Estamos a 25 de Maio de 1994, com o 2º volume dos Cadernos de Lanzarote de José Sartamago e o tema é Miguel Torga e uma sua frase ao agradecer um prémio: «Logicamente, eu devia ter ficado a cavar na minha terra; esse era o meu destino.»
A
interpretação Saramaguiana da frase:
«Sem
saber que palavras o conduziram a estas, sem conhecer as outras que proferiu
depois, umas expondo os dados prévios do pensamento, outras apresentando as
conclusões, leio algo que disse Miguel Torga ao agradecer o Prémio da Crítica:
«Logicamente, eu devia ter ficado a cavar na minha terra; esse era o meu
destino.» À primeira vista, parece que Torga quis reunir numa mesma
irremovível fatalidade a lógica e o destino. Porém, o que ele quis dizer,
imagino, é que, tendo em conta o fim-do-mundo onde nasceu (as serranias de
Trás-os- Montes) e a dura vida dos seus primeiros anos (uma família pobre),
dever-se-ia esperar que dali saísse, logicamente, um cavador, nunca um poeta,
ou, quando muito, no caso de a vocação apertar, alguém que, intelectualmente,
se ficaria pelas quadras de pé-quebrado para reforço de galanteios e animação
de récitas e romarias. Sabemos, contudo, que nem sempre as coisas se passaram
assim: a vida lá encontrava maneira de partir os dentes à lógica, e o destino,
duvidoso nos rumos, mais do que se crê, não raro acabou por levar aos mares do
Sul quem do Norte julgava não poder sair. Houve mesmo um tempo em que parecia
que ninguém nascera nas cidades grandes, éramos todos da província.»
José
Saramago apreciava Miguel Torga.
Lamento
de José Saramago no momento da morte de Miguel Torga:
«Não conheci Miguel
Torga. Nunca o procurei, nunca lhe escrevi. Limitei-me a lê-lo, a admirá-lo
muitas vezes, outras não tanto. Foi só de leitor a minha relação com ele.
(…)
Achava que havia em
Torga algo que eu gostaria de ter, e não tinha: o direito ganho por uma obra
com uma dimensão em todos os sentidos fora do comum, a música profunda de uma
sabedoria que nascera da vida e que à vida voltava, para não se tornarem,
ambas, mais ricas e generosas. Que Torga não era generoso, dizem-no. Mas eu
falo de outra generosidade, a que se entranha nesse movimento de vaivém que em
raríssimos casos une o homem à sua terra e a terra toda ao homem.
Demasiado cedo morreu
Miguel Torga. Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado
tarde».
O sentido das palavras
de Torga, ou muito eu me engano, tem mais que se lhe diga. Equivalem ao discurso
de qualquer velhice lúcida - «Cheguei até aqui, fiz o que podia, lástima não
ter sabido ir mais além, agora já é tarde» -, mas representam principalmente a
consciência dorida de que nada dura, quiçá algo mais a obra que a vida, mas
tão pouco, e que, no fundo, tanto monta à felicidade, própria e alheia, ter
sido capaz de escrever A Criação do Mundo, como, de olhos no chão, ter ficado
a cavar as terras do mesmo mundo, sem outro desejo e outra necessidade que ver
crescer a seara, moer o trigo e comer o pão.»

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