Vi o perigo na faixa de Gaza, Bósnia, Irão e em Belfast, gozei belas férias em Antígua, Dubai, Maldivas, Maurícias. Mas há momentos na vida de uma pessoa que são mais momentos do que outros. Há sonhos de juventude que cada vez nos parecem mais distantes. Os Beatles são um deles.»

Mais tarde, quando foi à casa do Luís Pinheiro de Almeida, ficou espantado com a quantidade das mais variadas coisas com que se deparou em mesas e estantes:

«Eu guardo tudo e mais alguma coisa. Não deito nada fora.»

Nas muitas conversas que foram tendo sobre tudo e mais alguma coisa, Luís Pinheiro de Almeida disse-lhe: «O jornalista é a pior fonte de informação que existe. E acrescento: tudo o que vem nos jornais é mentira até prova em contrário...»

E ainda estávamos um tanto ou quanto longe da bandalheira que hoje se vive em televisões e jornais.

Quando chegou os tempos do «facebook», o Luís rendeu-de completamente ao fenómeno, abandonou, 28 de Março de 2022 o blogue dos guedelhudos, e dedicou-se às novas aventuras do  «face» em busca de velhas amizades fossem elas quais fossem.

Ele ficou órfão e acabou por desaguar neste Cais. 

sexta-feira, 18 de abril de 2025

REOLHARES


 Definitivamente não sei explicar mas, em tempo de Semana Santa, vêm-me sempre, mas sempre, à memória duas ou três coisas:

 A parede do antigo Cinema Lys, a que estava voltada para a Avenida Almirante Reis, com os grandes cartazes de A Túnica de Henry Koster com o Richard Burton, a Jean Simmons, o Victor Mature.

 A Emissora Nacional a interromper o silêncio radiofónico para transmitir os jogos de Hóquei em Patins do Torneio de Montreux.

 O Carlos Alberto que aparecia de gravata preta.

 Os putos da rua que éramos, perguntavam sempre do porquê, e a resposta também a sabíamos:

- Cristo morreu!

A minha avó apenas respeitava a quinta e a sexta-feira santas  e nesses dias não havia carne para ninguém.

Curiosamente, também não abundava nos outros dias.

 Porque o pequeno mundo caseiro vivia do rol fiado do merceeiro, Francisco de seu nome, estabelecimento na esquina da Castelo Branco Saraiva com a Vila Gadanho.

 

(Em Reolhares vamos publicando textos publicados, nos últimos 15 anos no Cais do Olhar.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

REOLHARES



O QU'É QUE VAI NO PIOLHO 


Aqui, ainda é, o Cinema São Jorge.


Exteriormente, o São Jorge não mudou.

Foi inaugurado no dia 23 de Fevereiro de 1950.

Houve um concerto de órgão dado por Gerald Shaw, música da BBC e no écran foi exibido Os Sapatos Vermelhos.

Juntamente com o Monumental e o Império, constituíam as catedrais cinematográficas de Lisboa

Projecto de Fernando Silva, foi inaugurado em 1950, sofreu obras de remodelação em 1982 e passou a ter três salas.

No ano 2000 a Câmara Municipal de Lisboa exerceu o direito de compra do imóvel, e desde Novembro de 2001, por ali se realizam festivais temáticos de cinema, bem como concertos de música.

Dos muitos filme que vi no São Jorge, de um guardo memória.

Chamava-se o filme O Ballet de Moscovo  (1) e vi-o com o meu pai e o António Colaço.
Para o puto de 13 anos, que então era, a sensação que ficou, foi a de uma enorme seca. Ainda hoje, o ballet não me provoca grandes entusiasmos.


O gosto maior era o de ir com o meu pai ao cinema.

O filme, então, não importava muito qual era, na companhia e na conversa posterior, é que residia toda a importância.

 A propósito do Bolchoi, uma lenda majestática da Rússia, se o meu pai soubesse que, há uns dois ou três anos atrás, Natalia Kasatkina, directora artística do Ballet Clássico de Moscovo disse que agora temos mais liberdade mas menos financiamento do que no tempo da URSS, estou mais que certo que a afirmação seria tema para longa e apetecível conversa.

Uma outra memória.

Um amigo, o Afonso Baptista, ia todos os anos, pelo Carnaval, ao São Jorge.

No intervalo, mais prolongado que o normal, punham a circular pelos assistentes dos balcões e plateia, enormes e leves bolas coloridas, que se arremessavam de mão em mão, perante grandes risotas.

Desafiou-nos uma vez.

Não achei nenhuma piada à história.

 O mesmo não direi dos fininhos que, após a sessão, daquele sábado de Carnaval de finais doas anos 60, fomos beber ao Ribadouro, a célebre Universidade do Tremoço, onde, conta a lenda, Baptista-Bastos e Fernando Lopes idealizaram e escreveram o Belarmino.

Ainda mais uma memória do São Jorge.

A Aida ainda tem guardado no seu infindável baú, um bilhete de um dos recitais que aconteceram no São Jorge, para evocar a memória de João Villaret.

João Villaret morreu no dia 21 de Janeiro de 1961.

Não sei a partir de quando, e quanto tempo durou, estas evocações de João Villaret que se realizavam durante a hora do almoço, com discos que o artista gravara para a Valentim de Carvalho.

Um foco de luz projectava-se sobre o palco, onde se encontrava uma cadeira e um ramo de flores.

Este é o bilhete da sessão do ano de 1966.

Um dia de tempos recentes, o Pedro de Freitas Branco, Filhote para os amigos, perguntava:

Além hoje seria capaz de sair de casa para ouvir um disco de poesia numa sala de cinema?

 

(1)   O Ballet de Moscovo.

Com Galina Ulanova, Raissa Struchkova, Nikolai Fadeyechev e o Ballet do Teatro de Moscovo, Orquestra do Covent Garden.

Produzido e realizado por Paul Czinner.

Estreado no Cinema São Jorge em 9 de Janeiro de 1968.

 

(Em Reolhares vamos publicando textos publicados, nos últimos 15 anos no Cais do Olhar.)


quinta-feira, 30 de maio de 2024

OLHARES


Perto um do outro, no alto de uma das colinas de Lisboa, existem dois miradouros a que poucos ligam importância.

Estamos no alto da Penha de França, junto à Igreja de Nossa Senhora da Penha de França. Ao lado está o comando da Polícia, que até ao 25 de Abril foi o quartel da sinistra Legião Portuguesa. Atrás da igreja está um reservatório de água, a malta chamava-lhe o pote d’água. Ali encontra-se o miradouro da Penha de França que, juntamente com o miradouro do Monte Agudo, sito na Rua Heliodoro Salgado, é algo a que os lisboetas prestam pouca, ou quase nenhuma, atenção e que as entidades entendem não os divulgar pelos turistas.

Na Rua Mestre António Martins, na Freguesia da Penha de França acabou por vir ao mundo, estava guerra a findar pela Europa.

Pelas noites de Verão, quando não havia televisão, a malta juntava-se por ali e ficávamos a olhar os filmes que por aquele tempo passavam na esplanada da Cervejaria Portugália.

Perguntarão:

-  Como é que miúdos podem ficar de longe a «olhar filmes.

Já disse que não havia televisão e as noites quentes, convidavam as pessoas a vir para as portas das casas, para os miradouros, para os jardins. Mas dezenas de pessoas encostavam-se ao muro para ver as imagens que, lá longe, passavam no écran da esplanada da Cervejaria Portugália. Apenas as imagens. Nem som, nem leitura de legendas, apenas imagens a correr.

Coisas mesmo de putos.

Simples e comovente…

Terá servido para que um dia explodisse o gosto pelo cinema, o dele e o da malta do bairro?

Curiosamente nunca viu um filme sentado na esplanada da Portugália. E tanto que, em miúdo, o desejou. Quando a possibilidade de o fazer chegou, já não exibiam filmes.

Ainda hoje sente o calor, o cheiro daquelas noites dos seus oito/nove anos a olhar os filmes da Portugália. O regresso a casa. As janelas abertas a respirar o fresco da noite, as pessoas a conversar nas ruas. Um perfume de cravos e sardinheiras.

O tempo da inocência total.

Os caminhos para o Cinema Paraíso.


No cimo da tal rua onde nasceu, encontra-se a Escola de Luísa de Gusmão.

A fachada do edifício exibe um grande painel de azulejos de Querubim Lapa, 400 azulejos num espaço de 30 metros. Alguns azulejos do painel têm vindo a cair. A Câmara Municipal de Lisboa, a Junta de Freguesia, dizem não ser sua competência, do Ministério da Educação não há qualquer resposta.

À frente, da escola, onde agora está um parque de estacionamento, existia uma vila e num dos seus edifícios, situava-se uma sopa dos pobres. Ali não havia espaço para os pobres comerem e então desciam a rua e sentavam-se nesta praceta, mesmo em frente do prédio onde nasceu, viveu a infância e adolescência, a comerem a sopa e o naco de pão escuro.


sábado, 17 de fevereiro de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS



Alguns dos livros da Biblioteca da Casa, que narram vivências do que se passou na Guerra Colonial, têm sido, por aqui,  apresentados. São variados e alguns de difícil catalogação. Não sendo um especialista posso, no entanto, dizer que o primeiro livro sobre a Guerra Colonial,  por aqui apresentado, terá sido Os Cus de Judas de António Lobo Antunes:

«- Felizmente a tropa há-de torná-lo um homem.
Esta profecia vigorosa, transmitida ao longo da infância e da adolescência por dentaduras postiças de indiscutível autoridade, prolongava-se em ecos estridentes nas mesas de canasta, onde as fêmeas do clã forneciam à missa dos domingos um contrapeso pagão a dois centavos o ponto, quantia nominal que lhes servia de pretexto para expelirem, a propósito de um beste, ódios antigos pacientemente segregados. Os homens da família, cuja solenidade pomposa me fascinara antes da primeira comunhão, quando eu não entendia ainda que seus conciliábulos sussurrados, inacessíveis e vitais como as assembleias de deuses, se destinavam simplesmente a discutir os méritos fofos das nádegas da criada, apoiavam gravemente as tias no intuito de afastarem uma futura mão rival em beliscões furtivos durante o levantar dos pratos. O espectro de Salazar pairava sobre as calvas pias labaredazinhas de Espírito Santo corporativo, salvando-nos da ideia tenebrosa e deletéria do socialismo. A PIDE prosseguia corajosamente a sua valorosa cruzada contra a noção sinistra de democracia».

Hoje, apresentámos HendaXala ,editado em 1984, pela Editora Ulmeiro que, ao tempo, nunca encontrei em qualquer livraria e que só viria a conhecer, em 1992, na edição do Círculo de Leitores.

Um livro notável que passou completamente despercebido.

Se o apanharem em qualquer alfarrabista, ou feiras de ocasião, não hesitem: leiam-no!

Aliás, tirando meia dúzia, a maior parte dos livros, relatando as experiências da guerra colonial, passaram quase clandestinamente pelas livrarias. Fossem escritos por jogadores de futebol, ou «pivôs» de televisão… outro galo cantaria.

Terminarei com uma referência envolvida num qualquer tom de  melancolia-saudade.

O pai do escritor Abílio Teixeira Mendes, pai do cantor Carlos Mendes e do médico  Jaime Mendes, também ele Abílio Mendes, foi meu pediatra com consultório na Travessa do Calado.

Muitas vezes a minha mãe recebia um telefonema do consultório em que a assistente informava que o Dr. não daria a próxima consulta, que estava marcada, porque teve inesperadamente de viajar. A viagem tinha a ver com a PIDE que, mais uma vez, prendera o Dr. Abílio Mendes e o enviara para os calabouços de Caxias.

« Licenciado em Medicina dias antes de rebentar a Guerra Civil de Espanha, a sua entrada na vida profissional foi marcada por uma fase de grande repressão interna e de uma surda marginalização.

Concorreu, por duas vezes, aos Hospitais Civis tendo ficado sempre bem classificado, o que lhe permitiria a admissão imediata na carreira hospitalar mas foi, no entanto, excluído por decisão ministerial, o que o impediu de entrar não só na carreira hospitalar mas também na carreira universitária. Como escreveu no seu próprio curriculum: “ (…) considero-me honrado por ter sido impedido de tomar posse por informações da polícia política e da Legião Portuguesa”

Abílio Mendes ficou assim obrigado a fazer a sua formação de Pediatra, primeiro em Santa Marta e depois no Hospital Dona Estefânia, em regime de voluntariado, tendo sido posteriormente convidado pelo Professor Carlos Salazar de Sousa para Assistente Livre de Pediatria.

Com esta equipa, na Faculdade de Medicina, Abílio Mendes abriu o Serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria, continuando no entanto sempre impedido pelo regime de entrar nos quadros destes Hospitais, onde dedicou muitos anos da sua vida profissional sem qualquer remuneração».

A Câmara Municipal de Lisboa prestou homenagem ao Dr. Abílio Mendes atribuindo o seu nome a uma rua da Freguesia de São Domingos de Benfica.



segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

OUTROS NATAIS


Anos 50,60.

Pelo Natal, vendiam-se perus em alguns locais de Lisboa. 

Lembro-me dessas vendas no Martim Moniz e o que a fotografia mostra é uma venda no Largo de São Domingos.

Em casa do meu pai não se compravam os perus em Lisboa. Íamos ao Lavradio, quando, desde o Lavradio até à Baixa da Banheira, tudo aquilo eram quintas. Hoje tudo aqui são florestas e florestas de cimento.

Aqui se reproduz a aventura de comprar perus no Lavradio.

Um texto publicado neste blogue no dia 19 de Dezembro de 2012:


«Tenho dos meus tempos de miúdo, a lembrança de ver, por estes dias de Natal, no Martim Moniz, dezenas de alentejanos a venderem perus.

Ramalho Ortigão escreve no V volume de As Farpas:

«Lisboa prepara neste momento a festa de Natal.

Grandes rebanhos de perus, enrabeirados de lama, espalham no macadame as suas manchas movediças e escuras, de reflexos de aço adornadas de florescências brancas e vermelhas dos moncos. Pessoas idóneas pastoreiam esses galináceos, guiando-os a golpes de cana por entre as rodas dos trens e por entre as pernas dos viandantes. Na compra destes perus convém escolher os mais teimosos: à força de Cana são esses os mais tenros.»

A minha avó não comprava o peru no Martim Moniz.

Um tio materno, operário da CUF no Barreiro, vivia no Lavradio, quando o Lavradio, até à Baixa da Banheira, eram quintas a perder de vista.

Na sua casa térrea, numa dessas quintas, com horta e capoeiras, os perus eram ali criados a bolota.

Perto do Natal, eu e o meu pai, íamos ao Lavradio buscar os perus.

Na Estação Sul e Sueste apanhávamos o barco para o Barreiro, ainda movido a carvão.

No Barreiro apanhávamos a camioneta para o Lavradio.

Barcos e camionetas eram escassos, com longuíssimos  intervalos de espera.

Os peru, patas amarradas, viajavam numa alcofa.

Trazíamos também alfaces, tomates, cebolas e tangerinas que exalavam um perfume único e embalador.

Nisto se perdia toda uma tarde.

Chegados a casa, a minha avó embebedava o peru para o Natal com aguardente, e começava os preparativos para o tempero e o recheio.

Depois era a grande festa do jantar de Natal.

Nunca, mas mesmo nunca, voltei a comer um peru como o que a minha avó cozinhava pelo Natal.

Ainda fiz algumas tentativas, mas já nada era igual.

Nem os barcos a carvão, nem a camioneta da carreira e o  meu tio deixara de ter a horta e as capoeiras.

O cimento tomou conta de tudo e hoje o Lavradio, e tudo à volta, é o que é: betão e mais betão.

Depois chegariam os obsoletos perus de plástico, que se vendiam nos super mercados e nunca mais, no jantar de Natal, o peru assentou praça como manjar.

Tudo isto é uma doce memória, mas ao mesmo tempo amarga.

Amarga, porque, tal como o poema de David Mourão-Ferreira, de que o meu pai muito gostava, se pode ler:

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que se veja à mesa o meu lugar vazio.

Assim foi.,, assim será… e o Nada há-de retomar a cor do infinito.»

 

Legenda: Fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa copiada do Público de 16 de Dezembro.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Ao folhear o livro Os Novos Contos da Montanha do Miguel Torga, verifiquei algo de que não mais lembrara. Na última página do livro, que é a 195, há um sinalzinho a lápis, logo a seguir a glória, a última palavra do conto do Torga.

O meu avô paterno era um incansável leitor. Tanto lia que percebeu que a memória o poderia atraiçoar e então sinalizava os livros que acabava de ler.

Também não utilizava marcas nem sublinhava os livros.

À medida que ia lendo um livro, na última página anotava a lápis onde tinha ficado. Neste livro de contos não se perdeu e não apontou nenhum número de página.

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

O MEU AVÔ E O HOMEM DA BANDEIRA


O meu  avô paterno foi uma das referências da minha vida de criança e adolescente.

Sempre que necessário, apresentava-se assim:

«Mário Santos, republicano histórico, benfiquista e anticlerical.»

Todos os anos, pelo 5 de Outubro, subia ao Cemitério do Alto São João, depois à Praça António José de Almeida para uns «Viva à República».

Morreu em 1968, com 93 anos.

Foi um dos muitos que morreu sem saber qual a cor da liberdade.

Estava na Praça António José de Almeida, quando, no 5 de Outubro de 1958, a PIDE prendeu o General Humberto Delgado.

O meu pai dizia-lhe que ele devia deixar-se dessas romagens que não conduziam a nada.

«Dizes tu! Eu e o homem da bandeira nunca falhamos!»

Referia-se a um republicano que, no 5 de Outubro, aparecia com uma grande bandeira portuguesa. Esse chegou a ver a cor da liberdade e, depois de Abril, foi militante do Partido Socialista.

O meu pai morreu em Junho de 1990.

Num 25 de Abril, 1988 (?), o meu pai whiscava, eu gintonicava, Cecília Bartoli, em fundo, cantava Vivaldi, discorríamos sobre os tempos idos, dos que estavam para chegar e ele batia na tecla de que o 25 de Abril acabaria nas mesmas evocações-quase-solitárias do meu avô e dos companheiros republicanos históricos.

Sucedeu nascer um desesperante silêncio, agitei o gelo no copo, olhei a rodela de limão, murmurei para dentro de mim que o meu pai era capaz de ter razão, mas deixei o silêncio escorrer…

Que nada perturbe esse silêncio… ainda estou a ouvi-lo… e numa, difusa, vagamente avermelhada, imagem, admito ver o meu avô e o homem da bandeira…

domingo, 2 de julho de 2023

MÚSICA PELA MANHÃ


 Make Me An Island – If You Care A Little Bit About Me


Permitam-lhe que ele desarrume a memória e que, por uma história de nada – ou de tudo? – ponha o Joe Dolan a rodar.

Um café de província, Alfeizerão, junto a uma bomba de gasolina, uma bomba de gasolina da Mobil, que não era como as bombas de gasolina que o imaginário dos filmes americanos lhe transmitiu.

Duas, três mesas, uma jukebox a um canto, todas as sextas-feiras do último mês, de quase quarenta meses de tropa, dez tostões na ranhura da jukebox e o Make Me An Island do Joe Dolan a cantar no sonolento café, 2, 3 gins tónicos a completar o cenário.

Ele que até à data, depois de um milhão de gin-tónicos – chapelada a Mr. Humphrey Bogart – bebidos, em muitos e diversos bares, uns rascas, outros a armar ao fino, terá sempre na memória o sabor daqueles gins.

As circunstâncias fazem milagres e ele sabe que os gins eram merdosos e aproveita para  citar Nuno Júdice:  nada nos faz reviver melhor o passado do que um cheiro que em tempos lhe esteve associado.

É isso.

O gin era marca Bols, a água tónica era Canada Dry, o limão não tinha casca, o dono do café aproveitava as cascas para os martinis, o gelo tirava-o das paredes da geladeira dos gelados Olás, mas nada, que Joe Dolan e o seu Make Me An Island, o saber que, em passo de corrida, o findar da tropa se aproximava não fizessem esquecer.

Terminou a tropa ao bater do meio-dia de 30 de Setembro de 1970.

Apanhou a camioneta azul da carreira dos Claras, chegou a casa, pegou na Aida e zarpou para Os Perús, à Praça do Chile, frango assado, no dizer do escritor e jornalista Rui Cardoso Martins,  os melhores frangos assados do mundo, uma garrafa de tinto Aliança, pudim flan, Antiqua, em balão aquecido, se faz favor, e  ala que se faz tarde para  o 3º anel da Luz, que ainda não era Catedral, ver o Glorioso espetar 8 a 1 no Olimpija, uma rapaziada que em Liubilana, na 1º mão da 1ª eliminatória da Taça dos Clubes Campeões Europeus, tinha cometido a soberba proeza de empatar a um golo.

Para o informe ficar como deve ser:

O árbitro foi o Sr. Queudeville do Luxemburgo e o Glorioso alinhou com José Henrique na baliza, Malta da Silva, Humberto Coelho, Zeca e Toni (Barros entrou aos 80 m), Jaime Graça, Matine, Simões (capitão), Artur Jorge, Torres e Eusébio.

O treinador era o inglês Jimmy Hagan, o garagista.

O pantera negra meteu 5 golos, Zeca, Artur Jorge, Jaime Graça, completaram o placard.

Na jukebox de um café de província, junto a uma bomba de gasolina, Joe Dolan acabou de soltar os últimos versos take me and break me and make me an island, I'm yours.

Ainda sente o último gole de gin antes de se pôr a caminho para o último recolher do dia, no RI 5 das Caldas da Rainha, a mesma porta de armas por onde, 42 meses depois, por um 16 de Março, um grupo de militares saiu, a caminho de Lisboa, para aquilo que, ainda hoje, ninguém sabe explicar muito bem o que foi.

Um ensaio para o 25 de Abril, dizem os que pormaiores querem abreviar.

Sing again, Joe!

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

O MEU AVÔ E O HOMEM DA BANDEIRA


 O meu  avô paterno foi uma das referências da minha vida de criança e adolescente.

Sempre que necessário, apresentava-se assim:

«Mário Santos, republicano histórico, benfiquista e anticlerical.»

Todos os anos, pelo 5 de Outubro, subia ao Cemitério do Alto São João, depois à Praça António José de Almeida para uns «Viva a República».

Morreu em 1968, com 93 anos.

Foi um dos muitos que morreu sem saber qual a cor da liberdade.

Estava na Praça António José de Almeida, quando, no 5 de Outubro de 1958, a PIDE prendeu o General Humberto Delgado.

O meu pai dizia-lhe que ele devia deixar-se dessas romagens que não conduziam a nada.

«Dizes tu! Eu e o homem da bandeira nunca falhamos!»

Referia-se a um republicano que, no 5 de Outubro, aparecia com uma grande bandeira portuguesa. Esse chegou a ver a cor da liberdade e, depois de Abril, foi militante do Partido Socialista.

O meu pai morreu em Junho de 1990.

Num 25 de Abril, 1988 (?), o meu pai whiscava, eu gintonicava, Cecília Bartoli, em fundo, cantava Vivaldi, discorríamos sobre os tempos idos, dos que estavam para chegar e ele batia na tecla de que o 25 de Abril acabaria nas mesmas evocações-quase-solitárias do meu avô e dos companheiros republicanos históricos.

Sucedeu nascer um desesperante silêncio, agitei o gelo no copo, olhei a rodela de limão, murmurei para dentro de mim que o meu pai era capaz de ter razão, mas deixei o silêncio escorrer…

Que nada perturbe esse silêncio… ainda estou a ouvi-lo… e numa, difusa, vagamente avermelhada, imagem, admito ver o meu avô e o homem da bandeira…

UM VIVA A REPÚBLICA EM CASA DE RESPEITO

Um tasco em Almoçageme, no dia 5 de Outubro de 1966.

Mais tarde, esse tasco daria lugar à adega «Toca do Júlio», sucesso e sucesso, mais tarde mudou-se para a Estrada do Rodízio a caminho da Praia das Maças, o mesmo sucesso mas a perca de certo aconchego que num tasco é coisa fundamental.

Mas voltemos àquele 5 de Outubro.

Entramos no tasco e antes de s se pedirem os copos, o Helder Pinho lança um sonoro «VIVA A REPÚBLICA!»

Lança-se o tasqueiro numa corridinha ao longo do balcão e com cara de mau a dizer ao Helder, futuro D. Pipas:

- Aqui não se admitem coisas dessas, isto é uma casa de respeito.

sábado, 1 de outubro de 2022

PRIMEIRO DE OUTUBRO


 Num tempo longínquo, o primeiro dia de Outubro marcava o início das aulas nos liceus.

Lembra-se muito bem da apresentação no ginásio do Liceu Gil Vicente, feita pelo reitor, que também acumulava funções de representante da Mocidade Portuguesa.

Em casa, a avó já tinha feito a marmelada e o doce de tomate.

Nm dos seus mandamentos de vida, essa avó dizia que quando se fecha uma porta, abre-se uma janela.

Mas só se lembra da apresentaçao, também da certeza de que foi um péssimo aluno.

Quem estuda não guarda cabras, dizia Cassiano de Vilhena, professor de Ciências Naturais.

Coisas passadas.

Os livros são um vício e cada vez há menos livrarias.

Também já não há rentrées.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

OLHARES


O filme deste dia de há 48 anos, passa-lhe pela memória.

Alguns pormenores estão esquecidos.

Outros não.

Começara a chover, as ruas iam-se esvaziando, as gentes que correram, gritaram e caminharam por aqui e por ali regressavam a casa para ver o que a televisão apreto ebranco tinha para dizer.

Marcelo já se rendera a Spínola. O poder não caíra na rua como pretendera o ditador.

Foi quando encontrou o Pedro Foyos, naquele tempo o paginador gráfico do República, que o desafiou para uma volta pela cidade.

Subimos a Avenida da Liberdade, demos a volta para o Conde Redondo. Continuava a chover e o Pedro Foyos desafiou-o para um petisco e um copo de um qualquer vinhito. Apenas encontrámos na Luciano Cordeiro o Café Camacha aberto, mas prestes a fechar portas.

 Ao balcão bebemos um penalty de vinho branco e comemos um pastel de bacalhau.  Era o que nos podiam dar. Brindámos ao que aí viria.

De modo algum poderia ser pior do que os tempos que íamos vivendo.

Tenho uma ternura por esta lembrança de tempo ddeste  dia de há 48 anos.

Pequenos e simples momentos. Talvez os melhores.

Nunca o desfiei por aqui, nem em nenhum lado.

Envelhecer é isto.

Legenda: pintura de Douglas Gray

sexta-feira, 11 de março de 2022

PACIÊNCIA DE CHINÊS


Volta e meia ouvia a minha avó: «Para o aturar é preciso ter paciência de chinês.»

Quem ela tinha que aturar era o meu avô que sempre persistiu em fumar, no primeiro acordar da manhã e ainda deitado, os seus Definitivos.

Lá longe, a China avisa que o pacote de sanções à Rússia só agravará a situação que se vive na Ucrânia.

E adianta que a Rússia é um cliente como outro qualquer, donde o País do Sol Nascente necessitar de clientes, pelo que manterão todas as relações económicas com os russos, ao mesmo tempo, tomarão todas as medidas necessárias para salvaguardar energicamente os direitos e interesses legítimos das empresas e cidadãos chineses.

Se há coisa que os chineses têm, é paciência.

Já dizia a minha avó! 

domingo, 6 de março de 2022

FALAR DE LIVROS, DISCOS COMO CONVERSAS DE CEREJAS



 As conversas são como as cerejas, falar de livros e discos também.

Quando atrás citei o livro do António Cartaxo, «Ao Sabor da Música», lembro-me que andei à procura do Play Bach de Jacques Loussier, por ele citado, mas nunca o encontrei. 

Também não perdi muito tempo, é certo. Poderia socorrer-me da Amazon, mas não tenho Cartão de Crédito, nem dinheiro, diga-se, e Bach por Loussier perderam-se, varridos pelo vento, em qualquer esquina da cidade.

Mas lembro-me que comprei, naqueles anos 60, na velha Grande Feira do Disco,na Rua Forno do Tijolo, este Bach Street e lembro-me também  -oh! se lembro!... – que muitas vezes beberricando Whisky, o meu pai, eu pelo gin-tonic, ficávamos a ouvir este disco, naquele móvel com gira-discos e telefonia, que havia aqui em casa, o mesmo móvel em que o meu filho, hoje com quase 50 anos, com o ouvido no alti-falante, ouvia a Tourada do Tordo e do Ary dos Santos.

Se fosse hoje, estaríamos a falar da invasão da Ucrânia, e ainda há dias murmurei para dentro de mim «o que pensaria o meu  pai-marxista-leninista destes dias trágicos».

Claro, com poucas ou nenhumas possibilidades de errar, sei a resposta!...