O
povo e os trabalhadores sobrevivem apertados pela inflação e o custo de vida.
Luís Montenegro, com aquele sorriso sem nome, admite, para já, que não há motivos para alarme!
O
povo e os trabalhadores sobrevivem apertados pela inflação e o custo de vida.
Luís Montenegro, com aquele sorriso sem nome, admite, para já, que não há motivos para alarme!
É
o que acontece com Cristina Carvalho, filha de Natália Nunes e António Gedeão.
Ultimamente
tem-se dedicado a escrever sobre gente de que muito gosta: António Gedeão, Selma
Lagerlöf, Strindberg, Ingmar Bergman, W.B.Yeats e Paula Rego e agora MargueriteYourcenar.
Conhece-lhes
a obra, visita os locais onde nasceram, viveram as suas vidas, percorre as
dúvidas e angústias, bem como a percepção desse mistério insondável que é o
ímpeto de escrever como fuga à morte.
Correndo
atrás de Marguerite Yourcenar, Cristina Carvalho elucida-nos: «Eu não devoro
livros. Saboreio-os, apalpo-os, sublinho-os, dobro as pontas das páginas que me
interessam e quando começo a apaixonar-me por essa leitura, leio-os ainda mais
devagar. Quando acabo, muitas vezes volto ao princípio e isto pela minha
eternidade fora, que é um assunto desinteressante e incompreensível: a
eternidade de cada um de nós».
Liberdade e Paixão começa assim:
«Faz com que escreva ou não escreva. Pretendo invocar um qualquer tom de cinzas ou a ruga permanente desse olhar. Ou ainda sobre a aspereza ou a maciez, a rugosidade da pele das mãos. Faz com que escreva e descreva o lenço a cobrir o cabelo, a cabeça. A proteger-te de algum frio que possa existir. Ou sobre as roupas que usas, o comprimento da saia ou o desbotado da gabardine, a ausência de quase tudo. Também posso escrever sobre os passeios que vais dando ao longo do lago. Conheço os passos que dás sobre as pedrinhas e sobre as folhas caídas nos caminhos».
Marguerite
Yourcenar sabe, e di-lo claramente, que os seus livros não são de leitura
fácil, muito menos de compreensão fácil, tão pouco não é uma pessoa acessível.
«Não lhe interessam os
aplausos literários. Esquiva-se. Foge. Não deseja milhares de leitores ávidos,
ignorantes.»
«Aí está! Morrerei cheia de conhecimento antigo, daquele imutável, que os meus antepassados gregos, romanos, japoneses, orientais me ofereceram desde muito jovem. E também me ensinaram que não valho quase nada.»
Das
dificuldades da escrita de Yourcenar, dos seus medos, das suas angústias,
Cristina ajuda-nos a perceber algo mais.
Yourcenar
conta que herdou alguma fortuna: «Derreti-a em poucos anos com passeios
extravagantes, com mulheres, com homens e muita bebida. E brinquei e amei muito
nas noites da Europa: não conheci os dias, pois a luz servia-me para dormir.
Muitas vezes me perguntei quem era eu, afinal. Mas eu sabia que essa resposta
teria o seu tempo para aparecer. Sabia perfeitamente»
Há
gentes assim, repletas de loucas magias.
Lembro
o futebolista George Best: «Na minha vida gastei montanhas de dinheiro em
mulheres, vinhos e carros rápidos. O resto desperdicei…».
Um
dia, Best sintetizou exemplarmente a sua vida:
«Na América vivia numa
casa perto da praia. No caminho para lá, havia um bar, por isso nunca chegava à
água.»
Tempo
de fechar este O Outro Lado das Capas e voltar a Yourcenar:
«A partir de certa
idade comecei a ler profundamente e, sim, amei os livros, amei-os
apaixonadamente. E toda a vida viajei. E toda a vida li. E toda a vida escrevi.»
Marguerite Yourcenar: Liberdade e Paixão
Cristina
Carvalho
Capa: Carlos
César Vasconcelos
Relógio D’Água
Editores, Lisboa Novembro de 2025
Não. Os livros não se devoram. Os livros degustam-se.
Dá ideia de que um devorador de livros é um leitor cultíssimo,
variado, presente, sempre na crista da onda; alguém com um cérebro assimilador
e uma capacidade sempre esfomeada por livros.
Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?
E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?
Isso, ou menos que isso
uma noção de porta,
o projecto de abri-la
sem haver outro lado?
O projecto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?
Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?
Carlos Drummond de Andrade
Morreu
o pintor e ilustrador José Santa-Bárbara.
Entre outros trabalhos, fez algumas das capas para os álbuns de José Afonso.
Direcão: Henrique Monteiro
Colecção Mestres da Fotografia
Edição: Expresso, Lisboa 2008
Vale tudo:
desordem, ordem, lixo, colisão, violência, poesia, acaso, encenação, sonho,
razão, excesso, subjectivo, instantâneo, fixado na fotografia como no resto…
O mar invade Lisboa mas
por dentro
enquanto o vento enfeita
as filhas dos polícias
e há um vago frio nos olhos
mais dementes
destas tardes.
As crianças vestem
coloridamente
seu mórbido e inesperado
séquito.
Mas nas ruas da Raiva
nota-se uma abundância
palpável
um rio vagamente doloroso
um mar por dentro.
Nas lojas de fazendas
na menina da caixa
no fastio amarfanhado
dos porteiros.
Gotas marítimas notavam-se
no brilho das pulseiras
de uma amante
líquido miúdo mas brilhante
até nas varizes das peixeiras.
Há quem diga do sol
um sol insólito é bem certo
mas nota-se até na cauda dos insectos
piedosas solícitas gotas de humi ( l ) dade.
O mar invade tudo mas por dentro.
Armando Silva Carvalho em Lírica Consumível
O actor Jimmy Kimmel,
dois dias antes dos disparos no Hotel Hilton contra Trump & Cª, no seu
programa televisivo de humor, fez uma piada ao casal Trump.
O monólogo do comediante teve um sketch em que se simulava a presença do
Presidente e da primeira-dama no Jantar de Correspondentes da Casa Branca, e
nele o humorista saudou ficcionalmente a beleza da primeira-dama dizendo —“Sra.
Trump, tem um brilho como uma viúva de esperanças, ou se quiserem viúva
expectante".
No dia seguinte ao interrompido jantar, Melania Trump escreveu no X que Kimmel é “cobarde” e que a ABC devia tomar medidas, por seu turno Trump na sua rede TruthSocial que a piada de Jimmy Kimmel foi um "apelo à violência", rematando que deveria ser imediatamente despedido pela Disney e pela ABC.»
Jimmy Kimmel respondeu ao casal Trump esclarecendo que a piada pré-tiroteio “não
foi um apelo ao assassinato e eles sabem”
“Obviamente, era uma piada sobre a diferença de idades entre eles e a expressão
de alegria que vemos no rosto dela sempre que estão juntos. Era uma brincadeira
leve sobre o facto de ele ter quase 80 anos e ela ser mais nova do que eu. Não
era — de todo — um apelo ao assassinato."
Trump para além
de inculto e estupido, é um tipo indecente que nem sequer tem uma pontinha que
seja de sentido de humor.
Abençoados
cidadãos norte-americanos que presentearam o mundo com semelhante aberração!
«Luiz Pacheco envia-me um artigo que publicou em O Inimigo de 29 de Abril sobre o primeiro volume destes Cadernos. Melhor do que outros encartados críticos e observadores de olho de falcão, mostra ter compreendido porquê e para quem ando eu a escrever estas sinceridades. Ao postal e aos livros que também enviou, teve a delicadeza de juntar uma colecção de reproduções do Retábulo da Igreja de Jesus, de Setúbal. Só quem não conheça o Pacheco o julgará incapaz de atenções assim. Relendo O Teodolito, repassando os Textos Sadinos (o título é pouco feliz, o que ali está não tem nada que ver com o Sado), pensei: «Por que bulas infernais não está este homem traduzido em Espanha e outras partes?» Na verdade, andam aí uns quantos espertos a fingir de literatos marginais e de escritores malditos que nem chegam aos calcanhares do Pacheco, e prosperam, e são aplaudidos - enquanto uma das mais fortes expressões que conheço de uma vida e uma obra ao lado permanece desconhecida fora das fronteiras.»
José Saramago em Cadernos de Lanzarote, 2º volume
«Talvez seja o maior prosador da língua portuguesa,
talvez seja o mais corrosivo, aquele que maior número de inimigos tem, contudo
aqueles que o atacam talvez porque por ele foram mordiscados, não são
certamente os amadores transformados na coisa amada. Ser mordido por Luís Pacheco é ser vacinado contra o
grande mal da nossa literatura, a mediocridade a escrita piegas, a escrita a
metro para os prémios e outros afins.
Libertino, maldito, marginal, tudo do pior para uns e do melhor para outros, mas sobretudo um Anjo sobrevoando galáxias, rindo muito sendo muito feliz.»
João Carlos Raposos Nunes, contra capa de Textos Sadinos
«Eu não sou um marginal, porra. Sou um senhor.»
Luiz Pacheco numa entrevista a Pedro Castro em A Capital, Julho de 2005
Vernon Sullivan
Tradução e
Posfácio: Boris Vian
Capa: António S.
Colecção: Série Negra
A Regra do Jogo,
Lisboa 1982
- Posso levá-la a sair uma destas noites?, perguntou
ele enfim, orando
- É muita amabilidade sua, disse ela com um sorriso
incerto.
- Não, afirmou ele seriamente. Dá-me um grande prazer.
Ela suspirou.
- É engraçado… Não fazia ideia que os polícias fossem
como você.
- Aceito isso como um cumprimento, disse Cooper
corando ainda mais. Desculpe tenho de ir. Estou de serviço.
- Telefone, disse ela.
Segundo a BBC, Benjamin Netanyahu mostrou-se “chocado e triste” pelo incidente, enquanto o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Gideon Saar, pediu desculpas a “todos os cristãos que se sentiram ofendidos”.
Com tantos milhares de crianças mortas em Gaza, no Líbano e no Irão, atingidas
pelas bombas e balas de Israel, cujas forças armadas se arrogam o direito de
atingir escolas, hospitais, ambulâncias, jornalistas, de matar e matar civis
desarmados como se fossem alvos de prática de tiro, “a indignação e a tristeza”
de Israel está reservada a uma estátua de Jesus Cristo?
Não é porque ao Governo mais extremista de Israel lhe importe muito os
sentimentos dos cristãos – em 2023, Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança
Nacional israelita, dizia que cuspir em cristãos era uma velha tradição
judaica. O que importa ao Estado de Israel é não alienar o apoio do seu melhor
amigo nas relações internacionais, a superpotência que lhe vende armas e lhe
empresta a sua sombrinha política internacional para fazer o que quiser.
Num tempo de falta de memória e de passado reescrito ou esquecido, o Governo de
Israel e os judeus que o apoiam estão sempre a cometer o pecado da arrogância
de se olvidarem das lições da História. Porque se é longa a tradição
judaico-cristã, base da civilização ocidental, como tanto dizem, os judeus
esquecem-se que, quando é preciso um bode expiatório, o hífen se quebra como um
cristal e os judeus terminam pendurados de uma árvore como Leo Frank, enforcado
por uma turba muito americana que o foi buscar à cela.
Mesmo com a II Guerra Mundial e o nazismo, entre 1940 e 1946, várias sondagens
mostravam que os judeus eram considerados a maior ameaça para os Estados
Unidos, mais do que qualquer outra religião, raça, etnia, nacionalidade.»
Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.
Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.
Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.
Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.
José Carlos Ary dos Santos
Nestas coisas
trumpianas fica sempre a grande dúvida:
Encenação?
Bluff?
Oportunidade
para Trump dizer que nada disto aconteceria, na Casa Branca, se não tivessem
interrompido as obras no salão de baile?
Algo mais?
Virtudes da Cooperação
J. Dias Agudo
Biblioteca de
Cultura Cooperativa
Publicação
patrocinada pelo Ateneu Cooperativo e por algumas cooperativas de consumo e
produção, Lisboa, Março de 1964.
Não se quer ganhar, quer-se servir; não interessa por conseguinte tirar qualquer lucro para amontoar nos cofres ou para desbaratar irregularmente mais tarde. É uma instituição honesta onde as coisas se fazem com lisura e seriedade.
V.S.T. & ETC
««1. Entre vir dos Estados Unidos e voltar ao Rio de
Janeiro, tenho estado na Rua da Esperança, Madragoa, Lisboa. Um grande amigo de
um grande amigo cedeu-me, pelo preço de um quarto, o terceiro andar de um
prédio antigo, daqueles com grades de madeira antes da porta de casa. No quarto
andar viveu Saramago muitos dos seus anos pré-Nobel. Soube assim, ao chegar,
que Baltasar e Blimunda tinham nascido por cima da minha alcova, pequena e interior
como manda o dicionário. É uma informação de peso, mas quanto a livrinhos o que
penso todos os dias é que a uma rua de mim vive o Vitor Silva Tavares.
2. Houve uma era, já depois do paleozóico, em que
existiram editoras e livrarias em Portugal. Não conglomerados com modelos de
negócio género 25 por cento de desconto nas novidades porque é Natal, terra da
fraternidade (e já agora isso acaba com os derradeiros independentes), mas
editoras e livrarias uma por uma seguindo o seu caminho. É verdade, isto
aconteceu mesmo. E os jornais tinham cadernos literários. E chegavam cartas
escritas à mão. E uma por outra vez na vida essas cartas traziam um manuscrito
do Vitor Silva Tavares (sem acento agudo, que ele não usa).
3. (Ele diria cartinhas, porque nisso é como os
mexicanos: folhas brancas, caneta preta, uma letra quase escolar de tão
legível, nos antípodas dos hieróglifos de Eduardo Lourenço, que também mandava manuscritos
para a redacção do PÚBLICO, mas por fax, um artefacto da época.)
4. Um manuscrito do Vitor é um suplemento de ferro,
tomem lá, ó esquálidos. Qualquer textinho lhe sai uma beleza, como se saísse
assim da boca dele, pardal de muita conversa e muito livrinho. Em suma, o mais
antigo editor paralelo em Portugal é toda uma língua. Paralelo, e não
alternativo, porque uma editora paralela nunca se encontra com as outras, faz o
seu caminho ao lado. No caso do Vitor, ao lado e subterrâneo. Não é uma metáfora,
é uma morada: & etc, rua da Emenda, 30, cave 3.
5. Vem tudo isto a propósito do livro “&etc
— uma editora no subterrâneo”, iniciativa da livraria Letra Livre,
coordenada por Paulo da Costa Domingos e lançada ontem no Teatro A Barraca,
para celebrar 40 anos de resistência de Vitor Silva Tavares. Um livro quadrado,
como os mais de trezentos da & etc, só maior e mais espesso (declaração de
interesses: inclui uma entrevista que fiz ao Vitor em 2007 para o PÚBLICO, na
versão longa que só saíra online). Revela inéditos, textos, desenhos, cartas e
outros documentos, sem esquecer o auto de busca da Polícia Judiciária à edição
de “O Bispo de Beja”. Foi a única vez que Vitor Silva Tavares fez uma
reimpressão. De resto, quem tem os livrinhos da & etc guarde-os bem, não
haverá outros iguais. E quem não tem, procure os há muito tempo não esgotados:
conservam-se inteiros, sem o risco da guilhotina. O Vitor não faz livros para
os destruir.
6. “Amante de livros e radicalmente livre”, diz o
primeiro texto deste volume-celebração a propósito de Vitor Silva Tavares.
Radicalmente livre é direito e dever, todo um programa solitário que dá
trabalhinho, a começar pela liberdade de não trabalhar, ou de trabalhar sem
alimentar o mercado. As páginas que contam esta história estão aí, é comprar o
livro, não vou contar. Mas para quem não conhece a & etc, ou seja, em que
consiste a resistência, cito desse texto inicial: “A singularidade da & etc
reside não apenas no formato peculiar dos seus livros, verdadeiros objectos de
arte negra, na riqueza literária do seu catálogo, em que pontificam a poesia e
a escrita dissidente, mas também no seu modo de produção ímpar: todos os
títulos têm apenas uma edição, com excepção única para ‘O Bispo de Beja’, obra
apreendida e destruída em 1980 pelas autoridades democráticas da época; os
autores abdicam tacitamente de cobrar honorários pelos seus direitos autorais;
a tiragem, embora tenha oscilado face aos hábitos de leitura, é igual para
todos os livros, independentemente do autor em questão; existe uma total recusa
de subserviência aos poderes culturais; os livros são editados sem qualquer
apoio institucional e impressos em pequenas tipografias e as formas de promoção
do livro contradizem as práticas comuns do mercado: sem saldos, sem lançamentos
ou ofertas aos críticos.”
7. Não é um modelo de desenvolvimento nem uma receita
colectiva, mas o caminho de um só homem, com os laços que ele vai atando e
desatando, do tipógrafo ao ilustrador. Contraposta a este pré-Natal de abusos
de posições dominantes, quase uma espécie de guerrilha, a força de um
homem livre.
Alexandra Lucas
Coelho, Público, 24 de Novembro de 2013
(Texto
publicado, por aqui, em 16 de Outubro de 2015).
Este livro de
Adalberto Alves foi comprado num alfarrabista.
Dedicatória do
livro:
«Ao Senhor Manuel Passarinho oferece o autor, com
afecto e agradecimento»
Que terá
acontecido para o Dr. Manuel Passarinho ter mandado às malvas o afecto e o
agradecimento de Adalberto Alves?
A velha questão:
O livro foi
roubado da estante do Dr. Manuel Passarinho?
O livro foi
emprestado e não foi devolvido?
Se caso disso, os herdeiros venderam os livros por tuta e meia?
Em prisões baixas fui
um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.
Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
que Amor não quer cordeiros, nem bezerros;
vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
parece-me questava assi ordenado.
Contentei-me com pouco, conhecendo
que era o contentamento vergonhoso,
só por ver que cousa era viver ledo.
Mas minha estrela, que eu jágora entendo,
a Morte cega, e o Caso duvidoso,
me fizeram de gostos haver medo.
Luís de Camões em Sonetos
Mas encontrei, num velho número da revista Ler esta ilustração, da autoria de Luís
Miguel Gaspar, de um poema de Ruy Belo que se encontra em O Homem de Palavras:
Está hoje um dia de
vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos
meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus
versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o
vento dos cabelos
o vento do inverno o
vento do verão
O vento é o melhor
veículo que conheço
Só ele traz o perfume
das flores só ele traz
a música que jaz à
beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o
verdadeiro valor do vento
O vento actualmente
vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto
Na
manhã de domingo, pós os 52 anos do 25 de Abril de 1974, reproduzimos algumas
das centenas de cancões que elegem a data como um dia feliz e encimo o texto
com a imagem do I Encontro da Canção Portuguesa de 29 de Março de 1974, num
Coliseu a deitar fora e em que José Afonso, quando chegou a vez de actuar
disse:
«Os habituais
impedimentos que surgem nestas ocasiões, que aliás, são muito raras, obrigam-me
a ter de cantar uma canção que pelo menos pode ser cantada por todos nós, que é
a Grândola.»
Em
29 de Setembro de 2024, ainda lembrando os 50 anos do 25 de Abril, o Público, no
suplemento P2, publicou um trabalho de Sérgio B. Gomes, sobre o fotógrafo José
Carlos Nascimento. Nesse trabalho reproduzem-se várias fotografias tiradas no
dia 25 de Abril de 1974 e uma delas, a primeira desse dia, tirou-a enquanto
aguardava a chegada de uma colega sua, que entretanto apareceu em passo de
corrida e um grande sorriso, com as traseiras da Igreja da Graça em fundo.
Trabalhavam na agência de publicidade Praxis, Cooperativa de Estúdios Técnico,
com escritório/estúdio na Villa Sousa edifício onde existiu o Botequim da
Natália Correia.
Gosto
imenso desta fotografia e o suplemento está guardado nas páginas de recortes da
Biblioteca da Casa.
Reproduzo
a fotografia do Público e a imagem da exposição que José
Carlos Nascimento apresentou em 2024 com 50 fotografias do dia histórico,
tiradas desde a Graça, passando pelo quartel da legião na Penha de França,
pelas ruas de Lisboa até ao quartel do Carmo.
A
moça dirá ainda que foi o dia mais feliz da sua vida, como tantos de nós que
viveram este dia, e que são menos porque a lei da vida os tem levado.
A
alegria dos que sabem viver a liberdade que festejamos.
A Alegria de Abril.
André Ventura
«Cada
pessoa na rua hoje vai mais do que comemorar, resistir. Resistir a quê? À
manipulação da memória da revolução do 25 de Abril, à cuidadosa transformação
da guerra colonial numa designação geográfica, a “guerra da África”, ou na
“guerra no Ultramar”, a comparações absurdas entre abusos pontuais e muitos
milhares de actos de violência e humilhação dia após dia, ano após ano, que
duraram 48 anos. Já para não falar dos massacres, execuções sumárias, “heróis”
assassinos que se especializaram em atirar granadas incendiárias contra
mulheres e crianças.
Resistir a quê? Ao Chega. As manifestações do 25 de Abril este ano serão contra
o Chega, contra o novo ambiente político de crueldade e agressão, e contra o
ataque à “revolução miserável” feito por aqueles que gostavam da
ditadura e das suas violências, por uma série de motivos, nenhum nobre e que
esconderam pela censura, corrupção e prepotências quotidianas.»
«A minha ria é a do Douro do vinho e também a dos
muitos cursos de água do Alvão, serra que avisto desde casa e em cujos lameiros
verdejantes esvoaçam borboletas de todas as cores, como a muito ameaçada
borboleta-azul-das-turfeiras. No último domingo, segui-lhes o rasto,
desfrutando da sua beleza efémera e dos mistérios de outras espécies que
habitam o mesmo espaço, como a minúscula orvalhinha-redonda (Drosera
rotundifolia L.), uma plantinha carnívora com lindas folhas em roseta que
segregam uma substância viscosa para capturar insectos. Mesmo ao lado, a aldeia
de Lamas de Olo seguia na sua pacatez bucólica, já sem casas de colmo. É pena.
Deviam ter preservado, bem à vista, pelo menos uma ou duas como testemunho
histórico, para se perceber melhor a paisagem da miséria daquele outro tempo.
A ria de David Lopes Ramos, saudoso colega e amigo,
era a de Aveiro e na sua criação os barcos coloridos ainda não transportavam
turistas, só moliço para adubar as terras de areia. Era a mesma exótica pobreza
de Lamas de Olo e do resto do país, sobretudo do interior, vivida com medo e
sem esperança. Num caso como no outro, emigrar era o grande desígnio.
No dia 24 de Abril de 1974, tal como Vasco Lourenço e
Melo Antunes, duas figuras centrais do golpe e da posterior democratização do
país, David Lopes Ramos estava em S. Miguel, Açores, a cumprir o serviço
militar, como aspirante a oficial miliciano. Era ajudante de Vasco Lourenço e,
de algum modo, também lhe somos credores de podermos viver hoje em liberdade,
sem medo de regedores, de bufos da PIDE e da própria; e até de podermos dizer
mal de quem nos devolveu a dignidade e o sonho, como faz frequentemente o falso
cristão e proto fascista André Ventura, um filho ingrato da democracia.
Mal recebeu de Melo Antunes o célebre telegrama
enviado por Otelo — “Tia Aurora segue Estados Unidos da América 25, 3 da manhã.
Um abraço primo António.” —, Vasco Lourenço chamou alguns colaboradores, entre
os quais David Lopes Ramos, a quem, depois do jantar, perguntou: “Ó Ramos, você
sabe rezar?”. “Porquê? Porque me pergunta isso?”, respondeu-lhe David. “Porque,
se soubesse, mandava-o rezar!”, acrescentou o capitão. “Não me diga! Não me
diga que é hoje!”, exultou David, a tremer. “Sim, sim, é esta noite. Vamos
embora preparar tudo…”, confirmou-lhe Vasco Lourenço. Em memória de David, o
aspirante Ramos da Revolução de Abril
A partir das 3 da manhã, David Lopes Ramos foi para o
quartel e, contou Vasco Lourenço, “ficou agarrado à rádio, a ouvir tudo o que
era possível e a fazer-me relatórios da BBC, das rádios portuguesas, etc.”.
Nessa noite, o aspirante Ramos teve uma outra tarefa: acordar Melo Antunes, que
fora dormir para o casarão da sogra. “Eu fartei-me de telefonar toda a noite, e
nada. A certa altura, disse ao David: ‘Vá lá a ver se o consegue acordar e se o
traz’. Bem, atirou-lhe pedras contra a janela, acordou a vizinhança toda, mas o
Melo Antunes só me apareceu pelas sete ou oito da manhã, finalmente acordado
pelo telefone, que tocou toda a santa noite!”, recordou Vasco Lourenço.
Todos sabemos o que se passou em Lisboa e o que veio a
seguir. Por intervenção de Melo Antunes e Vasco Lourenço, David Lopes Ramos
viria a integrar o Movimento das Forças Armadas, tendo sido o adido de imprensa
de Vasco Gonçalves nos quatro governos provisórios que este general liderou,
entre Julho de 1974 e Setembro de 1975. Nesse tempo, era a David que todos os
jornalistas recorriam e “por quem tinham uma grande consideração e respeito”,
como recordou ao PÚBLICO o jornalista António Borga.
Após a queda do V Governo, David Lopes Ramos ingressou
no Diário de Notícias (DN). Por pouco tempo: ele e outros jornalistas foram
afastados logo a seguir ao 25 de Novembro de 1975. Saiu do DN, mas nunca mais
abandonou o jornalismo. Esteve ligado à fundação do jornal Diário e viria, mais
tarde, a integrar a equipa inicial do PÚBLICO, primeiro como subeditor de
secção Cultura, depois como editor da Sociedade e finalmente como crítico de
gastronomia e vinhos, primeiro na revista de domingo e a seguir no suplemento
Fugas, onde se consagrou como um dos mais respeitados e reputados críticos de
gastronomia e de vinhos do país.
David Lopes Ramos morreu no dia 29 de Abril de 2011 e
já não viveu para assistir à tentativa de reescrita da História por parte da
direita extremista, e não só. Imagino o que teria dito e pensado se tivesse
assistido ao debate televisivo entre Pacheco Pereira e o líder do Chega e à
tentativa deste de colocar no mesmo patamar os 48 anos da ditadura com os
excessos e desvios dos 19 meses que separaram o 25 de Abril de 1974 do 25 de
Novembro de 1975 — e até dos anos seguintes. Excessos e desvios próprios de
qualquer revolução e que a consolidação do processo democrático foi corrigindo.
Com uma irónica excepção: os únicos crimes violentos, com mortes, que ficaram
sem castigo até hoje, é bom lembrá-lo, foram cometidos por grupos ou movimento
de direita, como o MDLP, a que pertencia um dos ideólogos do Chega, Pacheco
Amorim.
André Ventura também deve colocar David Lopes Ramos no
mesmo saco dos “criminosos” da Revolução de Abril. Mas o líder do Chega teria
de nascer três vezes ou mais para poder equiparar-se-lhe em honestidade,
correcção e bondade. Mais do que um grandíssimo jornalista e crítico
gastronómico, David era um homem intrinsecamente bom. Tê-lo conhecido e ter
sido seu amigo foi uma das grandes dádivas que o jornalismo me deu.
A seu pedido, David Lopes Ramos foi cremado e parte
das suas cinzas foram depositadas no cemitério de Pardilhó, Estarreja, a sua
terra natal, e onde na próximo sexta, dia 1 de Maio, alguns amigos e a família
irão fazer uma romagem. “O meu irmão faz-me muita falta”, suspira Arménio, o
seu único irmão, 70 anos, cara chapada de David no que este tinha de mais
virtuoso. A outra parte das cinzas foi espalhada na sua adorada ria de Aveiro,
a que sempre voltava, para recordar os seus mortos e partilhar com os vivos o
prazer simples de uma caldeirada de enguias, um peixe grelhado acabado pescar
pelos artesãos da arte Xávega ou um galo caseiro assado no forno.
Um brinde à sua memória! E viva o 25 de Abril!»
Pedro Garcias no Público
«Entrados nos 52 do 25 (não é uma dança de números,
são os 52 anos do 25 de Abril de 1974, que hão-de completar-se no próximo
sábado), o mundo continua a afundar-se em cenários de opereta que tão depressa
nos lembram as distopias de Orwell como as delirantes acrobacias marxistas (de
Chico, Harpo e Groucho, não as do velho Karl). Foi preciso esperar 52 anos para
ouvir catalogar, em televisivo horário nobre, com bastante saliva e
fanfarronice, a nossa tão celebrada “revolução dos cravos” como “revolução miserável”,
coisa que Salazar, lá na tumba, terá decerto apreciado. Lembram-se daquela
antiga canção que Dalida cantava com Alain Delon, Paroles, paroles? Era um caso
de amor, aqui é de ressentimento e ódio. Mas, num ou noutro, são só palavras. E
não há palavras, mesmo as mais infames ou violentas, que apaguem a História.
Por mais que as gritem.
Abril, guerras mil – e há um ogre a querer dançar
Noutro palco, o planetário, estamos em pleno manicómio. Fixemo-nos numa
criatura, a que, por economia de letras, chamaremos ogre (nada que ver com
Shrek, pois este não é verde, anda mais pelos tons alaranjados; nem é muito
dado a atrair simpatias, excepto de acólitos e veneradores). Pois queria o ogre
ser visto como um campeão da paz. Até lhe deram dois prémios e tudo. Como
falhou na paz, atirou-se à guerra, trocando a paz das pombas pelo “pás” das
bombas. Nada que uma canção não tenha já dito, antes do ogre. Ouça-se Amélia
Muge em E viva a paz (1991): “E viva a paz e viva a paz/ p’ra mim, p’ra ti, cá
p’ró rapaz/ pás, pás, pás… pum!/ lá vai mais um!”»
Mário Sérgio Cortella
Legenda: imagem do filme Primavera Tardia de Yasujiro
Ozu
De
22 de Abril e até 30 de Junho, de sexta a domingo, das 10h às 18 horas, com
entrada gratuita, nos Pavilhões da Mitra, espaço da Santa Casa, a exposição
“Armas de Papel – Imprensa e Publicações Clandestinas (1926-1974)” . Esta
mostra do arquivo da Associação Cultural Ephemera cobre todo o período da
ditadura e todas as correntes políticas e ideológicas perseguidas, como o
republicanismo democrático, o anarquismo, o comunismo, o socialismo, o
catolicismo progressista ou o esquerdismo.
A
exposição revela a comunicação clandestina na luta contra o regime através de
uma coleção com origem em doações e aquisições, quer de instituições, quer de
pessoas individuais, algumas das quais tiveram um papel relevante na própria
produção e distribuição de materiais clandestinos. Presentes na Mitra estão
documentos do espólio de Carlos da Fonseca (doados pela Fundação Gulbenkian),
de Francisco Martins Rodrigues, de José Miguel Carvalho, de José Pacheco
Pereira, aquisições de coleções do Avante!, entre outros.
Emigrantes
Shaun Tan
Kalandraka Editora
Portugal, Matosinhos, 2011
O que leva tanta gente a deixar tudo para trás e a partir rumo a um país misterioso, a um lugar onde não têm família, nem amigos, onde tudo é desconhecido e o futuro uma incógnita?
«Fernando Leonardo sabe
o que é pescar nesses tempos de miséria em que as crianças fugiam da escola
para esperarem os barcos e comerem os restos do que os pescadores cozinhavam no
mar, uma sopa, um guisado, o peixe acabado de escamar. Cozinhavam num tacho de
alumínio, num fogareiro à popa do barco, onde não chegava água, aí se guardava
também o pão, o sal, o azeite. As lanchas eram de vela latina, pescava-se das
cinco da manhã às três da tarde. Não é como agora, dois homens é o suficiente,
às vezes um, nesse tempo eram companhas de cinco ou seis homens, quatro ou
cinco no mínimo, quatro aos remos, um ao leme, tudo à força dos braços, sem
avisos meteorológicos, sem GPS nem sombras, sem guinchos de alar, vinha um
temporal e perdiam-se as redes, em havendo nortada não se rompiam avante,
içava-se a vela, metia-se um ou dois riços e ia-se bordejando, bordo de mar,
bordo de terra, a direito, ia-se à Praia Verde ou Cacela, bordo da terra para
lá, bordo de mar para cá, tudo à força de braços, eram outros tempos.»
José Carlos Barros em Os Filhos de Monte Gordo
Para além das belíssimas letras de canções que compôs, José Luís Tinoco
trazia ainda dentro de si um exigente e poderoso poeta, mais noturno talvez do
que o resto da sua obra, mas mais perto também da autenticidade de quem
considera, de olhos enxutos, o balanço de uma vida.
A poesia de José Luís Tinoco, de firme apuro formal e sábio
desenvolvimento, isenta de quaisquer fragilidades ou facilidades, apresenta-nos
um mundo distópico e carregado do seu próprio vazio, um mundo cinzento onde
perseguimos em vão as brasas cintilantes das memórias. Elas apagam-se, as
brasas, tão logo as alcançamos, mas conseguimos entrever, por detrás da cinza,
o intenso mundo perdido para que nos chama esta poesia.
E são muitas as memórias que se deixam entrever. Mesmo no meio da mais
cinzenta paisagem, é impossível perder-se o apelo da vida. Porque escrever é
triunfar do vazio e afirmar as cores que resistem para além do cinzento e da
perda.
"E assim nos promete o poeta:
amanhã vou encontrar-te entre as raízes
e o que sobrar da respiração da noite
junto às nascentes
onde bebem os sobreviventes do sol e dos temporais
descobrir-te nesse vago rumor de vidros e de estrelas
que se move sobre as pedras
e só agora começo a entender
nítido azul que há-de cobrir o resto dos teus dias”
E a poesia torna-se nessa intensa e concentrada procura do azul, que
nos faz continuar a poder acreditar na vida.
Assim, a poesia de José Luís Tinoco só a uma primeira e menos atenta
leitura nos parecerá cinzenta e disfórica. Toda a sua obra poética, ainda que
filha da melancolia e da bílis negra que, segundo Aristóteles, carateriza o
génio, constitui um forte apelo à vida, que faz com o seu canto regressar as
cores à paisagem mais mortiça e seca que o poeta possa evocar. E esta
alternância da melancolia da perda com a maravilha da criação é o motor que
alimenta a poesia e é por isso que podemos aqui dizer, com o poeta Manuel
Gusmão:
“Contra todas as evidências em contrário, a alegria.”
É que, se não há vertigem para quem conhece os abismos, como nos ensina
o nosso poeta, ele tem presente também a advertência de Nietzsche: “Quem ama o
abismo precisa de ter asas.”
E não faltaram a José Luís Tinoco as asas da poesia, como ele bem sabe.
Por isso este livro de amadurecida e escorreita poesia, em que vemos emergir
uma nova e original voz poética, na sua plena capacidade, nos agarra de
surpresa para não mais nos largar.
Nesta dolorosa
despedida, são estas as palavras que deixo à memória do arquiteto, músico,
poeta e grande homem da nossa cultura José Luís Tinoco.»
Luís Filipe Castro
Mendes no Diário de Notícias
A partir desse dia
poderíamos ter começado a aprender a crescer
e a desafiar os enigmas puríssimos da palavra liberdade - no auge da paisagem
a ave indócil a que não renunciámos
é um símbolo fortíssimo contra os símbolos precários, os malogros
antigos,
a fome a que nos querem condenados
sempre que a morte ronda e o exílio
dói
como um cravo recentemente apunhalado.
A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a enfrentar o medo
que durante tanto tempo nos manteve separados
sem que soubéssemos como e quando acabaria – na terra e no amor
brilham profundamente as lágrimas dos pobres
e o sangue é uma flor misteriosa
que floresce de súbito
quando um grito se ouve no deserto
e uma gaivota volta
para nos contactar.
A partir desse dia poderíamos ter começado a distribuir o coração
e a partir nesse barco em busca de límpidas aventuras
onde enfeitássemos a vida com sonhos realizáveis
e a solidão fosse completamente impossível – o silêncio abria-se
num manancial de palavras profundamente comovidas
[que nos enchiam de ternura
e nos aproximavam
dos incontáveis registos da fraternidade, a noite
era expulsa para sempre
e os braços davam-se e ardiam.
A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender que a felicidade
é algo muito mais tangível do que o que nós pensávamos
se se constrói pedra a pedra e palmo e a palmo se conquista
quando uma vontade solar e a solidariedade
não deixam ninguém ficar desprevenido – o assombro
principia a exercer o seu poder admirável, chega como
uma chuva benigna com o perfil da paz, tem o odor
interminável
da alegria.
A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a conjugar um futuro
um pouco mais perfeito, a erguer
a cabeça, a defendermo-nos
das múltiplas armadilhas que o ódio arma –
[entrávamos pela manhã
ainda com maior vitalidade
e com um pouco do azul da primavera progredíamos
como um par de namorados:
a proliferante espontaneidade dos seus beijos
transformaria o mundo…
A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender que a frescura
é um bem vertiginoso que é necessário preservar cada vez mais
e que não basta a um homem
o benefício das mãos limpas perante a enternecedora figura de esperança
quando os lobos são os mais acérrimos inimigos da exclusiva claridade que há
nas praias
e com falsos dentes de oiro esperam um mínimo descuido
para que possam destruir de um só golpe os sonhos e a beleza
de quem abre as portas de par em par a bens muito
[maiores
para que a volúpia entre e alvorece o ar.
A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a agir conclusivamente
sobre o passado, a prevenir
o mal do desencanto.
Amadeu Baptista em Poemabril
Antero de Quental
Colecção Tempo Social
nº 15
Capa: Mário Andrade
Padrões Culturais Editora, Lisboa, Novembro de 2011
Finalmente, do espírito guerreiro da nação conquistadora, herdámos um
invencível horror ao trabalho e um íntimo desprezo pela indústria. Os netos dos
conquistadores de dois mundos podem, sem desonra, consumir no ócio o tempo e a
fortuna, ou mendigar pelas secretarias um emprego: o que não podem, sem
indignidade, é trabalhar! Uma
fábrica, uma oficina, uma exploração agrícola ou mineira, são coisas impróprias
da nossa fidalguia.
VELHOS RECORTES
O que aqui se publica, é uma Carta ao Director do Público enviada pelo leitor José da Cruz Santos que, quando o 25 de Abril fez 50 anos, num qualquer momento de inquietação, de desesperança, entendeu que outros leitores do jornal, deveriam conhecer o que lhe ia no pensamento.
Passou um ano.
Que pensará o leitor José da Cruz Santos?
O regresso com estrondo de Pedro Nuno Santos ao Parlamento, após uma
derrota eleitoral que, em tese, recomendaria uma longa travessia do deserto,
está aí para mostrar os inegáveis atributos políticos do ex-líder socialista.
Mas demonstra também a sua desadequação a um partido com as características
históricas do PS. O regresso estrondoso
de Pedro Nuno Santos
Por agora, o interesse que gerou este regresso e o tom das reações que provocou são um bom barómetro, e
demonstram que Pedro Nuno Santos estará para o PS como no passado Pedro Santana
Lopes esteve para o PSD. Um enfant terrible que não deixa ninguém
indiferente, concentra as atenções e revela gosto pelo combate político.
Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem
morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quanto tento
o magro invento de um
sonho
todo o inferno me vem à
boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
Escrevo.
Mia
Couto
Direcão:
Henrique Monteiro
Colecção
Mestres da Fotografia
Edição:
Expresso, Lisboa 2008
Em fotografia há sempre uma dimensão que
ultrapassa a aparência. É o que eu chamo o invisível ou, se preferir, a
atmosfera.
Quando o meu corpo
apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o
céu e o mar,
E como hoje igualmente
hão-de bailar
As quatro estações à
minha porta.
Outros em Abril
passarão no pomar
Em que eu tantas vezes
passei,
Haverá longos poentes
sobre o mar,
Outros amarão as coisas
que eu amei.
Será o mesmo brilho, a
mesma festa,
Será o mesmo jardim à
minha porta,
E os cabelos doirados
da floresta,
Como se eu não
estivesse morta.
Sophia de Mello Breyner
Andresen
De adiamento
em adiamento, Donald Trump vai mostrando ao mundo que se meteu numa guerra com
o Irão sem cuidar que aquela gente, quando acossados, é capaz de tudo e não é o
constante despejar de misseis e drones
que os fazem recuar.
Poucas horas
antes do findar da actual trégua, Trump avisou que os militares
norte-americanos estavam desejosos para entrarem em acção.
Através da sua rede social, Truth Social, o Presidente dos Estados Unidos anunciou que prolonga o período de cessar-fogo, que terminaria dentro de poucas horas, "até que os líderes e representantes do irão consigam chegar a uma proposta".
Entretanto as
autoridades militares norte-americanas pediram hoje o investimento de dezenas
de milhares de milhões de dólares no próximo ano fiscal em drones,
sistemas de defesa aérea e caças, que têm sido peças-chave na guerra com o
Irão.
No âmbito da
iniciativa do Presidente Donald Trump para aumentar as despesas com a defesa
para 1,5 mil milhões de dólares (1,3 mil milhões de euros, à taxa de câmbio
actual) no orçamento de 2027, o Pentágono quer triplicar as despesas com drones e
tecnologias relacionadas para mais de 74 mil milhões de dólares e investir mais
de 30 mil milhões de dólares em munições mais críticas, incluindo interceptores
de mísseis, cujos stocks se tornaram criticamente baixos durante a guerra
com o Irão.
As
autoridades militares afirmaram que o plano de despesas foi desenvolvido antes
do conflito no Médio Oriente. Também não discutiram quanto irão solicitar em
fundos adicionais para a guerra, o que seria um acréscimo ao aumento das
despesas de defesa já solicitado pela Casa Branca para o próximo ano fiscal.