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sábado, 20 de dezembro de 2025

PAÍS DE POETAS E MARINHEIROS QUE, DIZEM, QUE SOMOS!...


Texto de Nuno Pacheco no Público:

«Segundo tema de um álbum anunciado para 23 de Janeiro de 2026, estreia-se esta sexta-feira em single e videoclipe Canção de Marinheiro, com poema de Sebastião da Gama. Antes, em Maio, Marco Oliveira e José Peixoto tinham-nos dado a ouvir Fundo do mar, canção composta a partir de um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen. O álbum, que além destas canções, incluirá outras com poemas de Eugénio de Andrade, Miguel Torga, Alda Lara, Paio Soares de Taveirós ou Francisco Rodrigues Lobo, chama-se Caminho é Quanto Fica da Viagem, frase retirada de uma canção inédita de José Mário Branco (1942-2019, produtor do anterior álbum de Marco Oliveira, Ruas e Memórias, lançado em 2021), que também fará parte do disco, Fado das nuvens.

A história do novo álbum de Marco Oliveira, desta vez em parceria com José Peixoto (álbum “centrado na poesia marítima e nas vidas de marinheiros” e “inteiramente dedicado aos grandes poetas portugueses”), é, diz-se no texto que acompanha o lançamento de Canção de Marinheiro, “inspirada na vida de António dos Santos (1919-1993) marinheiro e fadista que viajou longos anos no mar e que personifica as histórias de marinheiros presentes nas canções”.

Com voz, guitarra, realização e edição de vídeo e produção executiva de Marco Oliveira, e guitarra clássica, arranjos e produção musical de José Peixoto, Canção de Marinheiro começa assim: “Deixei no mar meu cachimbo, minhas camisas de cor.../ os meus livros preferidos/ e aquele beijo de amor/ que tu me deste à partida”; e assim termina: “Só não deixei minha boca, para que falasse do Mar.../ Só não deixei os meus olhos,/ para todos que nos virem/ saberem que andei no Mar.”»

sábado, 13 de setembro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Na sua habitual crónica no Público, a de 21 de Agosto de 2025, Nuno Pacheco levou-nos até tempos antigos, não vividos por muitos, esquecidos por outros, lembrados – sempre! – por aqueles que não querem o silêncio.

«No dia em que armas e cravos por aqui se cruzaram em festiva euforia, Portugal estava “entalado” entre ditaduras: por terra, a da vizinha Espanha, que ainda duraria até à morte de Franco, em Novembro de 1975; por mar, do outro lado do Atlântico, a do Brasil, que só terminaria em 1985, após um abrandamento da repressão militar e política em 1979.

(…)

Nestes tempos, porém, mais do que celebrações festivas, é uma velha e corrosiva canção catalã que nos vem à memória. Ainda não deixou de animar plateias (fê-lo em Portugal, nos idos de 74) e promete continuar. Escreveu-a Pi de la Serra e intitula-se Si els fills de puta volessin no veuríem mai el sol. Dispensa traduções e não perdeu a actualidade.»

No velho Coliseu o grito que Pi de la Serra largou, ainda hoje tem toda a justificação.

Se os filhos da puta voassem nunca mais veríamos o sol.

É esse grito que hoje recordamos.

terça-feira, 15 de abril de 2025

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Inquietação, inquietação, só inquietação, inquietação, porquê, não sei, porquê, não sei ainda.

Palavras de uma lindíssima canção do José Mário Branco: Inquietação.

E inquietação, por isto e por aquilo, foi toda a sua vida.

Considerado o mais completo cantor/compositor da então nova música portuguesa, este livro de entrevistas (são 119), agora publicado, obriga-nos a perceber José Mário Branco, ou como disse o Nuno Pacheco: equivale a retomar uma conversa (nunca acabada) com o seu autor.

sexta-feira, 28 de março de 2025

POSTAIS SEM SELO


  …pode haver sempre uma luz, mesmo nos piores pesadelos.

Nuno Pacheco, da crónica no Público de hoje.

sábado, 4 de janeiro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


 Num velho Papel Datado, falava-se que chegou a guardar um 78 rotações da Hebe Camargo a cantar India, uma canção que, desde muito miúdo, ouvia lá por casa.

A música Índia escrita por José Fortuna, é a versão brasileira de um sucesso paraguaio, composto originalmente pelo músico José Asunción Flores e o poeta Manuel Ortiz Guerrero, ambos paraguaios.

A canção original fez tanto sucesso, que em 1944, por meio de um decreto do governo, foi oficializada como “Canção Nacional”, uma espécie de hino, que a faz ser reconhecida como parte da cultura popular paraguaia.

India é uma canção com uma variada quantidade de versões, onde encontramos a tal Hebe Camargo, Ângela maria, Nara Leão, Maria Bethânia, Roberto Carlos Caetano Veloso, Gal Costa.

Conheço muitas das versões mas existe uma que para mim é única: a de Gal Costa.

Cito uma memória de Nuno Pacheco, citada numa sua crónica no Público de 7 de Março de 2024:

« Foi há quase um ano, em Abril de 2023, que o Coliseu de Lisboa reservado para ouvir Gal Costa ficou deserto e em silêncio – Gal morrera, subitamente, em Novembro do ano anterior, deixando na música brasileira um vazio que jamais se preencherá, a não ser pela memória.»


A primeira versão de India, cantada por Gal Costa, está rodeada de polémicas a começar logo na capa do LP: «uma foto em close da cantora, somente com uma tanga vermelha, e na contracapa duas fotos de Gal fantasiada como índia, com os seios a mostra. O resultado disso, foi que as vendas só aumentaram. Foi originalmente censurado pela ditadura militar brasileira, mas a arte completa foi lançada por Costa em 2015.

Índia

Índia, teus cabelos nos ombros caídos
Negros como as noites que não tem luar
Teus lábios de rosa, para mim, sorrindo
E a doce meiguice desse teu olhar
Índia da pele morena
Tua boca pequena eu quero beijar

Índia, sangue tupi, tens o cheiro da flor
Vem, que eu quero te dar
Todo o meu grande amor

Quando eu for embora para bem distante
E chegar a hora de dizer-te adeus
Fique nos meus braços só mais um instante
Deixa os meus lábios se unirem aos teus
Índia, levarei saudade
Da felicidade que você me deu

Índia, tua imagem sempre comigo vai
Dentro do meu coração
Todo meu Paraguai

Índia, teus cabelos nos ombros caídos
Negros como as noites que não tem luar
Teus lábios de rosa, para mim, sorrindo
E a doce meiguice desse teu olhar
Índia da pele morena
Tua boca pequena eu quero beijar

Índia, sangue tupi, tens o cheiro da flor
Vem, que quero te dar
Todo o meu grande amor

Quando eu for embora para bem distante
E chegar a hora de dizer-te adeus
Fique nos meus braços só mais um instante
Deixa os meus lábios se unirem aos teus
Índia, levarei saudade
Da felicidade que você me deu

Índia, tua imagem sempre comigo vai
Dentro do meu coração
Todo meu Paraguai

Todo meu Paraguai
Todo meu Paraguai
Todo meu Paraguai



Legenda: Hebe Camargo

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ

 


A arrumar jornais espalhados por cada canto da casa, fiquei com o Público de 26 de Dezembro na mão, precisamente na crónica de Nuno Pacheco lembrando que Todos os dias nasce uma pessoa… e morrem outras tantas.

Nuno Pacheco invocava algumas das figuras da cultura que nos deixaram em 2024.

Mais uns dias e falaria de Adília Lopes que morreu ontem.

Começamos um novo ano sem vermos resolvidos genocídios como os da Ucrânia e do Médio Oriente, por todos os cantos do mundo sem deles termos conhecimento e a crónica de Nuno Pacheco é um bom pretexto para a primeira música da manhã:

«Há uma canção de Amélia Muge que diz: “Todos os dias nasce uma pessoa/ todos os dias é dia natal”. Constatação de um facto, não o desejo solidário expresso por Ary dos Santos no poema Quando um homem quiser, que Fernando Tordo musicou e Paulo de Carvalho cantou: “Natal é em Dezembro/ Mas em Maio pode ser/ Natal é em Setembro/ É quando um homem quiser.” Porém, se todos os dias é mesmo dia natal, porque em todos eles nasce alguém algures no mundo – sendo o Natal (que acabámos de celebrar) marco de um nascimento, o de Cristo –, todos os dias é também dia letal, não só devido às mortes que fecham naturalmente ciclos de vida, mas às que abreviam inesperadamente tais ciclos – doenças, privações, misérias, maus-tratos – ou às que derivam do incontrolável impulso assassino que alimenta guerras e violências de todo o tipo.»

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

REVISÃO DE NOTÍCIAS LIDAS

Revisitamos um artigo de Nuno Pacheco publicado no Público de 13 de Dezembro de 2023.

Tratava a notícia do lançamento, no Centro Cultural de Belém, da nova edição de
Auto-Photo Biografia (não autorizada), da autoria de Mário Viegas.

Em relação ao mesmo livro que faz parte da Biblioteca da Casa, esta edição  que estabelece a vida de Mário Viegas, contada por ele próprio, tem a enriquece-la quatro CDs inéditos de poesias ditas pelo actor.

«São apontamentos escritos à mão, desenhos, fotografias, recortes de jornais e de banda desenhada, que Mário Viegas foi juntando em folhas de grande formato (A3) até perfazer o que considerou a sua verdadeira história. “Sobre mim está aí tudo, o resto não tem interesse nenhum”, sentenciou, com a sua habitual ironia. Esse trabalho, a que Mário Viegas meteu ombros quando já adivinhava o desfecho da doença que havia de lhe tirar a vida, e que constitui um legado fascinante, está agora disponível num álbum que reproduz na íntegra as 250 folhas avulsas que criou.»

Nuno Pacheco conta ainda como aconteceu a descoberta por Maria Hélia Viegas, irmã do actor, dos 4 CDs que completam esta nova edição.

«No dia em que a conheci, conta José Moças, a certa altura ela leva-me ao quarto do irmão, que estava tal qual ele o deixou, e pediu-me para abrir uma gaveta”. Lá dentro estavam oito bobinas. “Pediu-me para as levar, porque nem ela sabia o que estava ali.” Assim fez.
Ao ouvi-las, percebi do que se tratava. Eram gravações feitas por ele, em casa, a treinar a leitura dos poemas. Deitado no chão, de barriga para baixo, para controlar o diafragma – isto soube mais tarde pela irmã, porque ela assistia. As gravações estavam com muitos problemas, mas a recuperação foi feita de uma maneira incrível. Há uma bobina que tinha a festa de aniversário da Maria Hélia de um lado e a dele do outro. E a certa altura, o pai vira-se para ele e pergunta: ‘Ó António, não quer contar uma das suas historinhas aos seus amigos?’ Então ele conta O Dente Furado e A Bruxa da Montanha, que dura quase 13 minutos; ele lê e faz as vozes das personagens todas. Com nove anos!»

No texto seguinte recordamos «O Outro Lado das Estantes» onde referimos a  1ª edição desta Photo-Biografia Não Autorizada do Mário Viegas.

domingo, 28 de julho de 2024

MÍSIA (1955-2024)


Mísia, cantora e fadista, morreu este sábado em Lisboa. Tinha 69 anos.

«A voz corajosa de aquém e além-fado», escreveu Nuno Pacheco no Público.

terça-feira, 9 de abril de 2024

CONVERSANDO

A história conta-a Nuno Pacheco na habitual crónica, às quintas-feiras, no Público:

«Cineasta, mas também combatente activo em diversas causas que o apaixonavam (como a TAP, o rumo do Audiovisual ou a recusa do Acordo Ortográfico de 1990), A.-P.V., acrónimo por que era conhecido e mencionado, contou a história da sua vida no livro Um Cineasta Condenado a Ser Livre, uma longa conversa com José Jorge Letria (Guerra & Paz, 2016). Nele lembra uma história relacionada com a manhã do 25 de Abril de 1974, quando estava a trabalhar na revista Cinéfilo, que A.-P.V. e Fernando Lopes haviam “ressuscitado” em 1973. A dada altura, entra na redacção o homem que durante anos levava as provas do jornal O Século à censura. Inquiriu: “Tem provas?...” E A.-P.V.: “Ó senhor Joaquim, isso já acabou.” Mas o homem insistiu: “Ó senhor Vasconcelos, não brinque comigo. Olhe que eles estão lá.” A.-P.V.: “Acabou. A censura acabou. O regime acabou. Vá gozar a liberdade.” E o homem, branco como a cal, respondeu. “E agora, o que é que eu vou fazer?...” Tinha percebido que ia ficar desempregado. “Foi a única vítima do 25 de Abril por quem tive compaixão”, concluiu A.-P.V.. Talvez esta história constasse do seu documentário. Iria bem com o seu humor.

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL

     Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                    João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


25 de Abril de 1997.

No Público desse dia, o jornalista Nuno Pacheco tinha a tarefa de assinalar a data.

José Mário Branco já deixara numa canção que, no decorrer do caminhar de Abril, existiram gentes que se tinham enganado.

E o jornalista alinha as palavras no computador:

«Agota que tudo isso é já distante e que assentámos na democrática ideia de que a luz era ilusória, dá mesmo assim para ver que algo se perdeu na voragem dos tempos.

Sim, os que foram protagonistas duma grande esperança e passaram a ser figurantes dum grande desencanto.

Esperanças frustradas, desilusões, esforços que não deram os resultados esperados.

O festim durou pouco.

Lá longe, o Chico lançava o lamento de que a festa tinha sido estragada.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

REVISÃO DE NOTÍCIAS LIDAS


 O jornalista Nuno Pacheco no Público de 1 de Fevereiro,  chama a atenção para o centenário do nascimento de SAM e que uma exposição  sobre a obra do autor está patente no Museu Bordalo Pinheiro em Lisboa que ficará patente até ao dia 19 de Maio, uma exposição com cartoons, colagens e desenhos originais, algumas esculturas e também quatro dos 45 Filmezinhos do Sam que este produziu para a RTP, interpretados pelo genial Mário Viegas.

A exposição tem o apelativo nome de «NÃO RIA. O HUMOR È UM ASSUNTO MUITO SÉRIO: 100 ANOS DE SAM».

«Se fosse vivo, teria a estatura de um século, 100 anos completados há poucas horas, na quarta-feira, o dobro da “idade” desse 25 de Abril quase cinquentenário que ao seu traço muito deve. De nome completo Samuel Azavey Torres de Carvalho, foi com três letras (Sam) que entrou no nosso imaginário como cartoonista, ele que foi engenheiro por formação e profissão e também criador noutras artes, do design à escultura. Num tempo em que o único Sam que ainda mexe de modo crítico com o nosso quotidiano é o rapper Sam the Kid, lembrar o traço crítico e certeiro do cartoonista Sam é, em simultâneo, celebrar a força do cartoon como uma das maiores expressões de liberdade no mundo de hoje. Sam tinha disso consciência e usou-o para retratar o que o rodeava, quer em ditadura quer em democracia, com elegância mas sem complacências.»

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL


Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

Nuno Pacheco começa por dizer que dentro de quatro dias se comemorava mais um 25 de Abril. Que não eram os 40 anos que só se comemorariam em 2014, mas deu-lhe para pegar numa série de jornais e dizer-nos o que era o tempo antes de o 25 ainda não ser 25. Quase como o João Bénard da Costa a dizer-nos: « Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.»

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

REVISÃO DE NOTÍCIAS LIDAS


 

Os jornais lêem-se.

Por vezes calmamente, outras vezes na viagem do Metro, outras ainda à mesa do café.

Deles guarda-se uma ou outra página para leitura mais vagarosa, mais atenta, num outro qualquer dia.

Serão as notícias relidas.


No dia 14 de Dezembro de 2023, na sua crónica das quintas-feiras no Público, Nuno Pacheco, lembrou a morte, no ano que há pouco terminou, de José Duarte, o Jazzé como ele gostava que o chamassem.

Durante muitos anos fui ouvindo dizer que o jazz em Portugal se registava como: Antes e Depois de Vilas Boas.

Agora, também se acrescentará: Antes e Depois de José Duarte.

Antes e depois de muita gente que, em Portugal, tem dedicado ao jazz um amor sem fim.

 Nuno Pacheco:

 «O jazz está a acabar? Vai morrer? Vai ceder em definitivo a outros géneros musicais e perder os seus traços distintivos?

Passando ao lado desta discussão, não deixa de ser curioso que um homem que lhe dedicou a vida, diluindo-o no seu ego até o absorver no nome, passando de José Duarte a Jazzé Duarte (como gostava de se apresentar e ser conhecido), mantivesse durante décadas uma posição pessimista acerca do futuro do jazz, em particular do seu futuro em Portugal. Numa das últimas mensagens que me enviou, por correio electrónico, datada de Outubro de 2022, escrevia que andava por cá “até ao fim a lutar por jazz causa perdida”. E despedia-se, como sempre, com um “até jazz”. Morreu passados cinco meses, em Março de 2023, mas, muito antes dessa data, aquilo a que ele chamava “causa perdida” parecia, pelo contrário, uma causa ganha, a julgar pelo número (e qualidade) de novos músicos, pela quantidade de escolas, pela proliferação de festivais de jazz e de iniciativas a ele ligadas.»

Para completar os amores de José Duarte pelo Jazz, Nuno Pacheco cita um livro editado pela Guerra & Paz.

A saber:

«Chama-se Histórias de Jazz (ed. Guerra & Paz) mas podia chamar-se Histórias com Jazz, já que em todas elas o jazz está presente, das mais variadas formas (discos, cassetes, instrumentos, evocações fantasmagóricas), mesmo na que evoca Frank Zappa, músico de rock cuja ligação ao jazz se fez por via de influências e colaborações.

O livro, em si, tem uma história curiosa. Leonel R. Santos, que desde 2006 mantém activo o site JazzLogical.net, com informações regulares acerca do que se vai fazendo na área do jazz, dirigiu em 2001 uma revista de que foi co-fundador, a All Jazz. Um dia, conta ele na introdução, apareceu na redacção um leitor com duas histórias para eventual publicação. Interessou-se por uma delas (Jitterbug Waltz), publicou-a, e desafiou leitores e amigos a escreverem outras. Recebeu várias, em forma quase final ou em esquissos, mas, como a revista acabou, ficaram num limbo. Até que, passado anos, voltou a lê-las, reescreveu-as e fez este livro onde inclui 13 histórias, duas de sua inteira autoria e as restantes fruto das adaptações ou reescritas a que livremente se entregou (os autores dos originais são mencionados na introdução).

Assim, por entre ingredientes a que o jazz não é alheio (“amores desesperados, amizade, sexo, sangue, suor e lágrimas, traição, humor e fantástico”), somos conduzidos no desfecho de cada história a audições que lhes servem de banda sonora: de Frank Morgan (A lovesome thing) a Anthony Braxton (Opus 58), passando por Miles Davis (Sketches of Spain), John Coltrane (Every time we say goodbye), Jimmy Smith (Hackensack), Hank Mobley (Smokin’) e tantos outros. Ou ainda Charles Lloyd com Billy Higgins, no disco que gravaram em duo (só saxofone e bateria), Which way is East, com a particularidade de serem ambos chamados a protagonizar uma das histórias, Higgins, onde Charles chora no saxofone a morte de Billy, “porque um pedaço dele tinha morrido com o amigo”. Um livro de histórias para “ouler” com curiosidade, parafraseando o “ouver” de Jazzé.»

Termino recontando uma história já por aqui citada:

 Numa entrevista ao Expresso (06.02.2016), por ocasião dos 50 anos dos Cinco Minutos de Jazz, perguntaram-lhe por um episódio destes longuíssimos minutos de jazz, o José Duarte respondeu:

«Fui a uma rádio em Los Angeles, que passa jazz 24 horas por dia. O edifício era lindo, alto, todo em vidro. Era o início dos anos 70, o João ainda era vivo. Eu tinha levado comigo uma cassete da Nina Simone a tocar piano. O apresentador fez-me perguntas, estranhou onde era Portugal, expliquei-lhe que se nadasse sempre em frente chegaria a Lisboa. E quando lhe contei que tinha um programa de cinco minutos fechou o microfone, pensava que eu me tinha enganado no inglês! No fim, pôs a minha cassete da Nina Simone e ia caindo da cadeira: nunca a tinha ouvido só a tocar o piano. Saí daquela rádio orgulhoso.

Um orgulho tão grande que, certamente, no regresso a Lisboa, obrigaram o José Duarte a pagar excesso de bagagem.»

quinta-feira, 2 de março de 2023

DOS JARDINS FANTÁSTICOS


 Luiz Pacheco no seu primeiro Texto Local, a que chamou Os Namorados, escreve:

«Dos jardins fantásticos da minha infância que eu nem tive infância nasci assim já velho mas sou um bonacheirão incapaz de rancor aos meninos que tiveram infância e jardins, trago um na lembrança que era um jardim muito engraçado havia um coreto a música tocava aos domingos havia um urinol com aquele velho maluco que fazia coisas aos rapazes e também lembro um jardim, outro ou seria o mesmo que era um jardim muito engraçado com uma estantazinha verde o tipo que emprestava livros à gente tinha uma farda preenchia-se um papel com o nosso nome e morada era coisa séria.»

 Maravilha de texto lido com um prazer de velhos tempos, agora que nos jardins já encontramos poucas crianças e as que vão aparecendo têm telemóveis e outros mecanismos dos tempos de hoje.

 Nuno Pacheco, na sua apreciada crónica das quinta-feiras, no Público, escreve sobre jardins:

 «Há coisas que parecem premonitórias. No seu mais recente trabalho em torno da obra pessoana, Faust, o cantor e compositor italiano Mariano Deidda escreveu (e cantou, a fechar o disco) uma canção intitulada Nos jardins de Lisboa, dedicando-a ao escritor Antonio Tabucchi. Vale a pena citá-la na íntegra (é cantada em italiano, mas no libreto do disco surge também traduzida para português): “Meu caro professor Tabucchi/ agora que você se encontra/ entre as águas do aqueronte/ e o vórtex furioso dos átomos/ onde tudo está disperso/ e onde tudo é criado de novo/ em breve poderá voltar/ aos jardins de Lisboa/ como flor/ que floresce em Abril/ ou como chuva nos lagos/ e nas lagoas de Portugal/ e quando eu estiver a passear/ voltarei a ouvir a sua voz/ percorrida pelo vento.” O disco foi lançado em Março de 2022, e, passado quase um ano, um jardim de Lisboa ganhou oficialmente o nome de Jardim Antonio Tabucchi. Foi inaugurado numa sexta-feira, dia 3 de Fevereiro, e era conhecido como Jardim da Travessa da Piedade, a curta distância da casa onde o escritor italiano viveu, a Rua do Monte Olivete, a meio caminho entre a Assembleia da República e o Largo do Príncipe Real. O Gogle Maps já o reconhece.

Ora esta inauguração, no bairro que Tabucchi “percorreu vezes sem conta” e onde “sempre se sentiu bem”, como ali recordou a viúva do escritor, Maria José de Lencastre, e onde, em nome do município, o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, afirmou que “o grande escritor, o grande lisboeta, o grande homem livre”, se tornava assim “parte da cidade” que foi a “sua segunda casa”, ocorreu no início do ano em que se celebrarão os 80 anos do nascimento de Tabucchi (em 24 de Setembro) e passados 11 anos da sua morte (em 25 de Março de 2012. Na mesma Lisboa que adoptou como sua e onde viveu desde 1965 até ao final da vida.»

 Difuso no texto da crónica do Nuno Pacheco, copio o poema de Mariano Deidda:


«Meu caro professor Tabucchi

 agora que você se encontra

 entre as águas do aqueronte

e o vórtex furioso dos átomos

onde tudo está disperso

e onde tudo é criado de novo

em breve poderá voltar

aos jardins de Lisboa

como flor/ que floresce em Abril

ou como chuva nos lagos

e nas lagoas de Portugal

e quando eu estiver a passear

voltarei a ouvir a sua voz

percorrida pelo vento.»

Legenda: Jardim Constantino, em Lisboa, numa quarta-feira, que é dia de ali se relizar uma Feira Ocasional de Livros Usados.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


 «Agora que as canções, boas ou más, memoráveis ou insignificantes, circulam livremente sem que alguém as trave ou proíba, convém recordar que no Portugal de há meio século a censura a canções e discos ainda estava bastante activa. Talvez por isso muita gente tenha assistido, com espanto, à vitória no Festival RTP de uma canção chamada Tourada. Com letra do poeta José Carlos Ary dos Santos e música de Fernando Tordo, que ali a defendeu, cantando-a, na noite de 26 de Fevereiro de 1973 (no palco do Maria Matos, em Lisboa), acabou por ir à Eurovisão, no Luxemburgo, ficando em décimo lugar (num total de 17). Porém, mais do que a vitória no festival, o relevo da canção ia para o que nela transparecia de escárnio face a uma ditadura travestida de “Primavera” que insistia em atolar-nos num “Inverno” sem fim à vista.»

Nuno Pacheco no Público

1.

A Assembleia da República vai assinalar o primeiro ano da guerra na Ucrânia, que teve início a 24 de fevereiro de 2022, com um debate temático e outras iniciativas, que arrancam esta quinta-feira com a iluminação da fachada do edifício do Parlamento com as cores da bandeira ucraniana, azul e amarelo.

2.

Artigo de João Pedro Pincha no Público:


«Falar desta guerra como uma luta em defesa da democracia cimentou a unidade entre Europa e Estados Unidos, mas está longe de convencer na Índia, na China ou na Turquia.

 Se europeus e norte-americanos estão alinhados no desfecho que consideram ideal — a vitória ucraniana com a reconquista de todos os territórios ocupados pela Rússia —, os cidadãos da Índia, da Turquia, da Rússia e da China são maioritariamente favoráveis a que a guerra termine o quanto antes, mesmo que isso implique cedências territoriais ucranianas.»

3.

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos considerou, numa decisão publicada nesta quinta-feira, que o Estado português não tem de indemnizar os clientes do Banco Espírito Santo, que acumularam prejuízos avultados com a compra de produtos financeiros que a entidade bancária apresentava como seguros. Para os juízes europeus, os estados não têm "qualquer obrigação de cobrir as dívidas de entidades privadas". 

4.

Empresas de trabalho temporário alcançam facturação recorde de 1 550 milhões em 2022

5.

Os resultados da última sondagem do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica para o PÚBLICO, RTP e Antena 1 dão aos socialistas 32% das intenções de voto e 31% aos sociais-democratas. Não é o PSD que melhora, é sobretudo o PS que piora: se as eleições legislativas se realizassem agora, haveria um empate técnico entre os dois maiores partidos e a direita conseguiria, toda junta, a maioria absoluta.

Dos inquiridos mais de metade (53%) classifica o desempenho do governo  de mau ou muito mau, mas 70% defendem que o melhor para o país é cumprir o mandato até 2026.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

CONVERSANDO


Voltaremos ao silêncio das ruas desertas?

 No exacto momento em que começo a escrever, o mundo atingiu o número de 1.164.094 mortes causadas pela covid-19.

Os que destas coisas sabem, dizem que teremos 4 mil casos por dia em Novembro.

 1.

 Segundo o Público, o Banco de Portugal tinha poderes para afastar Ricardo Salgado do BES um ano antes do colapso do banco, mas há que dizer que tiveram medo de afrontar o então dono disto tudo.

 2.

 Mais do que duplicou o número de grávidas dispensadas pelas empresas.

 3.

 Lares para idosos ilegais, jardins de infância ilegais, canis ilegais.

Faltam agentes fiscalizadores: incúria, descuido?

Os gabinetes dos 70 membros do Governo têm ao seu serviço 1236 pessoas.

Razão tinha a Alexandra Alpha:

«Isto não é um país, é um sítio mal frequentado.»

 4.  

 Anos 70, eu e o meu pai à conversa, boa parte eram divinos e saborosos silêncios, no banco, debaixo da parreira de uva morangueira que havia na casa de Almoçageme, por vezes, o Marcolino aparecia a dizer-nos que a maçã reineta, para ser boa, tinha que ter aço (ele queria dizer ácidas) e que o vinho só podia ser feito com uvas. Fazia um vinho caseiro sem sulfitos que tínhamos de o engarrafar colocando lacre por cima da rolha para que estas não saltassem.

5.

Vai ficar tudo bem deu-nos a ideia de que o ataque que enfrentávamos nos tornaria pessoas diferentes, solidárias, compreensivas.

A pergunta é retirada da 1ª página do Expresso.

Numa altura em que tanta gente perdeu o emprego e outros aguardam o dia pela chamada para lhes comunicarem a extinção do seu posto de trabalho, ficamos a saber que os mais ricos ficaram ainda mais ricos.

6. 

O governo, o orçamento o Novo Banco.

Palavras de Francisco Louçã:

«Num tempo em que falta dinheiro para contratar médicos, fechar os olhos às manigâncias pouco imaginativas dos banqueiros não é política. É gosto pelo abismo. E sobretudo, desmerece o país.»

 7.

Ferreira Fernandes, no Público, cita o filme Os Amantes do Tejo em que Amália Rodrigues aparece a cantar Barco Negro e onde um miúdo de Alfama pergunta a Daniel Gélin se gostava de viajar e ele respondia: «Gosto é de partir.»

8.

No ano de 1973 a Arcádia pediu a Manuel da Fonseca que fizesse uma biografia de Amália Rodrigues.

O livro nunca foi publicado mas, recentemente alguém descobriu as fitas gravadas das conversas que Manuel Fonseca teve com Amália. Totalizam cerca de nove horas. Nelson de Matos e a Porta Editora, com o enquadramento e notas de Pedro Castanheira, publicaram, agora, o livro que tem por título «Amália nas suas Palavras». Rui Vieira Nery escreveu o prefácio.

Eu que tento gosto do Manuel da Fonseca e da Amália, dirigirei um destes dias os meus passos para comprar o livro.

Sobre Amália, no seu livro «Amália: Dos Poetas Populares aos Poetas Cultivados» escreveu Vasco Graça Moura: «soube incutir como mais ninguém um acento profundamente dramático à expressão daquilo que cantava. Não apenas por ser dotada de uma voz absolutamente extraordinária. A sua articulação por vezes centrava-se mais no significante do que no significado, mas acabava restituindo misteriosamente a este último todo o seu valor, e encontrou ou inventou melismas, inflexões verbais, tensões intrasilábicas, portamentos, arabescos e outros efeitos vocais, alguns porventura de uma inspiração mediterrânica bebida da Andaluzia à Córsega, mas todos eles únicos, pessoais, intransmissíveis e sobretudo singularmente adequados a traduzir uma entrega total à intensidade dos sentimentos, das dilacerantes violências da paixão à angústia mais torturada, à ternura mais límpida, ou à alegria simplesmente ingénua dos fados que ela cantava.»

 


 Lágrima tem versos de Amália Rodrigues que, segundo Vasco Graça Moura «é uma obra-prima».

Nota do editor: a citação do livro de Vasco da Graça Moura é retirada de um artigo de Nuno Pacheco publicado no Público.