Na sua Viagem a Portugal, quando José Saramago passou por Aveiro, quis ir comer ao Palhuça, onde tinha comido uma sopa de peixe que lhe ficou na memória.
Assim
Saramago nos conta:
«Quando ao viajante dá o apetite do almoço, vem dos confins da memória uma recordação. Em Aveiro comeu ele, há muitos anos, uma sopa de peixe que até hoje lhe ficou na retentiva do olfacto e das papilas da língua. Quer verificar se os milagres se repetem, e vai perguntar onde é o Plhuça, quwe assim se chama a casa de pasto onde se dera a aparição. Já não há Palhuça está agora a cozinhar para os anjos, ou talvez para a princesa Santa joana, a sua patrícia, acima deste cinzento céu. Baixa o viajante a cabeça, vencido, e vai comer a outro lado. Não comeu mal, mas nem a sopa era do Palhuça, nem o viajantes era o mesmo: tinham passado muitos anos.
O
que terá levado, sem dar qualquer palha, Saramago a ir comer a outro lado. Para
além da ausência do Palhuça, que desagrado sentiu o viajante?
Ele esteve por Aveiro há uns três anos, andou à procura do Café Trianon, onde Mário Sacramento reunia com amigos e camaradas, mas o café deu lugar, como um pouco por toda a parte, a um banco.
Pelos
inícios dos anos 60, esteve a passar férias, em casa de avós, no Fontão, e
lembrava uma caldeirada de enguias comida em Angeja, a cor amarelada, o sabor
do açafrão.
Foi
o que pediu: caldeirada de enguias à moda de Aveiro.
A
juntar à má cara do dono do Palhuça, que queria que os clientes se despachassem
para dar lugar aos que na rua esperavam por lugar, a caldeirada estava um
desastre.
Uma
aguada amarelada repleta de batata (pouco saborosa, diga-se, a
receita pede batata “olho de perdiz”), 4 enguias, nenhum golpe de vinagre,
nenhuma tira de pimento, um verdadeiro desconsolo!...
Tal como escreveu Saramago: deveria ter ido comer a outro lado.
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