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sexta-feira, 10 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


De uma palavra sei que tem sentido: é desespero: não importa a causa.

Jorge de Sena

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO

La Condition Humaine, de André Malraux, é sem dúvida um dos grandes livros do nosso tempo, e ouso dizer que uma duradoura obra-prima da literatura universal.

Jorge de Sena

Legenda: André Malraux

OLHAR AS CAPAS


A Condição Humana

André Malraux

Tradução e prefácio: Jorge de Sena

Capa: Bernardo Marques

Colecção Dois Mundos nº 40

Livros do Brasil, Lisboa s/d

- A única coisa que eu amava foi-me tirada, não é verdade, e quer que eu permaneça o mesmo. Julga que o meu amor não valeu o que vale o seu para si, cuja vida nem sequer mudou?

- Como não muda o corpo de um vivo que se torna um morto…

Ele pegou-lhe na mão:

- Conhece a frase: «São precisos nove meses para fazer um homem, e um só dia para o matar». Nós soubemo-lo tanto quanto se pode saber, um e outro… May, ouça; não são precisos nove meses, são precisos cinquenta anos para fazer um homem, cinquenta anos de sacrifícios, de vontade, de… tantas coisas! E quando esse homem está feito, quando nada mais há nele da infância, nem da adolescência, quando, verdadeiramente, ele é um homem, nada mais resta senão morrer.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

NESTE DIA


O ano é o de 1968, estamos a 22 de Dezembro, um domingo.

Jorge de Sena faz o sumário das longas viagens que de 11 de Setembro a 22 de Dezembro fez: 70 cidades, 12 países em 4 meses.

Está em Madrid e ainda pensa ir a Santiago, Burgos, Léon, Valladolid; e é claro, 

Évora, Coimbra, Porto (e rever a Batalha e Alcobaça).

É aqui que queremos registar as agruras por que Jorge de Sena passa antes de entrar em Portugal, país que tanto ama e tantas tristezas lhe tem reservado e que o obrigou a exilar-se  primeiro no Brasil, depois na América:


«Parti às 10,45, perpassam os campos de Castela.

Viagem boa até Marvão – Beirã, por uma paisagem muito semelhante à do Alto Alentejo. Em Marvão, a polícia portuguesa  fez-me sair do comboio, pois eu figurava incrivelmente na lista das pessoas sem direito de entrada. E o chefe trouxe-me de automóvel a Valência de Alcântara, não me sendo possível nada telefonicamente de lá. Foi muito amável. Na estação de Valência, onde fiquei, foram gentis comigo, e consegui lugar para dormir na fonda da Estação. E à conta do cônsul de Portugal, Dom Ramon, telefonei para casa do Presidente Marcelo Caetano. Não estava, mas disseram-me que perto das 8 estaria. Telefonei para o Zé que saíra a esperar-me, e falei com o filho. À 8 voltei a ligar para casa do Presidente do Conselho, que pessoalmente falou comigo, dizendo que o Zé o inteirara da situação e que ia dar ordem à polícia para deixar-me entrar. E terminou dizendo: - Seja bem-vindo – Telefonei então para Marvão, a comunicar ao chefe da polícia a conversação. Irei no comboio das 5 da manhã. Mas ele recomendou-me que falasse primeiro com o chefe da C.P. aqui, a quem telefonariam a recomendação. Escrevia eu isto, telefonou ele, a dizer que estava tudo em ordem, e não havia problema nenhum. E mesmo me lembrou que eu poderia tomar um carro aqui, e ir dormir a Marvão. Mas não há necessidade desta despesa, para tomar meia hora mais tarde o mesmo Lusitânia que tomarei aqui. De resto, ao chegar à fronteira, a alfândega estaria fechada e seria impossível passar. Claro que, com a preocupação de que não me acordem, não vou dormir nada – telefonaram-me duas vezes de Lisboa, entretanto o Notícias e o Século, que, com a Sophia e o Tareco parece insistem em vir buscar-me a Marvão, às 5,50 da manhã. Insisti que não era necessário, mas ficou assim combinado.»

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

SOLTAS


Ovelho recorte que há dias publicámos sobre o encerramento da Editora/Livraria Cotovia, revelava que o seu proprietário apenas publicava os livros de que gostava. O dinheiro era dele, a editora era dele, a escolha era dele e não estava para cedências, fossem elas quais fossem.

Nunca encontrei o livro, especificamente não sabia da sua existência, mas fiquei a saber que João André editou um livro sobre os começos dos poemas de Jorge de Sena e isso é tão importante quando se sabe que muitos poemas não têm título e apenas funciona o começo de cada poema.

Apesar de saber que os livros de Poesia do Jorge de Sena têm um Índice dos Primeiros Versos, achei a edição do João André uma coisa maravilhosa.

1.

Portugal foi em 2025 o quinto país do mundo que mais milionários recebeu, ao mesmo tempo que se vai sabendo que o risco de pobreza ou exclusão social  ameaça 2,1 milhões de pessoas.

2.

Por vezes vem-me à memória os tempos do confinamento provocado  do Covid desce até nós.

As horas em que não sabíamos nada uns dos outros.

Há um Diário por aqui.

«Sexta-feira 13.

Dia de azar.

Feitiços. Bruxas. Gatos pretos. Não passes por debaixo de escadas. Não abras o chapéu-de-chuva dentro de casa. Não tenhas relógios parados dentro de casa.

Em tempo de pandemia valerá a pena falar de sextas-feiras 13?

Bluff absolutamente inútil?

O papel todo branco à espera, ninguém sabe bem de quê!...»

3.

Dom Quixote de Miguel Cervantes.

Está lá tudo.

Um livro impar que não é tão lido como se apregoa por aí.

Mas muito poucos, mesmo muito poucos admitem que não o leram.

5. Não se pode ser português e assim suave, sem se sentir, primeiro, alguma raiva e, depois, uma melancolia incurável. Disso se morre por vezes. Disso terá morrido o pintor Bernardo Marques, compadre o poeta José Gomes Ferreira

4.

Como dizia a mulher do tipo que se atirou do Viaduto Duarte Pacheco: a vida tem as suas compensações.

 5.

Existem 4800 médicos estrangeiros inscritos na Ordem dos Médicos mas apenas 976 têm contrato com o SNS. em 2025 as duas maternidades onde se realizaram mais partos são de hospitais particulares; seis em cada dez partos em hospitais privados são feitos com recurso a cesarianas, o dobro do que se verifica no sector público.

6.

«Sá de Miranda já falava do desconcerto do mundo, Camões aprofundou o desconcerto do mundo, Vieira sentiu na pele o desconcerto do mundo, Nicolau Tolentino denunciou em versos autocomplacentes o desconcerto do mundo, o desconcerto do mundo persegue-nos. Do renascimento ao barroco, da arcádia lusitana ao romantismo, do modernismo ao surrealismo, passando pelo neo-realismo e demais ismos, sempre o desconcerto do mundo, sempre esta sensação de injustiça, de premiação do mal e desprezo do bem. Ainda hoje, o desconcerto do mundo. Uma guilhotina suspensa por fios débeis sobre as nossas consciências.»

Hmbf  em Antologia do Esquecimento 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

SOLTAS


 Jorge de Sena.

Um dos mais extraordinários intelectuais portugueses.

Teve que se exilar, onde passou uma autêntica vida de cão.

A leitura de alguns diários de escritores seus contemporâneos, os seus próprios diários, a correspondência com José Augusto França e Sophia, mostram um Jorge de Sena de uma verticalidade e honestidade intelectual tão pouco existente entre os seus pares. 

Também um homem amargo.
Numa carta a José Augusto França: "eu sempre detestei o convívio de chacha to relax from work. O meu trabalho não é trabalho, é vida - não preciso to relax dele, a não ser falando das tantas coisas que me interessam."
José Gomes Ferreira, num dos seus "Dias Comuns" refere a indignação de Sena com um crítico, manda-lhe o recorte, que fora injusto para com Irene Lisboa. E comenta: "Só me espanta o seguinte: como é que o Jorge de Sena, no meio dos seus versos, das suas lições, dos seus estudos literários, dos seus contos, dos seus romances, das suas leituras, da sua correspondêcia, etc.,etc.,etc., - ainda arranja tempo para esta vigilância infatigável das pequeninas injustiças? (As injustiças, para as sentirmos nos outros, temos de senti-las primeiro em nós, no sangue do nosso espirito insultado!) Sim. Admiro sinceramente Jorge de Sena - até porque impõe como virtudes o que nos outros soaria a defeitos. E de súbito compreendo o motivo dessa autoridade. E de súbito compreendo o motivo dessa autoridadea: o afinco ao trabalho. Jorge de Sena precisa desse trabalho constante como eu preciso de preguiça. (Preguiça para coisa nenhuma)."

É uma pena que este "país de sacanas" teime em não conhecer a sua obra e o seu exemplo. 

1.

«Neste abençoado país, todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado, a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos talentos! De resto, todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta, portanto, este facto supracómico: um país governado com imenso talento que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!»
Eça de Queirós  em Os Maias.

2.

A lista de 37 detidos pela Polícia Judiciária no âmbito da operação que desmantelou as chefias do Grupo 1143 tem, pelo menos, três nomes de militantes do Chega que já foram candidatos pelo partido de André Ventura em eleições. Também um sargento da força aérea, um polícia do comando de Setúbal ,um profissional de saúde, três militantes ou ex-militantes e candidatos do Chega, dois candidatos pelo partido de extrema-direita Ergue-te e PNR, Participantes em mesas de voto em diversas eleições. Um condenado por furto, um jogador de rugby com processos disciplinares por agressões, um membro dos Super Dragões condenado num processo por causa de um plano de intimidação que culminou em agressões  e estão indiciados por crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência.

3.

No fim de 2025 mais de 1,5 milhões de pessoas não tinham médico de família.

4.

«No autocarro, uma mulher conta a outra que perdeu o marido há pouco tempo. Silêncio. A segunda, para a encorajar, diz: «Mas a vida continua.» A primeira comenta: «A vida continua, mas continua muito mal.»

Rui Manuel Amaral em Bicho Ruim

5.

«Não há destinos adivinhados para as personagens que vivem em solidão. O seu futuro é incerto e a tragédia está sempre à espreita.»

6.

«…é a velha história, demora-se muito tempo a ver bem um filme.»

7.

Disse Ruy Belo: uma casa é a coisa mais séria da vida, e João Miguel Fernandes Jorge: a casa é onde temos o coração, ou como refere Emily Dickinson, a poesia é possibilidade, “uma casa mais justa que a prosa”.

8.

Um mundo sem música, sem livros e sem memória.

Seria o maior pesadelo que me poderia acontecer.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

JORGE DE SENA: O MAIOR POETA POORTUGUÊS


1. Conheci Jorge de Sena em 1958 quando o jornal Encontro publicou aquele Soneto que começa: “Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo/ mesmo no mal que consentis que eu faça”. Pio XII, Papa, tinha morrido e o soneto era dedicado à memória dele “que quis ouvir, moribundo, o ‘Allegretto’ da Sétima Sinfonia de Beethoven”. Era o primeiro Papa que morria na minha vida consciente e nessa altura — não sabendo o que soube depois — era mesmo o Pastor Angelicus. Comoveu-me que Jorge de Sena, não-católico — ou melhor, como um dia escreveu, um católico que não era nem podia ser católico, apostólico, romano, mas sim e apenas católico porque não era convictamente cristão — juntasse as lagunas dele às nossas e as juntasse nesses versos sublimes.

Essa razão obscura e a clara e luminosa beleza do soneto levaram-me a ler a obra poética anterior de Sena: “Perseguição”, “Coroa da Terra”, “Pedra Filosofal”, “As Evidências”. Li também “Fidelidade” que a Morais publicou em 1958 e que acaba com o “Como de Vós”. Entre 1958 e 1959, descobri o maior poeta português depois de Pessoa. Mais de trinta anos passados, continuo o pensar o mesmo. Embora saiba que esta afirmação continua a ser evidente e não era aceite por Sena que considerava Pessoa e Sá-Carneiro como o seu Sá de Miranda e o seu Bernardim.

“As Evidências” é o livro maior que se publicou em língua portuguesa neste segunda metade do século. Com a eventual excepção de “Metamorfoses”. E o mais belo soneto da nossa história é o soneto XXI de “As Evidências”, escrito a 16 de Abril de 1954. “Perdem-se as letras. Noite, meu amor,/ ó minha vida, eu nunca disse nada./ Por nós, por ti, por mim, falou a dor./ E a dor é evidente — libertada”.

2. Conheci Jorge de Sena em 1959, em casa do António Alçada, numa dessas reuniões clandestinas em que sonhámos fazer a Revolução de 11 de Março. Discutia-se acaloradamente se o primeiro “decreto” a sair era o que acabava com a Pide ou o que acabava com a Censura Jorge de Sena interrompeu com outra prioridade. O primeiro decreto devia era acabar com a Universidade de Coimbra Todos nos rimos muito, mas ele não estava a brincar. Por mim, demorei muitos anos até o perceber.

Também não estava a brincar quando, numa brincadeira de lugares futuros, pediu o de Embaixador em Londres. Para não ter que ficar cá. Muito mais tarde, disse: “Porque o problema não é salvar Portugal, mas salvar-mo-nos de Portugal”. Ele não se salvou.

3. Em Agosto de 1959, aos 39 anos, Jorge de Sena saiu de Portugal e foi viver para o Brasil. Em 1963, escrevi-lhe a convidá-lo a colaborar em “O Tempo e o Modo”.

Foi o começo de uma correspondência regularmente mantida ao longo de sete anos. Para além da espantosa colaboração de Jorge de Sena n'”O Tempo e o Modo”, devo-lhe várias dezenas de cartas (páginas enormes, 40 linhas, escritas a máquina) em que por tudo se interessava, por tudo perguntava. “É que nunca ninguém que me respeite apelou para mim em vão. Às vezes, nem os que não me respeitam”.

4. Em Outubro de 1965, aos 45 anos, Jorge de Sena deixou o Brasil e fixou-se em Madison, Wisconsin, USA.

Em 1968, voltou a Portugal, após uma ausência de cerca de nove anos. Quando ele chegou, estava eu na América e tinha incluído Wisconsin no meu itinerário, de propósito para o visitar.

Foi em Dezembro de 1968, havia neve e um frio bom. Jorge de Sena não estava mas estavam Mécia de Sena e os nove filhos que tinham tido. Pessoalmente, não conhecia ninguém, mas fui recebido como se se tratasse de alguém da família. Naquela casa cabia muita gente e jantares de 10 e 15 pessoas pareciam fazer parte do quotidiano. Foi lá que conheci Adolfo Casais Monteiro. Salvo erro, foi ele quem levou um dia, como presente, o “Dido e Eneias” de Purcell, na gravação EMI dos Mermaid de Geraint Jones, com a Flagstad e a Schwarzkopf. Desde essa noite, o “Remember” é, para mim, um sinal de união indissolúvel com eles. Revivi isso tudo há poucos anos — já depois da morte de Jorge de Sena — quando, pela primeira vez, vi a ópera, em Paris, com Jessye Norman no papel de Dido.

“Diz-me assim devagar coisa nenhuma/ o que à morte se diria, se ela ouvisse,/ ou se diria aos mortos se voltassem.”

5. Voltei no Natal de 68, ainda Jorge de Sena estava em Lisboa. Lembro-me de um almoço na Gôndola com o Vasco Pulido Valente. E lembro-me da sala cheia da Sociedade Nacional de Belas Artes para uma conferência que ele lá foi fazer. Já tinha saído o número especial de “O Tempo e o Modo” (Abril de 68) em que se dizia na cinta que seria disputado no futuro a peso de ouro. Foi durante a conferência que reparei que Jorge de Sena não se sentia à vontade, com aquela reviravolta de imagem face àquele ambiente delirantemente consagratório que eu concelebrara. Essa conferência, sobre Portugal na América ou Portugal no mundo, já não me lembro bem, parecia ser feita de propósito para contrariar os meus “clichés”.
Grande parte dos ouvintes eram jovens e —1968—contestatários. No final, reagiram com apupos e provocações ao jeito do tempo. A festa pareceu-me estragada e saí dali com uma enorme incomodidade. Jorge de Sena, não. Olhou-me a rir, nada zangado e perguntou-me se eu continuava a achar que as coisas tinham mudado. “Daqui a vinte anos” — disse-me ele — “vão ser iguais aos outros ou piores”. Era tão estúpido que não o tomei muito à letra. Não foi preciso esperar tanto tempo.

6. De longe em longe, voltei a vê-lo nos anos 70, quando cá vinha, antes e depois do 25 de Abril. Depois, a notícia da doença. Depois, mais nada.

Lembro-me de ter ouvido alguém contar que pouco antes de morrer perguntou à Mulher: “Ainda falta muito?”. Treze anos antes, em 1965, escreveu-me no dia da morte de Eliot. E dizia: “Você, que é jovem, não sabe ainda o que isto é de ter-se mais de quarenta anos e começar a ver sumirem-se aqueles que foram as luzes vivas da nossa juventude”. Quando Jorge de Sena morreu, eu tinha mais de quarenta anos. Tinha quase a idade que Jorge Sena tinha quando Eliot morreu. (E Deus) “Não nos aguarda — a mim, a ti, a quem amaste/ não nos aguarda, não. Por cada morte/ a que nos entregamos el’ se vê roubado,/ roído pelos ratos do demónio/ o homem natural que aceita a morte/ a natureza que de morte é feita”.

Para trás, ficaram seis instantâneos em forma de retrato. Mas como fazer de outra maneira? Quando preparei o tal número especial de 1968, pedi um retrato a Jorge de Sena. E ele respondeu-me (da América): “Fui tirá-lo de propósito, porque já estou farto dos velhos retratos de sempre. O pior é que, nesta América, ou se vai a um fotógrafo de arte, que custa uma fortuna, ou a gente fica com cara de director de banco”.

Não sendo fotógrafo de arte (nem por uma fortuna) estes instantâneos foram a forma que encontrei de não ficarmos — nem ele nem eu — com cara de director de banco.

João Bénard da Costa

Lido em Poemas para Jorge de Sena

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Poderiam os livros, um dia, terem bola vermelha como alguns filmes que passam na televisão?

Claro que não!

Mas, se assim fosse, é o que aconteceria a este livro de Jorge de Sena.

É um livro extraordinário, como extraordinária é toda a obra de Jorge de Sena.

Tal como avisa Mécia de Sena na Nota Prévia sobre o livro:

«Decidi que não desvendaria o nome das pessoas que os poemas não mencionam. Aqueles que viveram esses tempos sabem muito bem quem o maltratou e como e onde; os outros que busquem nos jornais, nas revistas, nas cartas, nas publicações que organizou, está lá tudo e fácil de deduzir.»

A justiça de se dizer que Mécia de Sena, durante toda a sua vida, exerceu um trabalho extraordinário para que a obra de Jorge de Sena fosse conhecida em todo o seu esplendor.

Para além das Dedicácias, este livro inclui o Discurso que Sena escreveu para as comemorações, em 1975, do Dia de Camões, o mais notável discurso de todos os que, até agora, foram feitos para assinalar a data.

Copio da badana do livro:

«Portugal não soube conceder-lhe em vida a consagração que a sua obra merecia.»

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


 Encostei-me à janela, olhando a noite. Quanto mais a vida parece nossa, e é mesmo a nossa, mais pessoas se misturam nela. E, quanto mais pessoas se misturam nela, mais temos que dizer sem ter a quem. Porque é impossível falar dela aos outros, sem mostrar a que ponto há ainda outros que estão envolvidos, às vezes sem sequer saberem que o estão.

Jorge de Sena em Sinais de Fogo.

domingo, 7 de dezembro de 2025

NESTE DIA


 Várias foram as tentativas que Jorge de Sena projectou para fazer Diários.

Mécia já nos avisara dessas dificuldades.

Estamos com o Diário de Jorge de Sena que abrange os anos de 1953/54.

A maior parte dos dias são ocupados com visitas aos seus pares, amigos, as leituras que vai fazendo, a música que vai ouvindo, os trabalhos e as traduções que tem entre mãos.

Iremos voltando  às páginas dos seus Diários.

Diz Sena:

«Quem me manda a mim sonharmcom Índias, mísero e poeta, num país de loucos?»

Estamos no ano de 1953, no mês de Dezembro e copio estes dias:

10.

Tradução

11.

Tradução

20.

Com um intervalo no café – a conversa incidiu sobre o Bispo de Beja e a sua pastoral probida – dia de tradução.

Ouço o muito belo para mim novo 5º concerto para piamo do Prokofieff.

25.

Telefonou o (António José) Saraiva a contar que esteve preso desde domingo até ontem. Fora com mais 50 pessoas ao aeroporto fazer recepção à Maria Lamas. Foi tudo engavrtado em Caxias, de onde ele saiu, mas onde ainda muitos ficaram. Claro que o nosso Silas lá está. E também o Keil, a Maria Keil e O’Neill, o Cortesão Casimiro, etc.. etc. Em todo o caso, creio que, se não os tivessem prendido – o que é uma coisa ridícula – teriam ficado desconsoladíssimos, pelo menos alguns como o Silas.

Dia inteiro de tradução.

28.

Num estado de cansaço insuportável (tanto trabalho, tanta arrelia), parei de traduzir para ouvir o concerto de violino em si maior, de Mozart-Casadeus e o 6º quarteto de Bela Bartok.

Legenda: imagem do Jornal da Voz do Operário

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

POSTAIS SEM SELO

Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna alguma, ser poeta neste tempo de filhos só da puta ou de putas sem filhos?...

Jorge de Sena 

domingo, 31 de agosto de 2025

NESTE DIA


A ideia era interessante para a rubrica NESTE DIA, mas não estava a funcionar muito bem por, na escolha do dia e do ano, existirem limitações.

A partir de amanhã, manteremos o título, mas a escolha recairá, não no dia, nem no ano, mas em temas, personalidades, em que os autores dos Diários, existentes na  Biblioteca da Casa, se envolveram e nos deixaram para que os conhecêssemos.

Por hoje, trazemos a introdução que Mécia de Sena fez para os Diários de Jorge de Sena, publicados em 2004 pelas Edições Caixotim.




sábado, 9 de agosto de 2025

POSTAIS SEM SELO


O intelectual é quem em nome da inteligência e da cultura resiste. Mas não esqueçamos que muitos outros resistem sem serem intelectuais.

Jorge de Sena.

Legenda: Salvador Allende

terça-feira, 6 de maio de 2025

CONVERSANDO


Nasci em 1945  e sou ateu.

A minha memória de papas estende-se desde Pio XII (1939-1958), prolonga-se com João XXIII (1958-1963), Paulo VI (1963-1978), João Paulo II (1978-2005), Bento XVI (2005-2013), Francisco (2013-2025).

De Pio XII apenas tenho memória de ouvir o meu avô referir as suas simpatias nazis. Ao longo dos tempos tenho ouvido falar que os arquivos do seu papado hão-de ser publicamente revelados.

Por prazeres secretos, nunca revelados, o meu pai gostava da 7ª Sinfonia de Beethoven. Algumas vezes conversámos sobre o desejo de Pio XII, na hora da sua morte, querer ouvir o «alegreto» da 7ª Sinfonia e do poema que Jorge de Sena escreveu, por causa deste desejo de Pio XII.

O poema chama-se Como de Vós e é o último poema do seu Livro Fidelidade, publicado em 1955.

Como de Vós

                À memória do papa Pio XII que quis, ouvir, moribundo, o «Alegreto»

                 da Sétima Sinfonia de Beethoven


Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo,
mesmo no mal que consentis que eu faça,
por ser-Vos indiferente, ou não ser mal,
ou ser convosco um bem que eu não conheço,

importa pouco ou nada que em Vós creia,
que Vos invente ou não a fé que eu tenha,
que a própria fé não prove que existis,
ou que existir não seja a Vossa essência.

Não de existir sois feito, e também não
de ser pensado por quem só confia
em quem lhe fale, em quem o escute ou veja.

Humildemente sei que em Vós confio,
e mesmo isto o sei pouco ou quase esqueço,
pois que de Vós, meu Deus, me fio em tudo

 

                                                                             (23 de Dezembro de 2001)

Em relação a outros papas , admirei imenso João XXIII, João Paulo VI, apesar das promessas, não terá conseguido continuar o trabalho do seu antecessor. João Paulo I foi o que (não) se sabe, um chá pôs fim ao reinado. Nunca tive a mais leve simpatia por João Paulo II, e, para além de outras situações, não será para esquecer o seu imenso desprezo pelo povo de Timor-Leste. Com Bento XVI pouco ou nenhum tempo me demorei e passou-me completamente ao lado.

Até que, no cair de tarde de Março de 2013,  o papa recentemente nomeado, chega à janela  e sorridente diz: «Buona Sera!»

E acrescentou:

«Vós sabeis que o dever do Conclave era dar um Bispo a Roma. Parece que os meus irmãos Cardeais o foram buscar quase ao fim do mundo. Eis-me aqui!”

Sabe-se do seu amor pelos fracos e os mais pobres, aliado a um soberano desprezo pelos mais ricos.

Nunca as janelas do Vaticano terão sido tão escancaradas e nenhuma destas janelas, que Francisco abriu, poderão voltar a ser fechadas.

Muita coisa Francisco não conseguiu fazer, não por vontade sua, mas porque o movimento das sacristias, por vezes, ergue-se soberanamente entre as sombras.

Uma cultura nova passeou pelos corredores do Vaticano. Só alguém com cultura, com sensibilidade, leva para o seu lado, para com ele trabalhar, um cardeal português, que é um poeta: José Tolentino de Mendonça, demasiado novo para que, por agora, possa chegar a Papa, e a que falta aquela vertente popular que distinguiu Francisco.

Amanhã os cardeais reunir-se-ão, em Conclave.

Não serão fáceis as conclusões a que terão de chegar. A Igreja atravessa gravíssimos problemas e, em Conclave ficarão, até ao momento em que fumo branco sai da chaminé no telhado da Capela Sistina e a Igreja volte a ter o seu chefe.

Notícias lidas, aqui e ali, apontam para que a Igreja não vai voltar atrás.

Não tenho tanta certeza.

Velha raposa, a Igreja não comete o mesmo erro, porque existe muito daquela gente que entende que um Francisco, tão cedo, não querem voltar a ver sentado no trono de Pedro.

 A igreja foge das novas culturas, dos novos difíceis tempos que vivemos, como o diabo da cruz.

terça-feira, 22 de abril de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Deve-se a Manuel Freire, em tempos de ditadura, com um poema, uma canção, popularizar um grande poeta português: António Gedeão, o poema é a Pedra Filosofal.

O mesmo Manuel Freire, nos mesmos tempos de ditadura, transformou poemas de poetas portugueses, em gritos claros de luta e de esperança.

Num país cinzento, debaixo de uma ditadura que tudo fez para que a esperança do povo não pudesse soltar amarras, cerceando a vontade de quem se sentiu escravo e pela libertação fez luta diária, houve quem não respeitasse mistérios nem segredos.

Muitos, durante essa luta, acabaram por morrer, não souberam da cor da liberdade, mas uma outra canção lembra: até mortos vão a nosso lado.

Lidos em 1966, a esmagadora maioria dos Poemas Possíveis estão assinalados a lápis.

Naturalmente, um desses poemas é Ouvindo Beethoven.

Uma boa dezena de anos antes de Abril, Saramago, esperançadamente, sabe que, como disse Jorge de Sena, não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade.

Ouvindo Beethoven, José Saramago sabia que, num, num qualquer mês, de um qualquer ano, chegaria o Dia das Surpresas.

Deste poema, em 1973, Manuel Freire fez canção e assim alargou os horizontes da mensagem:

Venham leis e homens de balanças,
Mandamentos daquém e dalém mundo,
Venham ordens, decretos e vinganças,
Desça o juiz em nós até ao fundo.
Nos cruzamentos todos da cidade,
Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
Risquem no chão os dentes da vaidade
E mandem que os lavemos a vassoura.
A quantas mãos existam, peçam dedos,
Para sujar nas fichas dos arquivos,
Não respeitem mistérios nem segredos,
Que é natural nos homens serem esquivos.
Ponham livros de ponto em toda a parte,
Relógios a marcar a hora exacta,
Não aceitem nem votem noutra arte
Que a prosa de registo, o verso data.
Mas quando nos julgarem bem seguros,
Cercados de bastões e fortalezas,
Hão-de cair em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.

A 24 de Dezembro de 1973, António José Saraiva está em Paris a gozar 10 dias de férias da Universidade holandesa onde colabora. Escreve a Óscar Lopes. Quase em findar de carta, desabafa sobre o que vai acontecendo no mundo e conclui que «a chamada civilização ocidental chegou ao fim, e já perdeu a alma. Mas não apareceu outra que a substitua e por isso ela continua de pé e continuará, como um cadáver adiado.»

E expressa os seus desejos para esse ano:

«Que este 1974, em que ambos começamos a aproximar-nos dos 60, seja o menos mau possível.»

 De facto, os votos de Saraiva ultrapassaram as suas prováveis débeis expectativas.

Por Abril desse ano aconteceu o dia de todas as surpresas.

segunda-feira, 22 de julho de 2024

JORGE DE SENA SOBRE OS AMERICANOS

 

Jorge de Sena na sua Correspondência com Carlo Vittorio Cattaneo, tem diversas e variadas apreciações sobre os americanos.

Este pedacinho é retirado da  carta datada de Santa Bárbara de 16 de Novembro de 1971.

segunda-feira, 10 de junho de 2024

OS 500 ANOS DE LUÍS DE CAMÕES

Pormenor da capa de Afonso Cruz para o JL – nº 1400 da edição de 29 de Maio a 11 de Junho de 2024 - em que são evocados os 500 anos do nascimento de Luís de Camões.

Larga colaboração em que se destaca o artigo de Lucas laurentino, professor na Universal Federal do Rio de Janeiro, quando destaca o nome de Jorge de Sema como o mais profundo e competente estudioso de Camões:

«O conjunto das obras de Jorge de Sena dedicadas a Luís de Camões desnorteia e impressiona o leitor. Talvez o melhor adjectivo para descrevê-lo seja “monumental”. Já houve quem contasse nada menos do que 2.158 páginas senianas sobre o poeta, entre livros e coletâneas de ensaios. Haverá outro pesquisador que tenha lido Camões com maior minúcia? Sena parece examinar os poemas camonianos num microscópio, disposto a investigar cada detalhe de casa verso.»

Recorde-se que Jorge de Sena, no ano de 1977, foi o convidado para proferir o discurso  das Comemorações do Dia de Portugal e de Camões. E nunca estas comemorações voltaram a ter um discurso tão inteligente, tão culto, tão livre, tão repleto de sentimento.

Esse discurso faz parte do livro Rever Portugal  - Textos Políticos e Afins, que é o tomo V das Obras Completas de Jorge de Sena editadas pela Guimarães.

Importa agora registar que a editora Guerra & Paz de Manuel F. Fonseca tem vindo a publicar a obra de Jorge de Sena:

«Ah, o 10 de Junho! Às 17:00, numa sessão que vai ser universal e nada paroquial, Margarida Braga Neves e António Carlos Cortez falam de Camões-Jorge de Sena, e aí se estreará o talvez mais belo dos 5 livros que comemoram os nossos 500 anos de Camões vistos por Sena. Apoiado pela Gulbenkian, o livro chama-se Babel e Sião: está lá, de Camões, a redondilha Sobre os rios que vão, em papel negro escrita a prata. E está lá o conto Super Flumina Babylonis, no primeiro encontro, no mesmo livro, de Sena e Camões enquanto poetas e criadores. Obrigado, Isabel de Sena, por ter abençoado este encontro comovente.»

Copia-se a abertura do discurso de Jorge de Sena na cidade da Guarda: 

É para mim uma honra insigne o ter sido oficialmente convidado pela comissão organizadora das comemorações de Camões em 1975, e do dedicar-se do Dia de Camões à recordação das comunidades portuguesas ou de origem portuguesa dispersas pelo mundo, para aqui falar na minha dupla qualidade de estudioso de Camões, e de residente no estrangeiro, que eu sou. Com efeito, em 1978, cumprem-se trinta anos sobre a primeira vez que, de público me ocupei de Camões, iniciando o que, sem vaidade me permito dizê-lo, tem sido uma contínua campanha para dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência. Esse meu Camões foi longamente o riso dos eruditos e dos doutos, de qualquer cor ou feitio; foi a indignação do nacionalismo fascista, dentro e fora das universidades, dentro e fora de Portugal; foi a aflição inquieta do catolicismo estreito e tradicional, dentro e fora de Portugal; e foi a desconfiança suspeitosa de muita gente de esquerda, a quem eu oferecia um Camões que deveria ser o deles, quando eles preferiam atacar ou desculpar o Camões dos outros. Foi e ainda é, e será. Porque, sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo. São essa pedra de toque e esse escândalo o que, neste momento solene, a três anos de distância do 4o. centenário da morte do maior português de todos os tempos, vos trago aqui, certo e seguro de que ele mesmo assim o desejaria. E, antes de mais, peço que, nas minhas palavras anteriores ou nas minhas palavras seguintes, ninguém veja ataques ou referências pessoais que não há; tenhamos todos, tenham todos a humildade de reconhecer que, quando se fala de Camões e de Portugal, não podemos pensar em mais ninguém.
Quanto a ser um residente no estrangeiro, vai para dezoito anos que o sou, o que, curiosamente, é mais ou menos o tempo que o próprio Camões viveu fora de Portugal, desde que dele partiu para as Índias [em 1553, até que regressou,]* em 1570, tão pobre como partira, mas com Os Lusíadas no bolso ou na bagagem, para publicá-los. Eu nem estou a regressar, nem tenho Lusíadas nenhuns. Mas não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, ainda que neste viva, e com os emigrantes me possa identificar – aqueles emigrantes que vi e tenho visto de perto, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos, e também pelo mais largo mundo que tenho percorrido, e que, com a sua laboriosidade, a sua dignidade, a sua humanidade convivente, são em toda a parte, míseros e mesquinhos, ou ascendidos e triunfantes, muitas vezes, os embaixadores que Portugal não envia, ou os representantes da cultura que Portugal não exporta. Por dezassete anos, recordemos, Camões foi apenas um deles, quando ninguém sabia ou podia ainda saber o génio que ele era. Reatando: eu não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, porque, quando saí de Portugal, tinha vinte anos de escritor publicado, e desde então a maior parte da minha obra, ou grande parte dela, foi escrita para Portugal ou em Portugal publicada. Seja o que seja, continuo a ser o que era, quando me exilei muito a tempo naqueles idos negros e tristes de 1959: um escritor português que vive no estrangeiro e que mantém um permanente contacto com Portugal, até por obrigação profissional: catedrático de Literatura Portuguesa, que é um dos meus títulos e deveres, não tenho outro remédio senão estar a par do que se publica. Por outro lado, a minha fidelidade a Portugal – e fidelidade é uma das palavras-chave da minha pessoa e da minha obra, como liberdade é outra – nunca me permitiu livrar-me de partilhar (acrescentadas da dor da distância) as dores e as alegrias, os desalentos e as esperanças de Portugal. Permitam-me ainda um esclarecimento. Na melhor das intenções, vária imprensa anunciou ou referiu que eu falaria aqui como representante dos luso-americanos. Se alguém pensou que eu tal faria, mais que num plano meramente simbólico de partilhar com eles o viver nos Estados Unidos, enganou-se redondamente. Primeiro que tudo, eu não sou um luso-americano: esta palavra significa não o português que vive na América, mas ou o que adquiriu a cidadania americana, ou o que descende de portugueses e já nasceu americano: luso-americanas são duas filhas minhas, por naturalização, e um neto meu que o é nato, como brasileiro por naturalização eu sou, e dois filhos meus o são natos, enquanto minha mulher e outros cinco filhos mantiveram a nacionalidade portuguesa. E, em segundo lugar, que é o primeiro de todos, eu não recebi dos luso-americanos nenhum mandato eleitoral para falar em nome deles, embora esteja certo de que mo teriam dado, se a eles o tivesse pedido, por saberem que os respeito e estimo, sem distinção de credo ou cor (porque há luso-americanos de cor, idos de Cabo Verde para lá, por exemplo). Democrata como sou, eu não falo em nome de ninguém, sem ter recebido um expresso mandato para tal. Eu fui convidado por Lisboa e de Lisboa, o que é uma honra, mas Lisboa não tem o direito de nomear representantes de nada ou de ninguém. Esse vício centralista da nossa tradição administrativa – um dos vícios que Camões denunciou e castigou nos seus Lusíadas – deve ser eliminado e banido dos costumes portugueses, sem perda da autoridade central que deve manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e menos realistas quando de política se trata. Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião. Também dos limites da ordem social e dos deveres do homem para consigo mesmo e a sociedade de que faz parte foi Camões um mestre. Assim, aqui, no âmbito de celebrações que são camoneanas e do Portugal disperso pelo mundo desde que o país existe e desde que, no estrangeiro, comunidades portuguesas ou de lusa origem se formaram ou mantiveram, eu não represento luso-americanos, e não falo em nome deles ou de ninguém no largo mundo. Aceito falar, como eu mesmo, da importância e do significado de Camões hoje, e da necessidade de ter presente ao espírito esta ideia tão simples: um país não é só a terra com que se identifica e a gente que vive nela e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou.»

segunda-feira, 13 de maio de 2024

CARTA(S) A JORGE DE SENA

I

Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde

II

E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida

III

Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem —
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse

Trazias contigo um certo ar de capitão de tempestades
— Grandioso vencedor e tão amargo vencido —
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade

E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos

IV

E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta

Sophia de Mello Breyner Andresen de Ilha em Cem Poemas de Sophia

domingo, 28 de janeiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Jorge de Sena Vinte Anos Depois

Edições Cosmos, Lisboa, Março de 2001

 A Câmara Municipal de Lisboa organizou, através das suas Bibliotecas Municipais, um Colóquio para assinalar os vinte anos da morte de Jorge de Sena. As actas deste Colóquio deram origem ao presente volume. Integrado neste encontro tiveram lugar outras manifestações como o visionamento dos filmes «Os Salteadores» de Abi Feijó, e «Sinais de Fogo», um recital de poesia dita por Luís Lucas, música tocada por Nuno Vieira de Almeida, baseado no livro «A Arte Da Música», livro de Jorge de Sena publicado em 1968 e mais tarde incluído em «Poesia II» editado em 1988.

Colaborações, entre outros:

Joaquim-Francisco Coelho, Almeida Faria, Fernando Guimarães, João Rui de Sousa, Eugénia Vasquies, Luís Francisco Rebello, Jorge Fazenda Lourenço, Eugénio Lisboa, José-Augusto França.

«À morte de Jorge de Sena, em 1979, fiz uma aula de História da Arte na minha Universidade, com a leitura deste poemas, uns atrás dos outros, e projecção das obras referidas – e foi,  assim somente, uma lição com certeza mais útil do que todas  as mais que dei na minha cadeira. Pela emoção intelectual e sensitiva que nenhum outro poeta português poderia assim provocar, em conhecimento vivido ou convivido, de obras de arte ao longo de mais de dois mil anos…»

 

Do texto de José Augusto França.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

POSTAIS SEM SELO


Diz-me assim devagar coisa nenhuma: o que à morte se diria, se ela ouvisse, ou se diria aos mortos, se voltassem.

Jorge de Sena