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domingo, 8 de junho de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


MOVIEPLAY - SON 100.011 - 1971


Existem Pedras (Maria Teresa Horta/Nuno Filipe) - Poema Sobre A Recusa (Maria Teresa Horta/Nuno Filipe) - Meu Aceso Lume-Meu Amor (Maria Teresa Horta/Nuno Filipe)

Participações de José Cid, Luís Filipe, Tozé Brito e Victor Mamede, arranjos e direcção de Rui Ressurreição.

Se houvesse discos perfeitos este estaria a caminho.

É um trabalho da poetisa Maria Teresa Horta e do músico Nuno Filipe para a voz de Teresa Paula Brito, um excelente trabalho de colaboração entre escritores e músicos. Há outros bons exemplos. Hoje fala-se deste.

Neste país tão triste de esquecer gente, Teresa Paula Brito é uma das muitas vozes injustiçadas.

Deixou-nos em 2003. Discretamente, serenamente, como foi a sua vida de intérprete.

Trabalhou com Carlos Paredes e José Afonso, em 1967 representou Portugal no Festival Internacional de Música Popular em Cuba, em 1969 participou no Festival TV da Canção e em 1970 a Casa da Imprensa atribui-lhe o prémio de intérprete feminina, “pela justeza formal e pela criteriosa escolha do reportório”, como se pode ler na contra capa do disco.

Aí também se fica a saber que os poemas cantados por Teresa Paulo Brito fazem parte do nº 18 da colecção “Cadernos de Poesia” das Publicações D. Quixote, “Minha Senhora de Mim”, de Maria Teresa Horta.

Diga-se que esta Colecção de Poesia da D. Quixote teve um papel importantíssimo na divulgação de poetas portugueses. Nela poderemos encontrar, entre outros, Ruy Belo, Carlos de Oliveira, Alexandre O’ Neill, Armando da Silva Carvalho, David Mourão Ferreira.

No lado A, Teresa Paula Brito canta “Existem Pedras” E “Poema Sobre a Recusa” e no lado B “Meu Aceso Lume, Meu Amor”.

Os arranjos e a direcção pertencem a Rui Ressurreição, o som é de Jean-François Beaudet, foi gravado no Estúdio Polysom,  uma produção da “Movieplay” com a data de 1971.

No seu tempo, este disco teve um excelente acolhimento, mas hoje muitos poucos saberão do que se está a falar. Mas está registado na memória da Música Popular Portuguesa.





segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

SEGREDO

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

Maria Teresa Horta

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

DIRECÇÃO

Nada nos deterá ou nos impedirá

a marcha

 

o caminho

 

a curva aguda dos punhos

que empunhamos calados

 

ainda mudos

calados

 

mas não com medo

ou sozinhos


Maria Teresa Horta do livro Amor Habitado (1963) encontrado em Elas Estiveram Nas Prisões do Fascismo.

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

NATAL

É um tempo de cristal.

E rosas rubras.

Com asas de topázio
e de verbena
onde a memória se descura.

E a infância retorna
fio e seda, a misturar
o sonho com a lua.

É um tempo de ideais
E de lonjura.

De afectos dobados
na clave do peito.
Enquanto no coração

Se insinua
um júbilo maior
de amor perfeito.

 

Maria Teresa Horta

quarta-feira, 8 de março de 2023

DIZ

Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

o que fizeram de ti

o que quiseram
que fosses

Como prenderam teu
grito
sob a boca amordaçada

Mas como cantaste
assim
do teu desgosto apartada

Diz mulher
ao teu país

conta a vida em que
cresceste

Como algemaram
teus pulsos

conta aquilo
que aprendeste

Do saque da tua
vida
relata os dias passados

da cadeia em que estiveste
descreve
o pavor rasgado

as torturas que sofreste
o medo nunca acabado

Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

não cales mais
a recusa
do que quiseram que fosses...

não silencies
a renúncia
a que te viste obrigada

Não desistas
de gritar
tua vida encarcerada

Maria Teresa Horta em Mulheres deAbril

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

POEMA

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado


nem na polpa

dos meus dedos
se ter formado o afago


sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras


sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado


minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda


Maria Teresa Horta em Poesia 70

quinta-feira, 2 de junho de 2022

POEMA

Deixo que venha
se aproxime ao de leve
pé ante pé até ao meu ouvido

 

Enquanto no peito o coração
estremece
e se apressa no sangue enfebrecido

 

Primeiro a floresta e em seguida
o bosque
mais bruma do que neve no tecido

 

Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo

 

Toca então a torpeza e agacha-se
sagaz
um lobo faminto e recolhido

Ele trepa de manso e logo tão voraz
que da luz é a noz
e depois o ruído

 

Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho

 

Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho

 

Sinto-o quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido

 

À medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo

Maria Teresa Horta

terça-feira, 9 de junho de 2020

UM IMENSO VAZIO


Não sei Fátima
explicar
sequer aquilo que sinto

este nada atordoado
esta queda
este vazio

Esta saudade assustada
Uma rosa magoada
A falta do nosso riso

Maria Teresa Horta, na morte de Maria Velho da Costa, Público 25 de Maio

sexta-feira, 10 de abril de 2020

TEMPO



Num atropelo
foram passando os anos

Simulando vagares de eternidade
a burilar os sonhos
que sonhamos e a acrescentar
saudades à saudade

Num sobressalto
fomos tomando o gosto

Às infiéis constelações
das nossas rimas
no rasto de anjos e paixões
feitas de fulgores e neblinas

Num alvoroço
foi-se ganhando o tempo

Tecendo o poeta verso a verso
o corpo da poesia acalentada
no excesso e no gosto do colher
sedento a seduzir cada palavra

Num tumulto
fomos iludindo o nada

Na partilha astuciosa do prazer
numa grande vontade adivinhada
escrever com a língua portuguesa
dizendo do país   Poema e asa

Maria Teresa Horta em Resumo a poesia em 2012

terça-feira, 29 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS



Educação Sentimental

Maria Teresa Horta
Editorial «A Comuna», Lisboa, Fevereiro de 1976

As mãos

Porque das mãos
toda a importância está
no que seguram

Digo-vos:

naquilo que procuram
e afloram por vezes
sem aceite

nem ternura…

Porque das mãos
toda a razão está
no que descuram

Digo-vos:

naquilo que desfrutam
e manipulam por vezes
sem vontade

nem brandura…

sexta-feira, 8 de junho de 2018

QUEM?


                                                    A todas as mulheres anónimas destruídas-
                                                    -assassinadas. Diariamente aniquiladas:

Quem te disse
e propagou
           perdida?

Quem usou
abusou
           da tua voz?

Quem se cansou
te abandonou
           na vida?

Quem se esqueceu
te perdeu
           e em seguida
te acusou do crime mais atroz?

Quem te tirou
dos braços
           tua filha?

Quem mandou pôr
teu nome
         no jornal?

Quem destruiu
o riso
         que ainda tinhas?

Quem te matou
te assassinou
         te envenenou de mal?

Quem recusou de
             ti
tudo o que vinha?

Quem te meteu
no corpo
         este punhal?

Maria Teresa Horta em Mulheres de Abril

Legenda: desenho de José Dias Coelho

domingo, 18 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Mulheres de Abril

Maria Teresa Horta
Capa: José Araújo
Editorial Caminho, Lisboa, Novembro de 1977

Diz

Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

o que fizeram de ti

o que quiseram
que fosses

Como prenderam teu
grito
sob a boca amordaçada

Mas como cantaste
assim
do teu desgosto apartada

Diz mulher
ao teu país

conta a vida em que
cresceste

Como algemaram
teus pulsos

conta aquilo
que aprendeste

Do saque da tua
vida
relata os dias passados

da cadeia em que estiveste
descreve
o pavor rasgado

as torturas que sofreste
o medo nunca acabado

Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

não cales mais
a recusa
do que quiseram que fosses...

não silencies
a renúncia
a que te viste obrigada

Não desistas
de gritar
tua vida encarcerada

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos

Organização de José Mário Silva
Capa: Gito Lima
Companhia das Letras, Lisboa, Novembro de 2017

Auto Retrato

Eu sou outra em mim mesmo
e sou aquela.

Sou esta
dançando entre as lágrimas

Sou o gozo
no gosto de ser espelho
e me faz multiplicar em todo o lado

Eu sou múltipla
veneno em minha veia

Estrangeira
rasgando o seu passado

Sou cruel
dúplice e sedenta
mil vezes morri no desamparo

Eu sou esta que nego
e a outra onde me afirmo
faço nela e naquela o meu retrato

E se na história desta me confirmo
na vida de outra não me traio

Feita de ambas à beira do abismo
sou a mesma mulher nascida em Maio

Maria Teresa Horta

quarta-feira, 1 de julho de 2015

SEGREDO


Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar 

Maria Teresa Horta

(Poema colocado por Nicolau Santos, na página Cem por Cento, Expresso, 23 de Maio de 2015, com esta nota:
Maria Teresa Horta, “Segredo”, editado em Abril de 1971 pela Dom Quixote e apreendido pela pide/dgs EM 3 DE Junhgo desse ano. A proprietária da editora, Snu Abecassis, foi advertida de que a editora seria encerrada se voltasse a publicar obra da poetisa.)

Legenda: pintura de Henri Matisse

sexta-feira, 17 de abril de 2015

SÃO SÍTIOS DE LUTA


Os lugares regulares
que os homens usam

os países

os quartos

e as ruas

são sítios de luta
que precisos
se utilizam na paz
e na procura


Maria Teresa Horta, publicado na Seara Nova nº 1418, Dezembro de 1963

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

JANELA DO DIA


Um júri composto por Vasco Graça Moura, Nuno Júdice e Fernando Pinto do Amaral, atribuiu, por unanimidade, o Prémio Literário D. Dinis a Maria Teresa Horta, pelo romance As Luzes de Leonor, baseado na vida da Marquesa de Alorna.

O livro, editado pela Dom Quixote no ano passado, segundo a autora, demorou 13 anos a ser escrito e implicou muita pesquisa e muita paixão.

Espalhem a notícia, leiam e releiam Maria Teresa Horta e fiquem com a simplicidade deste Roteiro de Lisboa, poema escrito em 1973:

Vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

É uma cidade
cercada colhida
é uma cidade
uma rapariga

Casas de ocultar
os homens lá dentro
mulheres que se mostram
envoltas no vento

Vejam meus senhores
é uma cidade
com seus monumentos
histórias de braçado

Histórias de braçado
que ensinam na escola
um castelo um rei
mais uma glória
vejam meus senhores
é uma cidade
com suas crianças
homens sem idade

Lá em baixo o Tejo
que é nome do rio
a lamber as armas
com suas colunas

Com seus prédios velhos
um rio lá em baixo
a lamber as pedras
as pernas-guindastes

De onde o seus bateis
partiam diurnos
vejam meus senhores
é uma cidade
de mãos empurradas
no fundo sem idade
com suas crianças
homens dos olhos

De bruços o céu
com seus girassóis
Lisboa é cidade
com heróis de luto

Legenda: a fotografia de Maria Teresa Horta é tirada da contra capa do seu livro Educação Sentimental