Sim, havia o cansaço
da guerra.
Mas havia uma parte
dos militares que perspectivavam outros caminhos.
Dinis de Almeida esteve
no pelotão dos que olhavam esses caminhos.
Os seus Diários são
peças importantíssimas para se entender como eram os olhares de uma parte dos
capitães sobre o modo de olhar a situação que o país vivia.
Em Maio de 1973, no
Restaurante Snack-Bar «Galeto» tenta o aliciamento de um camarada:
- Temos de mudar isto.
Recordando os
acontecimentos verificados na Capela do Rato cita uma carta do Padre Sampaio
para o Padre Bertulli:
«Sinto-me reduzido a uma igreja de silêncio, em que a verdade é
escondida e o Evangelho traído descaradamente».
Como, um dia, lembrou Manuel
António Pina:
«Porque houve um tempo em que tivemos esperança. E, provavelmente, fé.
Um tempo em que acreditámos em coisas maiores, em palavras e ideias por que
valia a pena morrer. Também, no entanto, as nossas palavras, mesmo as mais
desmesuradas, sucumbiram à trivialidade e à pequenez. E hoje olhamos em volta e
vemos muitos dos que connosco partilharam a confiança e a esperança entre as
piores dos porcos, dos feios e dos maus.»
Está por fazer toda a
História do MFA e de tudo o que depois se seguiu.
Nos 20 anos do 25 de
Abril, num inquérito sobre os melhores e os piores acontecimentos, José
Saramago, ironicamente, entre outras coisas, escreveu:
«… o pior do 25 de
Abril foi o 25 de Novembro; o pior de Otelo foi Saraiva de Carvalho, o pior de
Vasco Gonçalves foi Vasco Lourenço, o pior do Primeiro de Maio foi o Dois de
Maio…»
Nesta hora, recorrer
a Maria Velho da Costa quando gritou que eles hão-de pagar:
«Foram longe de mais. Nem um mês, nem uma no, nem um século decorrerão
sem que vos roa um a um as entranhas e pague com a pior peste a ousadia de
cercar-me à traição. De limitar-me a voz, os acessos, a vida. Pela voz de todos
os que aqui feneceram de excessos e ardores, os meus poetas, os meus desmesurados
de sempre, os meus cidadãos da aventura, os grandes viajantes, eu vos
amaldiçoo.»
Se me pedissem para
encontrar uma canção para lembrar Dinis de Almeida, dirigia-me a Ella Fitzgerald
e punha a rodar «The Old Rugged Cross», uma lindíssima canção godspel utilizada
largamente na luta pelos direitos humanos, principalmente dos negros.
Numa colina longínqua estava uma velha cruz robusta, a imagem da dor e
da vergonha e lembro-a onde o mais querido de todos foi morto e agarro-me
fielmente àquela velha e robusta cruz.