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sábado, 25 de dezembro de 2021

AS APARÊNCIAS...

29 de Junho de 1992

Quando alguém me vem dizer que os meus textos se tornaram «mais claros», suspeito sempre que se trata de um imbecil. Eu sei que os meus textos se tornaram mais comunicativos, mais contagiantes – isto é, que uma certa aridez teorizante se foi desvanecendo. Mas cuidado! Um dia a Marguerite Duras disse-me de uma determinada personagem que havia conhecido em Portugal: «Ela não é bela; tem a aparência da beleza.» Diria o mesmo do que hoje escrevo: os meus textos não são claros; têm a aparência da clareza.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

SUPLEMENTO DE FASCÍNIO

14 de Maio de 1992

No cinema, Basic Instinct, com Sharon Stone em grandeza e plenitude. Curiosamente, é um filme de que quase toda a gente se sente obrigada a dizer mal, com a preocupação de se demarcar de qualquer suspeita de poder ter gostado por motivos menos puros. Contudo, trata-se de um policial interessante e bem executado, e é difícil ficarmos indiferentes à presença de Sharon Stone. Mas porquê? Por ela ser belíssima e elegantíssima? Seria insuficiente. Há no filme um suplemento de fascínio, que resulta do confronto entre a mera inteligência masculina e uma inteligência sexual que combina o mais feminino dos corpos com a mais masculina capacidade de raciocínio. A famosa cena do interrogatório não é apenas interessante pelo facto de Sharon Stone, ao descruzar as pernas num relance o sexo nu. O que se passa é mais do que isso: é uma debandada (em todos os sentidos do termo) da inteligência masculino policial face a uma inteligência que se reforça na afirmação fálica através do modo como desafia os homens quanto à sua vontade de continuar a fumar. O riso nervoso e perturbado que se difunde entre polícias e espectadores do filme é apenas o reconhecimento constrangido de que uma inteligência sexual é sempre mais inteligente do que uma simples inteligência sem mais nada. O que o filme de Paul Verhoeven tem de provocatório é o curto-circuito que estabelece entre o primitivo da instância sexual e o mito computorizado de uma inteligência sem falhas.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

TUDO SE REPETE SEM NADA SE PERDER

11 de Maio de 1992

Num livro único e maravilhoso, As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, livro em que tudo se repete sem nada se perder, há um momento em que o autor insinua que o outro lado, a face clandestina de todas as cidades, só pode ser a sereníssima cidade de Veneza – um lugar de partida onde nunca se chega. Porque Veneza é isso mesmo o paradoxo indecifrável de um lugar-mais-que-comum e de um não-lugar definitivo.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

DEVIAM-ME TER PERGUNTADO

11 de Maio de 1992

Segundo o Público, interrogada em relação à atitude de Sousa Lara no caso do romance de José Saramago, Agustina Bessa-Luís respondeu: «Foi um acto impolítico. Deviam-me ter perguntado primeiro, eu explicava tudo, ninguém percebia nada, mas ficavam todos contentes.

A literatura é exactamente isto.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

A ETERNIDADE COMO ABORRECIMENTO

3 de Maio de 1992

A eternidade não me interessa, costumava dizer, deve ser um enorme aborrecimento. O que eu desejo é uma outra imagem do tempo, um tempo que se torne elástico, extensível, pastosos mas transparente, um tempo-chiclets, um tempo como a massas do pão que se modela com os dedos. Os momentos de verdadeira felicidade são exactamente como este: avanço em direcção ao mar, e de súbito é tudo mar dentro de mim. Henri Michaux, esse viajante sem viagens, ensinou-me um dia: «Qui connaît une mer connaît la mer.» Talvez o fascínio do jazz resulte de uma relação com o tempo deste tipo: uma tela que se alarga tanto à volta da minha cabeça que se torna uma venda iluminada (ouço Solitude cantado poe Ella Fitzgerald).

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

QUE NOS PRENDE A UMA ESTRANHEZA

29 de Março de 1992

Houve um tempo em que festejavam o dia dos meus anos, hoje sou eu que os festejo, se assim se pode dizer, é como as carícias sobre o corpo, a mão de um outro vem sempre de uma distância definitivamente perdida no eco das nossas duas mãos, e é uma experiência diferente que nos prende a uma estranheza, e não uma festa triste que se arredonda à nossa volta.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, II Volume 

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

TODA A GENTE SABE

24 de Março de 1992

Toda a gente sabe que Jorge Luís Borges é um heterónimo de Fernando Pessoa e Pessoa um sonho de Borges.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II

terça-feira, 9 de novembro de 2021

LEMBRAR MELHOR

18 de Março de 1992

Às vezes lembro-me melhor das salas onde vi os filmes do que dos próprios filmes – memória entranhada aos lugares e desatenta a datas ou números, memória mais geográfica do que histórica.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

DANÇAR FORA DA DANÇA

16 de Março de 1992

Nunca dancei. Vi os outros dançarem, em terraços voltados para o mar, no chão de areia de África ou do Brasil, em clandestinos infernos de bares de marinheiros ou em inflamadas discotecas de praia turísticas, vi-os e julguei-os felizes, esquecidos e voláteis, perdidos e enovelados numa bola de fogo, mesmo se às vezes os pares se rompiam e ela vinha sentar-se a chorar, e então eu pensava que ainda havia palavras que podiam funcionar como carícias, que eu sabia dizê-las, palavras redondas, encostadas à face magoada e triste. Também dancei sem que os outros soubessem que eu dançava, mas dancei fora da dança, porque dançava para mostrar que também dançava, e lembrava-me disso em cada passo, e nunca esquecia que era o meu próprio corpo que dançava, e nunca soube dançar sobre o esquecimento do corpo, nunca ninguém dançou sobre o meu corpo como se fosse a areia da praia ou um terraço voltado para o mar, nunca ninguém que eu sentisse os dois esquecidos de mim.

Pouco a pouco, aprendi a olhar a arte da dança, e passei noites inteiras no deslumbramento de os ver, sem palavras úteis que me explicassem o que ali se passava à minha frente. Era apenas ficar sentado com os olhos colados ao vidro de um mundo outro em que os corpos se multiplicavam como estrelas no momento preciso em que ainda não se tinham tocado, mas já começavam a precipitar-se uns para dentro dos outros. Eles dançavam, esplêndidos, gloriosos, e eu ao vê-los sei que nunca dancei.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

ÀS VEZES, ESCREVE

13 de Março de 1992

«Fernando Echevarria: escrevera sobre ele há muitos anos, ainda nas páginas da Seara Nova, ignorando quem era e o que fazia. Houve um verso que ficou (há palavras que atravessam a minha vida, vá lá saber-se porquê» «e sangue adelgaçado em alegria» (de novo, o sangue, reparaste?). Depois, muitos anos depois, houve um jantar e uma amizade discreta (com o Fernando e a Flor)). É um homem de rosto concentrado e silenciosos que gosta de algumas coisas simples e importantes, como música, vinhos e poesia. Tem uma espantosa sensibilidade `*a forma das palavras e anda por Paris como um clandestino de samarra que tem por missão acender entre os humanos pequenos nichos de respiração e transparência. Por vezes, quando passo de carro ao fim da tarde pelos cais, vejo-o voltado para si e aberto para os outros, num café junto ao Sena: um livro, um caderno, um olhar tranquilo. Às vezes, escreve.»

Eduardo Prado Coelho em Tudo o Que Não Escrevi Volume II

sábado, 25 de setembro de 2021

DOS AUTISMOS...

E daqui deriva também a fisionomia das suas leituras de outros poetas: elas são mais o prolongamento do fluxo através do outro do que a análise enriquecedora da complexidade dos textos. Nesse plano, podemos dizer que Ramos Rosa construiu uma verdadeira cidadela – um quase autismo. Mas os grandes autores são autistas – como o Herberto, a Llansol, a Agustina, o Vergílio ou o Eugénio de Andrade. E poderíamos dizer de Ramos Rosa que nenhum autismo foi tão generosos na demanda do outro para nele se prologar e confirmar – cartas, poemas, desenhos, leituras, confluência de palavras apaixonadas.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume I

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

O FUTURO DEU-LHE RAZÃO...

20 de Novembro de 1991

Melancólicas recordações de um jantar numa noite demasiado belga de Outono: quando se convive de perto com «eurocratas»: funcionários de organizações internacionais), teme-se pelo destino da Europa.

Espero que o futuro me não dê razão…

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume I

domingo, 15 de agosto de 2021

SARAMAGUEANDO

15 de Novembro de 1991

No Público, pode ler-se: «Saramago discute Deus em Almada». Eduardo Lourenço comenta: «Isso não é nada. Ainda havemos de ver: «Deus discute Saramago em Almada.»

Eduardo Prado Coelho em Tudo o Que Não Escrevi, Volume I

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

CIRCUNSTÂNCIAS DO QUOTIDIANO

10 de Novembro de 1991

Há uma frase do meu pai que me ocorre quase todos os dias, imposta pelas circunstâncias infelizes do quotidiano: «os homens souberam chegar à lua, mas ainda não inventaram bules que não entornem o chá».

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume I

domingo, 18 de julho de 2021

UM EFEITO DE EVIDÊNCIA

Citas muito, dizem. Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro».

Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas – isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume I

sábado, 19 de junho de 2021

APENAS PARA DAR UM RECADO

A Philips anuncia telefones que eliminam o ruído da respiração. Sinto-me inquieto com este mundo novo que se anuncia; que vai ser dos telefonemas sexuais, dos silêncios arfantes, dos rituais aéreos do desejo, dos navios nocturnos? Como irão os violadores aterrorizar as vítimas? Como suportar um telefone sem pecado nem crime? Tantas vezes a minha avó dizia: o telefone é só para dar um recado.

Eduardo Prado Coelho em Tudo o que Não Escrevi Volume I 

segunda-feira, 31 de maio de 2021

AFASTASTE-A DE TI HÁ ANOS

19 de Outubro de 1991

 A partir dum poema de Vladimir Holan:

 

A MORTE

 

Afastaste-a de ti há anos,

fechaste-a na cave, tentaste esquecer tudo.

Sabias que ela não estava na música, e é por isso que cantavas,

sabias que ela não estava no silêncio, e por isso te calavas,

sabias que não estava na solidão, e por isso estavas só…

pntão que é que poderá ter acontecido

Para te assustares como alguém

que vê de repente, na noite,

um raio de luz sob a porta do quarto do vizinho

onde há muito tempo já ninguém mora?

domingo, 23 de maio de 2021

O LUGAR SUSPENSO DA INFÂNCIA

13 de Setembro de 1991

Num texto do JL, sobre a nova mitologia cultural europeia, Eduardo Lourenço retoma o velho tópico de que apenas fomos felizes no lugar suspenso de uma infância irrecuperável. Quantas vezes não o ouvi dizer, e talvez, sonâmbulo, o tenha repetido? De quando em quando, na fórmula mágica da teoria: a infância é o espaço do Outro.

Sou sensível, como o não seria?, à ressonância intelectual destas formulações, com uma ressalva, que talvez explique tudo, isto é, nada: nenhuma perda, nenhuma relação de nostalgia, nenhum dilaceramento visceral, me liga à infância. Que foi feliz, sim, acho que sim. Mas a única infância verdadeiramente feliz foi a que me acompanhou pela vida fora – até hoje, até amanhã de manhã. Se tenho algum trabalho, é o de merecê-la – dia a dia. Pouco a pouco, fui-me sentindo capaz disso: um desprendimento, uma desenvoltura, uma isenção (sentar-me na relva, rodeado de vida por todos os lados, e olhar a vida a ver-se a si mesma). A minha infância é afinal o pressentimento quotidiano do que tem efectivamente importância.

(Talvez uma excepção, mas insistente: o dia em que festejavam o dia dos meus anos.)

Por vezes, ao fim da tarde, andando por aqui, nestas ruas do Marais, pergunto: não será esta a minha mais bela recordação de infância?

Eduardo Prado Coelho em Tudo o Que não Escrevi

sexta-feira, 14 de maio de 2021

UMA ENORME CUMPLICIDADE


12 de Setembro de 1991

Pensava-o imortal, não sei porquê. Talvez porque nunca o vi envelhecer. Entrou em minha casa há vinte anos – uma casa vagamente «minha», onde morei apenas alguns meses ali para os lados da avenida de Roma. Uma casa que nem me chegou a ser casa, a não ser por duas ou três coisas muito nítidas que nela me aconteceram. Uma delas foi o António Reis. Ele vinha do Porto, não sei se naquele dia ou no meu imaginário, e era alguém que tinha escrito uns poemas de uma extrema sensibilidade, rasantes ao solo, de uma sensibilidade minimalista, a que chamar por isso mesmo Poemas Quotidianos. O meu mérito estava em ter gostado daqueles versos; o erro seria complicá-los demasiado. Desde esse dia que me ligou ao António Reis uma enorme cumplicidade. E isso transbordou para o cinema. Para o Jaime, primeiro. E depois para o Trás-os-Montes.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume I