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sexta-feira, 10 de maio de 2024

ABRIL DE SIM, ABRIL DE NÃO

Eu vi Abril por fora e Abril por dentro

vi o Abril que foi e Abril de agora

eu vi Abril em festa e Abril lamento

Abril como quem ri como quem chora.

 

Eu vi chorar Abril e Abril partir

vi o Abril de sim e Abril de não

Abril que já não é Abril por vir

e como tudo o mais contradição.

 

Vi o Abril que ganha e Abril que perde

Abril que foi Abril e o que não foi

eu vi Abril de ser e de não ser.

 

Abril de Abril vestido (Abril tão verde)

Abril de Abril despido (Abril que dói)

Abril já feito. E ainda por fazer.


Manuel Alegre

quarta-feira, 1 de maio de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


Aquele primeiro 1º de Maio…

 As ruas cheias de gente, homens e mulheres a chorarem, a abraçarem-se, que se chamaram «tu» sem se conhecerem de parte alguma, sonhos buliçosos, uma autêntica nave de loucos, fim de um tempo abjecto, desesperado, os nossos os jovens a morrerem numa guerra inglória.

Não acreditem no que as fotografais dos jornais, os registos dos filmes, mostram.

Foi muito mais do que aquilo que vos é mostrado.

Sabemos, hoje, que esses dias foram de uma perenidade violenta, esperanças frustradas, desilusões, esforços, muitos esforços mas que, pequenos que sejam., eram resultados.

Roubar a alguém o sonho duma vida inteira é pior, e mais imperdoável, do que privá-lo do pão que lhe é devido.

Como escreveu José Gomes Ferreira em Revolução Necessária:

 «A festa do 1º de Maio de 1974, em que milhares e milhares de pessoas vieram para a luz do mundo forra de carne humana e cores livres de bandeiras, os prédios, o céu, o vento, o pesadelo morto. Momento que já principia a parecer um sonho, talvez apenas possível de descrever com a tinta mágica das lágrimas que todos nós trouxemos para a rua nessa tarde tão generosa e inocente.

Mas oxalá essas lágrimas do povo não tenham um dia de gelar até à dureza de balas viris – mutação a que eu também já assisti em ocasiões terríveis de terramotos implacáveis.»

 VINDOS do exílio em Argel, chegam a Lisboa Fernando Piteira Santos e Manuel Alegre.

Manuel Alegre na Praça da Canção tem um poema: Nós Voltaremos sempre em Maio:

Amanhã não estaremos já neste lugar
amanhã a cidade já não terá o teu rosto
e a canção não virá cheia de ti
escrever em cada árvore o teu nome verde.

Amanhã outros passarão onde passámos
farão os mesmos gestos dirão as mesmas palavras
dirão um nome baixo um nome loucamente
como quem sobre a morte é por instantes eterno.

Amanhã a cidade terá outro rosto.
Nós não estaremos cá. Mas a cidade
já não será contra o amor amanhã quando
os amantes passarem na cidade livre.

Nós não estaremos cá. Voltaremos em Maio
quando a cidade se vestir de namorados
e a liberdade for o rosto da cidade nós
que também fomos jovens e por ela e por eles

amámos e lutámos e morremos
nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre
no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados.

OS 
EXILADOS políticos poderão, logo que entenderem, regressar a Portugal e com o pleno exercício dos seus direitos.

A VIOLAÇÃO da correspondência era feita por acção directa da PIDE/DGS e não pelos trabalhadores dos CTT.

O SINDICATO dos Escritórios denuncia que há patrões que não querem pagar o 25 de Abril aos trabalhadores e chegaram a despedir trabalhadores que faltaram nesse dia.

A RÁDIO RENASCENÇA é ocupada pelos trabalhadores com uma nova administração eleita, depois de a anterior administração ter censurado as reportagens da chegada a Lisboa de Mário Soares e Álvaro Cunhal e dos cantores Luís Cilia e José Mário Branco.

AOS POUCOS os jornalistas vão demitindo as direcções e conselhos de administração dos diversos órgãos de informação, colocando nos seus lugares jornalistas e pessoas que estejam com o espírito de Abril.

Eduardo Valente da Fonseca publica no República uma Carta Aberta a alguns jornalistas:

«Vocês que bajularam ministros, presidentes das câmaras, governadores civis, figuras proeminentes da política e da finança, vocês que se bateram à miseranda cartinha com uma gratificação dentro para tecerem toda a espécie de falsos elogios e louvores, que enriqueceram ou passaram a levar um estilo de vida que o vosso magro ordenado não comportava, que se puseram sempre do lado das autoridades contra os trabalhadores e os estudantes, vocês que sob o estado repressivo de Salazar e Marcelo nunca apareceram publicamente a manifestar o vosso desacordo, vocês não são dignos de escrever para um Povo que só agora se apressam a vir dizer que respeitam, e não são dignos de serem lidos por um leitor novo, que começa a despertar para ajudar o verdadeiro jornalista a construir com ele um outro país, uma nova relação humana sem censura nem camaleonismo. Desistam e reformem-se que o Povo, a Cultura e o Jornalismo agradecem.»

O ESCUDO subiu em Nova Iorque, também em Londres, o que é inédito numa revolução.

ANÙNCIO  no Diário de Notícias de 3 de Maio de 1974, um político libertado procura emprego: 


O TEATRO da Cornucópia decidiu suspender a peça que tinha em ensaios para começarem a trabalhar na encenação de «Grandezas e Misérias do III Reich» de Bertold Brecht.

A DIRECÇÂO do Teatro Nacional de S. Carlos decidiu a abolição da obrigatoriedade do uso de traje de rigor que se mantinha para os espectáculos de estreia. Aguarda-se uma nova política de preços.

 DEIXAM de publicar-se dois jornais que apoiavam o antigo regime: Novidades e Debate.

 FRANCISCO Pinto Balsemão pretende fundar um partido de centro-esquerda.

 CHEGAM do exílio no Brasil, Ruy Luís Gomes e José Morgado.

 A JUNTA de Salvação Nacional desmente a prisão de Amália Rodrigues.

 O PAIGC rejeita a autodeterminação de Spínola.

 O EX- MINISTÉRIO das Corporações passa a denominar-se Ministério do Trabalho.

DECRETADA a amnistia a refractários e desertores das Forças Armadas.

 MANIFESTAÇÃO do MRPP impede no Aeroporto o embarque de soldados para as colónias: Regresso imediato dos Soldados! Nem mais um militara para as colónias!

 FORAM em vão as diversas tentativas que o jornal Época fez para que o jornal passasse de intransigente defensor do antigo regime a apoiante do espírito de Abril.

Passou de Época a A Época, depois A Época Livre.

OS TEMPOS em que até os capitalistas respeitavam o Dia do Trabalhador, e faziam-no decretar, como publicidade paga, nos jornais:

domingo, 25 de julho de 2021

OTELO SARAIVA DE CARVALHO (1936-2021)


Morreu Otelo Saraiva de Carvalho.

Controverso, nunca intocável, mas uma referência da nossa História recente.

Em pequeno quis ser actor, mas nunca pensou que a História já lhe reservara um papel transcendente.

Numa daquelas anormalidades com que a justiça, civil e militar, perseguiu Otelo, em Junho de 1979, passaram-no à reserva.

Maria Velho da Costa um dia escreveu: VOCÊS PAGAM!

Não pagaram.

Talvez ainda paguem!

Nesse tempo de Junho de 1979, foi lembrado que há os que ganham mesmo quando perdem e Manuel Alegre escreveu um poema.

 

A ORDEM RESTABELECIDA

 

«Otelo foi passado a reserva.

A ordem foi restabelecida e nessa noite

as pessoas de bem dormiram descansadas.

Mas nalguns bairros de Lisboa

ouvi dizer que os pobres e os sonhadores

alguns poetas

e outros descamisados

da vida

sentiram-se uma vez mais despromovidos.

Eu mesmo

(que não estava de acordo com Otelo)

senti dentro de mim

a página a virar ou se preferem

uma passagem à reserva compulsiva

de qualquer coisa como que partida.

Não propriamente da esperança

(porque essa não será despromovida).

Mas talvez da alegria. Aquela parte de alegria

que não cabe na ordem restabelecida.»

 

quarta-feira, 21 de abril de 2021

PENSAMENTO


 Meu pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.

Meu pensamento
Quebrou amarras
Partiu no vento
Deixa guitarras.

Meu pensamento
Por onde passa
Estátua de vento
Em cada praça.

Foi à conquista
Do novo mundo
Foi vagabundo
Contrabandista.

Foi marinheiro
Maltês ganhão
Foi prisioneiro
Mas servo não.

E os reis mandaram
Fazer muralhas
Tecer as malhas
De negras leis.

Homens morreram
Chamas ao vento
Por ti morreram
Meu pensamento.

Manuel Alegre

domingo, 10 de janeiro de 2021

OS DOMINGOS DE NAMBUANGONGO


Dizia o Manuel da Fonseca que «quando chega domingo faz tenção de todas as coisas mais belas que um pode fazer na vida», Armando da Silva Carvalho «domingo é um bom dia para se olhar a tristeza, o ar anda devagar por essas ruas desertas», António Reis «é domingo hoje mas nós não saímos é o único dia que não repetimos e que dura menos», Alexandre O’Neill «os domingos de Lisboa são domingos terríveis de passar – e eu que o diga». Eugénio de Andrade «o domingo está apenas nos meus olhos e é grande.»

Na minha infância aguardava a chegada dos domingos para ir às matinées do Cine-Oriente, o jantar era melhorado, nem sempre, mas a minha avó fazia uma galinha no forno que nunca mais voltei a comer, aos domingos na Vila Gadanho os homens sentavam-se à porta a ouvir o relato nos rádios de pilhas.

Há domingos assim, dizia o Ruy Belo.

Herberto Helder, que nos anos 70 vivia em Luanda, escreveu crónicas e reportagens para o semanário Notícia. Alguns desses escritos estão reunidos em minúsculas, livro publicado em 2018.

Numa dessas crónicas fala de domingos, «que é um dia chato» os domingos de Nambuangongo, vila, se assim se pode dizer, a menos de 200 quilómetros de Luanda, uma distãncia que as colunas militares, partindo da capital,  demoravam mais de três meses a percorrer, um local que se pode descrever assim: «barracões pré-fabrivadios para alojamento da tropa, quatro habitações, duas casas de comércio, uma igreja, e um campo de futebol improvisado. Uma pista para aviões (térrea), que é também estrada de acesso. E pó, claro - quero dizer: pó escuro. Os militares gracejam: "Quando escarramos, saem tijolos."»

Herberto conta que há vários domingos, um domingo arrefece em Amesterdão e aquece em Nova Iorque  e «trata-se do mesmo domingo». «Um flagelo.»

Lembra ainda que os domingos de Paris têm pombos no Jardim de Luxemburgo, os de Bruxelas arrastam-se pelas cervejarias mas as pessoas aborrecem-se.

«No respeitante aos domingos de Nambuangongo, têm eles uma particularidade: não existem. Eu, pelo menos, andei à procura e não encontrei nenhum. Em abono dos domingos, devo elucidar que também não me foi possível encontrar nenhum sábado, ou sexta-feira, ou quinta, etc. Um extenso dia sem nome, inconsútil e indistinto, faz o tempo de Nambuangongo.

(…)

Um dos aspectos característicos de Nambuangongo é ser um lugar masculino. Não há mulheres. Também, e consequentemente, não existem crianças.

(…)

Não haver mulheres e crianças é (digamos) inquietante. Dá ao lugar uma atmosfera parada, morta. Destitui-o daquela espécie de delicadeza difusa, e alegria sem razão, que aparecem com o elemento feminino e infantil.

Além dos civis solteiros, há os militares. Que se faz num quartel de onde não se pode sair para fazer qualquer coisa fora do quartel? Não existe lugar para onde. Não se pode sair? Pode. Eles saem para a mata em operações. A guerra é, portanto uma ocupação. Po r acaso, um grupo de homens, com alguns dos quais estive a beber e a conversar até tarde na noite, foi opassar o domingo à guerra.»

O poeta Fernando Assis Pacheco esteve nessa guerra, disse ele que a guerra pode passar, mas aquela guerra entrou-lhe para os ossos e não sai.

«Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.»

O poeta Manuel Alegre também por lá andou, em Nambuangongo, onde não há domingos, nem mulheres, nem crianças, mas algo de mais terrível e, por isso, ele nos diz que não vimos nada em Nambuangongo.

«Em Nambuangongo tu não viste nada

não viste nada nesse dia longo longo

a cabeça cortada

e a flor bombardeada

não tu não viste nada em Nambuangongo.

 

Falavas de Hiroxima tu que nunca viste

em cada homem um morto que não morre.

Sim nós sabemos Hiroxima é triste

mas ouve em Nambuangongo existe

em cada homem um rio que não corre.

 

Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto

em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece

em Nambuangongo olhei e fiquei nu. Tu

não sabes mas eu digo-te: dói muito.

Em Nambuangongo há gente que apodrece.

 

Em Nambuangongo a gente pensa que não volta

cada carta é um adeus em cada carta se morre

cada carta é um silêncio e uma revolta.

Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.

E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.


É justo que me fales de Hiroxima.

Porém tu nada sabes deste tempo longo longo

tempo exactamente em cima

do nosso tempo. Ai tempo onde a palavra vida rima

com a palavra morte em Nambuangongo.»

Oitocentos mil jovens foram mobilizados para Angola, Guiné e Moçambique: 11 mil mortos, 40 mil estropiados e deficientes, 140 mil antigos combatentes passaram a sofrer de “stress” de guerra. Sabemos destes números – serão mais? Serão menos? Mas como diz João Paulo Guerra no seu livro Memórias da Guerra Colonial, «não há estatísticas para a solidão, a ansiedade, o medo, o sofrimento, a dor». Há feridas que custam a cicatrizar mas não é o silêncio o melhor remédio. Uma guerra sem sentido, estúpida e inútil. E ninguém perguntou àqueles jovens se queriam ou não participar naquela guerra.
Adeus até ao meu regresso.

De novo, o poeta Herberto Helder:

«Amanhã parto para Luanda, daqui a não sei quantos dias encontrar-me-ei não sei onde. A movimentação da minha vida é ao contrário da imobilidade de Nambuangongo. Quase me tenho por culpado. Mas a minha consciência ganha vantagem à consci~encia dos outros, com sorte bastante para se aborrecerem dominicalmente em sítios e circunstâncias «ferviscosos» É que eu conheço Nambuangongo e os homens de lá – habitantes de um símbolo, de uma significação. Domingos chatos, os deles, mas muito mais importantes que uma quantidade de domingos que andam para aí.»

Hoje, que é domingo, e faz um frio de rachar, consultando a Wikipédia, ficamos a saber que «Nambuangongo é um município da província do Bengo, em Angola, com sede na vila de Muxaluando. Em 2014, tinha 61.024 habitantes. É limitado a norte pelo município de Ambuíla, a este pelo município de Quitexe, a sul pelo município dos Dembos e a oeste pelos municípios de Ambriz e Dande.»

Naquele terrível tempo, Fernando Assis Pacheco deixou escrito que as bombas explodiam na mesa de cabeceira, «onde estive, o capim passava do ombro, a morte passava, e a melancolia.»

E Herberto Helder, nesta crónica do semanário Notícia que temos vindo a ler, deixa desenhado que Nambuangongo «funcionará antes como um significado do que como um lugar, ou mesmo um facto.»

Mas Fernando Assis Pacheco,no agora em que via descer a noite da sua vida, Outubro de 1994, desversando, é muito claro:

«Trinta anos depois continuo revoltadíssimo

V.ª Ex.ª foi de uma grande falta de chá

nem eu precisava de Angola – nunca!

nem Angola de mim – o que hoje parece claro

 

V.ª Ex.ª argumentava nos corredores

que eram ordens do dr. Salazar

ora adeus mandasse-o mas é a ele

tinha bom corpo para apanhar porrada

 

e mesmo V.ª Ex.ª podia ter feito

uma perninha como eu fiz em Zala

não sou de rancores nem pouco mais ou menos

mas aquela merda estava mal parada

 

sabe V.ª Ex.ª o pasmo e a aflição

quando se caía em alguma emboscada?

umas vezes olhava pelo rabo do olho

outras fingia de morto e mijava-me

 

depois voltava-se ao acampamento

para a ternura dos cães e a tarimba rasa

um duche ao ar livre um cigarro infeliz

o gole de cerveja a atirar para o amargo

 

houve um fim de dia entre todos cinzento

que eu me senti o maior dos miseráveis

funesta ideia – e fui a correr esconder

a arma de serviço por sinal uma Walther

 

a esta hora já enterraram V.ª Ex.ª

com as competentes honras militares

mas a verdade é sempre para se dizer

trinta anos passados não me esqueço de nada»

 

Legenda: povoação de Nambuangongo retirada  de Guerra Colonial: Fotobiografia de Renato Monteiro e Luís Farinha.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

E ALEGRE SE FEZ TRISTE


 Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno Agosto.


Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome e demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.

A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde o automóvel se afastava.

E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer adeus: essa palavra
Que fez tão triste a clara madrugada.

 Manuel Alegre em O Canto e as Armas

 Legenda: pintura de Claude Monet

EM TODAS AS ALDEIAS DO MEU SANGUE

Em Outubro de 1969, para destruir a contestação que marcava os dias na Universidade de Coimbra, a ditadura pegou em 49 estudantes contestatários e espetou com ele na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, para cumprimento de serviço militar.

 Coimbra, 17 de Abril de 1969, inauguração do edifício de Matemáticas, o estudante Alberto Martins, no meio da bancada do auditório, onde decorria a cerimónia, levanta-se e interpela a mesa.

 - Em representação dos estudantes da Universidade, peço licença a sua excelência para falar nesta sessão.

 O então presidente Américo Tomás, apanhado de surpresa, diz:

 - Bem, mas agora fala o senhor ministro das Obras Públicas.

 Nos estudantes recrutas enviados para Mafra, encontrava-se Rui Pato, estudante de medicina, que numa manhã apareceu em Lisboa, nos estúdios da Polysom, em Campolide, para a gravação do álbum O Canto e as Armas de Adriano Correia de Oliveira.

 Tal como conta Rui Pato:

 Lembro-me que foi a última gravação que fiz com ele e estávamos ambos na tropa – eu era oficial de Cavalaria em Santarém, ele era da Polícia Militar. Eu fui para o estúdio e ele aproveitou um dia que estava de ronda da Polícia Militar para ir gravar. Encontrámo-nos, ele entrou no estúdio de capacete e pistola, tirou a pistola, colocou-a em cima do piano e gravámos o disco O Canto e as Armas, curiosamente, é gravado com ele aramado e sem despir a farda de alferes.

 A gravação começou de manhã, prolongou-se pela madrugada e teve o precioso cuidado técnico de Moreno Pinto.

Rui Pato, hoje com 74 anos, tirou o curso de médico pneumologista, Adriano Correia de Oliveira morreu em 16 de Outubro de 1982, tinha 40 anos.

 A capa e contracapa do disco, da autoria de J. Bugalho, é uma fotografia que regista a assembleia magna em Coimbra que decidiu a greve aos exames.

 O disco é composto por alguns poemas que constam do livro de Manuel Alegre, publicado em 1967 e abre com E de Súbito um Sino, dito pelo actor Rui Mendes: 

Eis como tudo
entra de súbito
pelas palavras
a terra e o mar
as mãos e as vozes.
Tua guitarra
povo. Teu génio.
E o teu silêncio
é de súbito um sino
tocado pelo vento
em todas as aldeias do meu sangue.

sábado, 21 de março de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


Nestes dias que agora passam, tento convencer-me de que a vida terá de ser simples.

Poucos sucessos, muito poucos mesmo, nesse desejável convencimento.

Não posso sair de casa.

Procuro palavras antigas.

Construir a cidade e dá-la a toda gente.

Lisboa é uma cidade que se vê com os pés. «andando, pensa-se melhor do que sentado», diz o João Botelho

«O que há em Lisboa?» pergunta Bogart na tela da sala escura.

Lisboa de Cesário Verde, «nas nossas ruas, ao anoitecer, há tal soturnidade, há tal melancolia», Lisboa de José Gomes Ferreira, Lisboa do Armindo «decerto esta é a mais bela cidade de todas as cidades do mundo, e hoje toda a cidade me fala de ti», Lisboa de Eugénio de Andrade «alguém diz com lentidão: Lisboa, sabes…». Lisboa de António de Sousa «de mal te conhecer é que eu sofria, cidade clara em tuas sete colinas!», Lisboa «cidade branca» de Tanner. Ou Fernando Assis Pacheco: «se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa», Lisboa que «cheira aos cafés do Rossio, cheira a castanha assada se faz frio. A fruta madura quando é Verão». Lisboa de José  Cardoso Pires, «logo a abrir, pareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar», Lisboa de José Saramago, Lisboa de José Rodrigues Miguéis, Lisboa de Alexandre O’Neill «se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa»,  a «Lisboa menina e moça» de Ary dos Santos, Lisboa do Mário-Henrique Leiria «ao voo do pássaro», Lisboa de tanta e tanta gente, «chamar-te a ti Lisboa camarada e depois eu sei lá enlouquecer», para citar Joaquim Pessoa e Carlos Mendes, Lisboa vista pelo fotógrafo/poeta Luís Eme, guardador das margens do Tejo num Largo da Memória que visito diariamente.


1.

Há dias, Marcelo Rebelo de Sousa fugiu de Belém para a sua casa em Cascais com medo de ser infectado pelo CVID19.

Claro que o país não precisou do Presidente para nada.

Agora o Expresso noticia que Marcelo na segunda-feira vai receber o Ministro das Finanças: para falar da situação económica para lhe pedir que não abandone o governo.

Porque em Fevereiro, o bitaites Luís Marques Mendes dizia na SIC que Mário Centeno já se tinha despedido informalmente dos colegas do Eurogrupo e que iria ocupar cadeira no Banco de Portugal.

2.

O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, voltou a desvalorizar o Covid-19, que já matou mais de 12 mil pessoas em todo o mundo.

«Depois da facada não vai ser uma gripezinha que vai-me derrubar, não».

Que o tal deus não lhe perdoe porque ele sabe o que faz e diz.

3.

Em algumas cidades dos Estados Unidos, convencidos que podem combater a tiro o Corvid-19, continuam as filas à porta das lojas  de venda de armamento.

4.

A Feira do Livro em Lisboa foi adiada para finais de Agosto, princípios de Setembro.

5.

O Corvid-19 pode permanecer quatro horas numa moeda.

6.

Poderia ser tirado de um livro, mas não é.

No rebentar da Primavera, Manuel Alegre escreveu um poema: Lisboa Ainda.

«Lisboa não tem beijos nem abraços

não tem risos nem esplanadas

não tem passos

nem raparigas e rapazes de mãos dadas

tem praças cheias de ninguém

ainda tem sol mas não tem

nem gaivota de Amália nem canoa

sem restaurantes, sem bares, nem cinemas

ainda é fado ainda é poemas

fechada dentro de si mesma ainda é Lisboa

cidade aberta

ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste

e em cada rua deserta

ainda resiste»

7.

Devido ao Covid-19 já morreram 12.977 pessoas no mundo.

A Itália regista 4.825 mortos e a Espanha 1.326.

Em Portugal registam-se 12.80 casos de infectados e 12 óbitos.

8.

A maioria dos portugueses não consegue vislumbrar onde é que as medidas, decretadas pelo governo, podem ajudar os mais desprotegidos.

Se verificarmos que grande parte dos trabalhadores têm contratos precários, não será necessário um grande esforço para ficar a saber que o número de desempregados irá disparar.

Também não sabemos se os pagamentos da luz, da electricidade, da água terão algum apoio por parte do estado.

9.

Assustados, perdidos, nos vamos quedando.

Continuo a apanha de papéis, pedaços de livros, pedaços de músicas, rasgos do quotidiano…

Para onde vamos? Quem nos espera ainda?

Legenda: fotografia de Luís Eme do Largo da Memória

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

NATAL


Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

Manuel Alegre em Natais… Natais

Legenda: «Brilhos de Paz», original pintado com o pé por Ronaldo Pio dos Santos

terça-feira, 1 de maio de 2018

O PRIMEIRO 1º DE MAIO EM LIBERDADE


Frei Bento Domingues em entrevista ao Diário de Notícias:

«Não me recordo bem porque foi um baralhanço total. O que aconteceu para mim de surpreendente foi o 1.º de Maio, foi uma experiência má. Pensava: isto é um país de revolucionários, de repente! Um dos meus ofícios era ajudar pessoas a sair do país, e era uma trabalheira porque eram raros os que se comprometiam. De repente estava tudo na rua. Aqui há batota, pensei.»

Maria Eugénia Varela Gomes em Contra Ventos e Marés:

«Quer dizer: no 1º de Maio juntou-se tudo: os que tinham perdido o medo, os que eram fascistas e queriam desaparecer ou disfarçar... veio tudo para a rua e as motivações eram, evidentemente, as mais diversas. Uma coisa era certa, se aquela multidão de gente fosse mesmo antifascista, todos eles, o regime já tinha caído há muito tempo.»

Sacuntala de Miranda no seu livro Memórias de Um Peão nos Combates pela Liberdade:

«Num estado enorme de exaltação, participei na grandiosa marcha do 1º de Maio, procurando em vão ver caras conhecidas e perguntei-me mil vezes como era possível que tanta gente viesse para a rua vitoriar o fim do regime, quando éramos tão poucos os que tinham lutado contra ditadura.»

Éramos tão poucos…

E como revelam estes velhos recortes, pegados ao acaso, era assim que lutávamos, poucos mas bons, dizia o Helder.

E corríamos à frente da polícia, levávamos porrada, pontapés e cacetadas, mangueiradas de tinta azul, uns presos, estudos interrompidis, profissões perdidas ou prejudicadas, alguns, lembrando Jorge de Sena, não chegaram a ver a cor da liberdade.

Em todos os primeiros de Maio da ditadura. José Gomes Ferreira saía à rua com uma gravata vermelha, percorria as ruas da cidade gritando em silêncio, sabedor-sonhador que um dia, esse grito seria mesmo um ENORME GRITO. 



Época, 1 de Maio de 1973



Diário Popular, 2 de Maio de 1973

NÓS VOLTAREMOS SEMPRE EM MAIO



Amanhã não estaremos já neste lugar
amanhã a cidade já não terá o teu rosto
e a canção não virá cheia de ti
escrever em cada árvore o teu nome verde.

Amanhã outros passarão onde passámos
farão os mesmos gestos dirão as mesmas palavras
dirão um nome baixo um nome loucamente
como quem sobre a morte é por instantes eterno.

Amanhã a cidade terá outro rosto.
Nós não estaremos cá. Mas a cidade
já não será contra o amor amanhã quando
os amantes passarem na cidade livre.

Nós não estaremos cá. Voltaremos em Maio
quando a cidade se vestir de namorados
e a liberdade for o rosto da cidade nós
que também fomos jovens e por ela e por eles

amámos e lutámos e morremos
nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre
no mês de Maio que é o mês da liberdade
no mês de Maio que é o mês dos namorados.

Manuel Alegre em Praça da Canção

domingo, 11 de fevereiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Homem do País Azul

Manuel Alegre
Capa: José Antunes
Círculo de Leitores, Lisboa, Junho de 1990

- Não acredito nesta história, tu não és palestiniano.
- Quem sabe – respondeu -, já te disse que sou de um país azul. Pode ser a Palestina. A Palestina é um país azul.
À noite entregou-me um poema intitulado Palestina. Estava escrito em português:

Há um nome para escrever
Entre uma ferida e outra ferida
Um nome como não haver
Outro lugar para a vida

Há um nome para dizer
Onde só morte se diz
Um nome como não haver
Outro nome de país

Há um nome para morrer
Entre uma esquina e outra esquina
Um nome para nascer
Sobre o cerco e a ruína
Um nome como não haver
Outro sonho e outra sina
Senão a força de ser
Palestina.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS



Um Barco para Ítaca

Manuel Alegre
Colecção Poesia Nosso Tempo nº 2
Nosso Tempo, Águeda 1971

Penélope

Quem és tu ó estrangeiro? Quem és e donde vens?

Velho

Pode o homem ter muitos nomes e não ter nenhum
pode ter um só nome tendo muitos.
Pode ter uma pátria e já não ter nenhuma
ou tendo muitas ter uma só.
Pode ter uma pátria que nunca teve
e pode ter uma pátria que não há.

Penélope

Dizem que sabes notícias de Ulisses
dizem que és cegos mas vês.
Talvez tu saibas o onde
talvez tu saibas o quando.

Velho

Todo o homem tem um navio no coração
todo o homem tem um navio
tem um país a descobrir em cada mão
tem um rio no sangue tem um rio
todo o homem tem um navio no coração.
Todo o homem tem um onde e tem um quando
um tempo de partir um tempo de voltar
sete palmos na terra mil caminhos no mar.
Todo o homem se perde. Todo o homem se encontra.
E tem um tempo em que se mostra. E tem um tempo em que se esconde.
Todo o homem tem um por e tem um contra.
Todo o homem se perde. Todo o homem se encontra:
Todo o homem tem um quando e tem um onde.

terça-feira, 25 de abril de 2017

A RAPARIGA DO PAÍS DE ABRIL


Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

Começa a pátria onde começas. Verde campo
verde mar. Capital da ternura.
Tu és a lâmpada no meio desta festa
com fogueiras e povo dentro dos poemas.

Era a estranha paisagem da pobreza
o cheiro secular das coisas que apodrecem
era a canção cantada pelos bêbados
que vomitam seu fardo de viver.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.

Quando vieste tudo ficou certo.
Encheram-se de trevo os campos das palavras
encheram-se de gente as mãos de cada verso
com sete estrelas sete luas nós cantámos.

E tu disseste: ergue-te e vai.
Não ouves este vento este soluço?
Ergue-te e canta uma canção para o teu povo.
Com sete barcos sete espadas nós partimos.

Raparigas sentaram-se ao redor do poema.
E então cantei de amor por ti cantei
na língua que por vezes é tão triste
a nossa língua que por vezes é assim: tão pura.

Mulher   por ti cantei. E tu me deste
um puro continente algarves de ternura.
Por ti cantei entre meu povo e meu poema
e achei   achando-te   o País de Abril.

Manuel Alegre em Praça da Canção

Legenda: ilustração de Cipriano Dourado.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

MORREU O ASSIS COMO É DO CONHECIMENTO PÚBLICO, COMO JÁ TINHA MORRIDO O ESTEVES DA LEITARIA, O O' NEILL DA SEDA CHINESA EM FEIRA DE CIGANO


Borrifava-se nas editoras e publicava livros, pagos do seu bolso, que oferecia aos amigos

Conheci-o no Diário de Lisboa e voltámos a encontrar-nos no República.

Como disse Joaquim Manuel Magalhães, poeta e crítico literário:

O Fernando Assis Pacheco de que eu gosto tem a obra publicada bem longe dos empórios editoriais cuja distância do poder económico é um acto cultural defender (Centelha, Inova); ou então entregues a esse prazer da auto-publicação lateral, através de opúsculos passados a stencil e quase que difundidos de mão em mão; ou mesmo em ignorados jornais de província.

No República e no semanário O Jornal alimentou secções de recensão de livros, nada de crítica, apenas divulgar o que ia saindo das editoras, lembretes.

Se este seleccionista tivesse o sangue-frio e a quietude táctica de um lagarto dos muros, levava bem melhor a sua cruz semanal ao calvário do fotocomposição: Mas ele é um bicho de entusiasmos: fala alto, escreve a traço grosso, chateia meio mundo quando descobre, fresco ainda dos preços, «o livro». Eis, de seguida, alguns exemplos do ano que vai terminar, com o pedido expresso de que não veja neles o rigor da ordem.

No República chamou-lhe PRONTUÁRIO DAS LETRAS:


Em O Jornal chamou-lhe BOOKCIONÁRIO:


Escreveu livros.

Prontuou e bookcionou os livros de outros.

A morte só lhe poderia marcar encontro numa livraria.

Foi há 20 anos, num findar de Novembro, tal como escreveu Vasco Graça Moura deixou em poema:

com Novembro a findar morreu fernando
assis Pacheco numa livraria,
entrava nela sempre que podia
a ver as novidades e foi quando
de ensaios ou romance ou poesia
alguns volumes ia folheando
que o coração então lhe vacilando
lhe emudeceu a escrita nesse dia


Ou ainda Manuel Alegre:

Não sei se alguma vez nós voltaremos
da guerra onde deixámos partes d’alma.
As minas ainda estão a rebentar
trazemo-las por dentro e ninguém pode
desarmá-las.
A última foi a de Fernando Assis Pacheco
não em Zala ou Balacende nem Quilolo
mas numa pacata livraria de Lisboa
às onze da manhã
essa hora fatídica da emboscada.

Não me venham dizer que foi enfarte
ou acidente cardiovascular. Eu sei
que foi a mina

armadilhada no coração.

Nota do Editor: 
O título é tirado de uma prosa que o jornalista Rogério Rodrigues escreveu na morte do Fernando Assis Pacheco morreu,