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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

SETEMBROS 11


«Os EUA no mundo 25 anos depois do 11 de Setembro
Dedicamos hoje uma parte importante da nossa primeira página, que é sempre uma espécie de cápsula do tempo para efeitos de memória futura, aos 25 anos passados sobre os ataques às Torres Gémeas, ao edifício do Pentágono e ao voo United 93. A 11 de Setembro de 2001 morreram 2977 pessoas, incluindo 19 terroristas, e não se sabe quantas mais foram vítimas indirectas da tragédia desde então.

Na sequência do 11 de Setembro, os Estados Unidos fecharam-se ao mundo e instalou-se uma lógica securitária motivada pelo medo, pela necessidade de proteger as fronteiras e pela luta contra o terrorismo. Foi aprovada a
​Patriot Act, nasceu o Department of Homeland Security e o (agora famoso) ICE Immigration and Customs Enforcement, o controlo de vistos foi reforçado (sobretudo para cidadãos oriundos de países muçulmanos) e teve início uma “caça ao homem” que só terminou quando Osama Bin Laden foi morto, em Trípoli.»

Sónia Sanage no Editorial do Público de hoje.

 

Caramba! Já passaram 25 anos sobre o ataque aos Estados Unidos.

Também houve um outro 11 de Setembro, ano de 1973, no Chile, que tentava seguir a política de Salvador Allende, e aí os Estados Unidos estiveram como mentores e actuantes do tenebroso Pinochet. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

SETEMBROS


 Chile, 11 de Setembro de 1973.


Nova Iorque, 11 de Setembro de 2001.

sábado, 11 de setembro de 2021

SETEMBROS


No dia 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque, um criminoso atentado terrorista, contra as duas torres do World Trade Center, matava mais de três mil cidadãos de diversas nacionalidades, dando origem a uma escalada de destruição, violência e que veio a culminar, a mando de George Bush,  na invasão do Iraque,  que, ainda hoje, se fim à vista se reflecte em toda o Médio Oriente, com dramáticos cenários no Iraque e na Síria.

Nesse 11 de Setembro de 1973, a CIA ajudou monetariamente e militarmente o  num General Augusto Pinochet, num golpe de estado que pôs fim ao governo democraticamente  legitimo de Salvador Allende, provocando vários milhares de vítimas, 30 mil são os números calculados, e acrescente-se as prisões e o exílio de duzentos mil chilenos, que deu origem a uma feroz ditadura que durou 17 anos.

Para assinalar o 1º aniversário do atentado de Nova Iorque, o produtor francês Alain Brigand, pediu a 11 realizadores, de vários países, para fazerem uma curta-metragem de 11 minutos, nove segundos e um frame, sobre a destruição das torres.

 O inglês Ken Roach foi um dos realizadores escolhidos.

 Dando a volta ao texto, põe Pablo, um exilado chileno, a ler uma carta de solidariedade ao povo norte-americano, enquanto passam imagens da eleição e do assassínio de Salvador Allende:

«Queridas mães, pais e amados daqueles que morreram no dia 11 de Setembro em Nova Iorque:

Sou chileno e vivo em Londres. Quero dizer-vos que talvez tenhamos algo em comum. Os vossos entes queridos foram assassinados como os meus e na mesma data: 11 de Setembro. Terça-feira.

Em 1970 houve eleições. Eu tinha 18 anos e votei pela primeira vez. Tínhamos um sonho lindo, o de construir uma sociedade em que o nosso povo partilhasse os frutos do seu trabalho, a riqueza do país. Por isso em Setembro de 1970 todos votámos e vencemos. Havia leite e educação para as crianças. Terras por cultivar foram dadas a trabalhadores sem terra. As minas de carvão e de cobre e as principais indústrias tornaram-se pertença de todos nós. Pela primeira vez na sua vida as pessoas tinham dignidade. Mas ignorávamos como tal era perigoso. O vosso Secretário de Estado, Henry Kissinger anunciou: “Não sei porque havemos de ficar a ver um país tornar-se comunista devido à irresponsabilidade do seu povo.”

A nossa decisão democrática e os nossos votos eram irrelevantes. O mercado e os lucros são mais importantes. A partir desse momento a nossa dor e a vossa dor foi legalizada. O vosso Presidente Nixon disse que poria a nossa economia a gritar. Ele mandou a CIA tomar parte activa num levantamento militar, um golpe de estado. Dez milhões de dólares e mais, se necessário, foram disponibilizados para derrubar o nosso Presidente Salvador Allende.

Amigos, os vossos líderes pretenderam destruir-nos. Desencadearam uma guerra no sector dos transportes que quase paralisava a nossa economia. Eles pararam todo o comércio entre nós o que provocou o caos. Estavam feitos com os chilenos que não aceitavam a nossa vitória. Os vossos dólares apoiaram neo-fascistas que geraram violência nas ruas e puseram bombas em fábricas e centrais eléctricas. Por estranho que pareça, não surtiu efeito. Nas eleições municipais o nosso apoio aumentou. E o que fizeram os Estados Unidos da América?

No dia 11 de Setembro, inimigos da liberdade cometeram um acto de guerra contra o nosso país. Ao raiar da aurora tropas e tanques avançaram sobre o nosso palácio presidencial. Allende e os seus ministros e conselheiros estavam lá dentro. Allende não fugiu quando o Palácio Moneda foi atingido.

Ele foi assassinado. Assassinaram-no. Numa terça-feira. A nossa terça-feira. Dia 11 de Setembro de 1973. Um dia que destruiu a nossa vida para sempre.

Deram-me um tiro no joelho e fizeram encostar-me a cara ao pó da estrada. Bateram-me tanto que por várias vezes perdi os sentidos. Um dia na prisão cheguei-me à grade e vi o German Castro a ser arrastado pelos braços. Ele não conseguia andar, sangrava dos ouvidos. Eles partiram-lhe os ossos e depois assassinaram-no. Soubemos dos campos de tortura dirigidos por oficiais treinados nas escolas americanas. Soubemos que havia gente atirada de helicópteros, gente torturada em frente aos filhos e conjugues . Sabem o que eles faziam? Punham-lhes electricidade nos órgãos genitais. Punham ratazanas nas vaginas das mulheres e treinavam cães para as violar. E depois soubemos da “Caravana da Morte” do general que ia de terra em terra a fazer execuções aleatórias. 30 mil pessoas foram assassinadas. 30 mil. O vosso embaixador no Chile queixou-se das torturas e Kissinger disse: “Ele que pare com os discursos de ciência política”.

O general Pinochet, organizador do golpe sorriu e aceitou os parabéns do Secretário de Estado. E os dólares recomeçaram a entrar no Chile. Chamaram-me terrorista e condenaram-me a prisão perpétua sem direito a julgamento ou defesa. Fui libertado cinco anos depois mas tive de deixar o país para não pôr em perigo os meus amigos. Não posso regressar ao Chile embora não pense noutra coisa. O Chile é a minha pátria mas o que seria dos meus filhos? Eles nasceram em Londres. Não os posso condenar ao exílio como eu. Não posso fazê-lo agora mas anseio por voltar.

Santo Agostinho disse: “A esperança tem duas belas filhas – a Raiva e a Coragem. Raiva pelo estado das coisas. Coragem para as mudar.”

Mães, pais, amados dos que morreram em Nova Iorque:

Em breve será o 29º aniversário da nossa terça-feira, dia 11 de Setembro, e o 1º aniversário da vossa. Nós recordar-vos-emos. Espero que vocês se recordem de nós.»

Pablo

FOTOGRAFIA DE 11 DE SETEMBRO


Atiraram-se dos andares em chamas.
Um, dois, ainda alguns,
mais acima, mais abaixo.

A fotografia deteve-os na vida
e agora preserva-os
sobre a terra rumo à terra.

Cada um ainda na íntegra
com rosto individual
e sangue bem guardado.

Ainda há tempo
Para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.

Ainda estão ao alcance do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se abrir.

Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever este voo
e não acrescentar a última frase.

 Wistawa Szymborka em Instante

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

OLHAR AS CAPAS


Instante

Wistawa Szymborska
Tradução: Elzbieta Milewska e Sérgio Neves
Relógio d’Água Editores, Lisboa, Janeiro de 2006

Fotografia de 11 de Setembro

Atiraram-se dos andares em chamas.
Um, dois, ainda alguns,
mais acima, mais abaixo.

A fotografia deteve-os na vida
e agora preserva-os
sobre a terra rumo à terra.

Cada um ainda na íntegra
com rosto individual
e sangue bem guardado.

Ainda há tempo
Para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.

Ainda estão ao alcance do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se abrir.

Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever este voo
e não acrescentar a última frase.

sábado, 12 de setembro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

SETEMBROS

No dia 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque, um criminoso atentado terrorista, contra as duas torres do World Trade Center, matava mais de três mil cidadãos de diversas nacionalidades, dando origem a uma escalada de destruição, violência e que veio a culminar, a mando de George Bush,  na invasão do Iraque,  que, ainda hoje, se fim à vista se reflecte em toda o Médio Oriente, com dramáticos cenários no Iraque e na Síria.

Nesse 11 de Setembro de 1973, a CIA ajudou monetariamente e militarmente o  num General Augusto Pinochet, num golpe de estado que pôs fim ao governo democraticamente  legitimo de Salvador Allende, provocando vários milhares de vítimas, 30 mil são os números calculados, e acrescente-se as prisões e o exílio de duzentos mil chilenos, que deu origem a uma feroz ditadura que durou 17 anos.

Para assinalar o 1º aniversário do atentado de Nova Iorque, o produtor francês Alain Brigand, pediu a 11 realizadores, de vários países, para fazerem uma curta-metragem de 11 minutos, nove segundos e um frame, sobre a destruição das torres.

 O inglês Ken Roach foi um dos realizadores escolhidos.

 Dando a volta ao texto, põe Pablo, um exilado chileno, a ler uma carta de solidariedade ao povo norte-americano, enquanto passam imagens da eleição e do assassínio de Salvador Allende:
Queridos mães, pais e amados daqueles que morreram no dia 11 de Setembro em Nova Iorque:
Sou chileno e vivo em Londres. Quero dizer-vos que talvez tenhamos algo em comum. Os vossos entes queridos foram assassinados como os meus e na mesma data: 11 de Setembro. Terça-feira.
Em 1970 houve eleições. Eu tinha 18 anos e votei pela primeira vez. Tínhamos um sonho lindo, o de construir uma sociedade em que o nosso povo partilhasse os frutos do seu trabalho, a riqueza do país. Por isso em Setembro de 1970 todos votámos e vencemos. Havia leite e educação para as crianças. Terras por cultivar foram dadas a trabalhadores sem terra. As minas de carvão e de cobre e as principais indústrias tornaram-se pertença de todos nós. Pela primeira vez na sua vida as pessoas tinham dignidade. Mas ignorávamos como tal era perigoso. O vosso Secretário de Estado, Henry Kissinger anunciou: “Não sei porque havemos de ficar a ver um país tornar-se comunista devido à irresponsabilidade do seu povo.”


A nossa decisão democrática e os nossos votos eram irrelevantes. O mercado e os lucros são mais importantes. A partir desse momento a nossa dor e a vossa dor foi legalizada. O vosso Presidente Nixon disse que poria a nossa economia a gritar. Ele mandou a CIA tomar parte activa num levantamento militar, um golpe de estado. Dez milhões de dólares e mais, se necessário, foram disponibilizados para derrubar o nosso Presidente Salvador Allende.
Amigos, os vossos líderes pretenderam destruir-nos. Desencadearam uma guerra no sector dos transportes que quase paralisava a nossa economia. Eles pararam todo o comércio entre nós o que provocou o caos. Estavam feitos com os chilenos que não aceitavam a nossa vitória. Os vossos dólares apoiaram neo-fascistas que geraram violência nas ruas e puseram bombas em fábricas e centrais eléctricas. Por estranho que pareça, não surtiu efeito. Nas eleições municipais o nosso apoio aumentou. E o que fizeram os Estados Unidos da América?
No dia 11 de Setembro, inimigos da liberdade cometeram um acto de guerra contra o nosso país. Ao raiar da aurora tropas e tanques avançaram sobre o nosso palácio presidencial. Allende e os seus ministros e conselheiros estavam lá dentro. Allende não fugiu quando o Palácio Moneda foi atingido.
Ele foi assassinado. Assassinaram-no. Numa terça-feira. A nossa terça-feira. Dia 11 de Setembro de 1973. Um dia que destruiu a nossa vida para sempre.
Deram-me um tiro no joelho e fizeram encostar-me a cara ao pó da estrada. Bateram-me tanto que por várias vezes perdi os sentidos. Um dia na prisão cheguei-me à grade e vi o German Castro a ser arrastado pelos braços. Ele não conseguia andar, sangrava dos ouvidos. Eles partiram-lhe os ossos e depois assassinaram-no. Soubemos dos campos de tortura dirigidos por oficiais treinados nas escolas americanas. Soubemos que havia gente atirada de helicópteros, gente torturada em frente aos filhos e conjugues . Sabem o que eles faziam? Punham-lhes electricidade nos órgãos genitais. Punham ratazanas nas vaginas das mulheres e treinavam cães para as violar. E depois soubemos da “Caravana da Morte” do general que ia de terra em terra a fazer execuções aleatórias. 30 mil pessoas foram assassinadas. 30 mil. O vosso embaixador no Chile queixou-se das torturas e Kissinger disse: “Ele que pare com os discursos de ciência política”.
O general Pinochet, organizador do golpe sorriu e aceitou os parabéns do Secretário de Estado. E os dólares recomeçaram a entrar no Chile. Chamaram-me terrorista e condenaram-me a prisão perpétua sem direito a julgamento ou defesa. Fui libertado cinco anos depois mas tive de deixar o país para não pôr em perigo os meus amigos. Não posso regressar ao Chile embora não pense noutra coisa. O Chile é a minha pátria mas o que seria dos meus filhos? Eles nasceram em Londres. Não os posso condenar ao exílio como eu. Não posso fazê-lo agora mas anseio por voltar.
Santo Agostinho disse: “A esperança tem duas belas filhas – a Raiva e a Coragem. Raiva pelo estado das coisas. Coragem para as mudar.”
Mães, pais, amados dos que morreram em Nova Iorque:
Em breve será o 29º aniversário da nossa terça-feira, dia 11 de Setembro, e o 1º aniversário da vossa. Nós recordar-vos-emos. Espero que vocês se recordem de nós.

Pablo

Texto publicado em 11 de Setembro de 2015

terça-feira, 13 de setembro de 2016

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Anúncio da TAP, após o ataque às Torres Gémeas, publicado no Diário de Notícias de 13 de Setembro de 2001.

domingo, 11 de setembro de 2016

POSTAIS SEM SELO



Palavras e mais palavras, só palavras.

Shakespeare em Hamlet

SIM, CULPAR OS OUTROS...


No caso das Torres Gémeas sabe-se que a Al-Qaeda se organizou para as destruir, mas na conspiração paranoica não foi a Al-Qaeda mas sim os judeus e o presidente Bush.
Quando não se quer reconhecer que se é um imbecil, culpam-se os outros. Aliás, basta ver que todas as religiões do mundo resultaram de conspirações: há sempre um deus que fez isto ou aquilo. Mesmo que tenha sido eu a matar semelhantes numa guerra, logo se aponta para uma maquinação da divindade e que é responsável pelo acto.

Umberto Eco

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

SETEMBROS


No dia 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque, um criminoso atentado terrorista, contra as duas torres do World Trade Center, matava mais de três mil cidadãos de diversas nacionalidades, dando origem a uma escalada de destruição, violência e que veio a culminar, a mando de George Bush,  na invasão do Iraque,  que, ainda hoje, se fim à vista se reflecte em toda o Médio Oriente, com dramáticos cenários no Iraque e na Síria.

No 11 de Setembro de 1973, a CIA ajudou monetariamente e militarmente o  num General Augusto Pinochet, num golpe de estado que pôs fim ao governo democraticamente  legitimo de Salvador Allende, provocando vários milhares de vítimas, 30 mil são os números calculados, e acrescente-se as prisões e o exílio de duzentos mil chilenos, que deu origem a uma feroz ditadura que durou 17 anos.

Para assinalar o 1º aniversário do atentado de Nova Iorque, o produtor francês Alain Brigand, pediu a 11 realizadores, de vários países, para fazerem uma curta-metragem de 11 minutos, nove segundos e um frame, sobre a destruição das torres.

O inglês Ken Roach foi um dos realizadores escolhidos.

 Dando a volta ao texto, põe Pablo, um exilado chileno, a ler uma carta de solidariedade ao povo norte-americano, enquanto passam imagens da eleição e do assassínio de Salvador Allende:

Queridos mães, pais e amados daqueles que morreram no dia 11 de Setembro em Nova Iorque:
Sou chileno e vivo em Londres. Quero dizer-vos que talvez tenhamos algo em comum. Os vossos entes queridos foram assassinados como os meus e na mesma data: 11 de Setembro. Terça-feira.
Em 1970 houve eleições. Eu tinha 18 anos e votei pela primeira vez. Tínhamos um sonho lindo, o de construir uma sociedade em que o nosso povo partilhasse os frutos do seu trabalho, a riqueza do país. Por isso em Setembro de 1970 todos votámos e vencemos. Havia leite e educação para as crianças. Terras por cultivar foram dadas a trabalhadores sem terra. As minas de carvão e de cobre e as principais indústrias tornaram-se pertença de todos nós. Pela primeira vez na sua vida as pessoas tinham dignidade. Mas ignorávamos como tal era perigoso. O vosso Secretário de Estado, Henry Kissinger anunciou: “Não sei porque havemos de ficar a ver um país tornar-se comunista devido à irresponsabilidade do seu povo.”


A nossa decisão democrática e os nossos votos eram irrelevantes. O mercado e os lucros são mais importantes. A partir desse momento a nossa dor e a vossa dor foi legalizada. O vosso Presidente Nixon disse que poria a nossa economia a gritar. Ele mandou a CIA tomar parte activa num levantamento militar, um golpe de estado. Dez milhões de dólares e mais, se necessário, foram disponibilizados para derrubar o nosso Presidente Salvador Allende.
Amigos, os vossos líderes pretenderam destruir-nos. Desencadearam uma guerra no sector dos transportes que quase paralisava a nossa economia. Eles pararam todo o comércio entre nós o que provocou o caos. Estavam feitos com os chilenos que não aceitavam a nossa vitória. Os vossos dólares apoiaram neo-fascistas que geraram violência nas ruas e puseram bombas em fábricas e centrais eléctricas. Por estranho que pareça, não surtiu efeito. Nas eleições municipais o nosso apoio aumentou. E o que fizeram os Estados Unidos da América?
No dia 11 de Setembro, inimigos da liberdade cometeram um acto de guerra contra o nosso país. Ao raiar da aurora tropas e tanques avançaram sobre o nosso palácio presidencial. Allende e os seus ministros e conselheiros estavam lá dentro. Allende não fugiu quando o Palácio Moneda foi atingido.
Ele foi assassinado. Assassinaram-no. Numa terça-feira. A nossa terça-feira. Dia 11 de Setembro de 1973. Um dia que destruiu a nossa vida para sempre.
Deram-me um tiro no joelho e fizeram encostar-me a cara ao pó da estrada. Bateram-me tanto que por várias vezes perdi os sentidos. Um dia na prisão cheguei-me à grade e vi o German Castro a ser arrastado pelos braços. Ele não conseguia andar, sangrava dos ouvidos. Eles partiram-lhe os ossos e depois assassinaram-no. Soubemos dos campos de tortura dirigidos por oficiais treinados nas escolas americanas. Soubemos que havia gente atirada de helicópteros, gente torturada em frente aos filhos e conjugues . Sabem o que eles faziam? Punham-lhes electricidade nos órgãos genitais. Punham ratazanas nas vaginas das mulheres e treinavam cães para as violar. E depois soubemos da “Caravana da Morte” do general que ia de terra em terra a fazer execuções aleatórias. 30 mil pessoas foram assassinadas. 30 mil. O vosso embaixador no Chile queixou-se das torturas e Kissinger disse: “Ele que pare com os discursos de ciência política”.
O general Pinochet, organizador do golpe sorriu e aceitou os parabéns do Secretário de Estado. E os dólares recomeçaram a entrar no Chile. Chamaram-me terrorista e condenaram-me a prisão perpétua sem direito a julgamento ou defesa. Fui libertado cinco anos depois mas tive de deixar o país para não pôr em perigo os meus amigos. Não posso regressar ao Chile embora não pense noutra coisa. O Chile é a minha pátria mas o que seria dos meus filhos? Eles nasceram em Londres. Não os posso condenar ao exílio como eu. Não posso fazê-lo agora mas anseio por voltar.
Santo Agostinho disse: “A esperança tem duas belas filhas – a Raiva e a Coragem. Raiva pelo estado das coisas. Coragem para as mudar.”
Mães, pais, amados dos que morreram em Nova Iorque:
Em breve será o 29º aniversário da nossa terça-feira, dia 11 de Setembro, e o 1º aniversário da vossa. Nós recordar-vos-emos. Espero que vocês se recordem de nós.

Pablo

sábado, 21 de março de 2015

À LUZ DE CANDEEIROS


Lisboa.
Avenida dos Estados Unidos da América junto ao monumento às vítimas do 11 de Setembro.

sábado, 11 de setembro de 2010

ONZES DE SETEMBRO



Quando do a 11 de Setembro de 2001 um criminoso ataque terrorista, destruiu as duas torres do “World Trade Center”, vitimando cerca de três mil cidadãos de diversas nacionalidades, que acabou por ser o ponto de partido para a invasão e destruição do e com os trágicos resultados que conhecemos, já a minha memória registava um outro 11 de Setembro, o do ano de 1973 no Chile, quando a CIA fomentou apoiou o derrube do governo, democraticamente eleito, do Presidente Salvador Allende, provocando milhares de assassinatos, de desaparecidos, o exílio de mais de duzentos mil chilenos e uma feroz ditadura que durou 17 anos.
Quando ocorreu o 1º aniversário do atentado de Nova Iorque, o produtor francês Alain Brigand, pediu a 11 realizadores, de vários países, para fazerem, sobre a tragédia de Nova Iorque, uma curta-metragem de 11 minutos, nove segundos e um frame.O britânico Ken Roach, aproveitou a sua curta-metragem para colocar Pablo, um exilado chileno, a escrever e a ler uma carta de solidariedade ao povo norte-americano. Este é o começo da carta:

“Queridos mães, pais e amados daqueles que morreram no dia 11 de Setembro em Nova Iorque:Sou chileno e vivo em Londres. Quero dizer-vos que talvez tenhamos algo em comum. Os vossos entes queridos foram assassinados como os meus e na mesma data: 11 de Setembro. Terça-feira.”

E este é o seu final:

“Chamaram-me terrorista e condenaram-me a prisão perpétua sem direito a julgamento ou defesa. Fui libertado cinco anos depois mas tive de deixar o país para não pôr em perigo os meus amigos. Não posso regressar ao Chile embora não pense noutra coisa. O Chile é a minha pátria mas o que seria dos meus filhos? Eles nasceram em Londres. Não os posso condenar ao exílio como eu. Não posso fazê-lo agora mas anseio por voltar.Santo Agostinho disse: “A esperança tem duas belas filhas – a Raiva e a Coragem. Raiva pelo estado das coisas. Coragem para as mudar.”Mães, pais, amados dos que morreram em Nova Iorque:Em breve será o 29º aniversário da nossa terça-feira, dia 11 de Setembro, e o 1º aniversário da vossa. Nós recordar-vos-emos. Espero que vocês se recordem de nós.”
O escritor Don Delillo, sobre o 11 de Setembro de 2001 escreveu um livro a que deu o título: “Um Homem em Queda”:

Deixara de ser uma simples rua, era agora um mundo, um tempo e espaço de cinza a tombar e quase noite. Ele caminhava para norte através do entulho e da lama e havia pessoas que o ultrapassavam a correr, com toalhas encostadas ao rosto ou casacos a cobrir a cabeça. Tapavam a boca com lenços de assoar. Traziam sapatos nas mãos, uma mulher com um sapato em cada mão surgiu a correr e deixou-o para trás. Corriam e estatelavam-se, algumas, confusas e desajeitadas, com destroços a tombarem à sua volta, e havia pessoas a abrigarem-se debaixo dos automóveis.O rugido permanecia no ar, o ronco distorcido da queda. Agora o mundo era assim. O fumo e a cinza rolavam pelas ruas fora e dobravam as esquinas, irrompiam brutalmente às esquinas, ondas sísmicas de fumo com folhas de papel timbrado a surgirem em lampejos, folhas de formato padronizado com bordos cortantes, a pairarem, arrastadas num sopro, coisas inimagináveis na cortina de fumo matinal..
Ele vestia fato e gravata e trazia uma pasta na mão. Tinha vidro no cabelo e no rosto, bolhas marmoreadas de sangue e luz. Deixou para trás um letreiro que dizia Menu Especial Pequeno-almoço e as pessoas passavam por ele a correr, polícias e seguranças a precipitarem-se pela rua fora, a apertarem o punho dos revólveres com a mão para manterem as armas encostadas ao corpo.Era distante e silencioso, o interior das torres, onde ele deveria estar àquela hora. À sua volta é que tudo fervilhava, um carro meio sepultado nos destroços, de vidros estilhaçados e com ruídos a emergir, vozes radiofónicas a arranhar os escombros. Ele via pessoas a gotejar água enquanto corriam, roupas e corpos encharcados dos aspersores de combate a incêndios. Havia sapatos abandonados em plena rua, malas de senhora e computadores portáteis, um homem sentado na berma do passeio a tossir sangue. Copos de plástico saltitavam estranhamente de um lado para o outro.
O mundo era também isto, figuras humanas em janelas trezentos metros acima do chão, a lançarem-se no vazio, e o cheiro nauseabundo do combustível a arder, e o ar rasgado pelas sereias insistentes. O ruído estava em toda a parte para onde as pessoas corriam, o som estratificado a acumular-se em volta delas, e ele afastava-se e ao mesmo tempo mergulhava no seu seio.De repente surgiu outra coisa, exterior a tudo aquilo, não pertencente àquela esfera, lá no alto. Viu-a descer. Uma camisa tombou da muralha altaneira de fumo, uma camisa que se elevou e pairou à luz escassa e depois tornou a cair, soçobrando em direcção ao rio.As pessoas correram e depois estacaram, algumas, ali paradas, a vacilar, tentando recuperar o fôlego no ar ardente, com gritos entrecortados de incredulidade, pragas e urros perdidos, e os papéis que enchiam o ar, contratos, curricula vitae arrastados num instante fugaz, fragmentos intactos de transacções, céleres no vento.