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quinta-feira, 5 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


Os amigos não morrem: andam por aí, entram por nós dentro quando menos se espera e então tudo muda: desarrumam o passado, desarrumam o presente, instalam-se com um sorriso num canto nosso e é como se nunca tivessem partido. É como, não: nunca partiram.

António Lobo Antunes  de uma crónica na Visão.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Em relação à escrita é curioso porque eu acho que os livros não são escritos deliberadamente, eu não faço planos. A mão anda sozinha. Quem é que a faz andar? Quem é que a faz andar?

António Lobo Antunes

domingo, 13 de abril de 2025

POSTAIS SEM SELO

Os comboios sempre me fizeram sonhar. Os comboios? Quase tudo me faz sonhar, que esquisito.

De uma crónica de António Lobo Antunes

sábado, 30 de novembro de 2024

POSTAIS SEM SELO

E é Natal outra vez. Está sempre a ser Natal, que, coisa, a velocidade com que os Natais se sucedem.

António de Lobo Antunes Terceiro Livro de Crónicas

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

POSTAIS SEM SELO


Pode esquecer-se a guerra, mas ela não nos esquece. Deu cabo da nossa juventude e há-de dar cabo da nossa velhice.

António Lobo Antunes

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

POSTAIS SEM SELO


 Tudo isto se passou há muito tempo mesmo o que acaba de acontecer agora.

António Lobo Antunes

terça-feira, 22 de junho de 2021

POSTAIS SEM SELO


Como moro num rés-do-chão abro a janela e vejo os pombos. Há meses que não faço quase nada senão a abrir a janela e ver os pombos.

António Lobo Antunes

sábado, 8 de maio de 2021

POSTAIS SEM SELO



 

Tenho uma colecção enorme de silêncios.

António Lobo Antunes

domingo, 7 de fevereiro de 2021

MOSCAVIDE, AOS DOMINGOS

Naqueles anos 60, pelas tardes de domingo, na Praça do Chile, apanhavam-se aqueles autocarros verdes de dois andares, e ia-se às tascas de Moscavide comer filetes de bacalhau, berbigões, moelas estufadas, bifanas a nadarem em molhanga.

Por vezes, depois dos comes-e-bebes, íamos para o Aeroporto da Portela ver os aviões chegarem, ver os aviões partirem.

Em Moscavide, que já não tem nada a ver com a outra, a última vez que por lá passei,  um ror de anos, já não havia tascas, apenas snacks, um homem de 76 anos, ex-combatente da guerra em Angola, pela tarde de 25 de Julho do passado ano, matou o negro Bruno Candé, actor de teatro.

Numa rua movimentada, após uma discussão por causa da cadela de Candé, o ex-combatente correu a casa buscar uma arma e desfechou cinco tiros sobre o actor. À polícia, disse que, no meio da discussão, Candé lhe lançou um riso em tom de gozo.

As últimas notícias davam-no como não estar arrependido do crime que cometeu. Quando entrou na prisão terá dito; «Em Angola, matei vários como este.»

Testemunhas contaram que há algum tempo o criminoso andava a insultar Candé: «Volta para a tua terra.»

Será julgado por homicídio qualificado, posse de arma ilegal, que terá siso roubada, nos anos 90, à PSP.

O actor Bruno Candédeixou três filhos menores.

Nunca acompanhámos os combatentes das guerras coloniais.

Como partiram... como chegaram…

Há dias, publicou-se aqui no Cais, um Postal Sem Selo: mostrava a fotografia de uma manifestação de Deficientes da Guerra Colonial, a que se juntou uma frase de António Lobo Antunes:

 Felizmente que a tropa há-de torná-lo um homem.

Toda uma juventude serviu de carne para canhão para defender o que nem sequer era nosso.

O Jorge de Sena tem um poema, simplesmente arrepiante, que marca o quanto foi possível aqueles ditadores de pacotilha terem resistido tanto tempo:

«Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha e alguns
de guerras africanas, encontrei uma vizinha
muito estimável que era casada com
um operário categorizado e antigo republicano.
O filho dela estava nas Africas, arriscando
a vida dele e a dos outros em defesa
do património da pátria de alguns (muito mais
que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).
Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.
E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:
- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!»

Foram apenas carne de canhão.

Regressados, cada um que se amanhasse, ficassem com os seus traumas de guerra, tivessem noites sem dormir, ou noites repletas de pesadelos, o acordarem sobressaltados a ouvirem tiros, o lembrar dos companheiros mortos, que transportassem no seu quotidiano o ódio e a raiva que podem levar ao assassínio de um negro por um simples riso entendido como gozo.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

POSTAIS SEM SELO


 Felizmente que a tropa há-de torná-lo um homem.

António Lobo Antunes em Os Cus de Judas

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO



A minha família, talvez como todas, não é um conjunto uniforme de pessoas, antes uma soma de solidões unidas por um vínculo, feito de memórias partilhadas e de frases que de tão repetidas, ao longo de anos se tornaram as correntes que nos prendem.

Nuno Lobo Antunes

Legenda: António Lobo Antunes e os irmãos. Imagem da revista Sábado.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Não me sacudam que estou cheio de lágrimas.

Louis Calaferte, citado, numa entrevista, por António Lobo Antunes

quarta-feira, 18 de julho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Sou já em alguns crepúsculos de verão, na praia, vendo o sol desaparecer na água e a minha vida com ele, sobretudo a saudosa fracção da minha existência em que, aos dezoito anos, era o pavor das mães e o regalo das filhas nos bailes de sábado dos Bombeiros Voluntários Lisbonenses, me murmurava, durante os boleros
- Tem os olhos tão azuis, seu fofo
isto as filhas claro, o que as mães murmuravam quando me aproximava para uma nova dança era mais no género
-Desapareça antes que chame o meu marido que é estivador e lhe dá um murro no alto da cabeça que fica oito dias a cuspir brilhantina

António Lobo Antunes em Quarto Livro de Crónicas.

Legenda: fotografia de Janine Niépce

terça-feira, 8 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega sempre tarde demais.

António Lobo Antunes, citando Joseph Conrad numa crónica na Visõo

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

domingo, 17 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Há quanto tempo não recebo postais. Uma carta de vez em quando, papelada da agência, das editoras, dos tradutores mas postais, postais-postais, népia. E aqueles que andam por aí, sei lá porquê, não me mandam nenhum. Ou mandam-se a si mesmos e acham que chega. E, em certo sentido, chega. Mas umas palavrinhas, num cartão, caíam bem, há alturas em que umas palavrinhas num cartão caíam bem. Não sei porquê mas caem bem.

António Lobo Antunes em Quinto Livro de Crónicas

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Médicos: se a gente os deixar põem-nos no cemitério em menos de um fósforo.

António Lobo Antunes em Terceiro Livro de Crónicas

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


E é Natal outra vez. Está sempre a ser Natal, que, coisa, a velocidade com que os Natais se sucedem.

António de Lobo Antunes no Terceiro Livro de Crónicas

Legenda: postal pintado com a boca por Jan Sporek

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Aqui, pensou o médico, desagua a última miséria, a solidão absoluta, o que nós próprios não aguentamos suportar, os mais escondidos e vergonhosos dos nossos sentimentos, o que nos outros chamamos de loucura que é afinal a nossa e da qual nos protegemos a etiquetá-la, a comprimi-la de grades, a alimentá-la de pastilhas e de gotas para que continue existindo, a conceder-lhe licença de saída ao fim de semana e a encaminhá-la na direcção de uma «normalidade» que provavelmente consiste apenas no empalhar em vida.

António Lobo Antunes em Memória de Elefante

sábado, 18 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Gosto de animais porque não discutem a existência de Deus.

Walt Whitman citado por António Lobo Antunes numa entrevista ao Expresso.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros.

António Lobo Antunes em Quinto Livro de Crónicas