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quinta-feira, 12 de outubro de 2023

OLHAR AS CAPAS


 A Vida Difícil

Italo Calvino

Tradução: Fernanda Branco

Capa: Sebastião Rodrigues

Biblioteca Arcádia de Bolso – Secção VI – Ficção – nº 1

Editora Arcádia, Lisboa, 1962

Vim estabelecer-me nesta cidade numa altura em que absolutamente nada me importava. «Estabelecer» talvez nem seja a expressão correcta. Não acalentava qualquer desejo de estabilidade; pretendia apenas que à minha volta tudo continuasse fluido e provisório, pois que só deste modo me parecia possível salvaguardar uma certa estabilidade interior, cuja substância não saberia contudo explicar. Por isso quando, graças a uma série de recomendações, me foi proposto o lugar de redactor do periódico A Purificação, vim para esta cidade procurar alojamento.

Para quem acaba de desembarcar dum comboio é inevitável que toda a cidade tenha o aspecto duma gare: por mais que se ande, deparam-se ruas cada vez mais esquálidas, ladeadas de oficinas, escritórios de despachantes, cafés com balcões forrados a zinco, camiões que despejam na cara de quem passa uma fumara fétida, e muda-se a mala constantemente de mãos, sentindo-as incharem, suadas; sente-se o nervoso e a roupa interior colada à pele, enquanto todas as coisas que se avistam parecem sem relação umas com as outras, isoladas e móveis.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

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Os Oportunistas

Italo Calvino

Tradução: Arnaldo Aboim

Capa. Sebastião Rodrigues

Colecção: Livros de Bolso Arcádia nº 15

Editora Arcádia, Lisboa, Outubro de 1961

Erguer os olhos do livro (lia sempre, no comboio) e reencontrar a paisagem palmo a palmo – a muralha, a figueira, a nora, o canavial, o recife – as coisas que sempre vira mas em que só agora reparava, por ter estado ausente: era assim que Quinto retomava contacto com a sua terra, a Riviera, todas as vezes que voltava. Mas como era possível durar há anos esta história das suas idas e dos seus regressos esporádicos, que prazer tinha nisso? Já o sabia de cor: todavia continuava a procurar fazer novas descobertas, assim de fugida, um olho no livro o outro na janela, e agora era já apenas uma confirmação das mesmas observações.

sábado, 17 de abril de 2021

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 O Cavaleiro Inexistente

Italo Calvino

Tradução: Fernanda Ribeiro e Herberto Helder

Capa: João da Câmara Leme

Colecção O Livro de Bolso nº 72

Portugália Editora, Janeiro de 1965

Livro, agora estás no fim. Ùltimamente tenho-me posto a escrever a toda a pressa. De uma a outra, eu saltava entre as nações, os mares e os continentes. Que fúria me tomou, que impaciência? Dir-se-ia que espero qualquer coisa. Mas o que mais pode esperar uma freira, de tal maneira retirada, a ponto de estar fora dos sempre instáveis acasos do mundo? Que outra coisa espero entre as novas páginas a preencher e os sempre eternos toques da sineta do convento?

sexta-feira, 16 de abril de 2021

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O Barão Trepador

Italo Calvino

Tradução: José Manuel Calafate

Capa: João da Câmara Leme

Colecção O Livro de Bolso nº 48/49

Portugália Editora, Lisboa s/d


Foi a 15 de Junho do ano de 1767 que Cosimo Piovasco de Rondó, meu irmão, se sentou pela última vez entre nós. Estávamos na sala de jantar da nossa villa de Ombrosa e a janela emoldurava a frondosa ramaria do enorme álamo do parque. Era meio-dia e, seguindo uma velha tradição, a nossa família sentava-se à mesa sempre àquela hora, não obstante se tivesse espalhado já entre a nobreza a moda, originária da pouco madrugadora corte de França, de almoçar a meio da tarde. Lembro-me de que soprava uma leve brisa vinda do mar e as folhas buliam. Cosimo teimou: - Já disse que não quero e não quero! - afastando, com um gesto, o prato de caracóis. Não havia memória de mais grave desobediência.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

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O Visconde Cortado ao Meio

Italo Calvino

Tradução: José Manuel Calafate

Capa: João da Câmara Leme

Colecção O Livro de Bolso nº 17

Portugália Editora, Lisboa s/d

Chegara à adolescência e escondia-me ainda entre a raízes descobertas das grandes árvores do bosque, contando histórias a mim mesmo. Uma agulha de pinheiro podia para mim representar um cavaleiro, ou uma dama, ou até um bobo da corte; eu imaginava-os movendo-se diante dos meus olhos e perdia-me em histórias intermináveis e fantásticas. Mas, depois, subitamente, sentia vergonha destas divagações e fugia, pelos bosques, sei lá de quê ou de quem.

Por fim, chegou também o dia em que até o próprio doutor Trelawney me abandonou. Certa manhã, entrou no golfo da nossa região uma esquadra de navios ostentando o pavilhão inglês. Toda Terralba desceu à praia, para observar, excepto eu, que não sabia. Nos parapeitos das amuradas e pela mastreação, multidões de marinheiros exibiam ananases e tartarugas e desenrolavam cartazes em que havia máximas e inglesas pintadas. Na ponte, no meio dos oficiais de tricórnio e cabeleira, o capitão Cook olhava pelo óculo a praia, e mal descobriu o doutor Trelawney, deu ordens para que, com bandeirinhas, lhe transmitissem a seguinte mensagem:

«Venha já para bordo, doutor. Temos de continuar aquela partida de sete-e-meio.»

O doutor despediu-se de todos os habitantes de Terralba e abandonou-nos. Os marinheiros entoaram o hino: «Oh! Austrália!» e o doutor foi içado para bordo a cavalo num barril de vinho carrascão. Depois levantaram ferro e partira.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

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O Atalho dos Ninhos de Aranha
Ítalo Calvino
Tradução de José Manuel Calafate
Capa de Octávio Clérigo
Colecção “O Livro de Bolso” nº 3
Portugália Editora
Lisboa s/d

Os sonhos dos resistentes são raros e curtos, sonhos que têm a sua origem nas noites de fome, intimamente ligados à história da comida que é pouca e tem de ser dividida por tantos: sonhos de bocados de pão mordiscados e depois guardados numa caixa. Os cães vadios devem ter sonhos semelhantes, em que entram ossos suculentos, escondidos debaixo da terra. Só quando o estômago está cheio e o lume aceso, os homens podem permitir-se sonhar com uma mulher nua e acordar de manhã ansiosos e refeitos, com uma sensação de liberdade, como a de um barco após ter levantado ferro.

domingo, 25 de junho de 2017

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Se Numa Noite de Inverno um Viajante

Italo Calvino
Tradução: José Colaço Barreiros
Colecção Mil Folhas nº 11
Público, Lisboa, Julho de 2002

O romance começa numa estação ferroviária, ronca uma locomotiva, um arfar de êmbolo tapa a abertura do capítulo, uma nuvem de fumo esconde parte do primeiro parágrafo. Pelo meio do cheiro a estação passa uma lufada de cheiro a bufete de estação. Está alguém a olhar pelos vidros embaciados, abre a porta envidraçada do bar, lá dentro também está tudo enevoado, como que visto por olhos de míope, ou então por olhos irritados com ciscos de carvão. São as páginas do livro que estão embaciadas como as janelas de um velho comboio, é nas frases que pousa a nuvem de fumo. É uma noite de chuva: o homem entra no bar; desabotoa o sobretudo húmido; envolve-o uma nuvem de vapor; um silvo põe-se a correr pelos carris brilhantes da chuva a perder de vista.

terça-feira, 23 de junho de 2015

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Um Eremita em Paris

Italo Calvino
Tradução: José Colaço Barreiros
Capa: Fernando Mateus
Editorial Teorema, Lisboa, s/d

Agora devo ter mudado qualquer coisa, só escrevo bem num local que seja meu, com livros ao meu alcance, como se tivesse sempre necessi9dade de consultar não se sabe bem o quê. Talvez não seja pelos livros em si, mas por uma espécie de espaço interior que eles formam, quase como se me identificasse a mim próprio como uma minha biblioteca ideal.
No entanto, uma biblioteca minha nunca consigo tê-la junta: os livros tenho-os sempre uns para cada lado; quando preciso de consultar um livro em Paris é sempre um livro que eu tenho em Itália, quando em Itália tenho de consultar um livro é sempre um livro que tenho em Paris. Esta necessidade de consultar livros ao escrever é um hábito que ganhei digamos há uma dezena de anos; dantes não era bem assim: no que eu escrevia, tudo tinha de vir da memória, tudo fazia parte do vivido. Até qualquer referência cultural tinha de ser algo que eu trazia cá dentro, que fazia parte de mim mesmo, senão não entrava nas regras do jogo, não era material que eu pudesse pôr na folha. Em contrapartida agora é exactamente o contrário: até o mundo se tornou uma coisa que eu consulto de quando em quando, e entre esta estante e o mundo lá fora já não há aquele salto que parece existir.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

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As Cidades Invisíveis

Italo Calvino
Capa: Editorial Teorema
Tradução: José Colaço Berreiros
Editorial Teorema, Lisboa, Dezembro de 1996

O homem que cavalga longamente por terrenos bravios sente o desejo de uma cidade. Finalmente chega a Isidora, cidade onde os prédios têm escadas de caracol incrustadas de búzios marinhos, onde se fabricam artísticos óculos e violinos, onde quando o forasteiro está indeciso entre duas mulheres encontra sempre uma terceira, onde as lutas de galos degeneram em brigas sangrentas entre os apostantes. Era em todas estas coisas que ele pensava quando desejava uma cidade. Assim Isidora é a cidade dos seus sonhos: com uma diferença. A vida sonhada continha-o jovem; a Isidora chega em idade tardia. Na praça há o paredão dos velhos que vêem passar a juventude; ele está sentado em fila com eles. Os desejos são recordações.