Levar uma paulada na cabeça, não é nada. Ficar drogado duas vezes na
mesma noite, enfim… Mas asir para o fresco e calhar num quarto desconhecido,
mais uma mulher, na indumentária de Adão e Eva, aí já começa a ser um pouco
forte. Quanto ao que veio a seguir…
Pois bem, ao reler as minhas notas, dá-me ideia de que
nem uma vez me dirão que foi um tipo que estudou quem escreveu isto. Questão de
vocabulário? Não. Na minha opinião é, sobretudo, falta de citações latinas.
Será um desfilar de
histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias,
figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação
do dia, mês, ano em que aconteceram.
As voltas que Abril dá.
Fazemos hoje uma pausa nos acontecimentos
políticos que temos vis a relatar e regressamos à música e será a única
incursão que faremos fora do contexto das músicas de intervenção portuguesas que
já fizemos e outras que estarão por fazer.
A canção é de contexto anti guerra. Um
soldado escreve uma carta ao presidente dizendo das suas razões por que se recusa
pegar em armas.
Le Deserteur tem poema de Boris Vian e música de Harold
Berg e foi editada em 1954.
A versão portuguesa tem o dedo de José Mário
Branco.
Ao Senhor
Presidente
E Chefe da Nação
Escrevo a presente
P’ra sua informação
Recebi um postal
Um papel militar
Com ordem p’ra marchar
Pr’a guerra colonial
Diga aos seus generais
Que eu não faço esta guerra
Porque eu não vim à terra
P’ra matar meus iguais
E aqui digo ao senhor
Queira o senhor ou não
Tomei a decisão
De ser um desertor
Desde que me conheço
Já vi meu pai morrer
Vi meus irmãos sofrer
Vi meus filhos sem berço
Minha mãe sofreu tanto
Que me deixou sozinho
Morreu devagarinho
Nas dobras do seu pranto
Já estive na prisão
Sem razão me prenderam
Sem razão me bateram
Como se fosse um cão
Amanhã de madrugada
Pego numa sacola
E na minha viola
E meto-me à estrada
Irei sem descansar
P’la terra lusitana
Do Minho ao Guadiana
Toda a gente avisar
À guerra dizei “Não!”
A gente negra sofre
E como nós é pobre
Somos todos irmãos
E se quer continuar
A explorar essa gente
Vá o senhor Presidente
Tomar o seu lugar
Se me mandar buscar
Previna a sua guarda
Que eu tenho uma espingarda
E que eu sei atirar”
Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar
alguns textos que por aqui foram sendo publicados.
ESSE MOVIMENTO DE
ANCAS
Juliette Greco evoca Miles Davis, amante. Quando, anos
depois, o reencontrou em Paris. Ela, alguns passos na sala, de costas, um pouco
curvada, desatenta: procurar um isqueiro, encher um copo com álcool, abrir uma
janela porque faz calor. E ele ri, feliz. Juliette Greco pergunta: "Estás
a rir, porquê?” E Miles Davis responde: “Porque reconheceria esse movimento de
ancas em qualquer parte do mundo.”