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sexta-feira, 1 de maio de 2026

1º DE MAIO À MINHA MANEIRA


De repente, recordo-me de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.

José Gomes Ferreira em Intervenção Sonâmbula

Legenda: Retrato de José Gomes Ferreira de Ofélia Marques.

sábado, 21 de março de 2026

POEMAS AUTOGRAFADOS


José Gomes Ferreira é o único autor que tem 3 livros publicados na Colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora.

Em 20 de Março de 2025 apresentámos o Poema Autografado da Poesia I e hoje apresentamos o da Poesia II.

Chove…

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove…

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Fernandes Fafe escreveu:

«O Fafe proclama: «José Gomes Ferreira é o meu maior amigo! José Gomes Ferreira é o meu maior poeta».

Hoje, lá ninguém lê José Gomes Ferreira. Os que não o fazem, perdem algo que nem podem calcular.

Como leitor fiz descobertas sem mapa, sem bússola, lembro José Gomes Ferreira, José Saramago, mais o Saramago que o Zé Gomes.

Havia a biblioteca do meu pai, havia os suplementos literários, quase todos a publicarem-se à quinta-feira.

Líamos os críticos, colhíamos orientações que eram, ou não, seguidas, mas orientações.

Lembro Eduardo Prado Coelho que terá sido, por aqui, o último moicano da crítica literária. 

O Eduardo Prado Coelho era o Eduardo Prado Coelho, como em tempos recuados o João Gaspar Simões era o João Gaspar Simões.

Assim como uma espécie de instituições.

Quando morreram ficámos a saber da falta que nos ficaram a fazer, depois de, amiúde, termos andado a chamar-lhes todos os nomes e dando de barato que por vezes, um e outro, se punham a jeito.

Francisco Vale, que é editor da Relógio d’Água, também jornalista, também escritor, lembra Pierre Bayard que escreveu um livro, Como Falar dos Livros Que Não Lemos.

Deixa no ar que os críticos, por vezes, falam dos livros que nem sequer leram.

Será?

Também nos diz dessa coisa horrorosa de os críticos darem estrelas aos livros que criticam: «a classificação que se justifica nos hotéis, como questão de conforto dos quartos e serviço de bar, e que talvez faça sentido nas estrelas do Guia Michelin, é de todo inadequada para leitura e ensaio.»

Pegando no Expresso, no Público, ressalta que nas poucas críticas (?) que fazem o que por ali se nota é um certo amiguismo, a influência que as editoras mexem e remexem.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

NESTE DIA


Neste dia, estamos no dia 2 de Maio de 1968, no 4º volume dos Dias Comuns de José Gomes Ferreira.

 Dois dos escritores que pertencem ao Panteão Literário da Biblioteca da Casa, encontram-se hoje: José Gomes Ferreira e José Saramago.

Para preparar um texto sobre os cafés de Lisboa, de que José Gomes Ferreira foi assíduo frequentador, dei com uma entrada do 4º Volume dos Dias Comuns, referente ao dia 2 de Maio de 1968, em que o Zé Gomes assinalava o número especial da Seara Nova que registava os 50 anos da sua actividade literária, deste modo:

«O Fafe proclama: «José Gomes Ferreira é o meu maior amigo! José Gomes Ferreira é o meu maior poeta».

Comoveu-me. (Sintoma de velhice?)

Por fim, José Saramago que mal conheço, termina assim o seu depoimento: «Ao lado da poesia de José Gomes Ferreira está o poeta que ele é: parece um pleonasmo, uma redundância, talvez um lugar-comum, um dizer-por-dizer. Pois muito se engana quem o julga.»

O que é curioso é que, àquela data quase se desconheciam («José Saramago que mal conheço»), («José Gomes Ferreira a quem mal conheço, a quem nada devo senão a alegria e o conforto de o admirar»).

José Gomes Ferreira morreu a 8 de Fevereiro de 1985.

José Saramago ganhou o prémio Nobel em 1998.

De certeza garantida o Nobel teria dado uma enorme alegria ao Zé Gomes.

Fica aqui o depoimento de José Saramago sobre José Gomes Ferreira publicado na Seara Nova nº 1471, referente a Maio de 1968:

                   

Fomos em busca do depoimento que José Saramago escreveu para a Fotobiografia de José Gomes Ferreira, organizada pelo seu filho mais velho, Raúl Hestnes Ferreira

Para a cópia que reproduzimos, servimo-nos do aquivo da Fundação José Saramago:

«Em Maio de 1973, o suplemento literário do jornal Diário de Lisboa publicou uma entrevista ao poeta  José Gomes Ferreira (Porto, 1900 – 1985). Décadas depois, José Saramago escreveria um texto contando que fora ele o autor dessa entrevista que não aparecia assinada. Contou também lembranças e os ensinamentos que guardava daquela conversa realizada há 50 anos.

José Saramago no papel de entrevistador

Saber a idade que José Gomes Ferreira ia cumprindo era facílimo, só tínhamos de pensar nos algarismos das unidades e das dezenas do ano em que estivéssemos. Mas era difícil acreditar que em 1973, por exemplo, ele já enchera 73 anos de vida. Podia-se admitir, sem demasiada discussão, que aquelas rugas, por serem as cabidas, e aqueles cabelos, por terem branqueado, mais ou menos concordassem com o registo do calendário, mas isso era só enquanto elas repousassem e eles esperassem o vento que infalivelmente os haveria de revolver. Então os números, os da idade e os do ano, desandavam, corriam velozmente para trás, e em menos tempo do que leva a contá-lo transfigurava-se o José Gomes Ferreira, tornado outra vez em homem novo, em adolescente entusiasta pronto a correr ao Batalhão Académico Republicano para realistar-se, em menino a olhar fascinado o deslizar de uma gota de água na vidraça, e sempre, em todas as circunstâncias, iluminado por aquele fundo de incorruptível e desconcertante inocência que iria ser, por toda a vida, a sua mais leal companhia.

Não foi casualmente que mencionei acima o ano de 1973. Trabalhava então na redação do Diário de Lisboa, onde, além de exercer a espinhosa e labiríntica função de opinante em tempos de censura, me esforçava, creio que com alguma ventura, por coordenar e fazer publicar todas as semanas as dezasseis páginas de um suplemento literário. Fiquei a dever essa fortuna a quantos colaboradores, em muitos casos por simples gosto pessoal, ou a câmbio de remunerações insignificantes que só o mesmo gosto lograva tornar aceitáveis, generosamente me abasteciam de material obviamente variável na qualidade, mas sempre empenhado, e por mim agradecido. A par dos habituais artigos e críticas, a par dos ensaios, dos poemas, dos contos, o suplemento literário daquele desaparecido Diário de Lisboa foi também palco de algumas das mais suculentas polémicas da época… E, claro está, havia as entrevistas. Em geral, por falta de tempo, sobretudo por falta de jeito, não era eu a fazê-las, mas alguma forte razão, que sou agora incapaz de recordar, me levou a chamar a mim a responsabilidade de entrevistar o José Gomes Ferreira. Que as minhas artes de entrevistador não eram de extremos, ficou logo demonstrado na calina questão inicial que hoje me faz encolher de vergonha: “Tem algum método de trabalho?”, foi a pergunta. À batida ridiculez da questão quis o poeta responder com paciência exemplar, a paciência de quem já tinha visto e ouvido muito do mundo. Disse ele: “Com mais de meio século de vida literária tive, como é óbvio, não um, mas vários métodos de trabalho. E até um método de preguiça com que construí as linhas fundamentais do meu trabalho literário. Pois nos anos de 20, de 30, de 40, etc., trabalhava num ofício que poucos contactos tinha com a literatura, agarrado a uma moviola de escravo. A minha vocação de escritor, que só à custa de muitos sacrifícios e teima consegui preservar, exerci-a nos intervalos desse trabalho, aproveitando a preguiça das horas de descanso para rabiscar papéis, papelinhos e diários, sempre com a sensação de que estava a roubar tempo e dinheiro ao meu bem-estar e ao da família. Era, em resumo, um escritor de Horas Roubadas. Valia-me também o mês de férias anuais em que tentava pôr em ordem os versos rabiscados durante o ano, ou cumprir alguma encomenda que ousava muitas vezes aceitar com uma coragem que ainda hoje me deixa pasmado.

Por exemplo, o prefácio às Folhas Caídas de Garrett escrevi-o em quinze dias de férias passadas em casa do João Cochofel, no Senhor da Serra”. “E hoje?”, perguntei, surpreendido por tal abundância de informação em troca da mais corriqueira das perguntas.

“Bem. Hoje abandonei a moviola, estou reformado, vivo quase exclusivamente dos livros e das minhas colaborações nos jornais e fui obrigado a estabelecer um método de trabalho adaptado à minha idade, sem horários, claro. (Mesmo nos tempos do trabalho-tortura sempre me defendi dos horários.) Actualmente o meu método resume-se a evitar escrever de noite, para escapar às insónias. Não tive outro remédio senão habituar-me a trabalhar de manhã, servindo-me, como já disse, dos materiais que reuni pacientemente durante os árduos anos de preguiça. À tarde, leio, converso com os amigos nos cafés, visito os editores e à noite volto a ler e, às vezes, até a jogar as cartas, para me deitar o mais tarde possível. Pois contínuo a ser noctívago, embora transpusesse as vagabundagens para o corredor da minha casa onde ando quilómetros e quilómetros de ruas desertas imaginárias”..

A pergunta que lancei a seguir – “Obedece ou cumpre conscientemente qualquer ritual que considere propiciatório do trabalho?” – continha a menos original de todas as curiosidades possíveis, certas e prováveis, mas foi tão generosamente atendida como a primeira: “Rodeio-me de livros, de pastas, de apontamentos, de Diários, de cadernos, de improvisos e todo esse caos de papel de que lhe falei e donde arranco, ou tento arrancar, as linhas harmónicas da criação do meu mundo. Porque, como sabe, o que é difícil é criar o caos. Aliás, nos últimos tempos, ensaiei um novo método de criá-lo. É o que eu chamo, no calão íntimo do meu laboratório-oficina, a planificação da cabeça. Assim: estendo na mesa uma folha de papel de máquina e começo a cobri-la, ora em linha recta, ora obliquamente, umas vezes em baixo, outras ao lado, palavras, frases, desenhos mal feitos, pensamentos, ideias, tudo o que me acode à cabeça, que ligo, desligo, formo, deformo e risco, até apurar não sei o quê, quase sempre coisa nenhuma. Porque o que este jogo tem de mais fascinante é o parecer que não serve para nada, pelo menos imediatamente. Só mais tarde, quando junto esses mapas e os analiso, descubro coisas extraordinárias que me sugerem ideias importantes. Flores incríveis enrodilhadas num silvado de teias de aranha incoerentes que depois simplifico em frases e versos aparentemente fáceis. Planificar o cérebro – eis a minha última descoberta”.

Percebia que para José Gomes Ferreira as questões propostas lhe eram de certa maneira indiferentes, que poderiam ser repetitivas, aventureiras, ingénuas, mesmo absurdas, ele se ocuparia de que as respostas lhes dessem sentido. “Emenda, reescreve, ou fixa-se na forma original? Por outras palavras: é um elaborador, ou um impulsivo?” perguntei. E ele respondeu: “Como se subentende do que já disse, sou ao mesmo tempo um impulsivo e um elaborador.

Improviso em rajadas, nos tais papelinhos. E depois trabalho-os com afinco paciente e teimoso, às vezes durante anos. Sim. Corto, emendo, reescrevo, copio, recopio. E até às vezes conservo religiosamente a forma inicial. Sem tocar na mínima palavra para não desmoronar o poema. Gosto também de trabalhar em coisas diversas na mesma ocasião. Agora, por exemplo, publicada a Poesia-V, em que o século vinte continua a viajar em mim, preparo quatro livros. A Poesia-VI, que encerrará porventura o meu ciclo poético, O Sabor das Trevas, longa narrativa alegórica, Gaveta de Nuvens, compilação dos meus escritos de aparência crítica, e Face em espelho torto, biografia inexacta de um homem exacto. O Sabor das Trevas já vai na segunda versão. É um livro difícil. Uma espécie de João Sem Medo nocturno numa atmosfera insólita de realismo fantástico”.

Para não variar, a pergunta seguinte – “Considera que progrediu desde que começou a escrever?’» também viria a ser salva pela resposta: “Como é natural, a experiência da vida enriqueceu-me (a outros empobrece) e, sentindo-me mais rico, a minha linguagem de raiz barroca simplificou-se, embora cada vez escreva com mais dificuldade e suor. Mas (em arte não há progresso, há às vezes traição) continuo basicamente o mesmo de sempre, a cantar o que me apetece, ou o que possa apetecer-me cantar, cada vez mais livre e ajustado à minha sinceridade”. “Mas há quem o considere sectário…”, insinuei, e logo a resposta: “Nunca o fui nem sou. A não ser que se queira chamar sectarismo à intransigência e fidelidade visceral ao que há de mais profundo em mim mesmo: ao que penso, ao que sonho, ao que desejo, ao que não acredito…”.

Continuou a ser assim, sempre, na Revolução, depois dela, até aos últimos dias de vida. Numa carta datada de 23 de Abril daquele ano e referindo-se a esta entrevista, pedia-me insistentemente que recomendasse aos revisores do jornal que não lhe tirasse o não das palavras finais. Ele lá sabia porquê…»

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

SOLTAS


 Jorge de Sena.

Um dos mais extraordinários intelectuais portugueses.

Teve que se exilar, onde passou uma autêntica vida de cão.

A leitura de alguns diários de escritores seus contemporâneos, os seus próprios diários, a correspondência com José Augusto França e Sophia, mostram um Jorge de Sena de uma verticalidade e honestidade intelectual tão pouco existente entre os seus pares. 

Também um homem amargo.
Numa carta a José Augusto França: "eu sempre detestei o convívio de chacha to relax from work. O meu trabalho não é trabalho, é vida - não preciso to relax dele, a não ser falando das tantas coisas que me interessam."
José Gomes Ferreira, num dos seus "Dias Comuns" refere a indignação de Sena com um crítico, manda-lhe o recorte, que fora injusto para com Irene Lisboa. E comenta: "Só me espanta o seguinte: como é que o Jorge de Sena, no meio dos seus versos, das suas lições, dos seus estudos literários, dos seus contos, dos seus romances, das suas leituras, da sua correspondêcia, etc.,etc.,etc., - ainda arranja tempo para esta vigilância infatigável das pequeninas injustiças? (As injustiças, para as sentirmos nos outros, temos de senti-las primeiro em nós, no sangue do nosso espirito insultado!) Sim. Admiro sinceramente Jorge de Sena - até porque impõe como virtudes o que nos outros soaria a defeitos. E de súbito compreendo o motivo dessa autoridade. E de súbito compreendo o motivo dessa autoridadea: o afinco ao trabalho. Jorge de Sena precisa desse trabalho constante como eu preciso de preguiça. (Preguiça para coisa nenhuma)."

É uma pena que este "país de sacanas" teime em não conhecer a sua obra e o seu exemplo. 

1.

«Neste abençoado país, todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado, a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos talentos! De resto, todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta, portanto, este facto supracómico: um país governado com imenso talento que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!»
Eça de Queirós  em Os Maias.

2.

A lista de 37 detidos pela Polícia Judiciária no âmbito da operação que desmantelou as chefias do Grupo 1143 tem, pelo menos, três nomes de militantes do Chega que já foram candidatos pelo partido de André Ventura em eleições. Também um sargento da força aérea, um polícia do comando de Setúbal ,um profissional de saúde, três militantes ou ex-militantes e candidatos do Chega, dois candidatos pelo partido de extrema-direita Ergue-te e PNR, Participantes em mesas de voto em diversas eleições. Um condenado por furto, um jogador de rugby com processos disciplinares por agressões, um membro dos Super Dragões condenado num processo por causa de um plano de intimidação que culminou em agressões  e estão indiciados por crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência.

3.

No fim de 2025 mais de 1,5 milhões de pessoas não tinham médico de família.

4.

«No autocarro, uma mulher conta a outra que perdeu o marido há pouco tempo. Silêncio. A segunda, para a encorajar, diz: «Mas a vida continua.» A primeira comenta: «A vida continua, mas continua muito mal.»

Rui Manuel Amaral em Bicho Ruim

5.

«Não há destinos adivinhados para as personagens que vivem em solidão. O seu futuro é incerto e a tragédia está sempre à espreita.»

6.

«…é a velha história, demora-se muito tempo a ver bem um filme.»

7.

Disse Ruy Belo: uma casa é a coisa mais séria da vida, e João Miguel Fernandes Jorge: a casa é onde temos o coração, ou como refere Emily Dickinson, a poesia é possibilidade, “uma casa mais justa que a prosa”.

8.

Um mundo sem música, sem livros e sem memória.

Seria o maior pesadelo que me poderia acontecer.

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

NESTE DIA


Woody Allen tal como escreve na sua autobiografia: «O Outono é uma questão completamente diferente, mas não menos emocional. Para mim, é a altura do ano mais bela».

O escritor e cronista gastronómico Manuel Guimarães,«já não há malgas de marmelada nas montras das pastelarias.».

Sempre lembro de me perguntar: os marmelos anunciam o fim do Verão ou o princípio do Outono?

Uma pergunta, como outra qualquer, e para a qual não se exige resposta.

A minha avó fazia uma extraordinária marmelada no findar de Setembro e daí fiquei a saber que não poderá haver melhor marmelada que a caseira e nesse ponto a da minha avó Brígida.

Ficava sempre uma tigela guardada para a véspera de Natal.

Também enchia grandes frascos com quartos de marmelo que eram cosidos em água e açúcar.

Neste Dia, José Gomes Ferreira a abrir, 1 de Outubro de 1965, o 1º volume dos seus Dias Comuns:

«Entreguei há 3 dias, na Portugália, (e com que desalento desabrido) o meu Diário Inventado. E hoje, talvez para amortecer este fogo frio, que tanto me tortura nas antevésperas da publicação de livros novos, acordei a perguntar-me; “e se eu agora escrevesse (mas só para mim) um diário real dos dias comuns – no seguimento do fadário diarístico que me persegue desde a infância?” (Diários, diários, diários!....). Demais, está uma manhã de sol dourado, com folhas secas a apodrecerem o chão de amarelo e aquele brisa fina de haver alguém no ar a esgrimir um florete de toque invisível que nos arrepia a pele – tema mesmo de propósito para esta primeira página. Pois, se bem me recordo, quase todos os meus diários do passado nasceram sob o signo do friozinho outonal e dos marmelos assados – oferecidos no lusco-fusco dos pregões friorentos de Lisboa… Mas vou desfazer o tema. Basta de literatura e de marmelada.»

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

NESTE DIA


Pegamos no 3º volume dos Dias Comuns de José Gomes Ferreira, titulado como Ponte Inquieta e ficamos a saber que, no dia 25 de Agosto de 1967, o Zé Gomes quase se enfurece com a ideia de, provavelmente, poderem entregar o Prémio Nobel da Literatura a Jorge Amado: «E assim vão os dias, cada vez mais tristes, graças a estes pequeninos toques magoados.

José Gomes Ferreira deixou-nos no dia 8 de Fevereiro de 1985.

Se tivesse chegado ao ano de 1998, ficaria a saber que a Academia Sueca, atribuiria o Nobel da Literatura a José Saramago, ou seja: um português antes de um brasileiro, tal como prtendia.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

NESTE DIA


Neste dia, do ano de 1967, José Gomes Ferreira cumpria o signo diário de ler jornais, e indignava-se:


sábado, 16 de agosto de 2025

NESTE DIA

Neste Dia, no ano de 1968, José Gomes Ferreira, no 5º volume dos seus Dias Comuns, a que chamou, Continuação do Sol, tem uma profunda e nostálgica citação em que todos os seus grandes amigos, todos aqueles participantes das tertúlias dos cafés lisboetas, vão a se lado, o Carlos de Oliveira, o Abelaira, o Mário Dionísio, o Nikias Skapinakis, o João José Cochofel, o Manuel Mendes, o António Ramos Rosa, o Lopes Graça e tantos e tantos, gente tão grande…

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

NESTE DIA


Neste dia, corria o ano de 1968, encontramos José Gomes Ferreira às voltas com um livro do Eduardo Lourenço e em que volta a lembrar que, ele Zé Gomes, é um poeta perdido entre diversas escolas.

A entrada encontra-se no 5º volume dos seus Dias Comuns e a que chamou Continuação do Sol.



sexta-feira, 1 de agosto de 2025

NESTE DIA

Neste dia, no ano de 1969, José Gomes Ferreira escrevia nos seus Dias Comuns, 7º volume que intitulou, Rasto Cinzento e lembrava o regresso do exílio de D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto:

domingo, 27 de julho de 2025

COMEÇOS DE LIVROS


Começo de Vida e Obra de José Gomes Ferreira de Alexandre Pinheiro Torres.

Um dos mais bonitos e desconcertantes começos de livro:

«No ano em que o Zeppelin se arriscava triunfante ao primeiro voo experimental, imagem Stanley-kubrikiana do início matemático do século XX, mas sem valsas de Strauss na banda sonora, já que imperava o «rei» Mahler de quem, por essa altura se estreava a 4ª sinfonia; no mesmo ano em que, no élan dos empreendimentos científicos e tecnológicos, Max Plank tornava pública a sua novinha-em-folha teoria dos quanta (aurora das leis da incerteza, da imprevisibilidade, do aparentemente contraditório no domínio da Natureza reduzida ao átomo), e a um auditório decerto mais vasto, o dos sobreviventes do mal du siècle, chegava a notícia consoladora de ter sido inventado, para auto-exterminação mais rápida (aina a técnica!) o utilíssimo e wertheriano revólver Browning; nesse mesmo ano – 1900 – nascia no porto, e muito a propósito na Rua das Musas, José Gomes Ferreira.

Legenda: retrato de José Gomes Ferreira por Ofélia Marques 

segunda-feira, 12 de maio de 2025

POEMAS AUTOGRAFADOS


O Poema Autografado pertence, hoje, a José Fernandes Fafe.

É o nº 11 da Colecção Poetas de Hoje, editada pela Portugália Editora e chama-se Poesia Amável.

Já fomos dizendo que a maior parte dos volumes desta Colecção tem a abrir um prefácio. Curiosamente, José Gomes Ferreira, escolhido para fazer o prefácio do livro de José Fernandes Fafe, escreve:

«Por Minerva! um livro destes não necessita de prefácio! Merecia aparecer sozinho na sua simplicidade de sorriso colado, por escândalo, nos dentes podres da caveira dos tempos. Sim, orgulhosamente sòzinho.

Porém, segundo parece, a organização interna da Colecção Poetas de Hoje exige a implacável inclusão dum prefácio.»

O poema escolhido por José Fernandes Fafe como autógrafo, chama-se:

 

Os Nossos Jardins Suspensos

 

Os nossos jardins suspensos

São estas mulheres:

 

Carregam à cabeça

cestos densos de lírios,

maravilhas, malmequeres…

 

José Fernandes Fafe, para além de poesia e romance foi autor da biografia de Ernesto Che Guevara, editada em Itália, pela Mondadori, em 1968, sob o pseudónimo de David Alport.

Após o 25 de Abril foi embaixador de Portugal em Cuba, mais tarde também embaixador no México, Cabo Verde e Argentina.

Os poemas de Fafe não poderiam deixar de ser outra senão o serem Amáveis.

Como nota o Zé Gomes Ferreira:

«Como vêem, o segredo é fácil e José Fernandes Fafe decifrou-o, despremeditado, de rua em rua, mãos nas algibeiras, a assobiar e a sorrir. (Com a caveira a doer-lhe por dentro, claro.).

A poesia não o larga nunca. Nem na cadeira do barbeiro, ave de tesoiras… E muito menos nas andanças pelo planeta. Segue-o por toda a parte, de braços enrolados no pescoço a segredar-lhe improvisos (talvez laboriosamente fabricados. Sabe-se lá o que se passa nos laboratórios secretos dos artistas!).»

Mais ainda:

«Não, não é por coincidência que o primeiro poema de Poesia Amável é um Salmo à manhã. Nem por acaso que, no belo fecho do livro, surge este verso tão revelador:

A minha casa fica na Manhã»

Transcrevemos todo o poema:

 

Estas palavras são a casa dum louco.

Anda lá dentro um

e a falar só…

 

Este papel branco é a luz calcárea

os cegos acordeonistas de Lisboa…

 

A minha casa fica na Manhã.

 

Todos os dias a destroem,

Todos os dias a reinvento.

 

A minha casa é o Amor.

 

A minha casa é a Liberdade.

domingo, 27 de abril de 2025

POEMAS AUTOGRAFADOS


Um dos nossos mais brilhantes intelectuais, é o 19 da Colecção Poetas de Hoje da Editora Portugália, com Memória Dum Pintor Desconhecido. 

Falamos de Mário Dionísio.

Transcrevo o poema que Mário Dionísio escolheu:

 

Altos cachões de espuma

com instantes de prata

Um corpo aqui se afunda

em seu túmulo de água

 

De extremo a extremo um pano azul puído e sujo

batido pelo vento em si mesmo desata um arvoredo

de mágoa

 

Rola no horizonte o peso

redondo e cavo dum balão de medo

 

Ao longe um eco verde

de lata

 

É de José Gomes Ferreira uma das mais fulgurantes frases sobre Mário Dionísio:

«…afinal toda aquela frieza aparente não passa de uma ternura adiada.» Podemos recordar uma outra, a de Maria Teresa Horta: «Mário Dionísio tem o espantoso fascínio da inteligência.»

Professor, pintor, escritor, um intelectual que fez da postura ética uma referência a toda a prova.

Quem o quiser conhecer tem à sua disposição um livrinho, publicado em Dezembro de 1987, e em que desenhou a sua Autobiografia, do qual fizemos, neste Cais, algumas leituras:

«O quê? Projectos? Mais projectos? Coço a cabeça, meio envergonhado. Um homem com esta idade! Terei tempo sequer para metade deles?

Vale-me então um espírito maligno, género anãozinho da floresta (outra vez a floresta...) que me pousa no ombro enquanto escrevo ou pinto e que me diz, gozão: «Inquietas-te porquê? Que falta é que tudo isso faz?» E, com esta, arruma-me de vez: «Estás convencido de teres estado sempre certo?»

A defesa, abro o meu irregularíssimo Diário num dia de 63, aí calhou, e leio-o como se a data fosse a de hoje: «Não queiras que cada página seja um monumento. Não queiras tudo. E o melhor ca­minho para não encontrares nada. Não te sintas esmagado pelos grandes nem condoído com a fa­lência dos que detestas ou desprezas ou apenas la­mentas. Escreve. Esquece tudo, tapa os ouvidos, mete-te bem na tua experiência, só na tua expe­riência. Grande ou pequena, é o que tens. Não de­sanimes, não desistas, não te perturbes com a indi­ferença dos outros, não te entusiasmes com os aplausos dos outros. Escreve! Escreve!».

O livro, Memória dum Pintor Desconhecido, é dos poucos da Colecção Poetas de Hoje, que não tem a acompanhá-lo um estudo sobre a sua obra.

Desconheço as razões. Mas José Gomes Ferreira seria o prefaciador ideal, como o demonstram  as palavras que escreveu em A Memória das Palavras:

«Confesso que sempre me deslumbraram os homens do tipo de inteligência de Mário Dionísio, que deixam um rasto de prata em tudo oque escrevem, e cujo bom senso acaba por corrigir as inclinações natu­rais para o Absoluto, atinentes aos espíritos afectivos como o dele, ávidos de pureza leal.

Aliás, só uma inteligência de grande lucidez junta a um instinto muito fino da cultura e do julgamento crítico pode explicar a autoridade rá­pida com que se impôs, como doutrinador do neo-realismo, não ape­nas aos pares da sua idade, mas sobretudo aos adversários. Além disso, como dispunha de dotes fundos de riqueza artística e um espírito com dons de maleabilidade incomum, nunca recusou a ilumi­nação de novos temas poéticos e caminhos ainda mal pisados. Coisas que os críticos, não afeitos à necessidade da justiça das géneses, geral­mente se esquecem de apontar.» 

quarta-feira, 23 de abril de 2025

REOLHARES


Aproveitemos Reolhares para lembrar como as Marchas, as Danças, as Canções nasceram, criadas por gente única do nosso património, gente irremediavelmente esquecida:


MARCHAS, DANÇAS E CANÇÕES


Em Setembro de 1945, a casa de João José Cochofel,  no Senhor da Serra, em Semide, juntou Fernando Lopes-Graça, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira e João José Cochofel.

Na Sala Ping-Pong, nasceu o projecto musical Marchas, Danças e Canções.

Na contra capa do disco, explica ao que vinham essas canções:

«O que são as “Canções Heróicas” que, pela primeira vez, se oferecem ao público editadas em disco? Resumidamente, podemos dizer que são obrinhas de circunstância ou, se quisermos ser mais explícitos e sem temer o uso rigoroso das palavras, defini-las-emos como canções politicamente empenhadas. Politicamente empenhadas no sentido, ou na medida, em que pretenderam contribuir – e cremos que de facto contribuíram – para a luta do povo português, a que primordialmente foram destinadas, contra o regime despótico, anti-democrático e violentador de corpos e almas que durante cerca de cinquenta anos lhe foi imposto.»


Um ministro de Salazar disse: 

«É mais perigoso um mi bemol de Lopes Graça do que mil panfletos subversivos.»

Por sua vez, José Gomes Ferreira, em A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim, conta como, naquele ano de 1945, tudo começou:

«Nesse Verão, como lhe contasse que eu ainda não tinha encontrado poiso no campo para convalescer, Fernando Lopes Graça, propôs-me:

-Venha comigo para o Senhor da Serra, perto de Semide…

- Há por lá alguma pensão?


- Pensão propriamente dita não há. Mas a srª Rosinha costuma receber hóspedes num quartito muito limpo e com uma vista extraordinária para o Vale da Lousã… E fica a dois passos da casa do João José Cochofel, onde vou instalar-me.

Na casa de João José Cochofel juntaram-se, então, Fernando Lopes Graça, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira.»

Novamente José Gomes Ferreira:

«Por esses dias, com tantos poetas às ordens, ensejou-se a Fernando Lopes Graça realizar um velho sonho que expôs em meia dúzia de frases sóbrias aos circunstantes. Queria letras para canções. Marchas, danças, rondas infantis, hinos… O que nos apetecesse. Contanto que não nos demorássemos muito, pois a inspiração já ardia.»

Esgotada a inspiração dos poetas circundantes, Fernando Lopes Graça implorou o auxílio a Coimbra (Joaquim Namorado, Arquimedes, Ferreira Monte) e a Lisboa, donde acudiram ao chamamento Mário Dionísio, Armindo Rodrigues e Edmundo Bettencourt.

(Texto publicado em 29 de Março de 2017)

Legenda:

Na primeira fotografia vêem-se João José Cochofel, Fernando Lopes Graça e José Gomes Ferreira.
Na segunda fotografia João José Cochofel e Carlos de Oliveira.

Fotografias retiradas da Fotobiografia de José Gomes Ferreira 

 

(Em Reolhares vamos publicando textos publicados, nos últimos 15 anos no Cais do Olhar.).

MÚSICA PELA MANHÃ

A especulação imobiliária que invadiu o país nas últimas décadas, vai obrigar que a Academia dos Amadores de Música tenha que procurar um outro espaço. Centenas de alunos irão ser prejudicados. Algumas manifestações têm ocorrido mas nada está fácil.

A Câmara Municipal de Lisboa, dirigida pelo Sr. Moedas, tem outras preocupações. Essa história das Lojas com História é uma quimera, algo para adormecer camelos.

Como diria o Zé Gomes Ferreira:

«Os parvos pertencem todos à mesma Pátria com nomes diferentes.»

De novo José Gomes Ferreira:

14 de Maio de 1969

 

Fui esta noite à Academia dos Amadores de Música ouvir o coro do Graça que está em boa forma…

Na assistência muitas caras conhecidas. Caras antigas. Mas o fio encantado que nos unia a todos noutros tempos quebrou-se.

José Gomes Ferreira no 7º volume dos Dias Comuns.

A Música desta manhã é Acordai, poema de José Gomes Ferreira, música de Fernando Lopes Graça:

Acordai

acordai

homens que dormis

a embalar a dor

dos silêncios vis

vinde no clamor

das almas viris

arrancar a flor

que dorme na raíz

Acordai

acordai

raios e tufões

que dormis no ar

e nas multidões

vinde incendiar

de astros e canções

as pedras do mar

o mundo e os corações

Acordai

acendei

de almas e de sóis

este mar sem cais

nem luz de faróis

e acordai depois

das lutas finais

os nossos heróis

que dormem nos covais

Acordai!


Legenda: A 12 de Novembro de 1966, o Diário de Lisboa-Juvenil retomava, com a presença de Eduardo Prado Coelho, os seus Encontros.
No dia 26 de Novembro foi a vez do jornalista Manuel de Azevedo.
Fernando Lopes Graça e Dulce Cabrita, foram os convidados para o Encontro realizado no dia 21 de Janeiro de 1967.

quarta-feira, 19 de março de 2025

CONVERSANDO


Devastámos o planeta, destruímo-lo.

Criámos para os nossos filhos quase tantos problemas – ou mais!, como os que recebemos dos nossos pais. 

Ou o grito que o Zé Gomes Ferreira deixou na sua Poesia II:

Os filhos dos nossos filhos hão-de insultar-nos: «covardes! Que nos deram um planeta sujo!»

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Colóquio/Letras

Número 53 – Janeiro de 1980

Homenagem a José Gomes Ferreira

Artigos de:

Fernando J.B. Lepecki

Carlos Reis

Orlando Ribeiro

Maria da Glória Padrão

Depoimentos de:

Casimiro de Brito

Gastão Cruz

Jacinto do Prado Coelho

Joel Serrão

Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Janeiro de 1980

«Não falei muito da poesia de José Gomes Ferreira. Tentei, porém, indicar como ela se inscreve no primeiro plano das mais renovadoras tendências da poesia portuguesa das últimas décadas, o que, dito acerca de um poeta que faz agora oitenta anos, não é pequeno elogio.»

sábado, 10 de agosto de 2024

AINDA O STUART CARVALHAIS


 Sabia que o Zé Gomes Ferreira escrevera algo sobre o Stuart Carvalhais mas não lembrava onde. O ficheiro ideológico da Biblioteca da Casa já conheceu melhores dias.

De repente, tão só de repente, acabei por encontrar o texto do Poeta. Está na página 189 de Gaveta de Nuvens. Nas nuvens estava eu quando falhei a referência que seria para aparecer no Outro Lado das Capas. As desculpas devidas aos viajantes do Cais do Olhar e aqui fica a citação:

»Sim, eu vi eu assisti não só ao advento dos modernistas com novas técnicas e novos olhos - «exijo apenas que os pintores tenham olhos diferentes dos meus», já escrevi não sei onde -, mas também aos desvios dos temas cediços das feiras, dos borrachos, das romarias, das procissões, dos barbeiros ao ar livre, das cabeças de mendigos, etc., para a sensualidade íntima de Lisboa por dentro.

O primeiro lugar da minha cronologia de experiências pessoais pertence ao Stuart – que conheci em 1917 no rescaldo dramático da 1ª Guerra Imperialista – sempre com o tinteirinho de tinta da China na algibeira para o desse e viesse. (Quanto ao papel, qualquer servia. «O das mercearias para embrulhar manteiga, é estupendo”» - ouvi-o eu dizer certo dia…)

De Redacção em Redacção, de taberna em taberna, mal lhe encomendavam um boneco qualquer, rapava do tinteirinho e da pena e, como uma espécie de Bocage do desenho, logo ali improvisava o que lhe pediam, em geral uma anedota de rua com varinas ou costureiras de pernas à mostra.

Mais preocupado com as pessoas, as «pedras vivas» - expressão anos depois vulgarizada por António Sérgio – do que com os meandros de caliça e basalto de Lisboa – lembro-me de que, na obra desse tempo do grande artista popular, se destacavam sobretudo as «bichas» (do açúcar, do pão, do petróleo) em que o Stuart de Carvalhais punha todo o génio satírico babado de ternura militante que sentia pelas mulheres do povo, resignadas e famintas, à espera da ração minguada daqueles tristes dias de guerra vil.»

Legenda: ilustração irada de Stuart e os Seus Bonecos

sexta-feira, 19 de julho de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Houve um tempo em o Ministério da Cultura, com o apoio da Direcção-Geral da Comunicação Social, se dedicou a reunir e a publicar obras dos nosso intelectuais e políticos. O caso desta Antologia, em 2 volumes, da obra de Raul Proença é um exemplo que, durante o declínio do regime republicano foi mestre de toda uma geração de intelectuais, mais do que António Sérgio.

Raul Proença nasceu nas Caldas da Rainha no dia 19 de Maio de 1884 e morreu no Porto no dia 29 de Maio de 1941.

Foi uma figura maior do pensamento político no primeiro quartel do século XX. Trabalhou como bibliotecário da Biblioteca Nacional de Lisboa desde 1911, onde colaborou com Jaime Cortesão e, escreveu grande parte dos textos do Guia de Portugal, mas acima de tudo, faz parte do grupo fundador da Seara Nova de que foi director.

José Gomes Ferreira, no seu livro A Memória das Palavras, lembra a alegria da saída do 1º número da Seara Nova:

«Nunca fui seareiro, como sabem. Mas nesse dia qualquer de 1921 vadiei toda a tarde pelas ruas de Lisboa, a cantar sozinho, de mãos na algibeira…

E à noite, mesmo debaixo do famoso quadro de Columbano, na nova tertúlia no Leão de Ouro, para onde emigráramos de pois da guerra civil do martinho – olhávamos uns para os outros e desatámos a rir, felizes de haver vida e haver futuro.»

No pedacinho que colocámos da Carta ao Futuro, Raul Proença  colocara esta epígrafe:

Óscar Lopes sobre Raul Proença:

«No seu apostolado político de quem deseja o «triunfo do socialismo», e que ele levou a cabo «com uma tenacidade dura e agressiva se sem cerimónias, e arrojo suficientes para desapiedar sendo preciso», reconhece-se a herança da Gerção de 70».

quinta-feira, 20 de junho de 2024

O POETA NUM ELÉCTRICO


De súbito ao cair de mais um ano
sou por instantes sinto-me ao cair da tarde
do sol que antes brilhante é luz lustrosa
e pegajosa agora à superfície da calçada
na humilhante morte de quem era alto eterno e dominante
sou ao cair da tarde de um ano que cai
eu o poeta o instalado o mais que muito aburguesado
um colectivo passageiro num eléctrico
mas só supostamente anónimo ou popular ou colectivo
pois posso dar-me ao luxo de evocar um livro lido há muito
num destes animais metálicos já hoje arcaicos deslocados
e amanhã vivos apenas nesse livro do zé gomes que os evoca
e eu me posso dar ao luxo de evocar agora após haver falado
nesse farmácia onde comprei há pouco o anti-asmático
do cão asmático das praias que primeiro ouvi tossir
num verso do o’neill e só depois num mês de maio em espinho
ao imprimir na areia graves passos de poeta nupcial
sinto-me alguém de súbito ao pagar o meu bilhete
bilhete de quem volta e de quem vive do trabalho
mas que pode exibir o seu sapato alto à moda
e alinhar uns versos no papel da embalagem do remédio
E eu que distraído e que perdido e que privado já
de mais alguma face da embalagem do remédio onde escrevia
eu que já não sabia como pôr ponto final
em toda esta conversa mais do que fiada
dizer ao ver que continuo alheio lírico e sentado
oiço a voz grossa e neutra do sisudo guarda-freio
que chegámos ao fim fim da viagem para ele
e fim deste poema para mim

Ruy Belo de Nau dos Corvos em Todos os Poemas