De uma palavra sei que tem sentido: é
desespero: não importa a causa.
Jorge de Sena
La Condition Humaine, de André Malraux, é sem
dúvida um dos grandes livros do nosso tempo, e ouso dizer que uma duradoura
obra-prima da literatura universal.
Jorge
de Sena
Legenda: André Malraux
A Condição Humana
André Malraux
Tradução e
prefácio: Jorge de Sena
Capa: Bernardo
Marques
Colecção Dois
Mundos nº 40
Livros do
Brasil, Lisboa s/d
- A única coisa que eu amava foi-me tirada, não é
verdade, e quer que eu permaneça o mesmo. Julga que o meu amor não valeu o que
vale o seu para si, cuja vida nem sequer mudou?
- Como não muda o corpo de um vivo que se torna um
morto…
Ele pegou-lhe na mão:
- Conhece a frase: «São precisos nove meses para fazer um homem, e um só dia para o matar». Nós soubemo-lo tanto quanto se pode saber, um e outro… May, ouça; não são precisos nove meses, são precisos cinquenta anos para fazer um homem, cinquenta anos de sacrifícios, de vontade, de… tantas coisas! E quando esse homem está feito, quando nada mais há nele da infância, nem da adolescência, quando, verdadeiramente, ele é um homem, nada mais resta senão morrer.
Jorge
de Sena faz o sumário das longas viagens que de 11 de Setembro a 22 de Dezembro
fez: 70 cidades, 12 países em 4 meses.
Está em Madrid e ainda pensa ir a Santiago, Burgos, Léon, Valladolid; e é claro,
Évora, Coimbra, Porto (e rever a Batalha e Alcobaça).
É
aqui que queremos registar as agruras por que Jorge de Sena passa antes de
entrar em Portugal, país que tanto ama e tantas tristezas lhe tem reservado e
que o obrigou a exilar-se primeiro no
Brasil, depois na América:
«Parti
às 10,45, perpassam os campos de Castela.
Viagem
boa até Marvão – Beirã, por uma paisagem muito semelhante à do Alto Alentejo.
Em Marvão, a polícia portuguesa fez-me
sair do comboio, pois eu figurava incrivelmente na lista das pessoas sem
direito de entrada. E o chefe trouxe-me de automóvel a Valência de Alcântara,
não me sendo possível nada telefonicamente de lá. Foi muito amável. Na estação
de Valência, onde fiquei, foram gentis comigo, e consegui lugar para dormir na
fonda da Estação. E à conta do cônsul de Portugal, Dom Ramon, telefonei para
casa do Presidente Marcelo Caetano. Não estava, mas disseram-me que perto das 8
estaria. Telefonei para o Zé que saíra a esperar-me, e falei com o filho. À 8
voltei a ligar para casa do Presidente do Conselho, que pessoalmente falou
comigo, dizendo que o Zé o inteirara da situação e que ia dar ordem à polícia
para deixar-me entrar. E terminou dizendo: - Seja bem-vindo – Telefonei então
para Marvão, a comunicar ao chefe da polícia a conversação. Irei no comboio das
5 da manhã. Mas ele recomendou-me que falasse primeiro com o chefe da C.P.
aqui, a quem telefonariam a recomendação. Escrevia eu isto, telefonou ele, a
dizer que estava tudo em ordem, e não havia problema nenhum. E mesmo me lembrou
que eu poderia tomar um carro aqui, e ir dormir a Marvão. Mas não há
necessidade desta despesa, para tomar meia hora mais tarde o mesmo Lusitânia
que tomarei aqui. De resto, ao chegar à fronteira, a alfândega estaria fechada
e seria impossível passar. Claro que, com a preocupação de que não me acordem,
não vou dormir nada – telefonaram-me duas vezes de Lisboa, entretanto o
Notícias e o Século, que, com a Sophia e o Tareco parece insistem em vir
buscar-me a Marvão, às 5,50 da manhã. Insisti que não era necessário, mas ficou
assim combinado.»
Ovelho recorte que há dias publicámos sobre o encerramento da Editora/Livraria Cotovia, revelava que o seu proprietário apenas publicava os livros de que
gostava. O dinheiro era dele, a editora era dele, a escolha era dele e não
estava para cedências, fossem elas quais fossem.
Nunca
encontrei o livro, especificamente não sabia da sua existência, mas fiquei a
saber que João André editou um livro sobre os começos dos poemas de Jorge de
Sena e isso é tão importante quando se sabe que muitos poemas não têm título e
apenas funciona o começo de cada poema.
Apesar
de saber que os livros de Poesia do Jorge de Sena têm um Índice dos Primeiros
Versos, achei a edição do João André uma coisa maravilhosa.
1.
Portugal foi em 2025 o quinto país do mundo que mais milionários recebeu, ao mesmo tempo que se vai sabendo que o risco de pobreza ou exclusão social ameaça 2,1 milhões de pessoas.
2.
Por
vezes vem-me à memória os tempos do confinamento provocado do Covid desce até nós.
As
horas em que não sabíamos nada uns dos outros.
Há um Diário por aqui.
«Sexta-feira 13.
Dia de azar.
Feitiços. Bruxas. Gatos
pretos. Não passes por debaixo de escadas. Não abras o chapéu-de-chuva dentro
de casa. Não tenhas relógios parados dentro de casa.
Em tempo de pandemia
valerá a pena falar de sextas-feiras 13?
Bluff absolutamente
inútil?
O papel todo branco à espera, ninguém sabe bem de quê!...»
3.
Dom
Quixote de Miguel Cervantes.
Está
lá tudo.
Um
livro impar que não é tão lido como se apregoa por aí.
Mas
muito poucos, mesmo muito poucos admitem que não o leram.
5. Não se pode ser português e assim suave, sem se sentir, primeiro, alguma raiva e, depois, uma melancolia incurável. Disso se morre por vezes. Disso terá morrido o pintor Bernardo Marques, compadre o poeta José Gomes Ferreira
4.
Como
dizia a mulher do tipo que se atirou do Viaduto Duarte Pacheco: a vida tem as
suas compensações.
5.
Existem
4800 médicos estrangeiros inscritos na Ordem dos Médicos mas apenas 976 têm
contrato com o SNS. em 2025 as duas maternidades onde se realizaram mais partos
são de hospitais particulares; seis em cada dez partos em hospitais privados
são feitos com recurso a cesarianas, o dobro do que se verifica no sector
público.
6.
«Sá
de Miranda já falava do desconcerto do mundo, Camões aprofundou o desconcerto
do mundo, Vieira sentiu na pele o desconcerto do mundo, Nicolau Tolentino
denunciou em versos autocomplacentes o desconcerto do mundo, o desconcerto do
mundo persegue-nos. Do renascimento ao barroco, da arcádia lusitana ao
romantismo, do modernismo ao surrealismo, passando pelo neo-realismo e demais
ismos, sempre o desconcerto do mundo, sempre esta sensação de injustiça, de
premiação do mal e desprezo do bem. Ainda hoje, o desconcerto do mundo. Uma
guilhotina suspensa por fios débeis sobre as nossas consciências.»
Hmbf em Antologia do Esquecimento
Um dos mais extraordinários intelectuais portugueses.
Teve que se exilar, onde passou uma autêntica vida de cão.
A leitura de alguns diários de escritores seus contemporâneos, os seus próprios diários, a correspondência com José Augusto França e Sophia, mostram um Jorge de Sena de uma verticalidade e honestidade intelectual tão pouco existente entre os seus pares.
É uma pena que este "país de sacanas" teime em não conhecer a sua obra e o seu exemplo.
1.
«Neste abençoado país,
todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros,
que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de
primeira ordem! Por outro lado, a maioria admite que a oposição, a quem ela
constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos
talentos! De resto, todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta,
portanto, este facto supracómico: um país governado com imenso talento que é de
todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu
proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma
vez os imbecis!»
Eça de Queirós em Os Maias.
2.
A
lista de 37 detidos pela Polícia Judiciária no âmbito da operação que
desmantelou as chefias do Grupo 1143 tem, pelo menos, três nomes de militantes
do Chega que já foram candidatos pelo partido de André Ventura em eleições. Também
um sargento da força aérea, um polícia do comando de Setúbal ,um profissional
de saúde, três militantes ou ex-militantes e candidatos do Chega, dois
candidatos pelo partido de extrema-direita Ergue-te e PNR, Participantes em
mesas de voto em diversas eleições. Um condenado por furto, um jogador de rugby
com processos disciplinares por agressões, um membro dos Super Dragões
condenado num processo por causa de um plano de intimidação que culminou em
agressões e estão indiciados por crimes
de discriminação e incitamento ao ódio e à violência.
3.
No
fim de 2025 mais de 1,5 milhões de pessoas não tinham médico de família.
4.
«No
autocarro, uma mulher conta a outra que perdeu o marido há pouco tempo.
Silêncio. A segunda, para a encorajar, diz: «Mas a vida continua.» A primeira
comenta: «A vida continua, mas continua muito mal.»
Rui Manuel Amaral em Bicho Ruim
5.
«Não há destinos
adivinhados para as personagens que vivem em solidão. O seu futuro é incerto e
a tragédia está sempre à espreita.»
6.
«…é a velha história, demora-se muito tempo a ver bem um filme.»
7.
Disse
Ruy Belo: uma casa é a coisa mais séria da vida, e João Miguel Fernandes
Jorge: a casa é onde temos o coração, ou como refere Emily Dickinson, a
poesia é possibilidade, “uma casa mais justa que a prosa”.
8.
Um
mundo sem música, sem livros e sem memória.
Seria
o maior pesadelo que me poderia acontecer.
Essa razão obscura e a
clara e luminosa beleza do soneto levaram-me a ler a obra poética anterior de
Sena: “Perseguição”, “Coroa da Terra”, “Pedra Filosofal”, “As Evidências”. Li
também “Fidelidade” que a Morais publicou em 1958 e que acaba com o “Como de
Vós”. Entre 1958 e 1959, descobri o maior poeta português depois de Pessoa.
Mais de trinta anos passados, continuo o pensar o mesmo. Embora saiba que esta
afirmação continua a ser evidente e não era aceite por Sena que considerava
Pessoa e Sá-Carneiro como o seu Sá de Miranda e o seu Bernardim.
“As Evidências” é o
livro maior que se publicou em língua portuguesa neste segunda metade do
século. Com a eventual excepção de “Metamorfoses”. E o mais belo soneto da
nossa história é o soneto XXI de “As Evidências”, escrito a 16 de Abril de
1954. “Perdem-se as letras. Noite, meu amor,/ ó minha vida, eu nunca disse
nada./ Por nós, por ti, por mim, falou a dor./ E a dor é evidente — libertada”.
2. Conheci Jorge
de Sena em 1959, em casa do António Alçada, numa dessas reuniões clandestinas
em que sonhámos fazer a Revolução de 11 de Março. Discutia-se acaloradamente se
o primeiro “decreto” a sair era o que acabava com a Pide ou o que acabava com a
Censura Jorge de Sena interrompeu com outra prioridade. O primeiro decreto
devia era acabar com a Universidade de Coimbra Todos nos rimos muito, mas ele
não estava a brincar. Por mim, demorei muitos anos até o perceber.
Também não estava a
brincar quando, numa brincadeira de lugares futuros, pediu o de Embaixador em
Londres. Para não ter que ficar cá. Muito mais tarde, disse: “Porque o problema
não é salvar Portugal, mas salvar-mo-nos de Portugal”. Ele não se salvou.
3. Em Agosto de
1959, aos 39 anos, Jorge de Sena saiu de Portugal e foi viver para o Brasil. Em
1963, escrevi-lhe a convidá-lo a colaborar em “O Tempo e o Modo”.
Foi o começo de uma
correspondência regularmente mantida ao longo de sete anos. Para além da
espantosa colaboração de Jorge de Sena n'”O Tempo e o Modo”, devo-lhe várias
dezenas de cartas (páginas enormes, 40 linhas, escritas a máquina) em que por
tudo se interessava, por tudo perguntava. “É que nunca ninguém que me respeite
apelou para mim em vão. Às vezes, nem os que não me respeitam”.
4. Em Outubro de
1965, aos 45 anos, Jorge de Sena deixou o Brasil e fixou-se em Madison,
Wisconsin, USA.
Em 1968, voltou a
Portugal, após uma ausência de cerca de nove anos. Quando ele chegou, estava eu
na América e tinha incluído Wisconsin no meu itinerário, de propósito para o
visitar.
Foi em Dezembro de
1968, havia neve e um frio bom. Jorge de Sena não estava mas estavam Mécia de
Sena e os nove filhos que tinham tido. Pessoalmente, não conhecia ninguém, mas
fui recebido como se se tratasse de alguém da família. Naquela casa cabia muita
gente e jantares de 10 e 15 pessoas pareciam fazer parte do quotidiano. Foi lá
que conheci Adolfo Casais Monteiro. Salvo erro, foi ele quem levou um dia, como
presente, o “Dido e Eneias” de Purcell, na gravação EMI dos Mermaid de Geraint
Jones, com a Flagstad e a Schwarzkopf. Desde essa noite, o “Remember” é, para
mim, um sinal de união indissolúvel com eles. Revivi isso tudo há poucos anos —
já depois da morte de Jorge de Sena — quando, pela primeira vez, vi a ópera, em
Paris, com Jessye Norman no papel de Dido.
“Diz-me assim devagar
coisa nenhuma/ o que à morte se diria, se ela ouvisse,/ ou se diria aos mortos
se voltassem.”
5. Voltei no Natal
de 68, ainda Jorge de Sena estava em Lisboa. Lembro-me de um almoço na Gôndola
com o Vasco Pulido Valente. E lembro-me da sala cheia da Sociedade Nacional de
Belas Artes para uma conferência que ele lá foi fazer. Já tinha saído o número
especial de “O Tempo e o Modo” (Abril de 68) em que se dizia na cinta que seria disputado no
futuro a peso de ouro. Foi durante a conferência que reparei que Jorge de Sena
não se sentia à vontade, com aquela reviravolta de imagem face àquele ambiente
delirantemente consagratório que eu concelebrara. Essa conferência, sobre
Portugal na América ou Portugal no mundo, já não me lembro bem, parecia ser
feita de propósito para contrariar os meus “clichés”.
Grande parte dos ouvintes eram jovens e —1968—contestatários. No final,
reagiram com apupos e provocações ao jeito do tempo. A festa pareceu-me
estragada e saí dali com uma enorme incomodidade. Jorge de Sena, não. Olhou-me
a rir, nada zangado e perguntou-me se eu continuava a achar que as coisas
tinham mudado. “Daqui a vinte anos” — disse-me ele — “vão ser iguais aos outros
ou piores”. Era tão estúpido que não o tomei muito à letra. Não foi preciso
esperar tanto tempo.
6. De longe em
longe, voltei a vê-lo nos anos 70, quando cá vinha, antes e depois do 25 de
Abril. Depois, a notícia da doença. Depois, mais nada.
Lembro-me de ter ouvido
alguém contar que pouco antes de morrer perguntou à Mulher: “Ainda falta
muito?”. Treze anos antes, em 1965, escreveu-me no dia da morte de Eliot. E
dizia: “Você, que é jovem, não sabe ainda o que isto é de ter-se mais de
quarenta anos e começar a ver sumirem-se aqueles que foram as luzes vivas da
nossa juventude”. Quando Jorge de Sena morreu, eu tinha mais de quarenta anos.
Tinha quase a idade que Jorge Sena tinha quando Eliot morreu. (E Deus) “Não nos
aguarda — a mim, a ti, a quem amaste/ não nos aguarda, não. Por cada morte/ a
que nos entregamos el’ se vê roubado,/ roído pelos ratos do demónio/ o homem
natural que aceita a morte/ a natureza que de morte é feita”.
Para trás, ficaram seis
instantâneos em forma de retrato. Mas como fazer de outra maneira? Quando
preparei o tal número especial de 1968, pedi um retrato a Jorge de Sena. E ele
respondeu-me (da América): “Fui tirá-lo de propósito, porque já estou farto dos
velhos retratos de sempre. O pior é que, nesta América, ou se vai a um
fotógrafo de arte, que custa uma fortuna, ou a gente fica com cara de director
de banco”.
Não sendo fotógrafo de
arte (nem por uma fortuna) estes instantâneos foram a forma que encontrei de
não ficarmos — nem ele nem eu — com cara de director de banco.
João Bénard da Costa
Lido
em Poemas para Jorge de Sena
Claro
que não!
Mas, se assim fosse, é o que aconteceria a este livro de Jorge de Sena.
É
um livro extraordinário, como extraordinária é toda a obra de Jorge de Sena.
Tal
como avisa Mécia de Sena na Nota Prévia sobre o livro:
«Decidi que não desvendaria o nome das pessoas que os poemas não mencionam. Aqueles que viveram esses tempos sabem muito bem quem o maltratou e como e onde; os outros que busquem nos jornais, nas revistas, nas cartas, nas publicações que organizou, está lá tudo e fácil de deduzir.»
A
justiça de se dizer que Mécia de Sena, durante toda a sua vida, exerceu um trabalho
extraordinário para que a obra de Jorge de Sena fosse conhecida em todo o seu
esplendor.
Para
além das Dedicácias, este livro inclui o Discurso que Sena escreveu para
as comemorações, em 1975, do Dia de Camões, o mais notável discurso de todos os
que, até agora, foram feitos para assinalar a data.
Copio
da badana do livro:
«Portugal não soube
conceder-lhe em vida a consagração que a sua obra merecia.»
Jorge
de Sena em Sinais de Fogo.
Mécia já nos avisara dessas dificuldades.
Estamos com o Diário de Jorge de Sena que abrange
os anos de 1953/54.
A maior parte dos dias são ocupados com visitas aos
seus pares, amigos, as leituras que vai fazendo, a música que vai ouvindo, os trabalhos e as traduções
que tem entre mãos.
Iremos voltando às páginas dos seus Diários.
Diz Sena:
«Quem me manda a mim sonharmcom Índias, mísero e
poeta, num país de loucos?»
Estamos no ano de 1953, no mês de Dezembro e copio
estes dias:
10.
Tradução
11.
Tradução
20.
Com um intervalo no café – a conversa incidiu sobre
o Bispo de Beja e a sua pastoral probida – dia de tradução.
Ouço o muito belo para mim novo 5º concerto para
piamo do Prokofieff.
25.
Telefonou o (António José) Saraiva a contar que
esteve preso desde domingo até ontem. Fora com mais 50 pessoas ao aeroporto
fazer recepção à Maria Lamas. Foi tudo engavrtado em Caxias, de onde ele saiu,
mas onde ainda muitos ficaram. Claro que o nosso Silas lá está. E também o
Keil, a Maria Keil e O’Neill, o Cortesão Casimiro, etc.. etc. Em todo o caso,
creio que, se não os tivessem prendido – o que é uma coisa ridícula – teriam ficado
desconsoladíssimos, pelo menos alguns como o Silas.
Dia inteiro de tradução.
28.
Num estado de cansaço insuportável (tanto trabalho,
tanta arrelia), parei de traduzir para ouvir o concerto de violino em si maior,
de Mozart-Casadeus e o 6º quarteto de Bela Bartok.
Legenda: imagem do Jornal da Voz do Operário
Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna alguma, ser poeta neste tempo de filhos só da puta ou de putas sem filhos?...
Jorge de Sena
A
ideia era interessante para a rubrica NESTE DIA, mas não estava a funcionar muito
bem por, na escolha do dia e do ano, existirem limitações.
A
partir de amanhã, manteremos o título, mas a escolha recairá, não no dia, nem
no ano, mas em temas, personalidades, em que os autores dos Diários, existentes
na Biblioteca da Casa, se envolveram e
nos deixaram para que os conhecêssemos.
Por
hoje, trazemos a introdução que Mécia de Sena fez para os Diários de
Jorge de Sena, publicados em 2004 pelas Edições Caixotim.
O intelectual é quem em nome da
inteligência e da cultura resiste. Mas não esqueçamos que muitos outros
resistem sem serem intelectuais.
Jorge de Sena.
Legenda: Salvador Allende
A minha memória
de papas estende-se desde Pio XII (1939-1958), prolonga-se com João XXIII
(1958-1963), Paulo VI (1963-1978), João Paulo II (1978-2005), Bento XVI
(2005-2013), Francisco (2013-2025).
De Pio XII
apenas tenho memória de ouvir o meu avô referir as suas simpatias nazis. Ao
longo dos tempos tenho ouvido falar que os arquivos do seu papado hão-de ser
publicamente revelados.
Por prazeres
secretos, nunca revelados, o meu pai gostava da 7ª Sinfonia de Beethoven.
Algumas vezes conversámos sobre o desejo de Pio XII, na hora da sua morte, querer
ouvir o «alegreto» da 7ª Sinfonia e do poema que Jorge de Sena escreveu, por
causa deste desejo de Pio XII.
O poema chama-se Como de Vós e é o último poema do seu Livro Fidelidade, publicado em 1955.
Como de Vós
À memória do papa Pio XII que
quis, ouvir, moribundo, o «Alegreto»
da Sétima Sinfonia
de Beethoven
Como de Vós, meu Deus, me fio em tudo,
mesmo no mal que consentis que eu faça,
por ser-Vos indiferente, ou não ser mal,
ou ser convosco um bem que eu não conheço,
importa pouco ou nada que em Vós creia,
que Vos invente ou não a fé que eu tenha,
que a própria fé não prove que existis,
ou que existir não seja a Vossa essência.
Não de existir sois feito, e também não
de ser pensado por quem só confia
em quem lhe fale, em quem o escute ou veja.
Humildemente sei que em Vós confio,
e mesmo isto o sei pouco ou quase esqueço,
pois que de Vós, meu Deus, me fio em tudo
(23 de Dezembro
de 2001)
Em relação a outros papas , admirei imenso João XXIII, João Paulo VI, apesar das promessas, não terá conseguido continuar o trabalho do seu antecessor. João Paulo I foi o que (não) se sabe, um chá pôs fim ao reinado. Nunca tive a mais leve simpatia por João Paulo II, e, para além de outras situações, não será para esquecer o seu imenso desprezo pelo povo de Timor-Leste. Com Bento XVI pouco ou nenhum tempo me demorei e passou-me completamente ao lado.
Até que, no cair de tarde de Março de 2013, o papa recentemente
nomeado, chega à janela e sorridente
diz: «Buona Sera!»
E acrescentou:
«Vós sabeis que o dever do Conclave era dar um Bispo a
Roma. Parece que os meus irmãos Cardeais o foram buscar quase ao fim do mundo.
Eis-me aqui!”
Sabe-se do seu amor
pelos fracos e os mais pobres, aliado a um soberano desprezo pelos mais ricos.
Nunca as
janelas do Vaticano terão sido tão escancaradas e nenhuma destas janelas, que
Francisco abriu, poderão voltar a ser fechadas.
Muita coisa Francisco não conseguiu fazer, não por vontade sua, mas porque o movimento das sacristias, por vezes, ergue-se soberanamente entre as sombras.
Uma cultura nova
passeou pelos corredores do Vaticano. Só alguém com cultura, com sensibilidade,
leva para o seu lado, para com ele trabalhar, um cardeal português, que é um
poeta: José Tolentino de Mendonça, demasiado novo para que, por agora, possa
chegar a Papa, e a que falta aquela vertente popular que distinguiu Francisco.
Amanhã os
cardeais reunir-se-ão, em Conclave.
Não serão fáceis
as conclusões a que terão de chegar. A Igreja atravessa gravíssimos problemas
e, em Conclave ficarão, até ao momento em que fumo branco sai da
chaminé no telhado da Capela Sistina e a Igreja volte a ter o seu chefe.
Notícias lidas,
aqui e ali, apontam para que a Igreja não vai voltar atrás.
Não tenho tanta
certeza.
Velha raposa, a
Igreja não comete o mesmo erro, porque existe muito daquela gente que entende que
um Francisco, tão cedo, não querem voltar a ver sentado no trono de Pedro.
A igreja foge das novas culturas, dos novos
difíceis tempos que vivemos, como o diabo da cruz.
Deve-se a Manuel
Freire, em tempos de ditadura, com um poema, uma canção, popularizar um
grande poeta português: António Gedeão, o poema é a Pedra Filosofal.
O mesmo Manuel Freire, nos mesmos tempos de ditadura, transformou poemas de poetas portugueses, em gritos claros de luta e de esperança.
Num país
cinzento, debaixo de uma ditadura que tudo fez para que a esperança do povo não
pudesse soltar amarras, cerceando a vontade de quem se sentiu escravo e pela
libertação fez luta diária, houve quem não respeitasse mistérios nem segredos.
Muitos, durante
essa luta, acabaram por morrer, não souberam da cor da liberdade, mas uma outra
canção lembra: até mortos vão a nosso lado.
Lidos em 1966, a
esmagadora maioria dos Poemas
Possíveis estão assinalados a lápis.
Naturalmente, um
desses poemas é Ouvindo
Beethoven.
Uma boa dezena
de anos antes de Abril, Saramago, esperançadamente, sabe que, como disse Jorge
de Sena, não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade.
Ouvindo Beethoven, José Saramago sabia que, num, num qualquer mês, de um qualquer ano, chegaria o Dia das Surpresas.
Deste poema, em 1973, Manuel Freire fez canção e assim alargou os horizontes da mensagem:
Venham leis e homens de balanças,
Mandamentos daquém e dalém mundo,
Venham ordens, decretos e vinganças,
Desça o juiz em nós até ao fundo.
Nos cruzamentos todos da cidade,
Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
Risquem no chão os dentes da vaidade
E mandem que os lavemos a vassoura.
A quantas mãos existam, peçam dedos,
Para sujar nas fichas dos arquivos,
Não respeitem mistérios nem segredos,
Que é natural nos homens serem esquivos.
Ponham livros de ponto em toda a parte,
Relógios a marcar a hora exacta,
Não aceitem nem votem noutra arte
Que a prosa de registo, o verso data.
Mas quando nos julgarem bem seguros,
Cercados de bastões e fortalezas,
Hão-de cair em estrondo os altos muros
E chegará o dia das surpresas.
A 24 de Dezembro
de 1973, António José Saraiva está em Paris a gozar 10 dias de férias da
Universidade holandesa onde colabora. Escreve a Óscar Lopes. Quase em findar de
carta, desabafa sobre o que vai acontecendo no mundo e conclui que «a
chamada civilização ocidental chegou ao fim, e já perdeu a alma. Mas não
apareceu outra que a substitua e por isso ela continua de pé e continuará, como
um cadáver adiado.»
E expressa os seus desejos para esse ano:
«Que este 1974, em que ambos começamos a aproximar-nos
dos 60, seja o menos mau possível.»
De facto, os votos de Saraiva ultrapassaram as suas prováveis débeis expectativas.
Por Abril desse ano aconteceu o dia de todas as surpresas.
Jorge de Sena na sua Correspondência com Carlo
Vittorio Cattaneo, tem diversas e variadas apreciações sobre os americanos.
Este pedacinho é retirado da carta datada de Santa Bárbara de 16 de Novembro de 1971.
Pormenor da capa de Afonso Cruz para o JL
– nº 1400 da edição de 29 de Maio a 11 de Junho de 2024 - em que são
evocados os 500 anos do nascimento de Luís de Camões.
Larga colaboração em que se destaca o
artigo de Lucas laurentino, professor na Universal Federal do Rio de Janeiro,
quando destaca o nome de Jorge de Sema como o mais profundo e competente
estudioso de Camões:
«O conjunto das obras de Jorge de Sena
dedicadas a Luís de Camões desnorteia e impressiona o leitor. Talvez o melhor
adjectivo para descrevê-lo seja “monumental”. Já houve quem contasse nada menos
do que 2.158 páginas senianas sobre o poeta, entre livros e coletâneas de
ensaios. Haverá outro pesquisador que tenha lido Camões com maior minúcia? Sena
parece examinar os poemas camonianos num microscópio, disposto a investigar
cada detalhe de casa verso.»
Recorde-se que Jorge de Sena, no ano de
1977, foi o convidado para proferir o discurso das Comemorações do
Dia de Portugal e de Camões. E nunca estas comemorações voltaram a ter um
discurso tão inteligente, tão culto, tão livre, tão repleto de sentimento.
Esse discurso faz parte do livro Rever
Portugal - Textos Políticos e Afins, que é o tomo V das Obras
Completas de Jorge de Sena editadas pela Guimarães.
Importa agora registar que a
editora Guerra & Paz de Manuel F. Fonseca tem vindo a publicar a
obra de Jorge de Sena:
«Ah, o 10 de Junho! Às 17:00, numa
sessão que vai ser universal e nada paroquial, Margarida Braga Neves e António
Carlos Cortez falam de Camões-Jorge de Sena, e aí se estreará o talvez
mais belo dos 5 livros que comemoram os nossos 500 anos de Camões vistos
por Sena. Apoiado pela Gulbenkian, o livro chama-se Babel
e Sião: está lá, de Camões, a redondilha Sobre os rios que vão,
em papel negro escrita a prata. E está lá o conto Super Flumina Babylonis,
no primeiro encontro, no mesmo livro,
de Sena e Camões enquanto poetas e criadores. Obrigado,
Isabel de Sena, por ter abençoado este encontro comovente.»
Copia-se a abertura do discurso de Jorge
de Sena na cidade da Guarda:
É para mim uma honra insigne o ter sido
oficialmente convidado pela comissão organizadora das comemorações de Camões em
1975, e do dedicar-se do Dia de Camões à recordação das comunidades portuguesas
ou de origem portuguesa dispersas pelo mundo, para aqui falar na minha dupla
qualidade de estudioso de Camões, e de residente no estrangeiro, que eu sou.
Com efeito, em 1978, cumprem-se trinta anos sobre a primeira vez que, de
público me ocupei de Camões, iniciando o que, sem vaidade me permito dizê-lo, tem
sido uma contínua campanha para dar a Portugal um Camões autêntico e
inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões
dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem
do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de
1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem
moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência.
Esse meu Camões foi longamente o riso dos eruditos e dos doutos, de qualquer
cor ou feitio; foi a indignação do nacionalismo fascista, dentro e fora das
universidades, dentro e fora de Portugal; foi a aflição inquieta do catolicismo
estreito e tradicional, dentro e fora de Portugal; e foi a desconfiança suspeitosa
de muita gente de esquerda, a quem eu oferecia um Camões que deveria ser o
deles, quando eles preferiam atacar ou desculpar o Camões dos outros. Foi e
ainda é, e será. Porque, sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é
uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo
alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o
não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo
como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um
escândalo. São essa pedra de toque e esse escândalo o que, neste momento
solene, a três anos de distância do 4o. centenário da morte do maior português
de todos os tempos, vos trago aqui, certo e seguro de que ele mesmo assim o
desejaria. E, antes de mais, peço que, nas minhas palavras anteriores ou nas
minhas palavras seguintes, ninguém veja ataques ou referências pessoais que não
há; tenhamos todos, tenham todos a humildade de reconhecer que, quando se fala
de Camões e de Portugal, não podemos pensar em mais ninguém.
Quanto a ser um residente no estrangeiro, vai para dezoito anos que o sou, o
que, curiosamente, é mais ou menos o tempo que o próprio Camões viveu fora de
Portugal, desde que dele partiu para as Índias [em 1553, até que
regressou,]* em 1570, tão pobre como partira, mas com Os
Lusíadas no bolso ou na bagagem, para publicá-los. Eu nem estou a
regressar, nem tenho Lusíadas nenhuns. Mas não sou exactamente um
emigrante no estrangeiro, ainda que neste viva, e com os emigrantes me possa
identificar – aqueles emigrantes que vi e tenho visto de perto, primeiro no
Brasil e depois nos Estados Unidos, e também pelo mais largo mundo que tenho
percorrido, e que, com a sua laboriosidade, a sua dignidade, a sua humanidade
convivente, são em toda a parte, míseros e mesquinhos, ou ascendidos e
triunfantes, muitas vezes, os embaixadores que Portugal não envia, ou os
representantes da cultura que Portugal não exporta. Por dezassete anos,
recordemos, Camões foi apenas um deles, quando ninguém sabia ou podia ainda
saber o génio que ele era. Reatando: eu não sou exactamente um emigrante no
estrangeiro, porque, quando saí de Portugal, tinha vinte anos de escritor
publicado, e desde então a maior parte da minha obra, ou grande parte dela, foi
escrita para Portugal ou em Portugal publicada. Seja o que seja, continuo a ser
o que era, quando me exilei muito a tempo naqueles idos negros e tristes de
1959: um escritor português que vive no estrangeiro e que mantém um permanente
contacto com Portugal, até por obrigação profissional: catedrático de
Literatura Portuguesa, que é um dos meus títulos e deveres, não tenho outro
remédio senão estar a par do que se publica. Por outro lado, a minha fidelidade
a Portugal – e fidelidade é uma das palavras-chave da minha pessoa e
da minha obra, como liberdade é outra – nunca me permitiu livrar-me
de partilhar (acrescentadas da dor da distância) as dores e as alegrias, os
desalentos e as esperanças de Portugal. Permitam-me ainda um esclarecimento. Na
melhor das intenções, vária imprensa anunciou ou referiu que eu falaria aqui
como representante dos luso-americanos. Se alguém pensou que eu tal faria, mais
que num plano meramente simbólico de partilhar com eles o viver nos Estados
Unidos, enganou-se redondamente. Primeiro que tudo, eu não sou um
luso-americano: esta palavra significa não o português que vive na
América, mas ou o que adquiriu a cidadania americana, ou o que descende de
portugueses e já nasceu americano: luso-americanas são duas filhas minhas, por
naturalização, e um neto meu que o é nato, como brasileiro por naturalização eu
sou, e dois filhos meus o são natos, enquanto minha mulher e outros cinco
filhos mantiveram a nacionalidade portuguesa. E, em segundo lugar, que é o
primeiro de todos, eu não recebi dos luso-americanos nenhum mandato eleitoral
para falar em nome deles, embora esteja certo de que mo teriam dado, se a eles
o tivesse pedido, por saberem que os respeito e estimo, sem distinção de credo
ou cor (porque há luso-americanos de cor, idos de Cabo Verde para lá, por
exemplo). Democrata como sou, eu não falo em nome de ninguém, sem ter recebido
um expresso mandato para tal. Eu fui convidado por Lisboa e de Lisboa, o que é
uma honra, mas Lisboa não tem o direito de nomear representantes de
nada ou de ninguém. Esse vício centralista da nossa tradição administrativa –
um dos vícios que Camões denunciou e castigou nos seus Lusíadas –
deve ser eliminado e banido dos costumes portugueses, sem perda da autoridade
central que deve manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e menos
realistas quando de política se trata. Porque os portugueses são de um
individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da
mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão
cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista,
quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a
experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de
outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma
liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as
liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se
um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir
responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião. Também dos
limites da ordem social e dos deveres do homem para consigo mesmo e a sociedade
de que faz parte foi Camões um mestre. Assim, aqui, no âmbito de celebrações que
são camoneanas e do Portugal disperso pelo mundo desde que o país existe e
desde que, no estrangeiro, comunidades portuguesas ou de lusa origem se
formaram ou mantiveram, eu não represento luso-americanos, e não falo em nome
deles ou de ninguém no largo mundo. Aceito falar, como eu mesmo, da importância
e do significado de Camões hoje, e da necessidade de ter presente ao espírito
esta ideia tão simples: um país não é só a terra com que se identifica e a
gente que vive nela e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação
secular da humanidade que exportou.»
I
Não és navegador mas emigrante
Legítimo português de novecentos
Levaste contigo os teus e levaste
Sonhos fúrias trabalhos e saudade;
Moraste dia por dia a tua ausência
No mais profundo fundo das profundas
Cavernas altas onde o estar se esconde
II
E agora chega a notícia que morreste
E algo se desloca em nossa vida
III
Há muito estavas longe
Mas vinham cartas poemas e notícias
E pensávamos que sempre voltarias
Enquanto amigos teus aqui te esperassem —
E assim às vezes chegavas da terra estrangeira
Não como filho pródigo mas como irmão prudente
E ríamos e falávamos em redor da mesa
E tiniam talheres loiças e vidros
Como se tudo na chegada se alegrasse
Trazias contigo um certo ar de capitão
de tempestades
— Grandioso vencedor e tão amargo vencido —
E havia avidez azáfama e pressa
No desejo de suprir anos de distância em horas de conversa
E havia uma veemente emoção em tua grave amizade
E em redor da mesa celebrávamos a festa
Do instante que brilhava entre frutos e rostos
IV
E agora chega a notícia que morreste
A morte vem como nenhuma carta
Sophia de
Mello Breyner Andresen de Ilha em Cem Poemas de Sophia
Edições Cosmos, Lisboa, Março de 2001
Colaborações, entre outros:
Joaquim-Francisco Coelho, Almeida Faria, Fernando Guimarães, João Rui de Sousa, Eugénia Vasquies, Luís Francisco Rebello, Jorge Fazenda Lourenço, Eugénio Lisboa, José-Augusto França.
«À morte de Jorge
de Sena, em 1979, fiz uma aula de História da Arte na minha Universidade, com a
leitura deste poemas, uns atrás dos outros, e projecção das obras referidas – e
foi, assim somente, uma lição com certeza
mais útil do que todas as mais que dei
na minha cadeira. Pela emoção intelectual e sensitiva que nenhum outro poeta português
poderia assim provocar, em conhecimento vivido ou convivido, de obras de arte
ao longo de mais de dois mil anos…»
Do texto de José Augusto França.
Jorge de Sena