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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

CONVERSANDO

Se os viajantes deste Cais gostam de biografias, mais ainda do poeta Herberto Helder, não poderão deixar de ler a Biografia do Herberto que João Pedro Jorge levou cerca de oito anos a fazer, a detectivar, a escrever.

«Alguém que está a esconder alguma coisa exerce um fascínio enorme sobre o público».

Assim era Herberto Helder.

E é preciso perceber «o inesgotável e enigmático Herberto Helder».

Estas 895 páginas de Se Eu Quisesse Enlouquecia, ajuda-nos a essa tarefa.

Em Março de 2025 o meu amigo António Abaladas ofereceu-me a Biografia doHerberto.

Fui folheando, lendo aqui e ali, apenas isso.

A leitura atenta e necessária ocorreu nos breves dias da semana passada.

O livro ficou largamente sublinhado, com comentários nas margens, sei lá mais o quê, um livro de que poderia dizer «lido à antiga».

Apercebi-me, então, que talvez fosse interessante mostrar aos viajantes o como foi a minha leitura à antiga, se isso é possível.

Vou tentar.

A todas essas intervenções, chamar-lhe-ei Herbertianas.

Começam hoje.

Legenda: pormenor de uma Carta a M.R. sobre «Photomaton  & Vox», escrita por Luna Levi e publicada num suplemento literário do Diário Popular s/d, talvez no ano de 1979.

terça-feira, 28 de julho de 2026

CONVERSANDO

Possivelmente…

Entre muitas outras coisas, deveria ter aprendido a jogar xadrez.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

CONVERSANDO


Gosto mais de vinho, de gin-tónico, de espumante do que de cerveja, mas um fininho cai sempre bem principalmente em dias de canícula, e é indispensável num bife da vazia, com ovo a cavalo e batatas fritas.

Há dias dei com este pedacinho:

«Em contrapartida, se me quiserem irritar, basta servirem-me um fino sem espuma. É como beber um champanhe sem uma boa perlage, aquele fiozinho de bolhinhas de gás a subir copo acima. A espuma é um elemento vital da cerveja: reduz a oxidação e ajuda a conservar a temperatura e os aromas. Não é coisa pouca.»

Também eu me irrito com uma cerveja sem espuma e peço sempre com 2 dedos da dita.

sábado, 4 de julho de 2026

CONVERSANDO

Um dos meus primeiros patrões, um dia, disse-me:

 - Oh Aida, deixe-se de romantismos. Só há duas vidas: uma é boa a outra não presta.

Colaboração de Aida Santos

quinta-feira, 11 de junho de 2026

CONVERSANDO

Chegará o dia em que as nações tratarão Israel como o estado pária que é?

No dia 6 de Março, o jornalista António Rodrigues escrevia no Público:

«Há mais de 70 anos, o filósofo Bertrand Russell e o cientista Albert Einstein estavam entre os 11 signatários de um manifesto pacifista que ficou conhecido como o manifesto Russell-Einstein. Em tempos de guerra fria e de ameaça nuclear, o documento visava defender o “senso comum” face à ameaça de extinção da humanidade.

“O futuro da raça humana é mais sombrio do que nunca. A humanidade enfrenta uma alternativa clara: ou perecemos todos ou teremos de adquirir algum grau de bom senso. Uma grande dose de novo pensamento político será necessário para evitar um desastre total”, lia-se no texto publicado a 9 de Julho de 1955.
Desumanidade
A humanidade parece estar hoje novamente numa encruzilhada civilizacional em que se age sem bom senso, caminhando aceleradamente, cabeça bem esticada, em direcção ao muro de betão cuja existência insistimos em negar. Ao contrário da Guerra Fria e do equilíbrio frágil, mas perene, garantido pela destruição mútua assegurada, hoje actua-se pisando todas as linhas vermelhas como se não existissem, como se não importassem, como se fossem mentira.

Conspira-se com base em conspirações inexistentes, age-se em função de simulacros de realidade, vive-se como se o futuro não importasse: a próxima geração que apanhe os cacos se tiver condições para existir.

Perante este cenário conturbado de actos sem precedentes e teorias sem bases teóricas, Emmanuel Macron resolveu recuperar a teoria da destruição mútua assegurada e estendê-la temporariamente a outros países como meio de defesa: “Para ser livre, precisamos de ser temidos”, disse esta semana o Presidente francês ao anunciar que, pela primeira vez desde 1992, a França irá aumentar o número de ogivas nucleares e, pela primeira vez na sua história, vai disponibilizar os seus aviões com armas nucleares para outros países que precisem de dissuadir ameaças contra o seu território. Tal como em 1955, é preciso que alguém traga algum bom senso para as relações internacionais, mesmo que tenha alguma radioactividade.»

terça-feira, 5 de maio de 2026

CONVERSANDO


Lembrar que, 3 vezes por semana, ás vezes mais porque eles comiam vorazmente, ia de casa até perto do Cine-Oriente buscar folhas de uma enorme amoreira que, por ali existia, para alimentar os meus bichos-da-seda.

Os miúdos, hoje em dia, de volta dos seus, ou alheios, telemóveis sabem lá o que são bichos-da-seda, tê-los em casa, assistir ao evoluir até aos casulos que metia numa caixa de sapatos que guardava na despensa.

Diz a Wikipésia que:

Os bichos-da-seda nascem geralmente no início da Primavera (por volta de Abril), coincidindo com o aparecimento das primeiras folhas da amoreira, que servem de alimento. Em regiões mais quentes, a eclosão pode estender-se até maio ou junho. 

Não que Patti Smith fale de bichos-da-seda no seu Pão de Anjos, mas pelas muitas memórias da infância que ela transporta para o livro: «Deus sussurra através de uma prega no papel de parede, uma gota de água a estalar como uma equação. A luz cai na floresta. Um ancião sentado num barril canta Encontrei uma moeda de ouro num campo, quem ma trocará» Uma criança responde-lhe. Talvez a minha boneca quando a encontrar. Ela tem uma mala cheia de moedas», lembrei-me dos meus bichos-da-seda.

quinta-feira, 26 de março de 2026

CONVERSANDO

Dizia que, para além de escrever, não sabia fazer mais nada.

Amiúde dizia que ninguém escrevia melhor português do que ele e acabou por citar um crítico do El País que lhe disse:

«que daqui a cinco mil anos vou ser lido com paixão. Acho que ele tem razão.»

Sempre foi um tipo difícil, a idade tornou-o pior.

Numa crónica – ando a relê-las porque passaram a ser o que melhor entendia, o que mais gostava do que ultimamente publicava e lamentavelmente deixou de escrever crónicas, lamentavelmente deixaram de publicá-las em livro, falava de um almoça com amigos:

«E às quintas-feiras almoço nos Moinhos da Funcheira com o Zé Ribeiro, o Zé Francisco, o Vitorino. Os Moinhos da Funcheira são o subúrbio do subúrbio, depois da Venda Nova, da Brandoa, da Pontinha: toda a gente acha feio e eu acho lindo. De onde me virá este amor sincero, genuíno, pelo que as pessoas consideram de mau tom, leões de calcário, duendes de gesso, quadros de queimadas, cerâmicas de casa de banho com cisnes doirados?

Quando digo que almoço às quintas-feiras nos Moinhos da Funcheira digo que a empregada nos trata por

- Meu querido

nos traz salsichas com ovos estrelados e nos sentimos indecentemente felizes

Com pena da gente a empregada diz

- Meus queridos

e  soma-nos a conta na toalha.»

Um dia, quando, em separado, encontrei o Zé Ribeiro eo Vitorino, perguntei:

-Então já não há almoços com o António Lobo Antunes?

-Eh pá!.. Tornou-se um chato!...

quarta-feira, 4 de março de 2026

CONVERSANDO


Saiu o último livro do Julian Barnes e é mesmo o último.

Li apenas O Papagaio de Flaubert e gostei. 

Diverti-me bastante. Ainda lembro: «A felicidade é como o sarampo. Se se apanha muito cedo arruína-nos a saúde».

Barnes tem 80 anos. Nasceu em Janeiro de 46, eu nasci em Março de 45.

Deveria ter lido os restantes livros de Barnes. Não se proporcionou. Estive, agora, na livraria, com a Partida, que é o seu último livro, nas mãos. Os livros estão caros, sempre estiveram. Folheei-o, não o comprei porque, um dia destes, hão-de perguntar-me por livros que me querem oferecer.

Neste momento, Barnes, luta contra um cancro, ou o cancro luta contra ele, depende dos pontos de vista. Poderá fazer mais alguma coisa? Na livraria, pacientemente copiei:

“Será que tenho uma lista de desejos, agora que alcancei mais de três quartos de século de idade? Machu Pichu? Angkor Wat? A Antártida? Um safari em África? Não, não sou colecionador geográfico obsessivo. Estive em Ayer’s Rock (quando se chamava assim) e no deserto de Atacama, no Taj Mahal e no Grand Canyon. Pisei todas as massas de terra firme, excepto as congeladas. Por isso, prefiro voltar a vaguear pelas vilas e cidades europeias, observar o mar a partir da segurança de uma esplanada e as montanhas nevadas de uma distância em que não sinta frio”.

A Quetzal, que edita o livro, publicita:

«Partindo da história de um casal de namorados que se reencontrou quarenta anos depois da separação e que decide tentar «a última possibilidade de ser feliz», Julian Barnes embarca numa deambulação sobre a memória, a doença, a velhice — e, inevitavelmente, a morte.

Barnes não perdeu a leveza, a inteligência aguda nem o sentido de humor neste balanço de vida. E adverte: ao contrário do que a religião e os filmes americanos prometem, a vida é (na melhor das hipóteses) «uma comédia ligeira com um final triste».

Mais do que em qualquer outro dos seus livros, o autor conversa com os leitores, sentados lado a lado numa esplanada, comentando as muitas e variadas expressões da vida. E despede-se deles.

Envolto em grande secretismo até à data de publicação, no octogésimo aniversário de Julian Barnes, Partida é, nas palavras do autor, «a minha partida oficial, a minha última conversa convosco».

CRÍTICAS DE IMPRENSA

«Uma despedida elegante de um escritor cuja obra não será esquecida tão cedo.»
Kirkus Review

«Barnes explora a memória, a identidade e o envelhecimento neste romance elegíaco e espirituoso. E mantém-se em excelente forma.»
Library Journal

«Barnes tem um espírito extremamente vivo e uma voz distinta que dão alegria e vivacidade às meditações mais profundas.»
The New York Review of Books»

Na crítica que Helena Vasconcelos fez para o Público deu-lhe 5 estrelas, adianto que acho uma idiotice colocar estrelas nas críticas aos livros e aos filmes

Partida, o romance em que Julian Barnes nos diz adeus.

Para um livro sobre as indecências da velhice e a aproximação da morte, Partida é, surpreendentemente, muito divertido. Julian Barnes diz ser um alegre pessimista, facto amplamente demonstrado neste sombrio relato das inúmeras “partidas” que a natureza prega, ao mostrar que nenhum de nós tem o poder de controlar as mutações do corpo e da mente na cavalgada a caminho do desaparecimento e do olvido.


Julian Barnes resolveu despedir-se dos seus leitores.

Sim, claro, ficam os livros e após a Partida, todas as partidas são sempre difíceis, mas pela parte que me toca, terei ainda que ler os livros de Barnes que não li, certamente me divertirei e voltarei sempre a O Papagaio de Flaubert.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

CONVERSANDO


O meu pai passou alguma parte da vida a comprar livros de História e Filosofia, para calmamente, quando chegasse o tempo da reforma, os lesse lesse. Não aconteceu. Antes dedicou-se a livros simples em que a Colecção Vampiro são um razoável espaço na Biblioteca da Casa.

Posso dizer que quase aprendi a ler em A Bola, mas não direi que foram os livros da Vampiro que fizeram de mim um leitor, foram outros os livros e neles está Eça de Queiroz.

Borges era um leitor atento de romances policiais, mas eu também nunca fui um borgiano puro.

Por aqui, no Olhar as Capas, trouxe esses livros da Vampiro, exclusiva compra do meu pai, quase todos em 2ª mão.

Ficaram os policiais da Regra do Jogo e da Alibi por apresentar que trarei agora e estes foram compra minha, não por serem de fácil leitura, muitos não o são, mas por terem um excelente tamanho para levar no bolso quando saía de casa e os ler nos transportes a caminho do trabalho.

Reparei agora que não publiquei todas as capas de Rex Stout e o seu Nero Wolf, mais o secretário Archie Goodwin,  Fritz Brenner o cozinheiro, também Theodore Horstman, o fiel jardineiro das suas preciosas orquídeas.

Aos poucos, rectificarei a falha.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

CONVERSANDO


Das citações.

A opinião de Eduardo Prado Coelho:

«Citas muito, dizem. Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro».

Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas – isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.»

Por mim, sempre tive a ideia se há alguém que diz as coisas melhor do que eu digo, não hesito: cito.

São diversos os comentários que leitores fazem às muitas citações que Ana Cristina Leonardo faz nas crónicas que publica no Público.

Na crónica de ontem a autora entendeu que era hora de escrever sobre o assunto.

 Deste modo:

«Como alguns leitores terão provavelmente notado, gosto de citações (também gosto de advérbios de modo, mas isso agora não vem a propósito). As citações têm várias vantagens. Acima de tudo, poupam-nos trabalho. Além de nos pouparem trabalho — benefício de monta para quem considera que o trabalho, além de mal pago, está sobrevalorizado (caso, por exemplo, de Albert Cossery, autor, entre outros, de Mandriões no Vale Fértil — trad. Júlio Henriques, Antígona, 3ª ed., 2022) —, permitem-nos expressar melhor ideias que, sem a elas recorrermos, expressaríamos decerto pior.
Dirão alguns, em tom acusatório, que as citações não passam de uma bengala. Não serei eu a contrariá-los. Faço apenas humildemente notar que, ultrapassada certa idade, de uma maneira ou de outra, metafórica ou literalmente, uma bengala dá sempre bastante jeito. Depois, há a síntese. Uma boa citação permite-nos ir directos ao ponto. Sem palha. Com sorte, com elegância. E a elegância, ao contrário do trabalho, anda bastante subvalorizada. Porque se é verdade que Einstein não chegou à elegantíssima síntese E = mc² flanando apenas, também é verdade que a hipótese (genialmente arrojada: não tenhamos medo das palavras) de o tempo não ser uma medida fixa lhe ocorreu ia ele a passar tranquilamente junto à Torre do Relógio em Berna. Por falar nisso, li algures num livro, já não me lembro qual, que o biólogo e psicólogo Jean Piaget, inspirado pelo físico, chegaria à conclusão de que as diferentes setas do tempo em nada parecem estranhas às crianças: para elas, quanto mais depressa correm, mais devagar o tempo passa. Lembrando Pessoa: “Grande é a poesia, a bondade e as danças.../ Mas o melhor do mundo são crianças”.

Ocasionalmente, flanar e pensar pode ter consequências bizarras: umas vezes cómicas, outras vezes trágicas. Tales de Mileto caiu num buraco, ao que se sabe sem mazelas de maior, enquanto caminhava a observar as estrelas. Já ao filósofo Francis Bacon, terá sido o empirismo a matá-lo. Envolvido em experiências sobre congelação, ao cruzar-se em pleno Inverno com uma galinha, decidiu mandar matá-la e enterrá-la na neve. O destino da ave perdeu-se, mas Francis Bacon acabaria mesmo por morrer de pneumonia.

Chegado aqui, o leitor terá talvez concluído, e legitimamente, que, além de citações e de advérbios de modo, também admiro muitíssimo uma boa história. Só para dar dois exemplos: o chamado Antigo Testamento ou As Mil e Uma Noites são fontes inesgotáveis. E para voltar às citações e à sua defesa, e dado que me referi às escrituras hebraicas: e se afinal o Livro de Eclesiastes estiver certo e não existir mesmo “nada de novo debaixo do sol”, pelo menos para nós que, como Sísifo, empurramos ciclicamente a mesma pedra, revoltados de quando em vez?
Albert Camus, o autor da célebre abertura de O Mito de Sísifo — “Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida merece ser ou não vivida é responder à questão vital da filosofia” (uma daquelas frases que comprovam sobremaneira que “o começo de um livro é precioso”) —, não escolheu o suicídio ante o absurdo. Morreria prematuramente e de maneira absurda num acidente na estrada, durante uma viagem de automóvel em que decidiu participar apenas ao último minuto. Já cá não está para nos ajudar a decidir sobre a revolta, mas quando se tropeça por acaso em Loretta, as decisões mais recentes do Parlamento Europeu (PE), rasurando a palavra “mulher” só parecem comprovar, senão os trabalhos de Sísifo, decerto a longevidade do absurdo.»

A prosa sobre citações já vai longa, mas não resisto a terminar colocando o comentário de uma leitora na edição do Público de ontem:

«Gosto de citações, remetem- nos para obras que podemos desconhecer e aprendemos e, por outro lado, é uma homenagem. Não vejo nisso qualquer problema. É preciso ter lido muito para as tornar oportunas e nisso a Ana é exemplar.»

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

CONVERSANDO

O mundo dos comentários nos jornais é um ambiente nada higiénico, mesmo pantanoso.

Creio que se eles fossem eliminados logo surgiria a gritaria histérica de estarem a coartar a liberdade do leitor.

Onde a democracia?, perguntariam.

Reconheço a utilidade dos comentários, do trocar impressões, ideias, rectificar afirmações expressas nos artigos que se leram.

Mas raramente atingem estas plataformas de bom senso e dá a ideia de que gente boçal, ignorante, ressabiada se junta por ali para a ofensa, a vingança, sei lá mais o quê.

Terá que haver uma certa vigilância, como, eventualmente acontece nas Cartas ao Director.

Algo nada fácil, diga-se.

E então, como fazer?!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

CONVERSANDO

Dizia-se, ontem, por aqui que este nosso mundo não só está mais perigoso, como caminha precipitadamente para o abismo!

Há silêncios que gritam tão alto, mas ninguém os ouve, ninguém os quer ouvir.

Os povos não aprendem com a História.

Poder-se-á dizer que, por exemplo, os venezuelanos já poderiam ter transformado as suas vidas,  o seu futuro, mas nada aconteceu.

Teria que ser os Estados Unidos a intervir na deposição de Maduro como presidente-do-país-que-nunca-foi?

Não, não teria que ser.

Nós portugueses, pela luta férrea de muitos democratas, alguns não viram a cor da liberdade, pela decisão militar e política dos Capitães, levámos quase meio século para derrubar a ditadura de Salazar e Caetano.

Os tais silêncios…

Legenda: imagem de Geogia O’Keeffe.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

CONVERSANDO


Migalhas para um novo ano:

O aroma inconfundível de um bom vinho tinto, o cheiro a leite-creme acabado de queimar, o cheiro a café.

1.

«Tentei ligar um percurso através dos salpicos ténues na neve, mas continuavam a surgir dispersos e quando abri  os olhos já estavam totalmente dissipados. Tateei à procura do comando da televisão e liguei-a, tendo o cuidado de evitar os balanços relativos ao ano anterior ou as perspectivas para o Ano Novo. A surdina aconchegante de uma maratona de episódiso da série Lei e Ordem era exactamente o que eu precisava. O detetive Lennie Brisoe tinha obviamente recomeçado a beber e fitava o fundo de um copo de uísque de terceira categoria. Levantei-me, deitei um pouco de mescal num pequeno copo de água e sentei-me à beira da cama a bebê-lo ao mesmo tempo que ele, observando num silêncio entorpecido mais uma repetição de outra repetição. Faço um brinde ao Ano Novo, mas é um brinde a coisa nenhuma.

Imaginei o meu casaco preto a vir bater-me no ombro.

- Desculpa, velho amigo – disse eu -, mas andei mesmo à tua procura, sabes’

Chamei mas não ouvi resposta; cumprimentos de onda desnivelados diminuíram qualquer esperança de averiguar o seu paradeiro. É assim que acontece com o chamamento e a capacidade de ouvir. Abraão ouviu o chamamento de Deus. Jane Eyre ouviu os gritos suplicantes de Mr. Rochester. Mas eu estava surda em relação ao meu casaco.»

Patti Smith em M Train.

2.

Primeiros anos da década de 60.

 Os tempos não eram fáceis.

No jantar do Dia de Natal e do Dia de Ano Novo, comia-se perú assado no forno.

Uns dias antes do Natal, ia com o meu pai ao Lavradio buscar dois perús, que tinham vindo do Alentejo, criados a bolota e tudo o que há (ou havia) nos montados alentejanos.

 Na Estação Sul e Sueste apanhávamos o barco para o Barreiro, ainda a vapor.

 Depois a camioneta do José Cândido Belo para o Lavradio, onde vivia um tio que trabalhava na CUF.

 Mais de meio-dia de viagens, acreditem.

 Os perús vinham, vivos, em dois cestos de verga.

 O do Natal era logo embebedado com bagaço, depois temperado pela minha avó materna.

 O do Ano Novo ficava dentro do tanque de lavar a roupa, ia comendo uma mistura de pedacinhos de couve e milho, e a aguardar a bebedeira antes de entrar no forno.

Éramos tantos à mesa, tanta gente morta, agora...

3.

Carruagem do Metropolitano entre a Alameda e as Olaias, uma moça, em conversa ao telemóvel – bem alto para toda a carruagem ouvir:

- O que te digo é que este ano foi péssimo, mas o próximo vai ser muito pior!...

- ?

- É como te digo…

- ?...

- Janto e enfio-me na cama, não quero saber de mais nada…

4.

Este ano, vindas não sei de onde, as cerejas estavam a 18 euros o quilo.

De uma tisana de Ana Hatherly:

«Quando eu era criança do que eu mais gostava era de cerejas».

5.

Vergílio Ferreira, no findar de 1978:

«Estava eu a querer saber o que vou fazer este ano. Não sei.»

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

CONVERSANDO


Teve dezenas de gatos, um de cada vez, sabe o espaço que ocupam.

Cresceu rodeado por gatos, apanhava-os na rua e levava-os para casa, mas, hoje, questiona-se sobre ter gatos em casa: pela higiene, pelos cheiros, pelas alergias que provocam. A irmã tem três gatos, que se passeiam por cima das mesas, por cima das tartes de limão. Quando olhou a cena, as tartes de limão da irmã deixaram de o entusiasmar.

Uma querida amiga que vive no Porto, dorme com os gatos, passeia a sua solidão pelos corredores da casa. Quando lhe telefona, diz que os filhos continuam longe, os gatos não compensam essa falta, mas ajudam-na a calar a dor até não sentir nada.

Aprende-se com os gatos o sabor da solidão?

Não o saberá.

Lembra-se de um livro de Adrien Goetz:

«Ela apelava à atenção, ao silêncio, à minúcia, à preguiça, ao escrúpulo, devolvia-me a vontade de agradar, e de dar vida às coisas, só para mim, neste atelier que me servia de abrigo. Tratava-me por tu. Quando lhe dizia: "E, quando voltar para França, como conseguirei viver sem poder acariciar assim a tua nuca", ela respondia-me maliciosamente: "Podes comprar um gato".»


Legenda: fotografia de Luís Eme

domingo, 14 de dezembro de 2025

CONVERSANDO

A memória dele não vai tão longe, coisas da idade presente, e não consegue lembrar se leu, os se copiou este textinho de Marguerite Duras de alguma lado, também sem se lembrar de onde:

«Um dia Marguerite Duras disse que tinha conhecido uma criança que perguntava à mãe o que era o calor. E a mãe respondeu: “É quando a gente estende a mão e se queima.” E a criança voltou a perguntar: “E o que é o calor quando não há ninguém?” Duras acrescentava que os seus livros eram escritos do mesmo modo: “E o que é o amor quando não há ninguém?”»

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

CONVERSANDO


 O botas-de-santa-comba impingiu-nos o fado, o futebol, Fátima.

Pensar por cabeça própria era considerado crime e sujeito a rigoroso controlo policial.

Se percorrermos os livros de leitura daquele tempo, verificamos que os que andaram na escola foram formatados para o patriotismo bacoco, para o culto da ordem, para a ideia que um Deus que nos livrava de todos os males, bastava apenas prestar-lhe  culto e acreditar.

A recente conquista dum campeonato de futebol por miúdos de 19 anos, permitiu que o presidente dessa coisa sinistra que dá pelo nome de FIFA, tivesse mostrado o seu espanto de como um país tão pequenino, consegue ter  tantos jogadores de alto gabarito.

Alguém terá que dizer ao senhor, que também temos escritores, arquitectos, músicos, cineastas, artistas de teatro, pintores, escultores, cientistas de primeira água, só que não lhe digamos tanto como ao futebol, pior ainda: não lhe ligamos nenhuma.

Portugal trata mal os seus artistas.

Somos um país distraído com o superficial e não damos importância ao essencial. da vida.

O principal problema dos portugueses é a falta de cultura.

País ainda repleto de analfabetos e analfabetos que até sabem ler e contar e medram, qual formiga branca, temos 3 jornais diários desportivos,  canais de televisão que  todos os dias a todas horas, têm programas desportivos com horas e horas de duração, para tratarem das mesmas banalidades, um golo mal anulado, um penalty que não foi marcado ou mal marcado. Um desses canais existe, Now de seu nome, com 3 horas de duração e que passados minutos os comentadores saltam para outro canal dos mesmos empresários-capitalistas para debitarem a mesma coisa, o tal golo anulado, o penalty que não foi marcado, que foi mal marcado.

Dedicassem as mesmas horas a um livro, a um filme, a uma exposição, e outro galo cantaria.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

CONVERSANDO

E prontos…

Como escrevi por aqui, lá comprei o Tomo III da Conta-Corrente do Vergílio Ferreira que inclui os diários de 1982 a 1992, que estavam em falta na Biblioteca da Casa.

E vim a arrastar as 1089 páginas do livro, e na viagem de metro, de regresso a casa, fui folheando aqui e ali, finalmente a Conta-Corrente tem um índice onomástico.

No que, em diagonal, fui lendo, deu para confirmar, que tinha razões suficientes, para não ter comprado os volumes publicados na década de 90.

E lá voaram vinte e sete euros mais setenta cêntimos!...

Claro que terá de existir uma leitura mais serena e cuidada, mas como o livro pelo seu peso, não o poderei colocar debaixo do braço quando saio de casa, está ali na mesa do cantinho à espera…

Razão tinha Seve, o viajante deste Cais, quando escreveu um postal ao editor Francisco José Viegas responsável na Quetzal pela publicação da obra de Vergílio Ferreira:

 

«Caro Francisco José Viegas

Nunca saio de casa sem levar comigo um livro. Mas hoje, com grande desilusão minha, verifiquei que um dos grandes "escritos" da língua portuguesa foi editado como se fosse ser vendido para a construção civil (tijolo) em vez de o ser para quem realmente o queira ler.
Perdoe-me meu caro mas ouso perguntar: dá algum jeito levar comigo para a praia, para os transportes públicos, para ler nos momentos livres, aquele tijolo que deve pesar, sem exagero, uns 2/3 kilos.
É um "assassinato" a publicação desta pérola da literatura portuguesa num calhamaço destes, sem ponta por onde se lhe pegar, absolutamente editado para quem não gosta de ler, intransportável para quem gosta de ler.
Perdoe-me o atrevimento desta minha opinião mas não podia deixar passar em branco esta grande "asneira" editorial, porque realmente queria possuir estes diários do grande Vergílio Ferreira, apesar de já os ter lido todos (8), pela Biblioteca Municipal.»

sábado, 29 de novembro de 2025

CONVERSANDO

Uma velha história: há livros maus de que gosto, há livros bons de que não gosto. Os exemplos são muitos.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

CONVERSANDO


Há dias falei do sabonete Feno de Portugal, o sabonete da minha infância, mas o sabonete Lux será uma das maiores marcas do mundo, com existência a partir de 1924, e, talvez, em mais de 100 países existirão sabonetes Lux.

Muito terá contribuído uma campanha publicitária lançada em todo o mundo em que se podia ler que «9 em cada 10 estrelas de cinema usam Lux».

Dessas estrelas recordo-me de Sophia Loren, Marilyn Monroe, Raquel Walsh, Marlene Dietrich, Audrey Hepburn.                                                 

Amália Rodrigues também disse que usava Lux mas, suponho, que o anúncio se ficou entre as nossas fronteiras.

domingo, 23 de novembro de 2025

CONVERSANDO


 Os velhos anúncios a dizerem-nos que nove de cada dez estrelas usam LUX.

Por lá andaram Marlene Dietrich, Sophia Loren, Elizabeth Taylor, Audrey Hepburn, até a nossa Amália Rodrigues.

Mas venho por outro sabonete: O Feno de Portugal.

Nasci em 1945, o sabonete em 1930, e foi o meu sabonete nos primeiros dias de por aqui andar.

Ainda hoje ando com ele.


É daqueles produtos que não se esquecem. 

Neste caso pela particularidade do nome, é certo, mas também pelo bucolismo que foi transmitido nos anos 80 pelo anúncio televisivo onde uma jovem loura esvoaçava graciosamente no meio de feno, flores pelo, cores e aromas.

O slogan era: Feno de Portugal, o encanto da natureza.

 O grafismo da embalagem tem mudado, o aroma do sabonete do meu tempo de nascer, também.

Um aroma pode ficar na memória?

As mãos de minha mãe percorrendo o meu corpo?

O fim da vida que se vai aproximando, não lembrar o que almocei, mas sentir o cheiro do meu primeiro sabonete.

Gestos de puxa e empurra, memórias...