Não
esperem dos poetas mensagens a horas
Não esperem dos poetas pedidos de desculpa
Que não sejam, ao mesmo tempo, declarações de amor
Com mais anexos do que a declaração de IRS
Não
esperem dos poetas sumo de fruta cortada na hora,
com bastante gelo, e um relvado bem cortado,
e umas unhas bem cortadas,
e um coração bem cortado
Para
escrever poemas, é preciso ter o punhal de Caravaggio
Encostado à língua: «Nem esperança, nem medo»
Não
esperem de um poeta que vos corte a língua
O poeta quer ouvir tudo, apesar de tudo, e até de manhã
Não esperem de um poeta que vos corte o coração
Não sabe, não foi o poeta que cortou o dele
Não
calem o poeta, nunca calem o poeta
Não há nada pior do que cortar a língua a um poeta
Ele não se cala, fica tudo nos livros
Quando
não quiserem mais o poeta, devolvam-no
Numa caixa forrada a alcatifa dos anos 70
O poeta gosta da palavra alcatifa, apesar das alergias,
e tem queda para se magoar a sério
Cortem-lhe as unhas com os próprios dentes
e, se não se importam, tirem-lhe o punhal
Sejam
amigos dos poetas
Mesmo que a coisa fique difícil,
mesmo que dê vontade de os encher de murros, ou de beijos
Não
esperem de um poeta uma amiga imaginária
Esperem
de um poeta uma cadela imaginária
a que os vizinhos, por hábito, chamam
noctívaga.
Filipa Leal
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