terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

NOCTÍVAGA

Não esperem dos poetas mensagens a horas  
Não esperem dos poetas pedidos de desculpa   
Que não sejam, ao mesmo tempo, declarações de amor  
Com mais anexos do que a declaração de IRS  

Não esperem dos poetas sumo de fruta cortada na hora,   
com bastante gelo, e um relvado bem cortado,  
e umas unhas bem cortadas,   
e um coração bem cortado  

Para escrever poemas, é preciso ter o punhal de Caravaggio  
Encostado à língua: «Nem esperança, nem medo»  

Não esperem de um poeta que vos corte a língua   
O poeta quer ouvir tudo, apesar de tudo, e até de manhã   
Não esperem de um poeta que vos corte o coração  
Não sabe, não foi o poeta que cortou o dele   

Não calem o poeta, nunca calem o poeta   
Não há nada pior do que cortar a língua a um poeta     
Ele não se cala, fica tudo nos livros    

Quando não quiserem mais o poeta, devolvam-no    
Numa caixa forrada a alcatifa dos anos 70    
O poeta gosta da palavra alcatifa, apesar das alergias,    
e tem queda para se magoar a sério    
Cortem-lhe as unhas com os próprios dentes  
e, se não se importam, tirem-lhe o punhal     

Sejam amigos dos poetas     
Mesmo que a coisa fique difícil,     
mesmo que dê vontade de os encher de murros, ou de beijos       

Não esperem de um poeta uma amiga imaginária       

Esperem de um poeta uma cadela imaginária       
a que os vizinhos, por hábito, chamam            
noctívaga.

Filipa Leal

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