quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

AMAR-TE É VIR DE LONGE

Amar-te é vir de longe,

descer o rio verde atrás de ti,

abrir os braços longos desde os sete

anos sob a latada ao pé do largo,

guardar o cheiro a figos vistos lá,

a olho nu, ao pé, ao pé de ti,

parar a beber água numa fonte,

um acaso perdido no caminho

onde os vimes me roçam a memória

e te anunciam mãos e te perfazem;

como se o sino à hora de tocar

já fosse o tempo todo badalado,

e a tua boca se abrisse atrás do tojo,

e abaixo dos calções as pernas nuas

se rasgassem só para o pequeno sangue,

tal o pequeno preço que me pedes.

Atrás da curva estavas, és, serias,

nos muros de granito, nas amoras.

Amar-te era lembrança e profecias,

uma porta já feita para abrir,

e encontrar o lar ou música lavada

onde, se nasces, vives, duras, moras

- meu nome exacto e pão

no chão das alegrias.

 

Pedro Tamen

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