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terça-feira, 11 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO



 

Cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas.

Sérgio Godinho

Legenda: pintura de Georg Schrimpf

sábado, 24 de janeiro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


Voltamos à pergunta de Mário de Carvalho:

Não perceberão as pessoas que atravessamos um momento perigosíssimo?

Pelo que se dirá, citando o músico Miguel Guedes, que a 2ª volta da Eleição Presidencial «não é uma escolha, é uma obrigação. Não há negociação ou transigência. A estabilidade e a decência não podem pecar por omissão, muito menos por parte de cada um dos candidatos que não passaram à segunda volta, sendo grotesco que qualquer deles, à Direita, não venha a admitir endereçar o seu voto a António José Seguro.»

A nossa Música Pela Manhã deste sábado, atravessa uma das mais importantes canções de Sérgio Godinho.

É a faixa de abertura do álbum «À Queima Roupa» de 1974:


LIBERDADE

 

Viemos com o peso do passado e da semente

Esperar tantos anos torna tudo mais urgente

e a sede de uma espera só se estanca na torrente

e a sede de uma espera só se estanca na torrente

 

Vivemos tantos anos a falar pela calada

Só se pode querer tudo quando não se teve nada

Só quer a vida cheia quem teve a vida parada

Só quer a vida cheia quem teve a vida parada

 

Só há liberdade a sério quando houver

A paz, o pão

habitação

saúde, educação

 

Só há liberdade a sério quando houver

Liberdade de mudar e decidir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

OLHAR AS CAPAS


O Mistério de Lisboa

Nuno Júdice, Maria Isabel Barreno, Sérgio Godinho, António Ramos Rosa, Fernando Pinto do Amaral, Mário de Carvalho, entre outros

Pinturas: José António Cardoso, Ilda David

Ilustrações: Fernanda Fragateiro, Rui Martiniano

Fotos: José Afonso Furtado

Capa: Fernando Mateus

Relógio D’Água Editores, Lisboa 1993

Havia vendedores de quase tudo: peixeiras com canastas à cabeça, tapadas com um oleado; as várias carroças de hortaliças, de frutas; havia até a carroça do petróleo; e a mulher da fava-rica, e o oculista e o homem das peles de coelho. Alguns não só vendiam como compravam, nesse tempo em que os cordéis se guardavam numa caixa, na despensa, e os papéis também, em que quase tudo valia algum dinheiro, pouco que fosse, e tinha certamente um valor de uso; o das peles de coelho, que comprava as peles frescas e vendia pelas curtidas, o ferro velho, o dos trapos e garrafas. Todos tinham pregões, espécie de logotipo sonoro da época, e hora certa para passar.

(Maria Isabel Barreno)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

POSTAIS SEM SELO

Morrer é saber que não se aprendeu tudo, inclusivamente como morres.

Sérgio Godinho

sábado, 15 de novembro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ

Durante muitos anos persegui os livros de poemas de Margarida Ferra editados pela &Etc., sem nunca os encontrar.

Numa conversa com o Vitor Silva Tavares falei-lhe nisso. Deu uma volta por onde pensou existirem ainda, mas sem sucesso.

Em Março de 2014 tomei conhecimento de Margarida Ferra.

É este o texto de hbmf lido na Antologia do Esquecimento:

«Enquanto lia Sorte de Principiante (&etc, Novembro de 2013), lembrei-me de uma canção de Sérgio Godinho intitulada Dias Úteis. Começa assim: «dias úteis / às vezes pretextos fúteis / pra encontrar felicidades / no percurso de um só dia». E já no final, canta-se: «Por pretextos talvez fúteis / a alegria é o que nos torna / os dias úteis / Por motivos talvez claros / o prazer é o que nos torna / os dias raros». Os poemas de Margarida Ferra (n. 1977) afinam pelo mesmo diapasão, com um ritmo compassado onde a experiência dos “dias úteis”, invocados a páginas 31, solicita cogitações e exercícios reflexivos de ordem desigual. A prosa introdutória intitulada Coisas quentes a baixas temperaturas dá o mote, oferecendo aos leitores de poesia referências familiares. «Mistura o que quiseres», escreve Margarida Ferra, como escrevia o livreiro da Poesia Incompleta quando expunha nos escaparates do seu weblog livros de autores com linguagens diversas (senão mesmo divergentes). Apesar de se dirigir a uma segunda pessoa, este texto funciona como uma arte poética que guiará a versificação subsequente: «Não espreites perfis. Mistura o que quiseres, podes ser duas pessoas ou mais: vender e ser vendido, escrever biografias e cortá-las até terem duas linhas - uma delas pode ser tua, os outros relatos também são falsos. Ouve e copia sotaques alheios, como se a tua família fosse outra. Mistura o que quiseres, não expliques, não te queixes, cita sem saber quem citas. Escreve sempre que precisares». (p. 9) O tom recomendativo, que se repete em alguns poemas, por vezes sob a forma de receita, falível como todas as receitas, não deve iludir-nos. Na realidade, ele dissimula uma insegurança que nada tem que ver com a eventual elevação do sujeito poético face aos seus leitores. Dirigindo-se a outrem, é a si mesmo que se dirige - numa clara renúncia do biografismo que contamina os versos e do confessionalismo que fica sempre aquém da complexidade existencial. A autora protege-se, deste modo, de eventuais confusões entre o texto enquanto expressão do Eu, fixado num tempo e num espaço específicos, e o Eu enquanto edifício mais ou menos estável, singular, em construção permanente até à hora da morte. Pertinente, pois, até pelo movimento que sugerem, a divisão dos poemas em três conjuntos: Poemas do Início, Poemas do Meio, Poemas do Fim, todos eles numerados e apenas por três vezes intitulados (Escreve sempre que precisares, Leio menos do que penso, Não te iludas). Reproduzo os títulos por duas razões: 1.ª tornam perceptíveis a alternância entre o discurso na primeira pessoa e o discurso dirigido a uma segunda pessoa (que, como disse, não suprime a primeira); 2.ª relevam a importância do texto introdutório, chão sobre o qual os poemas despontam e se desenvolvem. Prescrições, instruções, "receituários" são, neste contexto, formas engenhosas de exprimir um esforço de autoconhecimento onde se notam inquietações íntimas e uma certa desarrumação emocional, porventura geradas pelas rotinas da vida doméstica, pelo “tédio”, pelo sedentarismo, pelo adiamento das rupturas ou de acções menos convencionais (ou mesmo por uma certa solidão que advirá da incapacidade de reconhecer a singularidade de um ser esbatido entre multidões): «Apaixonei-me todas as vezes / e ainda assim foram insuficientes / para a idade e dedos que tenho. // Conduzo a alta velocidade, / ignorante dos radares. / Foram pelo menos quinze, / os túneis até hoje. // Escapei ilesa. Frases mal pronunciadas, / suspiros demasiado presentes, / uma t-shirt usada em excesso / em dias de sono longe, / memórias inesperadas, / longas páginas de prosa, / poesia, jornalismo e catálogos / de venda postal / têm-me salvo com frequência / do abismo. // Ensinavas-me a viver longe e / podia acreditar em ti, / se me chamasses / assim e outros termos vulgares, / entre dois vídeos. Só que ninguém / enfrenta a câmara / antes do próximo semáforo» (pp. 16 - 17). Exemplar no desafio que coloca a si próprio, este poema traduz a paisagem do conjunto. Nas entrelinhas, o que torna os dias úteis e respiráveis. Mas também o que os torna fúteis e (até ver) suportáveis».


A  Música pela Manhã de hoje é a canção do Sérgio Godinho, que veio à memória do hmbf enquanto lia  Margarida Ferra, um mágico de palavras e músicas, dos mais brilhantes autores/cantores que temos por aqui.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

POSTAIS SEM SELO

O facto de eu manejar, e penso que bem, a minha língua foi também uma maneira de não perder algo que me era essencial. Até comecei a escrever em francês, porque na altura não conseguia encontrar uma voz própria em português. Mas quando, de repente, isso aconteceu, senti que precisava disso para não perder a minha identidade, através da língua portuguesa.

Sérgio Godinho

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

O DIA INCOMUM DE UM EXILADO VIVENDO ENTÃO EM VANCOUVER

Era muito longe, ou seja

no Pacífico

Notícias de jornal, confusas:

tanques ocupam a praça central

de Lisboa

Digo-me: mal eles sabem que se chama

Rossio

mas digo também: se é a revolução

daquele do monóculo

pouco tenho a esperar

Depois espanto-me: como é possível

que libertem assim

sem mais nem menos

os presos políticos

e prometam a autodeterminação

de colónias

economicamente tão preciosas?

O povo saiu à rua e foi isso

que mudou tudo, explicam-me então

pelo telefone

 

No dia que abalei

para aqui ficar

deixei sem remorsos:

a minha horta

cujos legumes tantas vezes protegi

um trabalho que tanto suspeitava amar

e os amigos que, querendo ser generosos

me disseram:

«Vai, vais ver que não te arrependes»

 

Esquece-se muita coisa…

à força de ver caras novas

não sei se me lembro das antigas

embora as veja tão bonitas

e disponíveis

na memória

e por vezes em fotografia.

 

Sérgio Godinho

terça-feira, 16 de julho de 2024

SIMPLEMENTE, ASSUSTADO!...

«A liberdade está sempre ameaçada, mas existe. Estamos numa altura ingrata em relação às forças de esquerda – que eu defendo -, porque há uma ascensão preocupante da extrema-direita. Não só aqui, mas no resto da Europa. Pensar que o Trump, por exemplo, possa ser o próximo Presidente dois Estados Unidos é assustador.»

Sérgio Godinho, entrevista no Público de 20 de Março de 2024.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Esta é a capa do mês de Abril da  revista «Somos Livros» , distribuída gratuitamente, nas lojas das livrarias Bertrand.

Uma frase de Sérgio Godinho, tirada da entrevista que no corpo da revista deu a Marta Ribeiro:

«Muitas vezes, o povo não é nada sábio.»

segunda-feira, 11 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


           Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                    João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

Nestas Viagens por Abril, no que refere a canções e intérpretes, já falámos de Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Francisco Fanhais, António Macedo, Manuel Freire.

Falamos hoje de Sérgio Godidnho e ainda ficam por referir outros. Lá chegaremos.

Se me perguntassem, assim de repente, quais os cantores de Abril antes de 25, e continuaram depois, os que acreditaram, como disse o poeta, que o poema fosse microfone e falasse uma noite qualquer para que a lua estoirasse, diria:

Adriano, José Afonso, Manuel Freire, Sérgio Godinho, José Mário Branco.

Há outros?

Sim, há algunns alguns de quem gosto mesmo, Samuel, Fausto, por aí fora…

Para falar do Sérgio pego num dos muitos grandes álbuns do Sérgio Godinho: À Queima Roupa.

O melhor?

Que seja, ou não, mas possui na primeira faixa do lado A uma das melhores entradas de canções portuguesa. Só portuguesas?

«A paz, o pão, habitação, saúde, educação.»

Começado em Vancouver, onde Sérgio vivia com sua mulher, Sheila Charlesworth, continuado e finalizado em Lisboa, nos estúdios da Rádio Triunfo, com José Fortes como engenheiro de som.

Dizem que o ódio é baboseira

E que a raiva é má conselheira

Mas nós com o grande capital

Damo-nos mesmo muito mal

Damo-nos mesmo muito mal.

O grande capital

Está vivo em Portugal

E quem não o combate

É que dele faz parte.


Li  o Pela Estrada Fora de Jack Kerouac antes de saber quem era o Sérgio Godinho.


Antes do álbum, chegou o EP com Romance de um Dia na Estrada, perdido não se sabe onde. Uma capa com roxos e o rosto Sérgio em negativo.

Quando ouvi a música, liguei-a, de imediato, a Kerouac. Anos mais tarde Sérgio Godinho há-de confirmar que a música tem muito do “on road”.

O LP  Sobreviventes tem outras canções fortes, que força é essa que trazes nos braços ou aprende a nadar companheiro que a liberdade está a passar por aqui, entre a rua e o país vai o passo de um anão, mas é esta a minha preferida. E Kerouac tem muito a ver com esse gosto:

«…porque as únicas pessoas autênticas para mim são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por ser salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, aquelas que nunca bocejam ou dizem um lugar comum, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas peças de fogo-de-artifício a explodir entre aranhas, entre estrelas…»

Há dias, pouquíssimos dias, perguntaram ao Sérgio que como estamos à beira de eleições legislativas, como é que ele olhava para a situação do país.

Não demorou  a resposta:

«Vivemos tempos estranhos, interna e externamente, mas se calhar os tempos sempre estiveram estranhos. Somos um país extremamente imperfeito em muitos setores. E parece que há coisas que emperram e que já deviam ser mais ágeis. Desde há anos que é absolutamente indispensável que todos os portugueses tenham um médico de família, o que, no fim de contas, é uma consequência do Serviço Nacional de Saúde, mas atualmente temos mais de um milhão e meio de pessoas sem médico de família. Isso é uma constatação de falência ou, pelo menos, de insuficiência. E há que trabalhar em todos esses aspetos. A Justiça, por exemplo, é outro setor que tem muito a ser trabalhado. Portanto, vivemos num país que tem uma democracia sim, mas uma democracia muito imperfeita. Mas também não gosto daquela conversa de que isto já nem é democracia. Claro que é! Simplesmente é muito imperfeita. Tanto mais que atualmente temos ameaças de extrema-direita tanto cá, como noutros países da Europa. E mais longe, na América, quando se pensa que o Trump pode ser reeleito é de arrepiar. E para além das guerras que decorrem...

Vai-se vivendo o presente, esperando que o futuro seja um bocado melhor. As utopias não são realizáveis. Temos, sim, de estar um passo à frente.»

sábado, 20 de janeiro de 2024

DEU-ME UM BAQUE!

Manuel António Pina foi colega de Sérgio Godinho no 6º e 7º Anos do liceu. 

Estavam em áreas diferentes, mas tínham cadeiras comuns. 

Foi o Pina que lhe mostrou Pela Estrada Fora do Kerouac. Foi também ele que lhe mostrou as Odes Elementares de Pablo Neruda - «Deu-me um baque!»

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

NOTÍCIAS DO CIRCO


Com o país mergulhado numa crise infernal:  falta paz, pão, habitação, saúde, educação, como cantava o Sérgio, o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, não encontrou nada melhor, para enchouriçar o seu discurso de ontem, do que  determinar e mandar publicar que Lisboa irá fazer uma enorme e festiva comemoração sobre o 25 de Novembro.

E mistérios dos mistérios, os direitistas, nestes quase 50 anos, nunca organizaram qualquer manifestação comemorativa do 25 de Novembro, não por seguirem o exacto  grito lançado por  Maria Velho da Costa,  «ESTE DIA NÃO!, mas simplesmente porque  lhes faltam dedinhos para a fraca guitarra que possuem.

No Público de 26 de Novembro de 2000,  Adelino Gomes perguntava:

Quem desencadeou o 25 de Novembro? Quem deu ordem aos páras para ocuparem quatro bases aéreas? Otelo traíu os seus homens ou evitou a Guerra Civil? O PCP de que lado(s) esteve? Até onde chegavam as ligações aos MDLP? Quantos grupos funcionaram dentro do Grupo dos Nove? Qual foi a mais decisiva: a Região Militar do Norte (MN) ou a Região Militar de Lisboa (RML)?; o Posto Avançado da Amadora, comandado pelo então tenente-coronel Ramalho Eanes, ou o Posto de Comando Principal, montado em Belém, e onde ficaram o Presidente Costa Gomes e o comandante da RML e Conselheuro da Revolução, vasco Lourenço? Quantos 25 de Novembro houve naquele dia?

O 25 de Novembro existiu?

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

OLHAR AS CAPAS


Retrovisor

Nuno Galopim

Assírio & Alvim, Lisboa,  Maio de 2006

Há ainda em Campolide um tema instrumental da banda sonora de Le Soleil en Face e que representa a primeira vez que Sérgio Godinho compôs para guitarra portuguesa, sempre com a memória de Carlos Paredes a assaltá-lo: «Inspirei-me assumidamente no seu fraseado – aliás na minha memória do seu fraseado… Foi uma homenagem íntima ao seu génio e a tudo o que ele me deu. Cheguei a pensar pôr-lhe uma letra, mas não faria sentido».

sábado, 25 de fevereiro de 2023

MÚSICA PELA MANHÃ


Numa entrevista, não muito recente, Carlos Tê disse que Romance de um dia na estrada, de Sérgio Godinho, Queixa das almas jovens censuradas, poema de Natália Correia cantado pelo Zé Mário Branco, «foi algo que lhe tocou que o obrigou a pensar. Ouvi-os no Página Um do José Manuel Nunes e a sensação foi “Espera lá, alguém me está a falar de um sítio qualquer e na minha própria língua”. Foi um sinal.»

«Haverá sempre alguém, em qualquer parte do Mundo, que nunca tendo lido um livro será alcançado por um bocadinho de poesia que a canção traz. Uma arma invencível e por isso planetária. Fui tocado várias vezes. Ouvir as coisas do (Leonard) Cohen, “Songs of love and hate”, por exemplo, e sem perceber exactamente o que estava em causa ou o que ele queria dizer com aquilo, saber que estava ali poesia. Que a canção entrava pela poesia e que a poesia entrava pela canção.»

Por fim: «Nunca me lamentei por estar sozinho.»

As duas canções de que fala Carlos Tê, são as mesmas que me levaram a comprar os discos do Sérgio e do Zé Mário, duas canções notáveis, principalmente Romance de um dia na estrada, que cheguei a ter em EP, editado pela Guilda Música, Prémio de Imprensa de 1971, misteriosamente desaparecido, como tantos outros, muito antes do LP.

Andava há já vinte dias
Ao frio, ao vento e à fome
Às escondidas da sorte
Um dia fraco, outro forte
Que o dia em que se não come
É um dia a menos para a morte
Um dia fraco, outro forte

Quando um barulho de cama
A voltar-se de impaciente
Me fez parar de repente
Era noite e o casarão
Não tinhas lados nem frente
Dentro havia luz e pão
Me fez parar de repente

Ó da casa, abram-me a porta
Fiz as luzes se apagarem
Cheguei-me mais à janela
Vi acender-se uma vela
Passos de mulher andarem
E uma mulher muito bela
Chegou-se mais à janela

Não tenhas medo, eu não trago
Nem ódio nem espingardas
Trago paz numa viola
Quase que não fui à escola
Mas aprendi nas estradas
O amor que te consola
Trago paz numa viola

Meu marido foi pra longe
Tomar conta das herdades
Ela disse "Companheiro"
Eu disse "Vem", ela "Tu primeiro"
"Tu que me falas de estradas"
"E eu só conheço um carreiro"
Ela disse "Companheiro"

A contas com a nossa noite
Afundados num colchão
Entre arcas e um reposteiro
Descobrimos um vulcão
Era o mês de Fevereiro
E o Inverno se fez Verão
Descobrimos um vulcão

E eu que falava de estradas
E só conhecia atalhos
E ela a mostrar-me caminhos
Entre chaminés e orvalhos
Pela manhã, sem agasalhos
Voltei a rumos sozinhos
E ela a mostrar-me caminhos

Andarei mais vinte dias
ao frio, ao vento e à fome
Às escondidas da sorte
Um dia fraco, outro forte
Que o dia em que se não come
É um dia a menos para a morte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte

sábado, 30 de maio de 2020

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O nº 8 de Notícias deBloqueio é dedicado à poesia africana de expressão portuguesa.

Encontramos poemas de António Jacinto, Mário António, Viriato da Cruz e Agostinho Neto.

Um dos poemas de Viriato da Cruz é O Namoro para o qual Fausto arranjou música e que Sérgio Godinho incluiu no seu álbum De Pequenino se Torce o Destino, editado em 1976, e garanto-vos que é uma maravilha de canção.

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei á Avo Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

DOCES, DOCES, DOCES


Por este tempo de Natal quase a findar, tenho, sempre, comigo o sabor do perú, nos jantares de Natal e Ano Novo, o sabor das tangerinas, metia-se um dedo na casca e o fruto saía por inteiro, e eram doces, doces, doces.

Há um livro de Pablo Neruda que se chama Odes Elementares, em que o poeta louva vegetais, frutos, comidas típicas, amigos, cidades, os homens, o trabalho, tanta coisa, que modela e transforma-as em versos.

Tão simples como respirar, mas aquela simplicidade que só está ao alcance de gente que busca horizontes.

Num total de 68, encontramos odes à alegria, ao amor, às aves do Chile, ao caldo de congro, à cebola, à crítica, à inveja, à esperança, à apanha dos pássaros, à preguiça, ao tomate,a o vinho, ao murmúrio,  a um relógio na noite.

Gostava que houvesse, mas não há, uma ode à tangerina.

Desde os meus tempos de infância que gosto do cheiro e do sabor da tangerina.

Tenho nos olhos as tangerinas, descansando na fruteira, para os jantares de Natal e Ano Novo.

Acontecia existir alguma míngua nas restantes refeições do ano, mas estes jantares eram sagrados.

deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

tal como escreveu Eugénio de Andrade.

Mas, parece, já não existirem tangerinas.

Apenas algo parecido, nomes como nectarinas, clementinas sei lá…

Sérgio Godinho, no seu álbum Tinta Permanente tem uma canção a que chamou O Primeiro Gomo da Tangerina.

Todos vieram
ver a menina
ao primeiro gomo de tangerina
menina atenta
não experimenta
sem primeiro
saber do cheiro
o sabor dos lábios
gestos sábios
Fruta esquisita
menina aflita
ao primeiro gomo de tangerina
amarga e doce
como se fosse
essa hora
em que chora
e depois dobra o riso
e assim faz seu juízo
Sumo na vida
é o que eu te desejo
um beijo um beijo
Ah, que se lembre
sempre a menina
do primeiro gomo de tangerina
p´la vida dentro
é esse o centro
da parcela da vitamina
que a faz crescer sempre menina
A terra é grande
é pequenina
do tamanho apenas da tangerina
quem mata e morra
nunca percorre
os caminhos do que há de melhor
nesse sumo
a vida, gomo a gomo
Sumo na vida
é o que eu te desejo
rumo na vida
um beijo
um beijo
Cheira, prova, experimenta...
O acontecimento é único
(a menina nunca antes provou nada assim)
e, por isso, todos vêm ver.
Será que vai gostar?
Vida fora, não esquecerá este primeiro gomo,
que, diz ela, tem o sabor da primeira vez.

E os Beatles, num dos álbuns mais extraordinários dos anos 60, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, numa das canções mais polemicas – e elas são tantas! -  com a Lucy, à espera de que ela virasse para mim os olhos caleidoscópicos, também se fala de tangerinas… mas não só…

Imagina-te num barco num rio
Com árvores de tangerinas e céus de doce de laranja
Alguém te chama, respondes muito lentamente
Uma miúda com olhos de caleidoscópio
Flores de celofana amarelas e verdes
Elevam-se sobre a tua cabeça
Procura a miúda com o sol nos olhos
E ela foi-se embora.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.


segunda-feira, 25 de abril de 2016

OLHAR AS CAPAS


Poemabril

Antologia Poética
Coordenação e nota prévia de Carlos Loures e Manuel Simões
Capa: Guy Ferreira
Nova Realidade, Tomar, 1984

O Dia Incomum de Um Exilado Vivendo Então em Vancouver

Era muito longe, ou seja
no Pacífico
Notícias de jornal, confusas:
tanques ocupam a praça central
de Lisboa
Digo-me: mal eles sabem que se chama
Rossio mas digo-me também: se é a revolução
daquele do monóculo
pouco tenho a esperar
Depois espanto-me: como é possível
que libertem assim
sem mais nem menos
os presos políticos
e prometam a autodeterminação
de colónias economicamente tão preciosas?
0 povo saiu à rua e foi isso
que mudou tudo, explicam-me então
pelo telefone.
No dia em que abalei
para aqui ficar
deixei sem remorsos:
a minha horta
cujos legumes tantas vezes protegi
um trabalho que tanto suspeitava amar
e os amigos que, querendo ser generosos,
me disseram:
«Vai, vais ver que não te arrependes»
Esquece-se muita coisa...
a força de ver caras novas
não sei se me lembro das antigas
embora as veja tão bonitas
e disponíveis
na memória
e por vezes em fotografia.

Sérgio Godinho

quinta-feira, 21 de abril de 2016

MARGEM DE CERTA MANEIRA


Abril.

Margem de Certa Maneira

Eh Companheiro!
Música de José Mário Branco
Letra de Sérgio Godinho



Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou pra te falar
Estas paredes me tolhem
os passos que quero dar
uma é feita de granito
não se pode rebentar
outra de vidro rachado
p'ras duas pernas cortar

Eh! Companheiro resposta
resposta te quero dar
Só tem medo desses muros
quem tem muros no pensar
todos sabemos do pássaro
cá dentro a qu'rer voar
se o pensamento for livre
todos vamos libertar

Eh! Companheiro eu falo
eu falo do coração
Já me acostumei à cor
desta negra solidão
já o preto que vai bem
já o branco ainda não
não sei quando vem o vento
pra me levar de avião

Eh! Companheiro respondo
respondo do coração
ser sozinho não é sina
nem de rato de porão
faz também soprar o vento
não esperes o tufão
põe sementes do teu peito
nos bolsos do teu irmão

Eh! Companheiro vou falar
vou falar do meu parecer
Vira o vento muda a sorte
toda a vida ouvi dizer
soprou muita ventania
não vi a sorte crescer
meu destino e sempre o mesmo
desde moço até morrer

Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou p'ra responder
Sorte assim não cresce a toa
como urtiga por colher
cresce nas vinhas do povo
leva tempo a amadur'cer
quando mudar seu destino
está ao alcance de um viver

Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou pra te falar
De toda a parte me chamam
não sei p'ra onde me virar
uns que trazem fechadura
com portas para espreitar
outros que em nome da paz
não me deixam nem olhar

Eh! Companheiro resposta
resposta te quero dar
Portas assim foram feitas
p'ra se abrir de par em par
não confundas duas coisas
cada paz em seu lugar
pela paz que nos recusam
muito temos de lutar.


quarta-feira, 9 de março de 2016

ATÉ NUNCA MAIS!


Cavaco já se foi.
Para a Travessa do Possolo, para a Casa da Coelha, para o raio que o parta!
Como cantava o Sérgio Godinho: 
Pode alguém ser quem não é!

quarta-feira, 15 de abril de 2015

VELHOS DISCOS





Conheci O Namoro na versão de Sérgio Godinho.
Um poema de Viriato Cruz com música do Fausto.
Faz parte deste velho disco de 1976: De Pequenino se Torce o Destino
Num concerto na Aula Magna em Maio de 1983, os Trovante deram-lhe uma outra ambiência, mas continuo a preferir a versão do Sérgio.

É uma canção deliciosa.

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe uma carta
e ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão
que o Maninjo tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.
Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.
Andei barbado, sujo, e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu...(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
E para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário

Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.