Ainda há milhares de portugueses sem electricidade, sem água, sem comunicações, sem telhas, sem lonas, para cobrir os telhados que a depressão lançou pelos ares.
As
gentes, onde a depressão Kristin foi mais feroz, sentem-se abandonadas.
Mais
ainda porque sentem que o governo, as diversas autoridades que as deviam
proteger, falharam.
Um
homem de 63 anos morreu hoje quando caiu de um telhado que reparava no concelho
de Porto de Mós.
Não
é o primeiro, talvez não seja o último.
Apesar de a Protecção Civil avisar que, dadas as condições meteorológicas, estes trabalhos não podem ser realizados, mas o desespero destes homens ao verem a chuva continuar a entrar-lhes casa dentro, leva-os a arriscar.
Entretanto
o que se passa no campo da tragédia, é muito pior do que podemos imaginar, ou que
vamos vendo no corrupio das reportagens televisivas.
2.
A tempestade obrigou a libertar, de forma controlada, 500 milhões de metros cúbicos de água em dois dias para evitar cheias, equivalente ao consumo anual de 3 milhões de pessoas.
Em dois dias, foi preciso libertar, de forma controlada, 500 milhões de metros
cúbicos de água das albufeiras de todo o país, por causa da tempestade Kristin.
É uma quantidade que equivale a três vezes o consumo anual da Área
Metropolitana de Lisboa, com três milhões de habitantes.
3.
Com as ajudas
monetárias, e outras, às povoações, o Governo parece ter dois objetivos: não
comprometer as contas públicas, revelando qual é a sua prioridade, e deixar
para o sector financeiro toda a acção, de forma a que este lucre com o
desespero das pessoas.
É neste sentido que os
principais bancos portugueses Caixa Geral de Depósitos e Novo Banco anunciaram
linhas de crédito bonificado no total de 400 milhões de euros para as famílias
e empresas afetadas pela tempestade Kristin. Para os particulares, a CGD abriu
uma linha de financiamento de 300 milhões de euros com uma taxa de juro de
2.15% (taxa mista a 1 ano). Já o Novo Banco abriu uma linha de 100
milhões de euros, sendo que a linha de crédito para Famílias será bonificado,
ou seja, terá uma taxa de juro correspondendo a 65% da taxa de referência do
Banco Central Europeu.
No caso de ambos os
bancos, apesar do spread a 0% e isenção de comissões, com o desastre, os bancos
estão a procurar atrair novos clientes e a gerar um fluxo futuro de juros.
Importa relembrar que em 2025 os cinco maiores bancos a operar em Portugal
lucraram mais de 13 a 14 milhões de euros por dia. Só a CGD alcançou um lucro
recorde de 1,4 mil milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, mais 2% do
que no período homólogo.
No
blogue Abril, Abril
4
«Árvores arrancadas ao chão, troncos partidos, casas destelhadas, cheias, zonas balneares atapetadas de areia, montras quebradas, postes de alta tensão dobrados, publicidade espalhada pelo chão, lixo, muito lixo, campos de cultivo destruídos, um cenário de quilómetros e quilómetros de destruição. Sem água, sem luz, sem telecomunicações, as pessoas lembram-se de que são pessoas. «Sejam férteis e cresçam; encham a terra e dominem-na; dominem sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra.» Assim fizemos, esquecendo de que mais do que dominar a terra seria importante preservá-la, prestar-lhe culto, protegê-la, porque, feitas as contas, concluímos que somos parte integrante da terra. Não estamos separados, estamos dentro. Deus que se foda.»
hbmf na Antologia do Esquecimento
5.
A Ministra da
Administração Interna deu uma boa ensaboadela à Ministra do Trabalho,
Solidariedade e Segurança Social. É assim, e não de outro modo, que devemos
negociar as leis laborais: lutar pelo direito a trabalhar em contexto de
invisibilidade.
Cristina Fernandes no Bicho Ruim
6.
«A depressão Kristin não arrancou só vidas, telhados, árvores, postes de alta tensão, mas deixou também expostas as falhas de um Estado que voltou a não estar à altura num momento crítico. Quando foi ao terreno, Marcelo Rebelo de Sousa quis passar a mensagem de que, desta vez, não se terá tratado de uma falta de prevenção. Permita-me discordar, Sr. Presidente: foi precisamente o que aconteceu. Falhamos, uma e outra vez, por falta de prevenção nas políticas públicas, por falta de escolhas responsáveis ao longo de anos, capazes de preparar o país para fenómenos que já não podem ser tratados como inesperados.»
Rui Frias no Diário de Notícias
7.
Outra carruagem do comboio de depressões vem a caminho.
O
estado do tempo em Portugal continental vai ser afetado entre a tarde de
terça-feira e sábado pela depressão Leonardo, prevendo-se chuva persistente e
por vezes forte, queda de neve, vento e agitação marítima forte, indicou o IPMA.
Fontes:
Público
Diário de Notícias
Jornal de Notícias
Correio da Manhã
Lusa

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