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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

REVISÃO DE TEXTOS E NOTÍCIAS LIDAS


A revisão que hoje fazemos, incide sobre um texto de Maria João Martins, publicado na revista Ler s/d, editada pelo Círculo de Leitores, e envolve Lisboa e dois escritores que a sentiram intensamente: José Rodrigues Miguéis e José Cardoso Pires.

«A Lisboa de Rodrigues Miguéis é um itinerário de saudades».

Três livros de Miguéis podem ser destacados como o itinerário dessa saudade: A Escola do Paraísos, Léah e Outras Histórias, O Milagre Segundo Salomé.

«A Lisboa de Rodrigues Miguéis é esta – a da saudade inconformista que lamente alto e bom as modificações urbanas, os prédios desaparecidos e depressa substituídos por outros, vazios de memórias e vivências, para, timidamente, dizer também da morte dos vizinhos a que nos habituámos, Em comum com todos os que vociferam contra a delapidação do património das suas cidades, o escritor tem o sentimento de que era esta ou aquela demolição são apenas o princípio de um redemoinho maior e mais forte em que ele próprio e os seus serão levados.»

Maria João Martins, a determinado ponto do texto, lembra a frase de José Cardoso Pires:

«Uma parte importante da cidade perdeu a cor quando acabaram com os cafés e com as tabernas.»

No que a Rodrigues Miguéis toca, os cafés marcaram-lhe a vida, o convívio, os amigos queridos: José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Augusto Abelaira, outros mais.

E o seu exílio nos Estados Unidos, para além de tudo, o que o desgosta e torna inconsolável é a falta dos cafés de Lisboa.

É Camila Miguéis, viúva do escritor, que lembra a angústia de José:

« Quando chegou aos Estados Unidos a primeira coisa que o ia matando foi quando descobriu que não havia cafés. Como é que podia viver sem um café onde encontrava os amigos, onde se sentava e levantava logo que se sentia desconfortável ou aborrecido, ou quando lhe surgia uma ideia e tinha de regressar a casa para a escrever? Como é que as pessoas podiam viver daquela forma? Isto foi um problema muito, muito difícil para ele, e eu sentia-me desanimada, porque não o podia resolver. Quando lhe disse o que tínhamos – restaurantes, cafetarias, balcões, vários locais -, ele disse: «Mas eu estou a falar de um café; tu não percebes.» E esta situação aborreceu-o a vida toda. Aborreceu-o mesmo.»

Conta-se que, na década de 30, sentado a uma mesa de A Brasileira, escreveu as primeiras páginas de O Milagre Segundo Salomé.

Ainda Miguéis e A Escola do Paraíso:

«Não se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas vozes, sem ficar impregnado de irremediável nostalgia. Tudo isto, o rio imenso, os cais, o mar, os horizontes, se integra nele e ficará para sempre dele como um apelo de longe e uma saudade, anseio de partir e de voltar: quando? E para onde?»

Voltamos ao texto de Maria João Martins para dar a fala a Cardoso Pires:

«Na zona da Almirante Reis passei grande parte da minha infância. No Jardim Constantino havia uma biblioteca e ali pude ler os primeiros livros. Mais tarde, ali me iniciei na literatura com os escritores que vieram a ser os surrealistas (Mário Cesariny, O’Neil e Vespeira). Frequentámos muito um café chamado Herminius que, mais tarde, deu lugar a uma agência funerária»

O café Herminius já não uma agência funerária, é um Centro Acústica Médica.

O texto do José Cardoso Pires pertence à crónica Café Des Artistes e faz parte do livro de crónicas ACavalo no Diabo:

«Hoje o Café Hermínius está transformado em agência funerária – quere-se maior ironia? Talvez que, numa noite em que eu passe por lá, me apareça no vidro da montra o eco dos rostos duma juventude que ali criou uma parte da sua visão do mundo para lá do real imediato, a sua libertação; e que por trás desse vidro, deposta sobre um chão de violetas, esteja a cabeça da Dona Sol, rodeada de coroas funerárias e iluminada por um sorriso de ternura».

Para além dos cafés, outra referência de Cardoso Pires debruça-se sobre as grandes tabernas que eram frequentadas pelos condutores e cobradores da Carris, que ali faziam as suas rendições: «ali havia tudo, peixe frito a choco, sandes, bom vinho.»

Lembro duas dessas tabernas: uma no Campo Pequeno, outra, a Cova Funda na Praça do Chile.

Cardoso Pires refere ainda o Miradouro do Monte Agudo, na Penha de França, «onde ninguém vai».

Abertura de Lisboa, Livro de Bordo, de José Cardoso Pires:

« Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar. Não  me admiro sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro, e até  a brisa que corre me sabe  a sal.  Há ondas de  mar aberto desenhadas nas tuas calçadas; há âncoras, há sereias. O convés, em praça larga com uma rosa-dos-ventos bordada no empedrado, tem a comandá-lo duas colunas saídas das águas que fazem guarda de honra à partida para os oceanos. Ladeiam a proa ou figuram como tal, é a ideia que dão; um pouco atrás, está um rei-menino montado  num cavalo verde a olhar, por entre elas, para o outro lado da Terra e a seus pés vêem-se nomes de navegadores e datas de descobrimentos anotados a basalto no terreiro batido pelo sol. Em frente é o rio que corre para os meridianos do paraíso. O tal Tejo de que falam os cronistas enlouquecidos, povoando-o de tritões a cavalo de golfinhos.»

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

REVISÃO DE TEXTOS E NOTÍCIAS LIDAS

Revisitamos um artigo de Nuno Pacheco publicado no Público de 13 de Dezembro de 2023.

Tratava a notícia do lançamento, no Centro Cultural de Belém, da nova edição de
Auto-Photo Biografia (não autorizada), da autoria de Mário Viegas.

Em relação ao mesmo livro que faz parte da Biblioteca da Casa, esta edição  que estabelece a vida de Mário Viegas, contada por ele próprio, tem a enriquece-la quatro CDs inéditos de poesias ditas pelo actor.

«São apontamentos escritos à mão, desenhos, fotografias, recortes de jornais e de banda desenhada, que Mário Viegas foi juntando em folhas de grande formato (A3) até perfazer o que considerou a sua verdadeira história. “Sobre mim está aí tudo, o resto não tem interesse nenhum”, sentenciou, com a sua habitual ironia. Esse trabalho, a que Mário Viegas meteu ombros quando já adivinhava o desfecho da doença que havia de lhe tirar a vida, e que constitui um legado fascinante, está agora disponível num álbum que reproduz na íntegra as 250 folhas avulsas que criou.»

Nuno Pacheco conta ainda como aconteceu a descoberta por Maria Hélia Viegas, irmã do actor, dos 4 CDs que completam esta nova edição.

«No dia em que a conheci, conta José Moças, a certa altura ela leva-me ao quarto do irmão, que estava tal qual ele o deixou, e pediu-me para abrir uma gaveta”. Lá dentro estavam oito bobinas. “Pediu-me para as levar, porque nem ela sabia o que estava ali.” Assim fez.
Ao ouvi-las, percebi do que se tratava. Eram gravações feitas por ele, em casa, a treinar a leitura dos poemas. Deitado no chão, de barriga para baixo, para controlar o diafragma – isto soube mais tarde pela irmã, porque ela assistia. As gravações estavam com muitos problemas, mas a recuperação foi feita de uma maneira incrível. Há uma bobina que tinha a festa de aniversário da Maria Hélia de um lado e a dele do outro. E a certa altura, o pai vira-se para ele e pergunta: ‘Ó António, não quer contar uma das suas historinhas aos seus amigos?’ Então ele conta O Dente Furado e A Bruxa da Montanha, que dura quase 13 minutos; ele lê e faz as vozes das personagens todas. Com nove anos!»

No texto seguinte recordamos «O Outro Lado das Estantes» onde referimos a  1ª edição desta Photo-Biografia Não Autorizada do Mário Viegas.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

REVISÃO DE TEXTOS E NOTÍCIAS LIDAS


 O jornalista Nuno Pacheco no Público de 1 de Fevereiro,  chama a atenção para o centenário do nascimento de SAM e que uma exposição  sobre a obra do autor está patente no Museu Bordalo Pinheiro em Lisboa que ficará patente até ao dia 19 de Maio, uma exposição com cartoons, colagens e desenhos originais, algumas esculturas e também quatro dos 45 Filmezinhos do Sam que este produziu para a RTP, interpretados pelo genial Mário Viegas.

A exposição tem o apelativo nome de «NÃO RIA. O HUMOR È UM ASSUNTO MUITO SÉRIO: 100 ANOS DE SAM».

«Se fosse vivo, teria a estatura de um século, 100 anos completados há poucas horas, na quarta-feira, o dobro da “idade” desse 25 de Abril quase cinquentenário que ao seu traço muito deve. De nome completo Samuel Azavey Torres de Carvalho, foi com três letras (Sam) que entrou no nosso imaginário como cartoonista, ele que foi engenheiro por formação e profissão e também criador noutras artes, do design à escultura. Num tempo em que o único Sam que ainda mexe de modo crítico com o nosso quotidiano é o rapper Sam the Kid, lembrar o traço crítico e certeiro do cartoonista Sam é, em simultâneo, celebrar a força do cartoon como uma das maiores expressões de liberdade no mundo de hoje. Sam tinha disso consciência e usou-o para retratar o que o rodeava, quer em ditadura quer em democracia, com elegância mas sem complacências.»

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

REVISÃO DE TEXTOS E NOTÍCIAS LIDAS


 

Os jornais lêem-se.

Por vezes calmamente, outras vezes na viagem do Metro, outras ainda à mesa do café.

Deles guarda-se uma ou outra página para leitura mais vagarosa, mais atenta, num outro qualquer dia.

Serão as notícias relidas.


No dia 14 de Dezembro de 2023, na sua crónica das quintas-feiras no Público, Nuno Pacheco, lembrou a morte, no ano que há pouco terminou, de José Duarte, o Jazzé como ele gostava que o chamassem.

Durante muitos anos fui ouvindo dizer que o jazz em Portugal se registava como: Antes e Depois de Vilas Boas.

Agora, também se acrescentará: Antes e Depois de José Duarte.

Antes e depois de muita gente que, em Portugal, tem dedicado ao jazz um amor sem fim.

 Nuno Pacheco:

 «O jazz está a acabar? Vai morrer? Vai ceder em definitivo a outros géneros musicais e perder os seus traços distintivos?

Passando ao lado desta discussão, não deixa de ser curioso que um homem que lhe dedicou a vida, diluindo-o no seu ego até o absorver no nome, passando de José Duarte a Jazzé Duarte (como gostava de se apresentar e ser conhecido), mantivesse durante décadas uma posição pessimista acerca do futuro do jazz, em particular do seu futuro em Portugal. Numa das últimas mensagens que me enviou, por correio electrónico, datada de Outubro de 2022, escrevia que andava por cá “até ao fim a lutar por jazz causa perdida”. E despedia-se, como sempre, com um “até jazz”. Morreu passados cinco meses, em Março de 2023, mas, muito antes dessa data, aquilo a que ele chamava “causa perdida” parecia, pelo contrário, uma causa ganha, a julgar pelo número (e qualidade) de novos músicos, pela quantidade de escolas, pela proliferação de festivais de jazz e de iniciativas a ele ligadas.»

Para completar os amores de José Duarte pelo Jazz, Nuno Pacheco cita um livro editado pela Guerra & Paz.

A saber:

«Chama-se Histórias de Jazz (ed. Guerra & Paz) mas podia chamar-se Histórias com Jazz, já que em todas elas o jazz está presente, das mais variadas formas (discos, cassetes, instrumentos, evocações fantasmagóricas), mesmo na que evoca Frank Zappa, músico de rock cuja ligação ao jazz se fez por via de influências e colaborações.

O livro, em si, tem uma história curiosa. Leonel R. Santos, que desde 2006 mantém activo o site JazzLogical.net, com informações regulares acerca do que se vai fazendo na área do jazz, dirigiu em 2001 uma revista de que foi co-fundador, a All Jazz. Um dia, conta ele na introdução, apareceu na redacção um leitor com duas histórias para eventual publicação. Interessou-se por uma delas (Jitterbug Waltz), publicou-a, e desafiou leitores e amigos a escreverem outras. Recebeu várias, em forma quase final ou em esquissos, mas, como a revista acabou, ficaram num limbo. Até que, passado anos, voltou a lê-las, reescreveu-as e fez este livro onde inclui 13 histórias, duas de sua inteira autoria e as restantes fruto das adaptações ou reescritas a que livremente se entregou (os autores dos originais são mencionados na introdução).

Assim, por entre ingredientes a que o jazz não é alheio (“amores desesperados, amizade, sexo, sangue, suor e lágrimas, traição, humor e fantástico”), somos conduzidos no desfecho de cada história a audições que lhes servem de banda sonora: de Frank Morgan (A lovesome thing) a Anthony Braxton (Opus 58), passando por Miles Davis (Sketches of Spain), John Coltrane (Every time we say goodbye), Jimmy Smith (Hackensack), Hank Mobley (Smokin’) e tantos outros. Ou ainda Charles Lloyd com Billy Higgins, no disco que gravaram em duo (só saxofone e bateria), Which way is East, com a particularidade de serem ambos chamados a protagonizar uma das histórias, Higgins, onde Charles chora no saxofone a morte de Billy, “porque um pedaço dele tinha morrido com o amigo”. Um livro de histórias para “ouler” com curiosidade, parafraseando o “ouver” de Jazzé.»

Termino recontando uma história já por aqui citada:

 Numa entrevista ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos Cinco Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:

«Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.

Um orgulho tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, obrigaram o José Duarte a pagar excesso de bagagem.»