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segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

CONVERSANDO


Que novo mundo começará hoje?

A quase certeza que serão dias difíceis, dias terríveis.

Provavelmente, numa manhã, tão cinzenta e fria, como a de hoje, ano de 1973, José Saramago visita, em Caxias, sua filha Violante Saramago,presa pela PIDE, e diz-lhe: «Minha filha, tens de ir buscar forças nem que seja ao dedo grande do pé.»

Lembro-me, muitas vezes, desta frase de José Saramago.

Nos dias difíceis, ir buscar forças nem que seja ao dedo grande do pé.

Que frase tão bonita!

sexta-feira, 10 de maio de 2024

NOTÍCIAS DO CIRCO

Possivelmente, não se saberão tão cedo, os motivos que levaram o comentador- televisivo-Marcelo-Rebelo-de-Sousa-disfarçado-de-presidente-da-república, a destituir o governo de António Costa que era apoiado na Assembleia da República por uma maioria do Partido Socialista.

Em entrevista conduzida por Leonardo Ralha e publicada no Diário de Notícias, Violante Saramago, filha do Nobel português, sente-se chocada com a «Operação Influencer» e escreveu um livro de refexões sobre a demissão do governo a que chamou «70 Dias à Margem da Democracia», em que não poupa críticas a Marcelo Rebelo de Sousa e à procuradora-geral da República Lucília Gago e escolheu para epígrafe do livro uma passagem de «Ensaio Sobre a Cegueira»: «Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.»

«Não queria fazer aqui alguma avaliação jurídica sobre uma matéria para a qual não tenho nenhuma competência, mas como cidadã, como mulher que pensa, e já viu muita coisa, achei que era preciso olhar, ver e reparar. Não vou dizer que não foram inocentes, mas precisam de nos convencer que foram coincidências e não foi tudo preparado. É preciso que nos convençam que, de facto, não houve uma montagem que levou ao que levou. Havia, constitucionalmente, outros caminhos que não quiseram seguir. Têm de convencer um país inteiro que vê cair um Governo, e vê dissolver uma Assembleia da República de maioria absoluta, de que tudo isto está certo do ponto de vista ético, do ponto de vista constitucional e do ponto de vista da política.»

(…)

«António Costa caiu numa armadilha logo na posse do último Governo, quando o Presidente defendeu no seu discurso que a maioria absoluta dependia da permanência do primeiro-ministro em funções?

O discurso na tomada de posse indiciava que poderíamos ver-nos, um dia, numa situação deste tipo. O Presidente da República sabe muito melhor do que eu, porque sou bióloga e ele é constitucionalista, que na Constituição não há uma letra que diga que o primeiro-ministro é eleito. Até pode não pertencer a nenhuma lista de candidatos. Um partido ganha as eleições e propõe um primeiro-ministro. Portanto, não é o facto de o primeiro-ministro se demitir que implica, legal, institucional e constitucionalmente, qualquer dissolução de uma Assembleia com maioria absoluta».

(…)

«Governo da AD devia estar calado. Começava, por exemplo, por formar uma lista [de ministros] que a O gente percebesse que não foi feita à última hora. É o Presidente da República quem diz e não eu, porque não fui eu que a recebi. Faria muito melhor em não dar o triste espetáculo que foi a eleição do presidente da Assembleia da República. Não estamos a falar da eleição de um gestor de condomínio. Estamos a falar da segunda figura de Estado. Aqueles chumbos sucessivos foram uma coisa inaudita e inimaginável. O Governo da AD, em vez de estar muito preocupado com o facto de, oportunisticamente, o partido de extrema-direita aprovar projetos do PS, devia estar, sobretudo, preocupado em saber como vai governar o país. É que ainda não vi nada. Vi mudar o símbolo, o que é uma coisa absolutamente caricata. Se a coisa prioritária e emblemática é mudar o símbolo, tenho a sensação de que estamos num retrocesso civilizacional preocupante.» 

quarta-feira, 14 de junho de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Poderemos pensar que todos os livros que já lemos sobre José Saramago, sobre a sua obra, nos ajudam a ter uma clara visão sobre o autor.

Acontece que estelivro de memórias e recordações que a sua filha Violante escreveu para assinalar o centenário do nascimento do seu pai, é um caso diferente.

Sabemos das relações tensas que ambos tiveram durante muito tempo.

É um livro terno e onde ressaltam ideias, frases, comportamentos que nos ajudam a situar o homem que foi. Sua mãe, Ilda Reis, com quem Violante ficou a viver depois da saída do pai da casa em viviam na Parede, também, muito justamente é referida, nestas memórias que envolvem pai/mãe/filha.

O livro, comprado segunda-feira na Feira do Livro, lê-se num fôlego suave.

Voltarei a percorrer as suas 127 páginas. Mais calmamente, mais atento. E disso, por aqui, se dará conta.

«Escrevendo diz-se mais e melhor», tal como escreveu José Saramago a Violante, sua filha.

OLHAR AS CAPAS


 

De Memórias Nos Fazemos

Violante Saramago

Colecção Percusos nº 22

Edições Esgotadas, Lisboa, Março de 2022

Esta história é curta. De tamanho, não de intensidade.

Há mais de 50 anos, num dia em que perdi um filho, o meu pai chegou sufocado de comoção como ele podia estar, aflito a mexer na cara como era seu tique, Não me abraçou. Ficou parado a olhar para mim e disse. A última coisa que podes ter é pena de ti. Vamos, filha, levanta-te.

Muito tempo depois, adoeci. Com razoável grau de gravidade. E voltei a ouvir. A última coisa que podes ter é pena de ti.

Foi importante. Há sempre alguém pior, muito pior do que nós.

Talvez por isso, não seja meu hábito lastimar-me.

Ainda falámos sobre isto… Ficou entre nós até hoje.