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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


Jornais e revistas impressos em papel foram, durante cerca de dois séculos, o centro da vida sensível de milhões de leitores. O jornal-papel, que na história mediática que atravessamos se tornou quase invisível, era a janela para a vida cívica, política e cultural.

António Guerreiro

sábado, 15 de agosto de 2026

CRONICANDO POR AÍ

O Homem que lia o jornal é o título de uma crónica de António Guerreiro, publicada ontem no Público:


«Num destes dias de Agosto, vi um homem de meia-idade a ler um jornal no metro. A cena despertou em mim, de repente, a recordação nostálgica de um medium que começou a declinar no princípio deste século e, em poucos anos, quase se tornou um objecto vintage. Num segundo momento, ergui-me do “choque”, achando que tinha caído na amplificação demagógica de um gesto banal, ao sentir que tinha apreendido com um misto de espanto e nostalgia aquele leitor de um jornal impresso que persistia na lenta maneira de viver as emoções suscitadas pela actualidade, pelos rumores do dia.


Claro que a cena me impressionou porque o lugar onde se desenrolava (o metro) a fazia sobressair com um efeito de contraste: à volta do homem que folheava as páginas do jornal e que me fazia ver que há expressões gestuais que se perdem com a mudança de época, toda a gente ia de olhos inclinados para os ecrãs — uma inclinação, aliás, diferente da do homem que lia o jornal: enquanto este mantinha uma posição que lhe permitia, por vezes, lançar um olhar à distância, por cima das páginas do jornal, os passageiros abismados no ecrã do seu smartphone obrigavam a cabeça a uma inclinação mais acentuada, em direcção ao chão da carruagem, repetindo um gesto vertical que não tem fim: o scrolling.

A cena trouxe-me à memória as “pequenas totalidades” de que se ocupou um genial analista (sociólogo? Filósofo? Inventor de uma disciplina sem nome?) das “manifestações de superfície” da sua época que as ruas da grande metrópole berlinense lhe tinham proporcionado: Siefried Kracauer(1889-1966). Em O Ornamento da Massa (ou será que o título original, Das Ornament der Masse, deve antes ser traduzido por A Massa como Ornamento?), de 1930, Kracauer, um intelectual arquetípico da civilização do jornal, escreveu: “Quando pego no meu jornal, pela manhã, sinto-me em companhia de milhões de pessoas que, como eu, lêem nesse mesmo instante as mesmas notícias”. Este forte sentimento de ser parte de uma comunidade invisível, de partilhar com desconhecidos uma mesma experiência do mundo, é um dos fundamentos do espaço público, tal como ele foi criado pela modernidade. O jornal — e o jornalismo —, tal como ele se “modernizou” e desenvolveu no século XVIII, foi um órgão de formação de uma opinião pública racional, de um espaço público.

Jornais e revistas impressos em papel foram, durante cerca de dois séculos, o centro da vida sensível de milhões de leitores. O jornal-papel, que na história mediática que atravessamos se tornou quase invisível, era a janela para a vida cívica, política e cultural.

Esse ciclo chegou ao fim com a entrada em cena, fulgurante, dos artefactos mediáticos digitais, que transformaram completamente o funcionamento do espaço público, fundado em ideais que nos parecem hoje anulados, apesar de nos ter sido prometido que seriam ampliados e fortalecidos: o pluralismo e a transparência. A lição de McLuhan, segundo a qual “o medium é a mensagem”, encontra aqui a sua mais eloquente significação: a cultura do jornal nascida no século XIX desapareceu quando o suporte mudou. A extinção quase completa do jornal impresso, a substituição do gesto de “abrir o jornal” pelo gesto de “imersão no smartphone” (não se diz “abrir o smartphone”, na verdade ele raramente está fechado), implica uma outra relação com o tempo e com o espaço. E o ambiente digital deixa traços sociais e psíquicos diferentes dos que caracterizam a cultura impressa. Entrámos numa nova época dos afectos e a rápida digestão do jornal no ecrã mergulha-nos numa total reconfiguração daquilo a que Yves Citton  chamou médiarchie, “mediarquia”.

É interessante verificar que a sensibilidade mediática que me levou a olhar para o homem que lia o jornal no metro como se fosse uma raridade não é a mesma dos chamados “nativos digitais”. Esta sensibilidade de quem atravessou uma história dos media que na escala do tempo histórico é curtíssima, mas na escala das transformações visíveis é longuíssima, incita-me à análise das manifestações de superfície da época, fiel à lição de Kracauer, segundo a qual essas manifestações ajudam-nos muito mais a determinar o lugar que a época assume no processo histórico do que todos os juízos e interpretações que ela constrói de si própria. Uma época, ensinou-nos Kracauer, pode ser interpretada através dos seus sonhos colectivos, que se desenrolam de olhos abertos. E, no metro, vi bem que o modo como aquele homem abria os olhos para ler o seu jornal-papel era muito diferente do modo como os outros passageiros olhavam para os seus ecrãs. A esses dois olhares correspondem dois sonhos e duas civilizações diferentes. É muito interessante ter vivido numa época de transição.»


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Um velho recorte de uma crónica de António Guerreiro publicada no Público de

10 de Setembro de 2021

domingo, 6 de abril de 2025

CONVERSANDO


 O que ontem se publicou em Sublinhados Saramaguianos serve apenas para registar onde pode chegar a ignorância, a maldade, a inveja, o ódio.

Tentado que estive a colocar uns comentários, acabei por desistir.

Sou um saramaguiano à minha maneira.

Nunca fui coleccionador de primeiras edições, nunca frequentei lançamentos de livros e apenas tive um brevíssimo diálogo com José Saramago na Festa do Avante de 1977, e nesse dia fiquei com o único autógrafo que pedi e se encontra no livro O Ano de 1993.

Contudo, se tenho primeiras edições dos livros de Saramago, é porque me apressei a comprá-los para os poder ler, e apenas por isso.

Não conheço o trabalho da jornalista Christina Martins. Já há um bom tempo deixei, por motivos de higiene, de ler o Expresso. O que António Guerreiro, escreve na sua crónica do Público, serve para memória futura.

Para além dos livros de Saramago, tenho vindo a comprar obras de autores que tratam da obra e do cidadão José Saramago.

É o caso de Um País Levantado em Alegria de Ricardo Viel, publicado por ocasião dos 20 anos sobre a atribuição do Nobel a Saramago.

Para amenizar a azia que me saltou, poderia recorrer a uma Rennie, mas peguei neste livro e copio do prefácio de Eduardo Lourenço:

«O merecido sucesso de José Saramago coroa um destino de escritor que deve tudo à violência da sua vontade de escalar os céus, sem pressa, dando tempo ao tempo. José Saramago pertence a uma linhagem mais rara do que se julga, a dos que escrevem depois de ter vivido. E à mais rara ainda, sobretudo na nossa tradição, de não ceder à natural tentação de se vingar da vida, do mundo, da História, glosando compulsivamente a sua experiência subjectiva e fazendo girar o mundo à sua volta.»

Onde é que aqui entra o pormenor de Isabel da Nóbrega ensinar José Saramago a comer com faca e garfo?

 Valham-nos os deuses todos, mas todos mesmo, do Olimpo!

sábado, 5 de abril de 2025

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Acima copia-se a crónica «Acção Paralela» que António Guerreiro, publica, às sextas-feiras» no suplemento Ípsilon do jornal Público, 5 de Abril de 2025, com o título «Retrato do Escritor Enquanto Energúmeno».

Passados estão quase 30 anos sobre a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago.

Volta e meia volta a lengalenga de que Isabel da Nóbrega fez do labrego um senhor: «Se não fosse a Isabel, quem seria o Saramago, que nem saber comer à mesa.»

Agora foi um artigo/reportagem publicado no Expresso, assinado por Christiana Martins.

O velho Luiz Pacheco é que os topou bem:

«Aí a raiva de muita gente não foi contra o escritor – que não lêem – nem foi contra o próprio Saramago - que não conhecem de parte nenhuma -, foi contra o comunista que ganhou o Nobel. E também contra o gajo que ganhou cento e tal mil contos! Inveja em estado puro.»

sexta-feira, 7 de março de 2025

NOTÍCIAS DO CIRCO

«A política passou a ser vista como uma coisa grosseira, uma vulgaridade de criaturas retardadas que tratam o povo como crianças.

António Guerreiro, no Público de hoje

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

CONVERSANDO

 Há dias o nosso viajante Seve, perante uma frase do Eugénio Lisboa, que aqui colocámos, comentava:

«Realmente uma coisa estranha: entrar numa casa e não ver um Livro.»

Sabermos que uma enorme parte dos portugueses não perceberem mais do que simples frases – por vezes nem isso…é quase um pesadelo.

Sabermos que a entrada da extrema-direira no parlamento português deriva do estado de incultura, de quase analfabetismo do povo que somos, é a continuação desse pesadelo que há longos anos nps persegue e a que não vemos qualquer fim.

No Público de 29 de Dezembro do passado ano, poderia ler-se:

«Só 4% dos adultos demonstraram capacidade de “compreender e avaliar textos longos e densos de várias páginas, entender significados complexos ou ocultos e utilizar conhecimentos prévios para compreender textos e realizar tarefas.
Perceber uma taxa ou um rácio? Ler e compreender um texto longo e com muita informação? Estas são competências que mais de 40% dos portugueses entre os 15 e os 65 anos não têm. O Inquérito às Competências dos Adultos, da OCDE, publicado a 10 de Dezembro, é uma má notícia para Portugal e surpreendeu pela negativa. Naquela que foi uma estreia nesta grande avaliação a mais de 30 países, Portugal está no fim da tabela — pior só o Chile. E, na Europa, os portugueses são os que têm mais dificuldades.»

António Guerreiro no Público de 10 Janeiro escrevia:

«Uma coisa importante a fazer seria começar pela crítica ao próprio conceito de “literacia”, a toda a lógica que o envolve, e aos efeitos que a obsessão pela literacia produz. A “crise da literacia” foi diagnosticada com grande preocupação nos Estados Unidos, nos anos 80 do século passado. Trata-se de uma questão de “competência” (outra palavra-fetiche) numa área restrita. Pode-se ser muito competente na leitura de Proust e, no entanto, não ser dotado da mínima competência informática, o que, nosso tempo, será considerado como uma forma de analfabetismo. É verdade que a literacia testada no inquérito da OCDE, agora divulgado, diz respeito à compreensão e interpretação de frases simples e à “competência” para efectuar operações aritméticas elementares. Mas não faltam especialistas nesta matéria que nos dizem que é por a escola estar cada vez mais focada em literacias específicas que ela produz cidadãos iletrados.»

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

OLHARES


 O governo de direita-ultra-liberal de Luís Montenegro, nos poucos meses em que vem actuando, tem-nos dado atitudes e imagens verdadeiramente lamentáveis.

A exibição policial na Rua do Benformoso terá sido a mais execrável.

«A noção de necropolítica foi introduzida por Achille Mbembe​ para designar as operações cirúrgicas praticadas sem anestesia no corpo das populações, em que as intervenções, comportando uma boa dose de violência efectiva e, ainda mais, de violência simbólica, são sempre político-cirúrgicas. A necropolítica usa a necropolícia para realizar a cirurgia política.
Tem “necro” no nome porque governa a partir da produção da morte, física ou social, e está ancorada no estabelecimento de uma hierarquia dos vivos. O conceito de necropolítica engloba, portanto, o direito de impor a morte social ou civil, a submissão incondicional e diversas formas de violência política. Uma imensa fila de corpos encostados à parede pela necropolícia, numa rua de um bairro da cidade habitado maioritariamente por migrantes, serve para mostrar corpos que perderam todo o seu poder, socialmente mortos. É isto a política do medo, longamente testada noutras ocasiões históricas.»

António Guerreiro no Público de 27 de Dezembro

«Fugindo à gritaria, o que mesmo importa é a pergunta que nos deixou Pacheco Pereira: “se fosse eu a caminhar pela rua, teria sido encostado à parede e revistado?”

E a isso, claro, não respondeu o primeiro-ministro. Fazendo prova de uma lógica rebuscada – talvez Marcelo Rebelo de Sousa lhe chamasse lógica urbano-ó-rural, numa palavra, rústica – veio Luís Montenegro afirmar, justificando o aparato: "Muitas vezes não é preciso que haja muitos crimes para que as pessoas se sintam inseguras".


Tem toda a razão. Entre realidade e percepção da realidade existem muitas diferenças. O que me encanitou na frase foi a conclusão a que ela obriga. Considerados os resultados práticos da operação – escassíssimos, to say the least – terá redundado do espectáculo do alinhamento a convicção de que, afinal, há mesmo poucos crimes na zona e podemos todos sentirmo-nos seguros? Os mais velhos, chegando a acrescentar: “Ó Ernestina, vamo-nos embora qu’ isto foi tudo uma grande aldrabice!”?»


Ana Cristina Leonardo no Público de 27 de Dezembro

domingo, 29 de outubro de 2023

EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO

1.

A União Europeia pediu este domingo que seja permitida a entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza "sem obstáculos", incluindo combustível e recursos para a proteção da população afetada pelos bombardeamentos israelitas.

2.

Benjamin Netanyahu criticou este domingo os responsáveis pela segurança do seu país por terem subestimado os riscos de um grande ataque do Hamas, numa mensagem escrita na rede social X que depois apagou e o levou a pedir desculpa.

3.

O exército israelita aumentou o número das suas tropas na Faixa de Gaza, onde estão a ocorrer confrontos com o grupo islamita palestiniano Hamas, anunciou o porta-voz militar de Israel.

4.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, mostrou-se este domingo alarmado com a situação "cada vez mais desesperada" na Faixa de Gaza, lamentando que Israel tenha "intensificado as suas operações militares" na região.

5.

A Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos afirmou que milhares de pessoas invadiram os seus armazéns em Gaza para levar alimentos e outros artigos essenciais, divulgou hoje a agência de notícias Associated Press. Thomas White, diretor da agência da ONU em Gaza, disse este domingo que a invasão foi "um sinal preocupante de que a ordem civil está a começar a colapsar", após três semanas de guerra entre Israel e o grupo islamita palestiniano Hamas.

6.

Benjamin Netanyahu, alertou que a guerra contra o movimento islamita palestiniano Hamas na Faixa de Gaza será "longa e difícil", mas o exército "destruirá o inimigo na terra e no subsolo".

7.

O exército israelita avisou este sábado que considera a cidade de Gaza e a região circundante como um "campo de batalha" e ordenou aos residentes que "partam imediatamente" para o sul, através do rio Wadi Gaza. O secretário da Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, pediu ao ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, que considere a proteção dos civis em Gaza, instando-o a permitir que a ajuda humanitária entre na faixa.

8.

«A Europa, no centro dos furacões ucraniano e palestiniano, parece vítima de sonambulismo. A vulgaridade da sua elite, sem coragem para olhar de frente a imensa tragédia que nos ameaça a todos, só não envergonha quem nem sabe o que a vergonha é.»

Viriato Soromenho Marques no Diário de Notícias

9.

“Nestes dias angustiosos, a tarefa de Israel é muito mais difícil e muito mais perigosa: destruir um inimigo cobarde, cruel, difuso e insensível ao sofrimento das pessoas”

Manuel Carvalho no Público 21.10.2023

«Da série de adjectivos utilizados neste excerto para caracterizar o inimigo de Israel, parece-me que um deles, “cobarde”, merece o comentário crítico que Susan Sontag fez num artigo que escreveu para a revista New Yorker logo a seguir ao 11 de Setembro: “Pode-se dizer muita coisa dos autores do massacre de terça-feira, 11 de Setembro, mas não que eles foram cobardes”. Com esta afirmação, Sontag não quis desculpabilizar os terroristas que lançaram os aviões contra as Torres Gémeas nem colocá-los do lado da coragem maléfica no mais alto grau. Quis apenas dizer que não devemos abandonar os nossos deveres para com a linguagem, mesmo perante situações extremas em que proferimos palavras com ímpeto guerreiro, para que elas não nos sejam devolvidas como corpo inertes ou armas degradadas.»

Texto retirado de uma crónica de António Guerreiro no Ipsilon do Público.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

A CASA DA ACHADA É UM LUGAR VITORIOSO

Eduarda Dionísio morreu. No dia a seguir à sua morte (quando este texto foi escrito) a comunicação social mal deu por isso. Suponho, tenho mesmo a certeza, que o mesmo não se passa nalguns meios literários e culturais importantes que foram contemporâneos, cúmplices e testemunhas das actividades e obra de Eduarda Dionísio. Esses certamente que deram pela perda e se reencontram no luto e na homenagem. Não é que ela pertença a um tempo do qual não sejamos todos contemporâneos, mas num mundo onde se sobrepõem planos histórico-cronológicos tão diferentes – como é o da literatura, da arte, da cultura – a coexistência não significa obrigatoriamente uma relação de contemporaneidade.

Eduarda Dionísio é uma daquelas figuras que nos obrigam a pensar no significado e pertinência do conceito de geração, na medida em que se moveu em função de ideias colectivas e de camaradagens culturais (mencionem-se, como nomes fundamentais da sua constelação, Luis Miguel Cintra e Jorge Silva Melo) que nunca se confundiram com os meros gestos gregários plenos de conformismo.

O jornalismo cultural mostra-se tão alheio à morte de Eduarda Dionísio porque vive num “presentismo” sem memória e num espaço público cujos territórios e fronteiras estão “globalizados” e têm radares mais atentos ao que de Londres e Nova Iorque é exportado com o selo da universalidade (veja-se o que é a versão actual, degradada, de uma “literatura mundial”, tal como Goethe a definiu), sem recuo em relação ao que há aí de inócuo e provinciano. Daí que o jornalismo cultural responda com muito maior urgência e solicitude à morte, também recente, do escritor inglês Martin Amis (como se pode comprovar através de uma simples pesquisa na Internet) do que ao falecimento de uma escritora portuguesa que também assentou arraiais no teatro (com ligação, entre outros, ao Teatro da Cornucópia: de cenógrafa a autora e tradutora de textos, nada do que diz respeito a esta arte que implica trabalho colectivo lhe foi estranho) e foi mulher de muitos ofícios culturais e literários.

Desde 2008, estava à frente da Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, que ela fundou com um conjunto de amigos e transformou em centro cultural, situado no coração de Lisboa, na Mouraria, com um programa de actividades que sempre estiveram muito, mesmo muito, para além da evocação e tratamento do espólio literário do seu pai. A última manifestação editorial, e também festiva, da Casa da Achada foi o lançamento, no dia 25 de Abril, do quarto volume de Passageiro Clandestino, o diário de Mário Dionísio, acompanhado por dois volumes de notas de Eduarda Dionísio.

Nas exíguas reacções dos media, ocorreu a expressão “activista cultural”. A essa categoria podemos dizer que pertenceu de facto Eduarda Dionísio, na condição de darmos a essa palavra, “activista”, um sentido que não coincide exactamente com o que a palavra hoje evoca. A cultura foi de facto o seu campo de acção (e também de estudo e investigação, que deu origem a um livro chamado Títulos, Acções, Obrigações, com um subtítulo descritivo: Sobre a Cultura em Portugal – 1974-1994), sempre vinculado à acção política. Mas a ideia – e a prática – de divulgação cultural e o militantismo bem-intencionado que faz da cultura um mecanismo bem oleado e deslizante, sem atritos, nunca foi o que a mobilizou. O seu “activismo cultural” era parcial (isto é, tomava partido) e fortemente crítico. O seu percurso, até ao fim, foi sempre o de caminhos minoritários. De onde estabeleceu a sua residência, teve certamente tempo e disposição para fazer o balanço das fidelidades e das traições. E, apesar de os tempos não serem de feição para o tipo que ela representou, não se deu por alguma vez se ter sentido derrotada. A Casa da Achada é um lugar vitorioso.

O livro mais representativo da obra literária de Eduarda Dionísio é certamente Retrato dum Amigo Enquanto Falo (1979). Na sua tematização política, é um livro do encantamento e do desencantamento revolucionários (um livro que é quase o coágulo de uma época, tal como ela foi vivida por uma “geração lírica”), mas no que diz respeito à “escrita”, ao “texto” (como estas palavras, quase conceitos, eram importantes no tempo em que esse livro foi escrito!), era ainda um livro jubilante que emergia de um ambiente intelectual movido pela força da “teoria”. Nessa época, não era possível ler a última palavra do título, “Falo” sem pensar na linguagem e nos conceitos da psicanálise.

António Guerreiro, Ipsilon, Suplemento do Público, 25 de Maio 

sábado, 16 de abril de 2022

A RETÓRICA E A MENTIRA

Livro de recitações é uma pequena secção da crónica semanal de António Guerreiro no Ipsilon. A de ontem chamava-se A retórica e a mentira não produzem riqueza.

O personagem visado era o filho do Senhor Teodoro da Bomba de Gasolina que deu uma enorme sarilhada no Café do Bairro. A única coisa que sei é que so sarilho não resultaram nem cabeças, nem cadeiras partidas.

«É sabido que há vastos sectores onde a retórica tem má fama; e que a retórica da desqualificação da retórica é um exercício que os retores praticam de maneira imoderada, alguns por cálculo, outros por uma ingenuidade atávica e até cómica. Aníbal Cavaco Silva pertence a esta segunda categoria. Se foi um bom ou mau primeiro-ministro e presidente da República pouco importa para o caso; e até seria visto retrospectivamente com muito mais indulgência pelos cidadãos se ele não tivesse tanta por si próprio. A retórica — que na sua concepção é equivalente à mentira — é um uso da linguagem que cria comunidade. É verdade que nem toda a retórica se equivale, há boa e má retórica, e nem toda está à altura da nobre política. Mas o que seria uma política que nos expropriasse completamente dos efeitos retóricos da linguagem, que não tivesse a linguagem como medium, mas apenas o dinheiro, isto é, a riqueza? Se tal coisa existisse (nem sequer a economia pode reclamar essa condição) seria um horror.»

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

ÓDIO À LITERATURA


Por cá, também tivemos um estimável cultor do ódio à literatura, a quem nunca estaremos suficientemente agradecidos: Trata-se de uma sumidade chamada Sousa Lara, quando foi, em tempos recuados (já na altura o seu tempo era recuado), subsecretário de Estado da Cultura. O seu ódio a toda a literatura que não fosse a do cânone estritamente cristão e piedosos é conhecido, o que, como pudemos verificar, só trouxe vantagens. Sousa Lara é a prova de que os políticos conseguem fazer alguma coisa pela literatura quando mostram publicamente que a detestam. O ódio dos políticos pela literatura devia ser considerado um bem público.

António Guerreiro no suplemento Ipsilon do Público.

domingo, 2 de junho de 2019

ELE DISSE A BEM DA LÍNGUA E DO PAÍS...


Recorto este trecho da habitual crónica de António Guerreiro na 2ª página do Ipsilon, suplemento das sextas-feiras no Público.
Porque sou contra essa estúpida decisão que políticos analfabetos, deputados distraídos, a excepção pertenceu aos deputados do Partido Comunista, nos impuseram, pelos idos de 1990, porque exijo que, para além de outros e muitos disparates, quando digo «alto e pára o baile» quero que entendam que é qualquer coisa para acabar e não um «alto e para o baile» porque não estou a mandar ninguém dançar.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Como é que o cinema português resiste aos seus detractores e a todos aqueles que objectivamente trabalham para o tornar inócuo ou inexistente.

António Guerreiro no Público

Legenda: rodagem de Trás-os-Montes de Margarida Cordeiro e António Reis

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O Q'UÉ QUE VAI NO PIOLHO?




Começo da Estação Meteorológica, crónica de António Guerreiro no Ípsilon do Público de 10 de Maio de 2013:

A última vez que em Portugal ouvimos um artista manifestar publicamente o seu desprezo pelo público e afirmar que se subtraía ao seu poder de maneira soberana – e ostensiva – foi quando, na estreia de Branca de Neve, João César Monteiro disse a uma jornalista que ousou evocar tal entidade: “Eu quero que o público se foda”. Esta frase, quebrando com altivez despudorada todas as regras da “bienséance”, ecoava um grito vindo de outra época, dos primeiros modernistas, que a entoaram em coro e com violência. Podíamos referir muitos outros – artistas, escritores – que continuam a excluir o público dos seus cálculos, mas João César Monteiro fê-lo de maneira tão intempestiva e explícita que atraíu a fama de membro escandaloso de uma família respeitável, que uns vêem como um artista-filósofo e outros como uma figura um pouco simiesca.