sábado, 11 de abril de 2026

POEMAS AUTOGRAFADOS


José Gomes Ferreira é o único autor que tem 3 livros publicados na Colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora.

Em 20 de Março de 2025 apresentámos o Poema Autografado da Poesia I , no dia 21 de Março de 2026 apresentámos o da Poesia II e hoje apresentamos o da Poesia III.

Na Poesia III encontro os poemas do Zé Gomes de que mais gosto.

Temos por lá «Eléctrico», poemas de 1943 – 1944 – 1945, «Província» 1945 e «Café».

Zé Gomes o poeta de andar a falar sozinho pelas ruas de Lisboa, pontapeando pedras e José Manuel Mendes fala da mágoa de não o considerarem neo-realista:

«O Mário Dionísio, que tinha sido e se manteve, até ao fim da vida, uma referência do movimento em apreço, um crítico finíssimo e escrupuloso, tinha as suas reservas, expressas em textos bastante conhecidos que não vale a pena aqui reproduzir. Mas aquela mágoa, uma mágoa muito mais encenada do que real, que o Zé Gomes alardeava, por não ter sido considerado neo-realista numa época de neo-realismo, mágoa do avesso, uma espécie de enunciação saboreada de singularidade, apenas sublinhava o quanto a sua obra era contaminada não só pelas referências finisseculares  a que aludi, também por uma tangência surrealizante, no Eléctrico notória, entre experimentações e ousadias de vária índole.»

E é este o Poema Autografado de José Gomes Ferreira:

 

Dia de chuva na cidade

triste como não haver liberdade.

 

Dia infeliz

com varões de água

a fecharem o mundo numa prisão.

E alguém a meu lado com voz múrmura que diz:

“está a cair pao.”

 

Ah! que vontade de gritar àquela criança seminua

sem pão, nem sol de roupa:

“Eh pequena! Deita-te na rua

e abre a boca…”

 

(Dia em que urdo

este sonho absurdo.)

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