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quarta-feira, 8 de julho de 2026

SONETO INCOMPLETO

Como foi, meu amor, que não nasceste,

e, onde não sonho, um berço me ficou?

Eu cartas escrevi, que nunca leste;

desejos tive de quem nunca amou.

 

De me fugires, andei quando perdeste,

e de tão pouco resisti qual sou.

Como foi, meu amor, que não nasceste,

e, onde não sonho, um berço me ficou?


Jorge de Sena em 40 Anos de Servidão

quarta-feira, 6 de maio de 2026

COMO QUEIRAS

Como queiras, Amor, como tu queiras.

Entregue a ti, a tudo me abandono,

seguro e certo, num terror tranquilo.

A tudo quanto espero e quanto temo,

entregue a ti, Amor, eu me dedico.

 

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba,

e nada, não, ainda há por que eu não espere

como de quem ser vida é ter destino.

 

As pequeninas coisas da maldade, a fria

tão tenebrosa divisão do medo

em que os homens se mordem com rosnidos

de malcontente crueldade imunda,

eu sei quanto me aguarda, me deseja,

e sei até quanto ela a mim me atrai.

 

Como queiras, Amor, como tu queiras.

De frágil que és, não poderás salvar-me.

Tua nobreza, essa ternura tépida

quais olhos marejados, carne entreaberta,

será só escárneo, ou, pior, um vão sorriso

em lábios que se fecham como olhares de raiva.

Não poderás salvar-me, nem salvar-te.

Apenas como queiras ficaremos vivos.

 

Será mais duro que morrer, talvez.

Entregue a ti, porém, eu me dedico

àquele amor por qual fui homem, posse

e uma tão extrema sujeição de tudo.

 

Como tu queiras, meu Amor, como tu queiras.

 

Jorge de Sena 

quinta-feira, 26 de março de 2026

O POETA DEDICADO

O poeta delicado de ascendência humilde

foi sempre um cão batido e se não o fosse

viveria mais infeliz ainda por não ser

o cão batido. É bom no fundo, amigo, leal, o dedicado.

Mas, nas entrelinhas dos sorrisos dele,

há sempre um rosnar doce de contida inveja:

é que outros a quem batem são leões ou alifantes,

porém não cães batidos. E não nasceram

nas palhas da província, embora se não escolha

onde se nasce para cão batido.

 

Jorge de Sena em Dedicácias

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

LAMENTO DE UM PAI DE FAMÍLIA

Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna alguma
ser poeta neste tempo de filhos só da puta ou só de putas
sem filhos? Neste espernear de canalhas, como pode ser?
Antes ser gigolô para machos e ou fêmeas, ser pederasta
profissional que optou pelo riso enternecido dos virtuosos
que se revêem nele e o decepcionado dos polícias que com ele
não fazem chantage porque não vale a pena. Antes ser denunciante
de amigos e inimigos, para ganhar a estima dos poderosos ou
dos partidos políticos que nos chamarão seus gênios. Antes
ser corneador de maridos mansos com as mulheres deles fáceis.
Antes reunir conferências de São Vicente de Paula, para roçar
o cu da virtude pelas distracções das sacristias escuras e
ter o prazer de acudir com camisolinhas aos pobres entre os quais
às vezes aparece um ou uma que dá gosto ver assim tão pobre por
se lhe verem os pêlos pelos rasgões da camisa ou algo de mais
impressionante para o subconsciente que sempre está nos olhos
que docemente se comovem com a miséria. Antes ir para as guerras
da civilização cristã ou da outra, matar os inimigos da conta corrente
e das fábricas de celofânicas bombas. Antes ser militar.
Ou marafona de circo. Ou santo, Ou demônio doméstico
torcendo as orelhas dos filhos à falta de torcê-los aos filhos
da puta. Ou gato. Ou cão. Ou piolho. Antes correr os riscos do
DDT, das carroças que os municípios têm para os cães suspeitos
de raivosos como todos os cães que se vê não lamberem as partes
das donas ou mesmo dos donos. Antes tudo isso que assistir a tudo,
sofrer de tudo e tudo, e ainda por cima ter de aturar o amor
paterno e os sorrisos displicentes dos homens de juízo
que deram pílulas às esposas, ou as mandaram à parteira secreta e
elas quiseram ir. Antes morrer.
Mas que adianta morrer? Quem nos garante que a morte
não existe só para os filhos da puta? Quem me garante que
não fico lá, assistindo a tudo, e sem sequer poder chamar-lhes
filhos da puta, com o devido respeito a essas senhoras que precisamente
se distinguem das outras por não terem filhos, nem desses nem dos outros?
Mas mesmo isto não consola nada. A quantidade, a variedade,
gastaram a força dos insultos. E não se pode passar a vida,
esta miséria que me dão e querem dar a meus filhos, a chamar nomes
feios a sujeitos mais feios do que os nomes. Como pode um homem
sequer estar vivo no meio disto, sem que o matem?
E o pior é que matam, sim, e sem saberem primeiro a quem,
para não se inquietarem com o problema de terem morto por engano
um irmão, desfalcando assim a família humana de algum ornamento
que a tornava menos humana e mais puta.

15/6/64

Jorge de Sena em 40 Anos de Servidão

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL



Natal – 1950


Nenhum Natal será possível: sei

que tudo enfim suspenso aguarda

não já Natais sempre de guerra mas

a morte iluminada como aurora

entre esta gente que se junta rindo

e as luzes interiores, muitas cabeças juntas;

entre as lágrimas de ternura e os murmúrios de esperança,

entre as vozes e os silêncios, as pedras e as árvores,

entre muralhas de janelas sob a chuva,

entre agonias dos que lutam porque são mandados

e a cobarde angústia dos que apenas mandam,

no meio da vida, círculo de fogo,

à luz de que se vê uma calçada suja

de restos de comida e de papéis rasgados

– se sei, embora saiba, quanto soube:

ah canto do meu canto, olhar do meu olhar,

nenhum Natal, bem sei, mas outra gente,

e tanta gente, e mesmo que um só fosse,

já louco, envelhecido, apenas hábito,

que poderei fazer, senão humildemente cantar?

 

Jorge de Sena em Natal… Natais

 

terça-feira, 28 de outubro de 2025

DIZEM ALGUNS DIRECTORES LITERÁRIOS

Dizem alguns directores literários
(e accionistas da própria propaganda)
que «o Sena não se vende». E é verdade:
Não vende. Só as putas se vendem.
E em Portugal são tantas que não há
bolsas bastantes para comprá-las,
nem caralhos bastantes
para fodê-las como mereciam.

Jorge de Sena

sábado, 11 de outubro de 2025

CHE


12 de Outubro de 1967

Parece que sempre conseguiram matar o Che Guevara, ao que dizem os jornais. Embora o sinta, não adiro com o mesmo sentimento que tive e tenho pelo Lumumba. É muito diferente lutar e morrer no seio do próprio povo ou agir como caixeiro-viajante da aventura revolucionária, no sei de outros. A dinastia dos Malraux nunca me foi simpática e a realidade confirma que há boas razões para isso.

Mário Sacramento em Diário

«Muitos consideram-me um aventureiro e na verdade sou-o, mas de um tipo diferente, do tipo dos que arriscam a pele para provar o que dizem.» Frase-resumo, em que há Sol e Trevas – e que incendeia a imaginação do radicalismo pequeno-burguês, neo-romântico ainda, em sua masturbação. Não basta querer a revolução. É preciso saber fazê-la.

Poema para Che Guevara escrito por Jorge de Sena:

 

Neste vil mundo que nos coube em sorte

por culpa dos avós e de nós mesmos

tão ocupados em desculpas de salvá-lo,

há uma diferença de revoluções.

Alguns sofrem do estômago, escrevem versos,

Outros reúnem-se à semana discutindo

o evangelho da semana; outros agitam-se

na paz da consciência que adquirem

com agitar-se em benefícios e protestos;

outros param com as costas na cadeia,

para que haja protestos. Há também

revoluções, umas a sério, que se acabam

em compromissos, e outras a fingir,

que não acabam nem começam. Mas são raros

os que não morrem de úlcera ou de pancada a mais,

e contra quem agências e computadores

se mobilizam de sabê-los numa selva

tentando que os campónios se revoltem.

Os campónios não se revoltam. E eles

São caçados, fuzilados, retratados

em forma de cadáver semi-nu,

a quem cortam depois cabeça, mãos,

ou dedos só (numa ânsia de castrá-los

mesmo depois de mortos) e o comércio

transforma-os logo num cartaz romântico

para quarto de jovens que ainda sonhem

com rebeldias antes de se empregarem

no assassinar pontual da sua humanidade

e da dos outros, dia a dia, ao mês,

com seguro social e descontando

para a reforma na velhice idiota.

Ó mundo pulha e pilha que de mortos vive!

 

(Em Poemas a Guevara) 


No 8º volume do seu Diário, Miguel Torga, sobre a morte do Che, colocava este poema:

 

Não choro, que não quero
Manchar de pranto
Um sudário de força combativa.

Reteso a dor, e canto

A tua morte viva.

 

A tua morte morta

Pelo próprio terror em que ficaram

À sua frente

Aqueles que te mataram

Sem poderem matar o combatente.

 

O combatente eterno que ficaste,

Ressuscitado

Na voluntária crucificação.

Herói a conquistar o inconquistado,

Já sem armas na mão


Quem te abateu, perdeu a guerra santa

Da liberdade.

Fez brilhar na manhã do mundo inteiro

Um sol de redentora claridade:

 

O teu rosto de Cristo guerrilheiro.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

NOCTURNO DE LONDRES

Não sei, amor, se dado nos será
de envelhecer. Será que um de nós só morrerá
quando formos tão velhos que para o outro
não faz diferença nenhuma que aquele morra
(na velhice se vive de memória vaga)?
Será que tantos anos de amargura,
suspeitas, frustrações, raivas e ódios,
tudo isso, tempestade, de que é feito o amor
que os burros não entendem, nos serão
acrescentados desse sonhar juntos
em silêncio, num sorriso (que se esquece
e mesmo nos lábios se ignora).
Uma velhice que foi vida e será vida
porque foi vida com que nos comemos
quotidianamente um ao outro
vorazes como peixes num aquário
de vidro inamovível, tão opaco,
translúcido às vezes, transparente sempre,
que é o amor?

 

Jorge de Sena

segunda-feira, 21 de julho de 2025

ODE AO AMOR

Tão lentamente, como alheio, o excesso de desejo,
atento o olhar a outros movimentos,
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque,
obscuro sexo á flor da pele sob o entreaberto
de roupas soerguidas, vibração ligeira, sinal puro
e vago ainda, e súbito contrai-se,
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes
no interior da carne, as pernas se distendem,
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as mãos,
dedos esguios escorrendo trémulos
e um sorriso irónico, violentos gestos,
amor...
             ah tu, senhor da sombra e da ilusão sombria,
vida sem gosto, corpo sem rosto, amor sem fruto,
imagem sempre morta ao dealbar da aurora
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar na vida,
fuga perpétua, demorado espasmo, distração no auge,
cansaço e caridade pelo desejo alheio,
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes,
despedaçar, rasgar, tocar na dor ignota,
hesitação, vertigem, pressa arrependida,
insuportável triturar, deslize amargo,
tremor, ranger, arcos, soluços, palpitar e queda.

Distantemente uma alegria foi,
imensa, já tranquila, apascentando orvalhos,
de contacto a contacto, ansiosamente serenando,
obscuro sexo à flor da pele... amor... amor...
ah tu senhor da sombra e da ilusão sombria...
rei destronado, deus lembrado, homem cumprido.

Distantemente, irónico, esquecido.

Jorge de Sena

quarta-feira, 11 de junho de 2025

A MISÉRIA DAS PALAVRAS

Não: não me falem assim na miséria, nos pobres
na liberdade.

Se a miséria e a pobreza
fossem o vómito que deviam ser posto em palavras,
a imaginação possuída e vomitada que deviam ser,
viria a liberdade por acréscimo,
sem palavras, sem gestos, sem delíquios.

Assim apenas se fala do que se não fala,
apenas se vive do que não se vive,
apenas liberdade é uma miséria
sem nome, sem futuro, sem memória.
E a miséria é isso: não imaginar
o nome que transforma a ideia em coisa,
a coisa que transforma o ser em vida,
a vida que transforma a língua em algo mais
que o falar por falar.

Falem. Mas não comigo. E sobretudo
sejam miseráveis, e pobres, sejam escravos,
no silêncio que à linguagem faz
imaginar-se mais que o próprio mundo.

Jorge de Sena em Peregrinatio Ad Loca Infecta

sexta-feira, 18 de abril de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


 Tempo de silêncio, quase trevas, esperando a alegria de uma grande Aleluia.

Música e Poesia. A Música de Mozart, a Poesia de Jorge de Sena.

Tudo se cala. Tudo há-de tornar-se num enorme Grito, enquanto ouvimos «Lacrimosa» do «Requiem» de Mozart.

 

«REQUIEM» DE MOZART

 

                     I

Ouço-te, ó música, subir aguda

à convergente solidão gelada.

Ouço-te, ó música, chegar desnuda

ao vácuo centro, aonde, sustentada

e da esférica treva rodeada,

tu resplandeces e cintilas muda

como o silente gesto, a mão espalmada

por sobre a solidão que amante exsuda

e lacrimosa escorre pelo espaço

além de que só luz grita o pavor.

Ouço-te lá pousada, equidistante

desse clarão cuja doçura é de aço

como do frágil mas potente amor

que em teu ouvir-te queda esvoaçante.

 

 

                         II

 

Ó música da morte, ó vozes tantas

e tão agudas, que o estertor se cala.

Ó música da carne amargurada

de tanto ter perdido que ora esquece.

Ó música da morte, ah quantas, quantas

mortes gritaram no que em ti não fala.

Ó música da mente espedaçada

de tanto ter sonhado o que entretece,

sem cor e sem sentido, no fervor

de sublimar-se nesse além que és tu.

Ó vida feita uma detida morte.

Ó morte feita um inocente amor.

Amor que as asas sobre o corpo nu

fecha tranquilas no possuir da sorte.

 

                         III


Além do falso ou verdadeiro, além

do abstracto e do concreto, além da forma

e do conceito, além do que transforma

contrários pares noutros par’s também,

além do que recorre

ou nunca vem

ao que se pensa ou sente, além da norma

em que o não-ser se humilha e se conforma,

além do possuir-se, e para além

dessa certeza que outro ritmo dá

àquele de que as palavras têm sentido:

lá onde ouvir e não-ouvir se igualam

na mesma imagem virtual

do na-

da – é que tu vais, ó música, partido

o nó dos tempos que por si se calam.

 

                       IV


Tudo se cala em ti como na vida.

tudo palpita e flui como no leito

em que se morre ou se ama, já desfeito

o abraço do momento em que sustida

a sensação da posse conseguida,

a carne pára a ejacular-se atenta.

Tudo é prazer em ti. Quanto alimenta

Esta glória de existir, trazida

a cada instante só do instante ser-se,

reflui em ti, liberto, puro, aflante, certeza e segurança de conter-se

na criação virtual o renascer-se

agora e sempre pelo tempo adiante,

mesmo esquecido. Em ti, o conhecer-se

deste possível é a paz do amante

 

Jorge de Sena em Arte de Música


Legenda: fotografia de Rui Ornelas

terça-feira, 8 de abril de 2025

OLHAR AS CAPAS


Arte de Música

Jorge de Sena

Prefácio: Jorge Vaz de Carvalho

Posfácio: Jorge de Sena

Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2024

 

MISSA SOLENE, OP. 123, DE BEETHOVEN

 

Não é solene esta música

ao contrário do nome e da intenção.

Clamores portentosos, violência obsessiva

(por sob apelos doces, lacrimosos)

De um ritmo orquestral continuado,

Tanta paixão gritada, tanto contraponto

Que teimosamente impede que na tessitura

Das vozes e dos timbres se interponha hiato

Não de silêncio mas de um fio só

De melodia, por onde a morte

Penetre interrompendo a vida.

 

É medo, um medo-orgulho, feito

de solidão e de desconfiança. Não

piedosa tentativ para captar um Deus,

ou ardente anseio de união com Ele.

Não é também, com tanta majestade,

a exigência de que Ele exista,

porque o mereça quem assim O inventa.

 

É um medo comovente de que O não haja

para remissão dos pecados, bálsamo

das feridas, consolo

das amarguras, dádiva

do que se não teve nunca

ou se perdeu para sempre. É

desejo ansioso de que um Agnus Dei

se interponha (ao contrário da morte) mediador e humano

entre um nada feito música

e outro possivelmente Deus.

E a esperança desesperada e que seja

uma grandeza nossa quanto fique,

de pé, no intervalo entre ambos.

 

                                                       2/11/1964 

sábado, 8 de março de 2025

POEMAS AUTOGRAFADOS


Na Biblioteca da Casa, então situada em casa do meu pai, existiam pouquíssimos livros de poesia. Lembro Bocage, Luís de Camões, José Régio, Cardoso Marta, pouco mais.

Os poetas que nos impingiam nas Selectas Literárias, por onde estudei, eram uma treta.

Em Outubro de 1965, com a cumplicidade do Carvalho, livreiro da então Livraria Clássica Editora, nos Restauradores, no edifício onde era o Cinema Eden, adquirimos a «Antologia de Poesia Portuguesa do Pós Guerra», organizada por Afonso Cautela e Serafim Ferreira, publicada pela Ulisseia na altura dirigida por Vitor Silva Tavares.

 Um ou dois dias depois, a PIDE realizou um raid pelas livrarias e colocou a Antologia «fora do mercado».

 O passar dos olhos pelos poemas da Antologia, deu para verificar que o meu conhecimento da moderna poesia portuguesa era um verdadeiro escândalo.

Falei ao meu pai sobre a necessidade de colmatar, um pouco, essa minha ignorância.

Sugeriram-lhe que o primeiro passo poderia ser  a Colecção Poetas de Hoje editada pela Portugália.

Assim foi.

Sei que todos estes livros, como a grande maioria dos que compõem a Biblioteca da Casa, foram comprados com enorme sacrifício. 

Só o 25 de Abril permitiu alguns desafogos monetários.

Tentei obter uma lista completa dos livros publicados na Colecção Poetas de Hoje, mas não consegui obter essa informação.

Pode ser que tenha procurado mal, pode ser que a idade já não permita grandes caminhadas

O pouco que consegui apurar, deu para verificar que a Biblioteca da Casa não possui obras dos seguintes autores:

Poemas de António Salvado

Obra Poética Saúl Dias

Cancioneiro – Cabral do Nascimento

Poemas de Edmundo Bettencourt

Obra Poética – Cesário Verde

Poemas de Nelly Sachs

Ofício Cantante Herberto Helder

Cantos Cativos Arquimedes da Silva Santos

Poesias de Manuel Bandeira

Memória Descritiva – Ruy Cinatti

Poesias Completas – Adolfo Casais Monteiro

Constituição do Corpo – António Ramos Rosa

Tempo de Orfeu – Alfredo Guisado

Poemas Inactáveis – Raúl de Carvalho

Corpo Terrestre – João Rui de Sousa

Antologia – Sophia de Mello Breyner Andresen

Em alfarrabistas tenho encontrado alguns dos livros que faltam, mas pedem-me preços completamente disparatados. Dou um exemplo: Os Poemas Possíveis de José Saramago:

«Primeiro livro de poesia de José Saramago, e o seu segundo livro.

Sendo este o primeiro título constante da sua bibliografia, embora Saramago já tivesse publicado o romance a "Terra do Pecado".

Colecção "Poetas de Hoje".

Excelente exemplar.

Muito Raro.

500.00€»

A capa de todos os livros da colecção é de João da Câmara Leme.

Cada autor escreveu à mão e assinou um poema que aparece nas primeiras páginas. A Portugália teve o cuidado pedir a outros poetas que apresentassem, em modo de prefácio, o autor e a obra.

Há uma outra ausência, Jorge de Sena, por exemplo entendeu que ele é que faria a apreciação do seu livro «Peregrinatio Ad Loca Infecta» e intitulou o estudo: «Isto Não é Um Prefácio»

Não guardo ideia de qual terá sido o primeiro livro da Colecção que foi comprado. Talvez tenha sido a Poesia III do José Gomes Ferreira, mas será com o livro de Jorge de Sena que esta série de Poemas Autografados começa.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

ODE AO DESTINO

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.


Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
- ah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em vão tentei não conhecer-te, não notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava                               [em bandos,
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magnânimo,
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada, fraqueza de espírito, a solidão da vida,
existirás ou não, serás tudo isso ou não, só isto ou só aquilo,
mas desisti, regresso, aqui me tens.

A humilhação de confessar-te em público,
nesta época de numerosos sábios e filósofos,
não é maior que a de viver sem ti.
A decadência, a desgraça, a abdicação,
os risos de ironia dos vizinhos
nesta rua de má-nota em que todos moramos,
não são piores, ah não, do que no dia a dia sem ti.
É nesta mesma rua que eu ouço o amor chamar por mim,
é nela mesma que eu vejo emprestar nações a juros,
é nela que eu tenho empenhado os meus haveres e os dos outros,
nela que se exibem os rostos alegres, serenos, graciosos,
dos que preparam as catástrofes, dos que as gozam, dos que são
É nesta mesma rua que eu                                                       [as vítimas.
ouço todos os sonhos passar desfeitos.

Desisti, regresso, aqui me tens,
coberto de vergonha e de maus versos,
para continuar lutando, continuar morrendo,
continuar perdendo-me de tudo e todos,
mas à tua sombra nenhuma e tutelar.

Jorge de Sena de Pedra Filosofal em Poemas Escolhidos

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

SOBRE A NUDEZ

                                        Quoi! Tout nu! dira-t-on, n’avait-il pas de honte?

                                        ………………………………………………

                                        Tout est nu sur la terre, hormis l’hypocrisie.

                                                                               Musset, Namouna

 

Nus nascemos, nus

nos inspecciona o médico,

a tropa, o professor de ginástica.

 

Nus, na mesa de operações,

na cama de hospital,

na da morte.

 

Nus no amor para nos vermos,

sentirmos a pele dos outros corpos e

para mais que penetrarmos

 

termos o choque e o roçar

que nos dizem do quanto penetramos.

Nus sempre, menos no que não importa.

 

Porque há então quem tema tanto

a nudez dos outros? Será

que teme, menos que o feio

 

de muitos, a beleza de

alguns, ou o fascínio das

esplêndidas partes

 

de uns raros? E que, paralisados

(de inveja), deixemos que o mundo e a vida

se soltem à deriva

 

para a nua liberdade?

1968-69

Jorge de Sena em Peregrinatio Ad Loca Infecta

quinta-feira, 11 de julho de 2024

CADASTRO

Uma vez, aos sete anos,
Partiu à pedrada a lanterna da porta da igreja.
Dez anos depois, conduzindo um carro,
Não parou num cruzamento de rua
Onde havia um sinal de stop.
Dois anos depois, teve uma briga
Num bar, e partiu a cabeça a um amigo
Com uma garrafa de cerveja.
Quando se recusou a combater no Viet-Nam,
O seu cadastro provava como desde a infância,
Sempre manifestara sentimentos
Nitidamente de traidor à pátria.

Jorge de Sena

quinta-feira, 23 de maio de 2024

ODE AOS LIVROS QUE NÃO POSSO COMPRAR

Hoje, fiz uma lista de livros, e não tenho dinheiro para os poder comprar.

É ridículo chorar falta de dinheiro
para comprar livros,
quando a tantos ele falta para não morrerem de fome.

Mas também é certo que eu vivo ainda pior
do que a minha vida difícil,
para comprar alguns livros
- sem eles, também eu morreria de fome,
porque o excesso de dificuldades na vida,
a conta, afinal certa, de traições e portas que se fecham,
os lamentos que ouço, os jornais que leio,
tudo isso eu tenho de ligar a mim profundamente,
através de quanto sentiram, ou sós, ou mal-acompanhados,
alguns outros que, se lhe falasse,
destruiriam sem piedade, às vezes só com o rosto,
quanta humanidade eu vou pacientemente juntando,
para que se não perca nas curvas da vida,
onde é tão fácil perdê-la de vista, se a curva é mais rápida.

Não posso nem sei esquecer-me de que se morre de fome,
nem de que, em breve, se morrerá de uma fome maior,
do tamanho das esperanças que ofereço ao apagar-me,
ao atribuir-me um sentido, uma ausência de mim,
capaz de permitir a unidade que uma presença destrói.

Por isso, preciso de comprar alguns livros,
uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei,
para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles,
folheá-lo pensativo, arrumá-lo como inútil,
e sair de casa, contando os tostões que me restam,
a ver se chegam para o carro eléctrico,
até outra porta.

27/6/44

 

Jorge de Sena de Tempo de Coroa da Terra em 40 Anos de Servidão

domingo, 21 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                   Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                            João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


21 de Abril de 1974

Há 50 anos, o dia 21 de Abril calhou a um domingo, um dia simpático para que Américo Tomás, juntasse, no Palácio de Belém, sem  saber que o faria pela última vez, num almoço íntimo, algumas das principais figuras da vida nacional, e outras personalidades.

Para além da veneranda figura, sentaram-se à mesa, Marcelo Caetano, os presidentes da Assembleia Nacional, da Câmara Corporativa e do Supremo Tribunal de Justiça, os ministros da Defesa Nacional, da Justiça, das Finamças, o procurador geral da República, os conselheiros de estado dr. Albino Reis, prof. Costa Leite (Lumbrales), dr. Luís Supico Pinto, o governador civil de Lisboa, o deputado contra- almirante Henrique Tenreiro.

Não se sabem razões para a realização do festim, tão pouco foi pública a ementa.

Quatro dias depois deste festim, aconteceria a tal madrugada que Sophia registou para a História.

DINIZ DE ALMEIDA no seu livro Origens e Evolução do Movimento dos Capitães, regista que a redacção do programa do Movimento havia-se entretanto processado a partir de um documento inicialmente discutido entre Almada Contreiras, Martins Guerreiro e Melo Antunes.

Nessa redacção intervieram:

Pela Armada: Crespo, Contreiras, Lauret, Simões Teles, Vidal Pinho.

Pelo Exército: Melo Antunes, Costa Brás, Charais, Vítor Alves, José Maria Azevedo.

Pela Força Aérea, praticamente fora do assunto, só se fará sentir a sua opinião já no final dos trabalhos, em 24 de Abril de 1974.

A versão definitiva do programa, passada à máquina directamente pelo próprio Hugo dos Santos, ficou estabelecida em casa de Vítor Crespo, no dia 21 de Abril de 1974, domingo (epílogo das muitas reuniões efectuadas sobre o programa).

NA PRAIA DA AGUDA, em Gaia, e por iniciativa do jornal Opinião, realizou-se um jantar de homenagem  a Óscar Lopes.. A censura interveio com uma série de cortes pelo que as notícias publicadas, pouco ou nada referem. Os serviços da censura avisavam que as fotografias e as legendas da homenagem teriam que ser enviadas ao Dr. Ornelas.

EM ABRIL DE 1974, Portugal era um país onde coexistiam a maior miséria e a riqueza mais faustosa. Com oito milhões de habitantes, em cada mil crianças nascidas 56 morriam antes de completarem um ano de idade e em cada mil habitantes 15 morriam de tuberculose pulmonar. Apenas 40 por cento da população tinha água em casa e 75 por cento não dispunha de esgotos. Em cada 100 portugueses 37 eram analfabetos e em cada 100 alunos que frequentavam o ensino primário 30 não o completavam e apenas 2 por cento vinham a obter uma graduação universitária.

E havia uma guerra em África. 

Milhares e milhares de mortos, feridos, estropiados.

A Pátria não se discute, defende-se!

PASSAGEM PELO LIVRO  40 Anos de Servidão de Jorge de Sena:

«Uma vez eu, chegando a Portugal 

após muitos anos de ausência minha e alguns

de guerras africanas, encontrei uma vizinha

muito estimável que era casada com

um operário categorizado e antigo republicano.

O filho dela estava nas Africas, arriscando

a vida dele e a dos outros em defesa

do património da pátria de alguns (muito mais

que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).

Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.

E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:

- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!»

EM SANTA MARIA DE BELÉM realizou-se a tradicional bênção dos bacalhoeiros, repetida todos os os anos por ocasião da partida da frota para os mares da Terra Nova e da Gronelândia.

terça-feira, 5 de março de 2024

GANIMEDES

Os pensamentos pastam na verdura,
balindo mansamente em torno dele,
e o rio corre sussurrante em pedras
que as sombras do arvoredo fazem negras.

Numa árvore se encosta o tronco magro
que os cotovelos finca nos erguidos joelhos,
enquanto as finas ancas pousam na verdura
e de uma sombra entre elas pende uma brancura.

Delicados e firmes, os lábios se contraem
na tersa flauta em que os seus dedos dançam
ao mesmo tempo segurando-a leves.
Quase é silêncio a curta melodia.

Do fundo e vítreo azul que imobiliza
o campo e o arvoredo, um ponto negro vem
crescendo em asas, garras, bico adunco
entreaberto à frente de sanguíneos olhos.

E adeja no alto, imensa e monstruosa,
uma ave gigantesca. Os pensamentos sentem-na,
que os faz fugir, dispersos, assustados.
A melodia se suspende. O pastor olha.

Numa surpresa vê que as asas se desabam
sobre ele, escurecendo e recobrindo tudo.
Quando abre os olhos, elas voam vastas
entre ele e o azul, e as garras pela cinta o cingem.

Lá em baixo o rio brilha entre o arvoredo,
e pontos brancos, vagos, são o seu rebanho.
O bico hiante à sua boca chega
numa doçura a atormentá-lo inteiro.

E a negridão se acende pouco a pouco
de um resplendor de carne que é o do céu em volta,
e que o rodeia e rasga de um calor ardente
em que o seu corpo avança como um róseo dardo.

Mas quem avança em quem? O deus se entrega,
ou é quem viola, e como, o corpo arrebatado?
Quem é o senhor de quem? Ou sempre, ou mutuamente?
Ou cada um se humilha à sujeição do outro.

E mais: sem que o soubesse, aquele humano estava
já destinado às garras longamente curvas?
Ou por acaso foi que o deus se apaixonou?
E essa paixão durou? E que destino teve

o rebanho dispersado em susto? E a flauta
que entre a verdura mal se vê, perdida?
E o corpo do pastor, que pensa agora?
Só isto – o decisivo – não sabemos.


Jorge de Sena em Perigrinatio Ad Loca Infecta

domingo, 25 de fevereiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL

         Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                     João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 Quando se fala de José Afonso, é sempre escasso o tempo que se lhe dedica. 

Que me lembre, nunca o tratei por Zeca, não me perguntei porquê, mas se insistirem, direi que não gosto!

Com um misto de raiva e decepção, verifico que, neste Cais do Olhar não está referida uma boa série de discos do José Afonso que se encontram na Biblioteca da Casa.

E isso é já tarefa para amanhã!

Falar de José Afonso é lembrar aquela canção dos Vampiros, que comiam tudo, não deixavam nada

É domingo e Abril está quase aí.

Nestas Viagens Por Abril ainda ficamos com José Afonso.

Sem muitos o saberem, o Dia das Surpresas estava em construção.

 Neste caminhar do 25 de Abril pelo tempo, há quem pergunte se foi cumprido o que, por aqueles tempos, foi prometido ao povo.

Há um poema de José Saramago em que se pode ler:

 «O homem diz que sabe o caminho, mas não acrediteis porque o homem não sabe o caminho e há sessenta séculos que o homem diz: Eu sei o caminho mas nós sabemos que o homem não sabe o caminho e outros sessenta séculos ouviremos o homem dizer: Eu sei o caminho mas o pobre do homem não soube, não sabe, nem saberá jamais o caminho.»

Não sei das contabilidades do que se cumpriu ou não cumpriu.

 Pelo menos sei de uma: o fim da guerra colonial!

 Lembram-se das palavras de morte que o botas-ditador-de-santa-comba

nos lançou?

«A Pátria não se discute, defende-se!»

 Mas qual pátria?

 Toda uma juventude serviu de carne para canhão para defender o que nem sequer era nosso.

 O Jorge de Sena tem um poema, simplesmente arrepiante, que marca o quanto foi possível aqueles ditadores de pacotilha terem resistido tanto tempo:


«Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha e alguns
de guerras africanas, encontrei uma vizinha
muito estimável que era casada com
um operário categorizado e antigo republicano.
O filho dela estava nas Africas, arriscando
a vida dele e a dos outros em defesa
do património da pátria de alguns (muito mais
que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).
Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.
E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:
- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!»

 

Esta Balada, de imediato proibida de ser ouvida na rádio, proibido de ser vendido aquele Ep, música e palavras que marcaram a luta contra a ditadura de Salazar/Caetano.

Uma mensagem dura e crua, uma canção daqueles tempos mas também de todos os tempos. 

Hoje, por exemplo.

Viriato Teles em  As Voltas de Um Andarilho salienta que Os Vampiros é o primeiro tema vincadamente político de José Afonso mas admite, citando alguns companheiros de então, que não terá sido uma intenção social.

José Afonso sobre isso, disse que «a música é comprometida quando o músico, como cidadão, é um homem comprometido. Não é o produto saído do cantor que define esse compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolvem histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta.

 Foi o  tempo em que nos jornais, para que a coronelada-censória-analfabeta não topasse assim tão de repente, o nome do José Afonso era assim escrito:

                                        osnofAèsoJ

Urbano Tavares Rodrigues e o texto que escreveu, em 1968, para ser publicado no LP Cantares do Andarilho:

«A noite das lágrimas e da raiva. A madrugada das carícias e do sorriso. O dia claro da festa colectiva. Tudo isso se encontra na poesia cantada de  José Afonso, cantada por José Afonso. A luminosa gargalhada do povo, o seu suor de sangue nas noras de esforço ingrato e de absurda expiação. O lirismo primaveril e feminino das bailias que não morreram. E o orvalho da esperança. E os ecos de um grande coro de fraternidade sonhada e assumida. José Afonso, trovador, é o mais puro veio de água que torna o presente em futuro, que à tradição arranca a chama do amanhã. No tumulto da contestação, na marcha de mãos dadas, com flores entre os lábios, é ele a figura de proa, o arauto, o aedo, o humilde, o múltiplo, o doce, o soberbo cantador da revolta e da bonança. Singelo José Afonso do Algarve doirado, dos barcos de vela panda, do Alentejo infinito sem redenção, dos pinhais da melancolia, dos amores sem medida, do sabor de ser irmão. José Afonso é a primeira voz da massa que avança em lume de vaga, é a mais alta crista e a mais terna faúlha de luar na praia cólera da poesia, da balada nova».