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sábado, 4 de agosto de 2018

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Stromboli é o primeiro de seis filmes que Roberto Rossellini realizou com Ingrid Bergman,  «a história de uma pecadora tocada pela graça, do dizer de Eric Rohmer:

«Deus! Oh! Meu Deus! Ajuda-me! Dá-me força, a compreensão e a coragem».

Conta-se que fez o filme sem ter um guião e apenas um bloco-notas com algumas ideias. Aconteceu um dos mais extraordinários filmes da história do cinema.

Robert Altman também era avesso a guiões. Quando lhe perguntaram para que é que serve um guião ele respondeu: «para saber se há cavalos ou não».

Em Novembro de 1973 a Fundação Calouste Gulbenkian organizou uma retrospectiva da obra de Roberto Rossellini. A ditadura marcelista estava já no seu estertor e o acontecimento faz parte da memória de cinéfilos e anti-fascistas.

O ciclo começou no Grande Auditório, às 21,30 Horas, com «Roma Cidade Aberta».
Diz quem viu que foi das manifestações mais extraordinárias que por aqui aconteceram.


Estou neste momento a olhar para a página de publicidade paga da retrospectiva, publicada em «O Cinéfilo» de 15 de Novembro de 1973 o onde se pode ler, para além dos filmes a exibir, indicações como programas sujeitos a alteração, o calendário da Bilheteira: Assinantes dia 13, Início da venda avulso dia 15, assinaturas para os 27 espectáculos 200$00, bilhetes para cada espectáculo 10$00» e ainda a classificação determinada pela censura: Grupo D (Maiores de 18 anos).

Os bilhetes, as assinaturas, tudo, voaram em escassas horas.

Antes de cada sessão, à porta da Gulbenkian, aglomeravam-se dezenas e dezenas de espectadores na vã esperança de um qualquer milagre de alguém que aparecesse a vender um bilhete.

Foi depois de ter visto dois filmes de Rossellini, que Ingrid se determinou que tinha de fazer um filme com o realizador, e escreveu-lhe:

«Vi os seus filmes “Roma Cittá Aperta” e “Paisá”, de que gostei muito. Caso precise de uma actriz sueca que fala muito bem inglês, que não esqueceu a língua alemã, que não é fluente em francês e que em italiano só sabe dizer “Ti amo” estou pronta a fazer um filme consigo.»

Rossellini nunca tinha ouvido falar de Ingrid Bergman mas escreveu-lhe a dizer que quando entendesse poderia aparecer por Itália.

A actriz logo que ficou livre dos compromissos que tinha entre mãos, voou para Itália e apalavraram fazer um filme em tempo oportuno.

Na altura Roberto Rossellini vivia com Anna Magnani.

Conta a lenda que quando Magnani soube, num restaurante, que Ingrid iria chegar para fazer um filme com Rossellini, perguntou-lhe como era. Rossellini começou a entaramelar a língua e Anna Magnani não pensou duas vezes e espetou-lhe com uma travessa de esparguete na cara.
O cinema tem alguns casos de paixões entre realizadores e actrizes, entre actores e actrizes e que deram momentos inolvidáveis e únicos de grande cinema. São os chamados estados de graça. Para além deste que tenho vindo a falar, lembro-me de Vincente Minnelli e Judy Garland em «Meet me  in St. Louis» e Lauren Bacall e Humphrey Bogart em «Ter e Não Ter», quando Bacall aparece a Bogart e lhe diz, «se quiser alguma coisa, basta assobiar», explicando-lhe depois como o fazer e deixando, para a posteridade uma das sequências mais sensuais da história do cinema.

Também os casos de Antonioni e Minica Vitti, Jean-Luc Godard e Anna Karina, Ingmar Bergamnn e Liv Ulmann ou Bibi Anderson.

Com outros contornos e fora da esfera do cinema, em português temos algo parecido.

Depois de ler «Memorial do Convento» e «O Ano da Morte de Ricardo Reis», a jornalista espanhola Maria del Pilar ficou como que encantada.

«Senti que tinha de agradecer ao autor os livros que me tinha dado a ler. E sobretudo dizer que tinha tratado os seus leitores como seres inteligentes. Tinha-me sentido respeitada como leitora e quis agradecer-lhe.»

Tal como na sinfonia de Beethoven, Pilar terá sentido o destino a bater-lhe à porta.

Veio até Lisboa e conseguiu uma conversa com Saramago.

Sabe-se o que veio a acontecer.

Desde então os livros de José Saramago deixaram de ser dedicados à Isabel para passarem a ser dedicados a Pilar.

Como se lê em «As Pequenas Memórias»:

 «A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar.»

segunda-feira, 30 de abril de 2018

RECEITA DE MULHER


As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que
umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A
mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

Vinicius de Moraes em Antologia Poética

Legenda: Lauren Bacall

terça-feira, 25 de outubro de 2016

OLHA QUE DOIS!


Lauren Bacall e Frank Sinatra.

sábado, 12 de dezembro de 2015

FRANK E BACALL


Frank Sinatra tinha uma profunda admiração por Humphrey Bogart.

Bogart era tudo o que Frank gostava de ter sido: culto, sofisticado, respeitado.

Muitos anos depois da morte de Bogart, Lauren Bacall contou que o marido tinha ciúmes de Frank.

«Em parte porque sabia que eu gostava de estar com ele, em parte porque pensava que Frank estava apaixonado por mim.»

Foi o mais perto que Bacall esteve de admitir a sua paixão por Frank, enquanto o marido estava a morrer.

 «Para nós não era segredo», disse o escritor Ketti Frings, «Toda a gente sabia do casso de Betty com Frank. Só esperávamos que o boggie não descobrisse. Isso matava-o mais depressa que o cancro.»

Durante o ano de 1957, Frank começou a ser visto com Lauren Bacall que, ardentemente queria o casamento. Frank colocava água na fervura.

Finalmente no dia 11 de Março de 1958, catorze meses depois da morte de Hunphrey Bogart, Frank pediu Bacall em casamento.

A actriz nem 30 segundos demorou a dizer que sim.

Sinatra pediu segredo mas era coisa que Bacall não sabia guardar.

Um dia os jornais colocaram em título:

«Sinatra vai casar com Bacall.»

Frank teve uma das suas fúrias e, ao fim de uma série de dias sem falar com Bacall telefonou-lhe e disse:

«Porque é que fizeste isto?»

Bacall não tornou a ver Sinatra.

Quando os jornalistas perguntavam se ele ia casar, Frank respondia:

«Para quê? Para ter que vir para casa todas as noites? Só se eu fosse doido!»

Ava Gardner telefonou a Sinatra:

«Ouvi dizer que já não há casamento.»

«Que casamento?», perguntou Frank.

«Com a Betty Bacall.»

«Deus me livre de casar com essa mandona.»

Lauren Bacall escreverá nas suas memórias o quanto ficou destroçada pelo abandono de Sinatra:

«Ser abandonada é duro, uma coisa difícil de se esquecer, mas ser abandonada publicamente dá cabo de uma pessoa. Mas a verdade é que ele se comportou como um pulha. Foi demasiado cobarde para dizer a verdade – que a ideia do casamento era demasiado perturbadora para ele, que não sabia como enfrentá-la.»

Sinatra não gostou do que leu.

Limitou-se a comentar:

«Acho que é injusto porque há outra maneira de ver o problema. Mas eu não vou falar nisso. Acho que há coisasa que se devem deixar esquecer.»

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

LAUREN BACALL (1924-2014)


Ainda a secar as lágrimas pela morte de Robin Williams, outras se lhes seguem com a notícia da morte de Lauren Bacall.
Só alguém como Bacall, com aquele terrível, doce e provocante olhar, poderia dar a volta completa àquele durão do Humphrey Bogart.
Correu, agora atrás do último assobio.
Tinha 89 anos.
Amargos dias.
Mais filmes para ir buscar à estante.    

                                                                              

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

OLHAR AS CAPAS


Hollywwod, Estórias de Glamour e Miséria no Império do Cinema

Edgar Pêra
Prefácio:: Manuel S. Fonseca
Capa: Jorge Carvalho
A Esfera dos Livros, Lisboa Outubro de 2013

Humphrey Bogart era conhecido por não ter papas na língua, e não acreditava que Hawks encontrasse uma mulher tão insolente quanto ele. Mas quando conheceu Lauren Bacall (talvez durante os testes de Ter e Não Ter), com menos de metade da sua idade, Bogart percebeu que a Dama estava à sua altura e, apesar de casado, apaixonou-se por ela durante as rodagens.
O famoso «look» de Bacall – o olhar sensual com o queixo encostado ao peito e os olhos voltados para cima, nasceu não tanto do génio de Hawks, mas sim da necessidade da actriz disfarçar o nervosismo que sentia ao contracenar com os grandes actores do cinema. Para conseguir não tremer de medo, Bacall punha o queixo fortemente encostado ao peito, e os tremores desapareciam. Lauren Bcall sentia-se bastante intimidada pelas vedetas de Hollywood, especialmente os galãs da época e Howard Hawks (Gentlemen Prefer Blondes), ensinou-lhe como lidar com as estrelas; «Então ela um dia entrou e disse emocionada “Olá”. Tínhamos uma festa em nossa casa no sábado à noite, por isso disse-lhe que entrasse. “Não tenho muito jeito para lidar com os homens.”E como é que os tratas?” perguntei. “O melhor que posso”, disse ela. Eu disse “bem, experimenta insultá-los para ver o que acontece”. Ela apareceu no sábado seguinte e disse-me “Deram-me boleia”, e eu disse “ O que fizeste?”, Bem insultei um homem e ele gostou.” “E o que é que fizeste?”, disse eu. “Perguntei-lhe onde é que tinha comprado a gravata, ele perguntou, para que é que queres saber isso, e eu respondi, para dizer às pessoas para não irem lá.” Eu perguntei “Quem era o homem? E ela respondeu “Clark Gable”.» Consta que Bacall nunca mais teve preocupações com os homens que se precipitavam para a convidar a sair. Loiuse Brooks (A Boneca de Pandora), estrela da sensualidade do cinema mudo, escreveu que «com a estreia de Casablanca, Humphrey Bogart tornara-se negócio em grande. Era a altura de Lauren Bacall fazer a sua entrada – ela, que igualmente se tornaria o par ideal do ecrã, sedutora como Eva, fria como a serpente». Fala talvez a inveja, mas não haja dúvida que não eram apenas os passarinhos que Lady Bacall conseguia hipnotizar. Revê-la em casa mas sobretudo numa sala de cinema ainda é um espectáculo que faz muitos cinéfilos perderem o fôlego.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

KEY LARGO



                                                    - Você percebe alguma coisa de barcos…?
                                                    - Sim… A minha primeira namorada foi um
                                                               barco…
                                                    (Diálogo do filme Key Largo, citado de memória…)


Embora haja muito boa gente a dizer o contrário, não me parece que Key Largo, que John Huston dirigiu em 1948, seja um dos melhores filmes do realizador do Falcão de Malta (alias, Relíquia Macabra, como inicialmente se chamou em Portugal…).

Tenho cá para mim que, durante a maior parte do tempo, o filme sofre em demasia as consequências da sua original base teatral, uma peça de Maxwell Anderson datada de 1930.

É verdade que a escolha dos actores é muito boa e a sua direcção excelente, como é habitual em Huston.

Mas aposto que se perguntar a alguém quais são os quatro filmes protagonizados pelo  par Bogart/Bacall,  este será, talvez, o último de que se irão lembrar… E também duvido que alguém se lembre que anda por lá Dan  Seymour, um dos inesquecíveis grandes actores secundários do Cinema Americano.


  Key Largo encerra algumas pequenas “histórias” que me apetece recordar, e se escolhi um diálogo do filme para a introdução deste texto não foi pelo simples prazer da citação, mas porque a resposta que Bogart dá no ecrã poderia muito bem tê-la dado na vida real…

Bogart amava o mar e os barcos e, com a cumplicidade de Huston, aproveitou este filme para fazer uma pequena homenagem ao seu próprio barco,  que se chamava Santana. Se repararem bem, Santana é o  nome do barco que é utilizado no filme.

E tinha tanto amor e tanto orgulho no seu vistoso veleiro que baptizou de Santana Productions a Produtora de filmes que criou  em 1947.

Conta-se que uma vez perguntaram ao Bogart o que é que fazia com que o seu barco andasse tão depressa…? “Scotch!”, respondeu ele de imediato…!  John Ford, outro amante do mar e dos barcos, poderia ter dado idêntica resposta…

A leitura da autobiografia de Laureen Bacall (By Myself – 1978) é um prazer enorme e deixa também transparecer a pontinha de ciúmes que ela própria sentia em relação ao Santana. Nenhuma das belíssimas mulheres da Hollywood desses tempos lhe fazia qualquer sombra, mas essa namorada distante, com a qual Bogart se refugiava sozinho de vez em quando, fiava mais fino…!


Estou convicto de que nenhum cinéfilo que se preze irá de propósito a Key Largo em busca das reminiscências do filme de John Huston…

Ele lembrar-se-á muito bem que tudo aquilo cheira aos estúdios da Warner Brothers por todos os lados e que, com excepção das breves imagens aéreas do genérico inicial,  não haverá no filme  uma única cena filmada localmente… Mesmo as cenas supostamente de exteriores, com o mar e os barcos a serem batidos pelo vento, são “efeitos especiais”, por sinal até retirados de rushes não utilizados de um outro filme de Don Siegel.

Mas a verdade é que também não acredito que haja cinéfilo que se preze que, ao passar por  Key Largo,  não sinta um apertozinho no coração e uma vontade enorme de sair da estrada principal e parar o seu carro,  ainda que por breves instantes,  à beira daquele mar maravilhoso.

E se o fizer, como eu o fiz, olhará então à sua volta e pensará que o filme do Huston poderia muito bem ter sido filmado ali naquele grande casarão de madeira, que até tem pontões e ancoradouros prontos para albergar  qualquer barco…

O que ele poderá não adivinhar de imediato, como eu próprio também não adivinhei, é quem é que estará à sua espera no salão dessa enorme casa, caso se disponha a transpor a porta de entrada…

O Bogey,  himself…!!!


Não Frank McCloud, o valoroso herói de Key Largo, mas o muito mais sofisticado Richard Blaine, que todos nós nos habituámos a tratar por Rick, o proprietário do Café Américan de Casablanca…!

Teria sido  “the beginning of a beautiful friendship”, se nós já não fossemos amigos  há tantos anos…  Mas a habitual fotografia de parolo, essa não falhou!

Ao entrar naquele bar (era de um grande e espaçoso bar que se tratava…) pedi à vistosa  Senhora do outro lado do balcão uma “sparkling water”, referindo-me a uma normal água com gás.

Sem pestanejar perguntou-me se a queria com scotch, com rum ou com outra bebida qualquer… Hesitei porque, acima de tudo, era sede que eu tinha e não estava nada  habituado a beber álcool assim tão cedo pela manhã.

Mas dei-me conta, de imediato, que a razão estava toda do lado dela…

Então eu estava ali ao lado do Bogart, um tipo que, como na altura afirmou André Bazin,  tinha morrido de um cancro  e de um milhão de whiskeys,  e preparava-me para honrar a sua memória com uma banal  aguinha com gás… O desgraçado iria dar uma volta no túmulo, certamente…!

“Scotch, please…”, pedi delicadamente à Senhora.

E em quase 59 anos de existência, esse foi, seguramente, o primeiro whisky que alguma vez  tomei  antes das 11H00 da manhã…!


Colaboração de Luís Miguel Mira

domingo, 16 de setembro de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Há 88 anos nascia, em Nova Iorque, Lauren Bacall.

Disse há uns anos atrás: Don’t call me a legend!

Nunca devemos pôr o dinheiro à frente da nossa profissão. Sempre que o fiz tramei-me. Otto Preminger não me quis pagar o cachet que eu queria para fazer O Homem do Braço de Ouro e eu não fiz o filme.
Hoje estou mais do que arrependida!

quinta-feira, 1 de março de 2012

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Ter e Não Ter é um dos meus filmes de cabeceira, um daqueles que sem qualquer sombra de dúvida levaria para a tal ilha deserta... Tem um belo guião do William Faulkner, tem o Bogart e a Bacall em estado de graça de começo de festa, mas também tem o Walter Brennan (um dos melhores actores secundários de sempre...), que passa a vida a perguntar às pessoas se alguma vez foram mordidas por uma abelha morta, o Hoagy Carmichael, de que tanto gosto,  a tocar piano e a cantar, o Marcel Dalio atrás do balcão  e o também grande (em todos sentidos...) Dan Seymour a fazer de Pide (seu papel preferido...) e a perguntar ao Bogart quais são as suas simpatias políticas (minding my own business, responde-lhe ele...)...

E tem também um belo final, que irá direitinho para a cassette da Aida. É um hino à Vida, à Amizade, à Comunidade e à Integridade como poucos filmes o foram. E tem os diálogos mais sensuais da história do cinema americano (se pusermos de lado as tiradas demasiado "rasteiras" da Mae West...).



 Vou dar-vos um exemplo, em inglês porque em português perde toda a sua graça e musicalidade.  Mas antes tenho de explicar, a quem não conhece o filme, que a Bacall (Slim - magrinha - no filme, e com essa alcunha ficaria para sempre para o Bogart até este morrer de um cancro e um milhão de whiskies, como então escreveu o André Bazin, crítico de cinema francês...)  andava ressabiada, porque o Bogart (Steve, no filme) não lhe ligava patavina e até chegou a dar-lhe  guia de marcha comprando-lhe um bilhete de avião de regresso para a terra dela (tal como também o fez, depois, John Wayne à  Angie Dicksson, no Rio Bravo... No Hawks, isto anda tudo ligado!). Já antes Slim lhe tinha perguntado quem teria sido a mulher que o deixou com tão má impressão sobre as mulheres... You know, you dont' have to act with me, Steve. You don't have to say anything. Not a thing. Oh, maybe just whistle. You know how to whistle, don't you, Steve? You just put your lips together and blow.

Pouco tempo antes ela tinha tentado beijá-lo, mas ele nem sequer  mexeu os lábios.

A segunda tentativa foi, porém, irresistível, e a coisa foi prolongada...

Reacção dela: It's much better when you colaborate!

A génese do filme tem uma história engraçada que não resisto a contar. O realizador, Howard Hawks, e o Ernest Hemingway (autor do livro em que o filme se baseia) tinham ido à pesca no alto mar e, enquanto o peixe não mordia, divagavam discutindo Cinema e Literatura, puxando cada um a brasa à sua sardinha. Para o Hemingway a base de um bom filme teria de ser uma boa história; para o Hawks, isso era indiferente, já que o fundamental era a  mise-en-scene...

- Aposto que sou capaz de fazer um grande filme com base no teu pior romance, disse ele ao Hemingway.

 - Qual é o meu pior romance?, pergunta-lhe este.

 - To have and have not, sem dúvida, diz  o Hawks.

  - És capaz de ter razão. 
Numa célebre entrevista que deu aos Cahiers du Cinema, Hawks disse que tinha feito o filme a correr porque precisava de dinheiro, mas não vai tão longe que diga se pagou a aposta a Hemingway.

 Mas que o filme é enorme, disso poucos duvidarão.




E numa onda de bom cinema e boa poesia, não quero ir-me embora sem vos deixar o curto poema que o Ruy Belo dedicou a Humphrey Bogar e que está incluído naquele célebre livrinho de capa azul da velha e saudosa Dom Quixote:

                                             “Era a cara que tinha e foi-se embora
                                              mas nunca foi tão visto como agora.
                                              O seu olhar é água, pura água
                                              devassa-nos, dá nome mesmo à mágoa
                                              Ganhámo-lo ao perdê-lo. Não se perde um olhar
                                              não é verdade, meu irmão Humphrey Bogart?

Colaboração de Luís Miguel Mira


Nota do editor:
O texto do Luís Miguel Mira foi escrito, há uns bons pares de anos, no decorrer de uma brincadeira entre amigos.
Dado que a Cinemateca, amanhã, pelas 15,30 Horas, na Sala Dr. Félix Ribeiro, exibe Ter ou não Ter , resolvi recuperá-lo.

TO HAVE AND HAVE NOT
Ter e Não Ter
de Howard Hawks
com Humphrey Bogart, Lauren Bacall, Walter Brennan, Marcel
Dalio, Dolores Moran
Estados Unidos, 1944 – 99 min / legendado em português

O encontro do mais mítico par da história do cinema: Bogart e
Bacall, de uma forma não menos mítica. Na realidade, o desafi o
que Hawks se impôs foi o de arranjar a Bogart uma mulher tão
insolente como ele, capaz de lhe responder à letra. O primeiro
encontro (quando ela vai ao quarto dele pedir-lhe lume) é um
daqueles momentos que se tornaram lendários, com a réplica
dela (“Se precisares de mim… assobia”). Vagamente inspirado
em CASABLANCA, mais do que no conto de Hemingway, é,
de novo, uma história de resistência e de resistentes franceses
contra o governo francês de Vichy na Martinica.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


“No cinema, a inocência vê-se.

Eu vi-a numa miúda insolente que partiu ao meio o duro Humphrey Bogart, com olhares oblíquos, respostas velozes e a promessa de vir a correr se ele aprendesse a assobiar. A miúda, descobriu-a o realizador Howard Hawks e ela não tinha sequer 20 anos. Hawks tinha quase 50 e as melhores e as piores intenções. Dormir com ela conta para qualquer das duas hipóteses. Ela era Lauren Bacall.
Bogart, 45 anos, foi mais rápido. Mal a viu, Bogart cercou-a sabendo já que, no fim, seria ele a render-se. O filme chama-se “To Have and Have Not”, uma adaptação de Hemingway em que colaborou Faulkner. É um dos mais felizes encontros de amantes da história do cinema. Atrevo-me: de todas as histórias que em histórias já se contaram. Em cada imagem do filme, nos olhares de Bacall e Bogart, nos gestos, na voz, a história do filme é a história deles. O pano de fundo é uma intriga da II Guerra que mal disfarça a forma como um ao outro se provam e saboreiam. Tudo o que vemos no filme foi verdade na vida: atacaram-se com uma insolente apaixonada gentileza.

Uma noite, durante as filmagens, Bogart telefonou a Bacall. Eram 3 da manhã e estava à espera dela numa rua de Los Angeles, na esquina do Beverly Wilshire Hotel. Juntou os lábios, soprou e saiu-lhe um assobio. Bacall tinha vindo de Nova Iorque com a mãe. A mãe opôs-se, braços em cruz, mas o assobio foi irresistível.

Hawks conta que Bacall era virgem. Nessa noite, talvez na seguinte, deixou de ser. Não perdeu nada. Não me lembro de nenhum filme em que, cena a cena, o rosto de uma mulher tanto ganhe em alegria, confiança, entrega e soberania. E a voz rouca a deixar Bogart a seus pés, no filme e para o resto da vida. Até que o whisky, uma tonelada de cigarros e um cancro na garganta, matando um, os separou aos dois. Pouco importa, há um filme que guarda para a eternidade a inocência dos dois”

Manuel S. Fonseca no “Expresso”, 22 de Abril.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

DA MINHA GALERIA

Lauren Bacall.
Faz hoje 86 anos.
Charmosa como sempre, quer apenas que não lhe chamem lenda.