segunda-feira, 20 de abril de 2026

AS PALAVRAS LENTAS DE UMA CANÇÃO


Que elas, cadentes estrelas dos bairros de sombra, soltem cabelos e rendas e falsas joias porque a vida é apenas este comboio sem destino nem estações, gritando com esta música sobre as cabeças trepidantes. Já poucos se demoram na contemplação de uns olhos que traziam o mistério dos bosques e dos lagos, ninfas e duendes que perseguiam um homem até aos labirintos da insónia. Agora, quase tudo se desprende e não posso, é verdade, não posso prender os meus dedos nos teus, não posso murmurar as palavras lentas da minha canção. Não posso perguntar: qual é o teu nome, a tua casa, a tua história? Não posso perguntar nada, fazer nada. Sei que de trago em trago vou abrindo uma clareira de medos onde só a minha sombra vai medindo os passos do Sol. Vejo, para trás dos ombros que se desarticulam, um rosto perplexo entre as nuvens de fumo. Soubesses tu, rosto perdido, as raízes do meu desastre e não virias aqui, a esta hora, balbuciando uma prece ou uma maldição. Mas não sabes. Não conheces o fulgor que me abandona, os nervos rebentando à medida das marés que nos empurram para os portos nocturnos, no derradeiro naufrágio. Não conheces o impulso que nos atira contra os recifes quando já não somos mais do que um velho que perdeu o Norte, um porão vazio que os fantasmas do mar que é esta vida visitam com enormes letreiros luminosos: «Foste príncipe, adorador, amante. O Tempo passou. Os teus olhos ficam. Elas giram à tua volta. O teu corpo fica. Já não se move.»

José Agostinho Baptista, de uma crónica na Ler, Novembro de 1997.

Sem comentários: