Neste dia, estamos no dia 2 de Maio de 1968, no 4º volume dos Dias Comuns de José Gomes Ferreira.
Para
preparar um texto sobre os cafés de Lisboa, de que José Gomes Ferreira foi
assíduo frequentador, dei com uma entrada do 4º Volume dos Dias Comuns,
referente ao dia 2 de Maio de 1968, em que o Zé Gomes assinalava o número
especial da Seara Nova que registava os 50 anos da sua actividade
literária, deste modo:
«O
Fafe proclama: «José Gomes Ferreira é o meu maior amigo! José Gomes Ferreira é
o meu maior poeta».
Comoveu-me.
(Sintoma de velhice?)
Por
fim, José Saramago que mal conheço, termina assim o seu depoimento: «Ao lado da
poesia de José Gomes Ferreira está o poeta que ele é: parece um pleonasmo, uma
redundância, talvez um lugar-comum, um dizer-por-dizer. Pois muito se engana
quem o julga.»
O que é curioso é que, àquela data quase se desconheciam («José Saramago que mal conheço»), («José Gomes Ferreira a quem mal conheço, a quem nada devo senão a alegria e o conforto de o admirar»).
José
Gomes Ferreira morreu a 8 de Fevereiro de 1985.
José
Saramago ganhou o prémio Nobel em 1998.
De
certeza garantida o Nobel teria dado uma enorme alegria ao Zé Gomes.
Fica
aqui o depoimento de José Saramago sobre José Gomes Ferreira publicado na Seara
Nova nº 1471, referente a Maio de 1968:
Fomos
em busca do depoimento que José Saramago escreveu para a Fotobiografia
de José Gomes Ferreira, organizada pelo seu filho mais velho, Raúl Hestnes Ferreira
Para a cópia que reproduzimos, servimo-nos do aquivo da Fundação José Saramago:
«Em
Maio de 1973, o suplemento literário do jornal Diário de Lisboa publicou
uma entrevista ao poeta José Gomes Ferreira (Porto, 1900 – 1985). Décadas
depois, José Saramago escreveria um texto contando que fora ele o autor dessa
entrevista que não aparecia assinada. Contou também lembranças e os
ensinamentos que guardava daquela conversa realizada há 50 anos.
José
Saramago no papel de entrevistador
Saber
a idade que José Gomes Ferreira ia cumprindo era facílimo, só tínhamos de
pensar nos algarismos das unidades e das dezenas do ano em que estivéssemos.
Mas era difícil acreditar que em 1973, por exemplo, ele já enchera 73 anos de
vida. Podia-se admitir, sem demasiada discussão, que aquelas rugas, por serem
as cabidas, e aqueles cabelos, por terem branqueado, mais ou menos concordassem
com o registo do calendário, mas isso era só enquanto elas repousassem e eles
esperassem o vento que infalivelmente os haveria de revolver. Então os números,
os da idade e os do ano, desandavam, corriam velozmente para trás, e em menos
tempo do que leva a contá-lo transfigurava-se o José Gomes Ferreira, tornado
outra vez em homem novo, em adolescente entusiasta pronto a correr ao Batalhão
Académico Republicano para realistar-se, em menino a olhar fascinado o deslizar
de uma gota de água na vidraça, e sempre, em todas as circunstâncias, iluminado
por aquele fundo de incorruptível e desconcertante inocência que iria ser, por
toda a vida, a sua mais leal companhia.
Não
foi casualmente que mencionei acima o ano de 1973. Trabalhava então na redação
do Diário de Lisboa, onde, além de exercer a espinhosa e
labiríntica função de opinante em tempos de censura, me esforçava, creio que
com alguma ventura, por coordenar e fazer publicar todas as semanas as
dezasseis páginas de um suplemento literário. Fiquei a dever essa fortuna a
quantos colaboradores, em muitos casos por simples gosto pessoal, ou a câmbio
de remunerações insignificantes que só o mesmo gosto lograva tornar aceitáveis,
generosamente me abasteciam de material obviamente variável na qualidade, mas
sempre empenhado, e por mim agradecido. A par dos habituais artigos e críticas,
a par dos ensaios, dos poemas, dos contos, o suplemento literário daquele desaparecido Diário
de Lisboa foi também palco de algumas das mais suculentas polémicas da
época… E, claro está, havia as entrevistas. Em geral, por falta de tempo,
sobretudo por falta de jeito, não era eu a fazê-las, mas alguma forte razão,
que sou agora incapaz de recordar, me levou a chamar a mim a responsabilidade
de entrevistar o José Gomes Ferreira. Que as minhas artes de entrevistador não
eram de extremos, ficou logo demonstrado na calina questão inicial que hoje me
faz encolher de vergonha: “Tem algum método de trabalho?”, foi a pergunta. À
batida ridiculez da questão quis o poeta responder com paciência exemplar, a
paciência de quem já tinha visto e ouvido muito do mundo. Disse ele: “Com mais
de meio século de vida literária tive, como é óbvio, não um, mas vários métodos
de trabalho. E até um método de preguiça com que construí as linhas
fundamentais do meu trabalho literário. Pois nos anos de 20, de 30, de 40,
etc., trabalhava num ofício que poucos contactos tinha com a literatura,
agarrado a uma moviola de escravo. A minha vocação de escritor, que só à custa
de muitos sacrifícios e teima consegui preservar, exerci-a nos intervalos desse
trabalho, aproveitando a preguiça das horas de descanso para rabiscar papéis,
papelinhos e diários, sempre com a sensação de que estava a roubar tempo e
dinheiro ao meu bem-estar e ao da família. Era, em resumo, um escritor de Horas
Roubadas. Valia-me também o mês de férias anuais em que tentava pôr em ordem os
versos rabiscados durante o ano, ou cumprir alguma encomenda que ousava muitas
vezes aceitar com uma coragem que ainda hoje me deixa pasmado.
Por
exemplo, o prefácio às Folhas Caídas de Garrett escrevi-o em
quinze dias de férias passadas em casa do João Cochofel, no Senhor da Serra”.
“E hoje?”, perguntei, surpreendido por tal abundância de informação em troca da
mais corriqueira das perguntas.
“Bem.
Hoje abandonei a moviola, estou reformado, vivo quase exclusivamente dos livros
e das minhas colaborações nos jornais e fui obrigado a estabelecer um método de
trabalho adaptado à minha idade, sem horários, claro. (Mesmo nos tempos do
trabalho-tortura sempre me defendi dos horários.) Actualmente o meu método
resume-se a evitar escrever de noite, para escapar às insónias. Não tive outro
remédio senão habituar-me a trabalhar de manhã, servindo-me, como já disse, dos
materiais que reuni pacientemente durante os árduos anos de preguiça. À tarde,
leio, converso com os amigos nos cafés, visito os editores e à noite volto a
ler e, às vezes, até a jogar as cartas, para me deitar o mais tarde possível.
Pois contínuo a ser noctívago, embora transpusesse as vagabundagens para o
corredor da minha casa onde ando quilómetros e quilómetros de ruas desertas
imaginárias”..
A
pergunta que lancei a seguir – “Obedece ou cumpre conscientemente qualquer
ritual que considere propiciatório do trabalho?” – continha a menos original de
todas as curiosidades possíveis, certas e prováveis, mas foi tão generosamente
atendida como a primeira: “Rodeio-me de livros, de pastas, de apontamentos, de
Diários, de cadernos, de improvisos e todo esse caos de papel de que lhe falei
e donde arranco, ou tento arrancar, as linhas harmónicas da criação do meu
mundo. Porque, como sabe, o que é difícil é criar o caos. Aliás, nos últimos
tempos, ensaiei um novo método de criá-lo. É o que eu chamo, no calão íntimo do
meu laboratório-oficina, a planificação da cabeça. Assim: estendo na mesa uma
folha de papel de máquina e começo a cobri-la, ora em linha recta, ora
obliquamente, umas vezes em baixo, outras ao lado, palavras, frases, desenhos
mal feitos, pensamentos, ideias, tudo o que me acode à cabeça, que ligo,
desligo, formo, deformo e risco, até apurar não sei o quê, quase sempre coisa
nenhuma. Porque o que este jogo tem de mais fascinante é o parecer que não
serve para nada, pelo menos imediatamente. Só mais tarde, quando junto esses
mapas e os analiso, descubro coisas extraordinárias que me sugerem ideias
importantes. Flores incríveis enrodilhadas num silvado de teias de aranha
incoerentes que depois simplifico em frases e versos aparentemente fáceis.
Planificar o cérebro – eis a minha última descoberta”.
Percebia
que para José Gomes Ferreira as questões propostas lhe eram de certa maneira
indiferentes, que poderiam ser repetitivas, aventureiras, ingénuas, mesmo
absurdas, ele se ocuparia de que as respostas lhes dessem sentido. “Emenda,
reescreve, ou fixa-se na forma original? Por outras palavras: é um elaborador,
ou um impulsivo?” perguntei. E ele respondeu: “Como se subentende do que já
disse, sou ao mesmo tempo um impulsivo e um elaborador.
Improviso
em rajadas, nos tais papelinhos. E depois trabalho-os com afinco paciente e
teimoso, às vezes durante anos. Sim. Corto, emendo, reescrevo, copio, recopio.
E até às vezes conservo religiosamente a forma inicial. Sem tocar na mínima
palavra para não desmoronar o poema. Gosto também de trabalhar em coisas
diversas na mesma ocasião. Agora, por exemplo, publicada a Poesia-V, em que o
século vinte continua a viajar em mim, preparo quatro livros. A Poesia-VI, que
encerrará porventura o meu ciclo poético, O Sabor das Trevas, longa narrativa
alegórica, Gaveta de Nuvens, compilação dos meus escritos de aparência crítica,
e Face em espelho torto, biografia inexacta de um homem exacto. O Sabor das
Trevas já vai na segunda versão. É um livro difícil. Uma espécie de João Sem
Medo nocturno numa atmosfera insólita de realismo fantástico”.
Para
não variar, a pergunta seguinte – “Considera que progrediu desde que começou a
escrever?’» também viria a ser salva pela resposta: “Como é natural, a experiência
da vida enriqueceu-me (a outros empobrece) e, sentindo-me mais rico, a minha
linguagem de raiz barroca simplificou-se, embora cada vez escreva com mais
dificuldade e suor. Mas (em arte não há progresso, há às vezes traição)
continuo basicamente o mesmo de sempre, a cantar o que me apetece, ou o que
possa apetecer-me cantar, cada vez mais livre e ajustado à minha sinceridade”.
“Mas há quem o considere sectário…”, insinuei, e logo a resposta: “Nunca o fui
nem sou. A não ser que se queira chamar sectarismo à intransigência e
fidelidade visceral ao que há de mais profundo em mim mesmo: ao que penso, ao
que sonho, ao que desejo, ao que não acredito…”.
Continuou a ser assim, sempre, na Revolução, depois dela, até aos últimos dias de vida. Numa carta datada de 23 de Abril daquele ano e referindo-se a esta entrevista, pedia-me insistentemente que recomendasse aos revisores do jornal que não lhe tirasse o não das palavras finais. Ele lá sabia porquê…»

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