Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna
alguma
ser poeta neste tempo de filhos só da puta ou só de putas
sem filhos? Neste espernear de canalhas, como pode ser?
Antes ser gigolô para machos e ou fêmeas, ser pederasta
profissional que optou pelo riso enternecido dos virtuosos
que se revêem nele e o decepcionado dos polícias que com ele
não fazem chantage porque não vale a pena. Antes ser denunciante
de amigos e inimigos, para ganhar a estima dos poderosos ou
dos partidos políticos que nos chamarão seus gênios. Antes
ser corneador de maridos mansos com as mulheres deles fáceis.
Antes reunir conferências de São Vicente de Paula, para roçar
o cu da virtude pelas distracções das sacristias escuras e
ter o prazer de acudir com camisolinhas aos pobres entre os quais
às vezes aparece um ou uma que dá gosto ver assim tão pobre por
se lhe verem os pêlos pelos rasgões da camisa ou algo de mais
impressionante para o subconsciente que sempre está nos olhos
que docemente se comovem com a miséria. Antes ir para as guerras
da civilização cristã ou da outra, matar os inimigos da conta corrente
e das fábricas de celofânicas bombas. Antes ser militar.
Ou marafona de circo. Ou santo, Ou demônio doméstico
torcendo as orelhas dos filhos à falta de torcê-los aos filhos
da puta. Ou gato. Ou cão. Ou piolho. Antes correr os riscos do
DDT, das carroças que os municípios têm para os cães suspeitos
de raivosos como todos os cães que se vê não lamberem as partes
das donas ou mesmo dos donos. Antes tudo isso que assistir a tudo,
sofrer de tudo e tudo, e ainda por cima ter de aturar o amor
paterno e os sorrisos displicentes dos homens de juízo
que deram pílulas às esposas, ou as mandaram à parteira secreta e
elas quiseram ir. Antes morrer.
Mas que adianta morrer? Quem nos garante que a morte
não existe só para os filhos da puta? Quem me garante que
não fico lá, assistindo a tudo, e sem sequer poder chamar-lhes
filhos da puta, com o devido respeito a essas senhoras que precisamente
se distinguem das outras por não terem filhos, nem desses nem dos outros?
Mas mesmo isto não consola nada. A quantidade, a variedade,
gastaram a força dos insultos. E não se pode passar a vida,
esta miséria que me dão e querem dar a meus filhos, a chamar nomes
feios a sujeitos mais feios do que os nomes. Como pode um homem
sequer estar vivo no meio disto, sem que o matem?
E o pior é que matam, sim, e sem saberem primeiro a quem,
para não se inquietarem com o problema de terem morto por engano
um irmão, desfalcando assim a família humana de algum ornamento
que a tornava menos humana e mais puta.
Dizem alguns directores
literários
(e accionistas da própria propaganda)
que «o Sena não se vende». E é verdade:
Não vende. Só as putas se vendem.
E em Portugal são tantas que não há
bolsas bastantes para comprá-las,
nem caralhos bastantes
para fodê-las como mereciam.
Parece que sempre
conseguiram matar o Che Guevara, ao que dizem os jornais. Embora o sinta, não
adiro com o mesmo sentimento que tive e tenho pelo Lumumba. É muito diferente
lutar e morrer no seio do próprio povo ou agir como caixeiro-viajante da
aventura revolucionária, no sei de outros. A dinastia dos Malraux nunca me foi
simpática e a realidade confirma que há boas razões para isso.
Mário
Sacramento em Diário
«Muitos consideram-me
um aventureiro e na verdade sou-o, mas de um tipo diferente, do tipo dos que
arriscam a pele para provar o que dizem.» Frase-resumo, em que há Sol e Trevas
– e que incendeia a imaginação do radicalismo pequeno-burguês, neo-romântico
ainda, em sua masturbação. Não basta querer a revolução. É preciso saber
fazê-la.
Não sei, amor, se dado
nos será de envelhecer. Será que um de nós só morrerá quando formos tão velhos que para o outro não faz diferença nenhuma que aquele morra (na velhice se vive de memória vaga)? Será que tantos anos de amargura, suspeitas, frustrações, raivas e ódios, tudo isso, tempestade, de que é feito o amor que os burros não entendem, nos serão acrescentados desse sonhar juntos em silêncio, num sorriso (que se esquece e mesmo nos lábios se ignora). Uma velhice que foi vida e será vida porque foi vida com que nos comemos quotidianamente um ao outro vorazes como peixes num aquário de vidro inamovível, tão opaco, translúcido às vezes, transparente sempre, que é o amor?
Tão lentamente, como alheio, o excesso de desejo,
atento o olhar a outros movimentos,
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque,
obscuro sexo á flor da pele sob o entreaberto
de roupas soerguidas, vibração ligeira, sinal puro
e vago ainda, e súbito contrai-se,
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes
no interior da carne, as pernas se distendem,
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as mãos,
dedos esguios escorrendo trémulos
e um sorriso irónico, violentos gestos,
amor...
ah tu,
senhor da sombra e da ilusão sombria,
vida sem gosto, corpo sem rosto, amor sem fruto,
imagem sempre morta ao dealbar da aurora
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar na vida,
fuga perpétua, demorado espasmo, distração no auge,
cansaço e caridade pelo desejo alheio,
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes,
despedaçar, rasgar, tocar na dor ignota,
hesitação, vertigem, pressa arrependida,
insuportável triturar, deslize amargo,
tremor, ranger, arcos, soluços, palpitar e queda.
Distantemente uma alegria foi,
imensa, já tranquila, apascentando orvalhos,
de contacto a contacto, ansiosamente serenando,
obscuro sexo à flor da pele... amor... amor...
ah tu senhor da sombra e da ilusão sombria...
rei destronado, deus lembrado, homem cumprido.
Não: não me falem assim na miséria, nos
pobres
na liberdade.
Se a miséria e a pobreza
fossem o vómito que deviam ser posto em palavras,
a imaginação possuída e vomitada que deviam ser,
viria a liberdade por acréscimo,
sem palavras, sem gestos, sem delíquios.
Assim apenas se fala do que se não fala,
apenas se vive do que não se vive,
apenas liberdade é uma miséria
sem nome, sem futuro, sem memória.
E a miséria é isso: não imaginar
o nome que transforma a ideia em coisa,
a coisa que transforma o ser em vida,
a vida que transforma a língua em algo mais
que o falar por falar.
Falem. Mas não comigo. E sobretudo
sejam miseráveis, e pobres, sejam escravos,
no silêncio que à linguagem faz
imaginar-se mais que o próprio mundo.
Na Biblioteca da
Casa, então situada em casa do meu pai, existiam
pouquíssimos livros de poesia. Lembro Bocage, Luís de Camões, José Régio,
Cardoso Marta, pouco mais.
Os poetas que nos impingiam nas Selectas
Literárias, por onde estudei, eram uma treta.
Em Outubro de
1965, com a cumplicidade do Carvalho, livreiro da então Livraria Clássica
Editora, nos Restauradores, no edifício onde era o Cinema Eden, adquirimos a «Antologia
de Poesia Portuguesa do Pós Guerra», organizada por Afonso Cautela e
Serafim Ferreira, publicada pela Ulisseia na altura dirigida por Vitor Silva
Tavares.
Um ou dois dias
depois, a PIDE realizou um raid pelas livrarias e colocou a Antologia
«fora do mercado».
O passar dos
olhos pelos poemas da Antologia, deu para verificar que o meu conhecimento da
moderna poesia portuguesa era um verdadeiro escândalo.
Falei ao meu pai sobre a necessidade de colmatar, um pouco, essa minha
ignorância.
Sugeriram-lhe que o primeiro passo poderia sera Colecção Poetas de Hoje editada pela
Portugália.
Assim foi.
Sei que todos
estes livros, como a grande maioria dos que compõem a Biblioteca da Casa, foram
comprados com enorme sacrifício.
Só o 25 de Abril permitiu alguns desafogos
monetários.
Tentei obter uma
lista completa dos livros publicados na Colecção Poetas de Hoje, mas não
consegui obter essa informação.
Pode ser que tenha procurado mal, pode ser que a idade já não permita grandes caminhadas
O pouco que
consegui apurar, deu para verificar que a Biblioteca da Casa não possui obras
dos seguintes autores:
Poemas de António
Salvado
Obra Poética
Saúl Dias
Cancioneiro –
Cabral do Nascimento
Poemas de
Edmundo Bettencourt
Obra Poética –
Cesário Verde
Poemas de Nelly
Sachs
Ofício Cantante
Herberto Helder
Cantos Cativos
Arquimedes da Silva Santos
Poesias de
Manuel Bandeira
Memória
Descritiva – Ruy Cinatti
Poesias
Completas – Adolfo Casais Monteiro
Constituição do
Corpo – António Ramos Rosa
Tempo de Orfeu –
Alfredo Guisado
Poemas
Inactáveis – Raúl de Carvalho
Corpo Terrestre
– João Rui de Sousa
Antologia –
Sophia de Mello Breyner Andresen
Em alfarrabistas
tenho encontrado alguns dos livros que faltam, mas pedem-me preços
completamente disparatados. Dou um exemplo: Os Poemas Possíveis de José
Saramago:
«Primeiro livro de poesia de José Saramago, e o seu
segundo livro.
Sendo este o primeiro título constante da sua
bibliografia, embora Saramago já tivesse publicado o romance a "Terra do
Pecado".
Colecção "Poetas de Hoje".
Excelente exemplar.
Muito Raro.
500.00€»
A capa de todos
os livros da colecção é de João da Câmara Leme.
Cada autor escreveu
à mão e assinou um poema que aparece nas primeiras páginas. A Portugália teve o
cuidado pedir a outros poetas que apresentassem, em modo de prefácio, o autor e
a obra.
Há uma outra
ausência, Jorge de Sena, por exemplo entendeu que ele é que faria a apreciação
do seu livro «Peregrinatio Ad Loca Infecta» e intitulou o estudo: «Isto
Não é Um Prefácio»
Não guardo ideia
de qual terá sido o primeiro livro da Colecção que foi comprado. Talvez tenha
sido a Poesia III do José Gomes Ferreira, mas será com o livro de Jorge
de Sena que esta série de Poemas Autografados começa.
Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
- ah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.
Em vão tentei não conhecer-te, não notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
que eu, de soslaio, e disfarçando,
observava
[em bandos,
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.
Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magnânimo,
único mistério de um mundo cujo mistério eras tu.
Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada, fraqueza de espírito, a solidão da vida,
existirás ou não, serás tudo isso ou não, só isto ou só aquilo,
mas desisti, regresso, aqui me tens.
A humilhação de confessar-te em público,
nesta época de numerosos sábios e filósofos,
não é maior que a de viver sem ti.
A decadência, a desgraça, a abdicação,
os risos de ironia dos vizinhos
nesta rua de má-nota em que todos moramos,
não são piores, ah não, do que no dia a dia sem ti.
É nesta mesma rua que eu ouço o amor chamar por mim,
é nela mesma que eu vejo emprestar nações a juros,
é nela que eu tenho empenhado os meus haveres e os dos outros,
nela que se exibem os rostos alegres, serenos, graciosos,
dos que preparam as catástrofes, dos que as gozam, dos que são
É nesta mesma rua que
eu
[as vítimas.
ouço todos os sonhos passar desfeitos.
Desisti, regresso, aqui me tens,
coberto de vergonha e de maus versos,
para continuar lutando, continuar morrendo,
continuar perdendo-me de tudo e todos,
mas à tua sombra nenhuma e tutelar.
Uma vez, aos sete anos,
Partiu à pedrada a lanterna da porta da igreja.
Dez anos depois, conduzindo um carro,
Não parou num cruzamento de rua
Onde havia um sinal de stop.
Dois anos depois, teve uma briga
Num bar, e partiu a cabeça a um amigo
Com uma garrafa de cerveja.
Quando se recusou a combater no Viet-Nam,
O seu cadastro provava como desde a infância,
Sempre manifestara sentimentos
Nitidamente de traidor à pátria.
Hoje, fiz uma lista de livros, e não tenho dinheiro
para os poder comprar.
É ridículo chorar falta de dinheiro
para comprar livros,
quando a tantos ele falta para não morrerem de fome.
Mas também é certo que eu vivo ainda pior
do que a minha vida difícil,
para comprar alguns livros - sem eles, também eu morreria de fome,
porque o excesso de dificuldades na vida,
a conta, afinal certa, de traições e portas que se fecham,
os lamentos que ouço, os jornais que leio,
tudo isso eu tenho de ligar a mim profundamente,
através de quanto sentiram, ou sós, ou mal-acompanhados,
alguns outros que, se lhe falasse,
destruiriam sem piedade, às vezes só com o rosto,
quanta humanidade eu vou pacientemente juntando,
para que se não perca nas curvas da vida,
onde é tão fácil perdê-la de vista, se a curva é mais rápida.
Não posso nem sei esquecer-me de que se morre de fome,
nem de que, em breve, se morrerá de uma fome maior,
do tamanho das esperanças que ofereço ao apagar-me,
ao atribuir-me um sentido, uma ausência de mim,
capaz de permitir a unidade que uma presença destrói.
Por isso, preciso de comprar alguns livros,
uns que ninguém lê, outros que eu próprio mal lerei,
para, quando se me fechar uma porta, abrir um deles,
folheá-lo pensativo, arrumá-lo como inútil,
e sair de casa, contando os tostões que me restam,
a ver se chegam para o carro eléctrico,
até outra porta.
Será um
desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções,
fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer
especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.
21 de Abril de 1974
Há 50 anos, o
dia 21 de Abril calhou a um domingo, um dia simpático para que Américo Tomás,
juntasse, no Palácio de Belém, sem saber
que o faria pela última vez, num almoço íntimo, algumas das principais figuras
da vida nacional, e outras personalidades.
Para além da
veneranda figura, sentaram-se à mesa, Marcelo
Caetano, os presidentes da Assembleia Nacional, da Câmara Corporativa e do
Supremo Tribunal de Justiça, os ministros da Defesa Nacional, da Justiça, das
Finamças, o procurador geral da República, os conselheiros de estado dr. Albino
Reis, prof. Costa Leite (Lumbrales), dr. Luís Supico Pinto, o governador civil
de Lisboa, o deputado contra- almirante Henrique Tenreiro.
Não se sabem
razões para a realização do festim, tão pouco foi pública a ementa.
Quatro dias depois deste festim, aconteceria a tal madrugada que Sophia registou para a História.
DINIZ DE
ALMEIDA no seu livro Origens
e Evolução do Movimento dos Capitães, regista que a
redacção do programa do Movimento havia-se entretanto processado a partir de um
documento inicialmente discutido entre Almada Contreiras, Martins Guerreiro e
Melo Antunes.
Nessa redacção intervieram:
Pela Armada: Crespo, Contreiras, Lauret,
Simões Teles, Vidal Pinho.
Pelo Exército: Melo Antunes, Costa Brás,
Charais, Vítor Alves, José Maria Azevedo.
Pela Força Aérea, praticamente fora do
assunto, só se fará sentir a sua opinião já no final dos trabalhos, em 24 de
Abril de 1974.
A versão definitiva do programa, passada
à máquina directamente pelo próprio Hugo dos Santos, ficou estabelecida em casa
de Vítor Crespo, no dia 21 de Abril de 1974, domingo (epílogo das muitas
reuniões efectuadas sobre o programa).
NA PRAIA DA
AGUDA, em Gaia, e por iniciativa do jornal Opinião, realizou-se um jantar de
homenagem a Óscar Lopes.. A censura interveio com uma série de
cortes pelo que as notícias publicadas, pouco ou nada referem. Os serviços da
censura avisavam que as fotografias e as legendas da homenagem teriam que ser
enviadas ao Dr. Ornelas.
EM ABRIL DE
1974, Portugal era um país onde coexistiam a maior miséria e a riqueza mais
faustosa. Com oito milhões de habitantes, em cada mil crianças nascidas 56
morriam antes de completarem um ano de idade e em cada mil habitantes 15
morriam de tuberculose pulmonar. Apenas 40 por cento da população tinha água em
casa e 75 por cento não dispunha de esgotos. Em cada 100 portugueses 37 eram
analfabetos e em cada 100 alunos que frequentavam o ensino primário 30 não o
completavam e apenas 2 por cento vinham a obter uma graduação universitária.
E havia uma
guerra em África.
Milhares e milhares
de mortos, feridos, estropiados.
EM SANTA
MARIA DE BELÉM realizou-se a tradicional bênção dos bacalhoeiros, repetida
todos os os anos por ocasião da partida da frota para os mares da Terra Nova e
da Gronelândia.
Os pensamentos
pastam na verdura,
balindo mansamente em torno dele,
e o rio corre sussurrante em pedras
que as sombras do arvoredo fazem negras.
Numa árvore se encosta o tronco magro
que os cotovelos finca nos erguidos joelhos,
enquanto as finas ancas pousam na verdura
e de uma sombra entre elas pende uma brancura.
Delicados e firmes, os lábios se contraem
na tersa flauta em que os seus dedos dançam
ao mesmo tempo segurando-a leves.
Quase é silêncio a curta melodia.
Do fundo e vítreo azul que imobiliza
o campo e o arvoredo, um ponto negro vem
crescendo em asas, garras, bico adunco
entreaberto à frente de sanguíneos olhos.
E adeja no alto, imensa e monstruosa,
uma ave gigantesca. Os pensamentos sentem-na,
que os faz fugir, dispersos, assustados.
A melodia se suspende. O pastor olha.
Numa surpresa vê que as asas se desabam
sobre ele, escurecendo e recobrindo tudo.
Quando abre os olhos, elas voam vastas
entre ele e o azul, e as garras pela cinta o cingem.
Lá em baixo o rio brilha entre o arvoredo,
e pontos brancos, vagos, são o seu rebanho.
O bico hiante à sua boca chega
numa doçura a atormentá-lo inteiro.
E a negridão se acende pouco a pouco
de um resplendor de carne que é o do céu em volta,
e que o rodeia e rasga de um calor ardente
em que o seu corpo avança como um róseo dardo.
Mas quem avança em quem? O deus se entrega,
ou é quem viola, e como, o corpo arrebatado?
Quem é o senhor de quem? Ou sempre, ou mutuamente?
Ou cada um se humilha à sujeição do outro.
E mais: sem que o soubesse, aquele humano estava
já destinado às garras longamente curvas?
Ou por acaso foi que o deus se apaixonou?
E essa paixão durou? E que destino teve
o rebanho dispersado em susto? E a flauta
que entre a verdura mal se vê, perdida?
E o corpo do pastor, que pensa agora?
Só isto – o decisivo – não sabemos.
Será um desfilar de
histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias,
figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação
do dia, mês, ano em que aconteceram.
Será um desfilar de
histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias,
figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação
do dia, mês, ano em que aconteceram.
Será um desfilar de
histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias,
figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação
do dia, mês, ano em que aconteceram.
Quando se fala de José Afonso, é sempre escasso o tempo que se lhe dedica.
Que me lembre, nunca o tratei por Zeca, não
me perguntei porquê, mas se insistirem, direi que não gosto!
Com um misto de raiva e decepção, verifico
que, neste Cais do Olhar não está referida uma boa série de discos do José
Afonso que se encontram na Biblioteca da Casa.
E isso é já tarefa para amanhã!
Falar de José
Afonso é lembrar aquela canção dos Vampiros, que comiam tudo, não deixavam nada
É domingo e
Abril está quase aí.
Nestas Viagens Por
Abril ainda ficamos com José Afonso.
Sem muitos o saberem,
o Dia das Surpresas estava em construção.
Neste caminhar
do 25 de Abril pelo tempo, há quem pergunte se foi cumprido o que, por aqueles
tempos, foi prometido ao povo.
Há um poema de
José Saramago em que se pode ler:
«O homem diz que sabe o caminho, mas não acrediteis
porque o homem não sabe o caminho e há sessenta séculos que o homem diz: Eu sei
o caminho mas nós sabemos que o homem não sabe o caminho e outros sessenta
séculos ouviremos o homem dizer: Eu sei o caminho mas o pobre do homem não
soube, não sabe, nem saberá jamais o caminho.»
Não sei das
contabilidades do que se cumpriu ou não
cumpriu.
Pelo menos sei
de uma: o fim da guerra colonial!
Lembram-se das
palavras de morte que o botas-ditador-de-santa-comba
nos lançou?
«A Pátria não se discute, defende-se!»
Mas qual pátria?
Toda uma
juventude serviu de carne para canhão para defender o que nem sequer era nosso.
O Jorge de Sena
tem um poema, simplesmente arrepiante, que marca o quanto foi possível aqueles
ditadores de pacotilha terem resistido tanto tempo:
«Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha e alguns
de guerras africanas, encontrei uma vizinha
muito estimável que era casada com
um operário categorizado e antigo republicano.
O filho dela estava nas Africas, arriscando
a vida dele e a dos outros em defesa
do património da pátria de alguns (muito mais
que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).
Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.
E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:
- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!»
Esta Balada, de
imediato proibida de ser ouvida na rádio, proibido de ser vendido aquele Ep,
música e palavras que marcaram a luta contra a ditadura de Salazar/Caetano.
Uma mensagem dura
e crua, uma canção daqueles tempos mas também de todos os tempos.
Hoje, por
exemplo.
Viriato Teles
em As Voltas de Um Andarilho salienta que Os Vampiros
é o primeiro tema vincadamente político de José Afonso mas admite, citando
alguns companheiros de então, que não terá sido uma intenção social.
José Afonso sobre isso, disse que «a música é comprometida quando o músico, como
cidadão, é um homem comprometido. Não é o produto saído do cantor que define
esse compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolvem histórico e
político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta.
Foi o tempo em que nos jornais, para que a
coronelada-censória-analfabeta não topasse assim tão de repente, o nome do José
Afonso era assim escrito:
osnofAèsoJ
Urbano Tavares
Rodrigues e o texto que escreveu, em 1968, para ser publicado no LP Cantares do
Andarilho:
«A noite das lágrimas e da raiva. A madrugada das
carícias e do sorriso. O dia claro da festa colectiva. Tudo isso se encontra na
poesia cantada de José Afonso, cantada por José Afonso. A luminosa
gargalhada do povo, o seu suor de sangue nas noras de esforço ingrato e de
absurda expiação. O lirismo primaveril e feminino das bailias que não morreram.
E o orvalho da esperança. E os ecos de um grande coro de fraternidade sonhada e
assumida. José Afonso, trovador, é o mais puro veio de água que torna o presente
em futuro, que à tradição arranca a chama do amanhã.No tumulto da contestação, na marcha de mãos dadas,
com flores entre os lábios, é ele a figura de proa, o arauto, o aedo, o
humilde, o múltiplo, o doce, o soberbo cantador da revolta e da bonança.
Singelo José Afonso do Algarve doirado, dos barcos de vela panda, do Alentejo
infinito sem redenção, dos pinhais da melancolia, dos amores sem medida, do
sabor de ser irmão. José Afonso é a primeira voz da massa que avança em lume de
vaga, é a mais alta crista e a mais terna faúlha de luar na praia cólera da
poesia, da balada nova».