sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

NESTE DIA


Estamos a 25 de Maio de 1994, com o 2º volume dos Cadernos de Lanzarote de José Sartamago e o tema é Miguel Torga e uma sua frase ao agradecer um prémio: «Logicamente, eu devia ter ficado a cavar na minha terra; esse era o meu destino.»

A interpretação Saramaguiana da frase:

«Sem saber que palavras o conduziram a estas, sem conhecer as outras que proferiu depois, umas expondo os dados prévios do pensamento, outras apresentando as conclusões, leio algo que disse Miguel Torga ao agra­decer o Prémio da Crítica: «Logicamente, eu devia ter ficado a cavar na minha terra; esse era o meu destino.» À primeira vista, parece que Torga quis reunir numa mesma irremovível fatalidade a lógica e o destino. Po­rém, o que ele quis dizer, imagino, é que, tendo em conta o fim-do-mundo onde nasceu (as serranias de Trás-os- Montes) e a dura vida dos seus primeiros anos (uma família pobre), dever-se-ia esperar que dali saís­se, logicamente, um cavador, nunca um poeta, ou, quan­do muito, no caso de a vocação apertar, alguém que, intelectualmente, se ficaria pelas quadras de pé-quebra­do para reforço de galanteios e animação de récitas e ro­marias. Sabemos, contudo, que nem sempre as coisas se passaram assim: a vida lá encontrava maneira de partir os dentes à lógica, e o destino, duvidoso nos rumos, mais do que se crê, não raro acabou por levar aos ma­res do Sul quem do Norte julgava não poder sair. Hou­ve mesmo um tempo em que parecia que ninguém nascera nas cidades grandes, éramos todos da província.»

José Saramago apreciava Miguel Torga.

Lamento de José Saramago no momento da morte de Miguel Torga:

«Não conheci Miguel Torga. Nunca o procurei, nunca lhe escrevi. Limitei-me a lê-lo, a admirá-lo muitas vezes, outras não tanto. Foi só de leitor a minha relação com ele.

(…)

Achava que havia em Torga algo que eu gostaria de ter, e não tinha: o direito ganho por uma obra com uma dimensão em todos os sentidos fora do comum, a música profunda de uma sabedoria que nascera da vida e que à vida voltava, para não se tornarem, ambas, mais ricas e generosas. Que Torga não era generoso, dizem-no. Mas eu falo de outra generosidade, a que se entranha nesse movimento de vaivém que em raríssimos casos une o homem à sua terra e a terra toda ao homem.

Demasiado cedo morreu Miguel Torga. Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado tarde».

O sentido das palavras de Torga, ou muito eu me engano, tem mais que se lhe diga. Equivalem ao discur­so de qualquer velhice lúcida - «Cheguei até aqui, fiz o que podia, lástima não ter sabido ir mais além, agora já é tarde» -, mas representam principalmente a cons­ciência dorida de que nada dura, quiçá algo mais a obra que a vida, mas tão pouco, e que, no fundo, tanto monta à felicidade, própria e alheia, ter sido capaz de escre­ver A Criação do Mundo, como, de olhos no chão, ter ficado a cavar as terras do mesmo mundo, sem outro desejo e outra necessidade que ver crescer a seara, moer o trigo e comer o pão.»

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