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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

OLHAR AS CAPAS

As Caixas Chinesas

António Mega Ferreira

Capa: José Teófilo Duarte

Edições Rolim, Lisboa, Lisboa, Abril, 1988

As pás da ventoinha giram lentamente, com um ruído regular, seco. Devia ser alguma mola solta, uma após outra, as pás embatiam no obstáculo, abrandavam, depois retomavam o movimento. Martinho Dante viu o criado aproximar-se. Deteve-se junto `*a mesa, com as mãos cruzadas à frente do corpo. Marinho pediu com aplicação um gin tonic. O outro repetiu, como a certificar-se de que tinha ouvido bem: “Com água tónica?”

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

OLHAR AS CAPAS


 Roteiro Afectivo de Palavras Perdidas

António Mega Ferreira

Capa: V. Tavares

Tinta-da-China Editores, Lisboa, Outubro de 2022

Quando viro o espelho retrovisor da memória para o percurso da minha já longa vida, é sob a forma de palavras que as diversas etapas, episódios ou afetos me aparecem. Muitas dessas palavras eram para mim correntes à data dos sucessos que nomeiam e descrevem; mas, resgatadas hoje, parecem-nos obsoletas, fora de uso, inutilizadas. Que mistério envolve o envelhecimento e a obsolescência das palavras? Porque caem em desuso termos como trampolineiro, infernizar e larápio (ao longo deste livro, as palavras que tenho por «perdidas» aparecem sempre em itálico), mesmo quando as realidades que nomeiam se mantêm presen‑ tes, ainda que sob outras formas?

Confesso que é com alguma nostalgia que me lembro de certas palavras da minha juventude, cujo fulgor rutilava no intenso fascínio do significante, antes mesmo que o que elas queriam dizer tivesse para mim um significado inteligível. Colhera o belo verbo nas «rútilas estrelas» de Gonçalves Crespo e só mais tarde soube que rutilante (arruivado, doura‑ do, cintilante) era um elegante latinismo de Camões (de rutilans, rutilantis), possivelmente acolhido por via castelhana. Porém, aqui não me refiro tanto às palavras «caras», que os adultos pronunciavam com aplicação e algum pretensiosismo, quanto às outras, as que povoavam a conversação, nem sempre densas de uma história multissecular, mas às palavras sem traço de novo-riquismo, nobres apenas porque enraizadas na fala vulgar da cidade de Lisboa, onde nasci, cresci e sempre vivi. Resgatar palavras do relativo esquecimento em que caíram é desencadear exercícios de reminiscência pessoal sobre os modos, as circunstâncias, o tempo em que elas foram correntes.

Ao longo dos anos, fui registando numa lista laboriosa palavras que fui perdendo, palavras que tiveram um tempo no meu discurso (na minha vida?), ou que, pelo menos, nela traçaram um rasto fulgurante de cintilações afetivas rapidamente extintas no céu do meu olvido. O que tinha em mente era uma coletânea de murmúrios e reminiscências, de segredos e memórias, um inventário de adversidades e afetos, cada uma das nossas histórias dando às palavras o sentido que lhes atribuí‑ mos, em lentas, sucessivas, respeitosas aproximações. Mas o que resultasse não seria um exercício lexicográfico, muito me‑ nos filológico, e só instrumentalmente etimológico: antes, um álbum de memórias vazadas em palavras cujo eclipse parcial me apetecia resgatar pela evocação, mais um roteiro do que um dicionário. Nada nele seria exaustivo: na realidade, me‑ nos de um terço das palavras listadas acabou por vir à escrita (80 de uma lista de 250). E, dessas, nem todas desapareceram da fala comum; algumas delas apenas se tornaram mais raras, menos correntes, mais «antigas».

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Retratos de Sombra

António Mega Ferreira
Capa: polaroid de Ilda David
Assírio & Alvim, Lisboa, Maio de 2003

E, no entanto, Marguerite Yourcenar não se encerrara num esplêndido isolamento, que fosse indiferente ao destino dos homens: «É evidente que desejaria transformar o mundo. Sobretudo, porque gostaria que os homens fossem mais lúcidos e se preocupassem mais em tornar a vida suportável do que em complica-la». Por isso interessava-a mais a destruição das coisas, da Natureza, do ambiente, do que as reviravoltas da memória humana: «Sem dúvida, cada país, casa povo, cada Governo, tenta dar da História uma certa imagem que lhe convém. Nesse sentido, pode falar-se de uma certa falsificação da memória, mas não creio que, a não ser em casos-limite, o Poder seja necessariamente inconciliável com a necessidade de preservação do passado na memória humana».