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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

RETRATOS


«Deixemos pois o Goulart falar, A estalada que lhe deste, porém, não é coisa de que te possas gabar na praça pública, nem na tua consciência. Digo-te porquê, gravemente e medindo bem o peso das minhas palavras to digo; porque é uma cobardia. Conforme me contaste, não julgo que o tivesses feito de caso pensado, na plena posse da tua calma e da tua lucidez. Faço-te honra de supor que já estás arrependido – ainda que não confessas, por um pudor descabido, de que o Padre Zósima (dos irmãos Karamazoff) te daria a desrazão e o remédio.

Este caso do Goulart é sintomático: todos gostam de bater no Goulart é um dos poucos idealistas (taradinho, com as ideais todas torcidas está visto) que andam por essas ruas. Tem um ideal (taradinho, etc.), e luta por ele. Depois, é coxo, paneleiro, fraco de ombros. É monárquico e católico. É um tipo com uma cultura muito acima do vulgar e é sério. Dá ou não vontade de bater (bater com tanta facilidade) num tipo destes? Dá. O medo que as pessoas têm de bater num polícia e a vontade transferem-se psicaliticamente para os lombos e os bochechos do Florentino. Vem no Freud explicado.


Luiz Pacheco, de uma Carta ao actor Fernando Gusmão em Textos Avulsos, Inéditos eDispersos.

Legenda: Goular Nogueira

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

HERBERTIANAS


A Biblioteca da Casa não é apenas depositária de livros e discos, também de uma série numerosa de diversos dossiers respeitantes a escritores e artistas que merecem a nossa atenção.

É o caso de Herberto Helder.

Do dossier de Herberto Helder tiramos, hoje, uma entrevista-relâmpago feita pela escritora Maria Teresa Horta, e publicada no suplemento literário de A Capital de  10 de Abril de 1968.

Maria Teresa Horta foi uma das suas amigas e confidentes.

Na biografia de João Pedro George, pode ler-se na página 309:

«Era uma daquelas noites em que Herberto, depois das suas caminhadas pelas ruas de Lisboa, acabava em casa de Maria Teresa Horta. Passou-se provavelmente no último semestre de 1962 e Herberto apareceu-lhe com um manuscrito, algo que tinha começado a escrever no estrangeiro, entre a Bélgica e a Holanda, passando por França e outros países, e que foi continuando a compor em Lisboa e em Santarém. Luiz Pacheco lembrava-se, inclusive, de o ter ouvido ler alguma partes de Os Passos em Volta.»


terça-feira, 1 de setembro de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Ainda estou a subir a Rua do Carmo e a encontrar o Luiz Pacheco, a subir ou a descer, calças pela meia canela, saco de plástico cheio de papelada, um enfizema pulmonar debaixo de um casaco sem botões, mais a velha senha «dá cá vintes!» e um qualquer folheto, edição da Contraponto, estendido.

Escritor de ódios e paixões, sem papas na língua na língua ou no bico da pena, poucos ainda terão lido os seus livros, a quantidade enorme de escritos que deixou em qualquer casa, a mandar vir com a puta da vida.

Estamos perante um volume que reúne inéditos do Pacheco, e os seus autores/organizadores dizem que há muito e muito mais por aí e nas mãos do filho Paulocas.

É volumoso o dossier que a Biblioteca da Casa possui sobre Luiz Pacheco.

Há dias, encontrei um recorte de um artigo do Vergílio Ferreira sobre o Pacheco, publicado no jornal-cor-de-rosa Comércio do Funchal, datado de 14 de Janeiro de 1968:

«Luiz Pacheco é um escritor ácido, mordaz, violento, mas duma altíssima qualidade e de certeza que podemos confiar no que tem para nos dar num futuro próximo». 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

COMEÇOS DE LIVROS


Começo de O Que Diz Molero de Dinis Machado.

«Teve uma infância estranha», disse Austin. «Em última análise, todas as infâncias o são», disse Mister DeLuxe. «Molero diz», disse Austin, «que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, ator e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava e, muitas vezes, o projetasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva.»

 

Teremos que pegar num artigo de Luiz Pacheco, publicado no Diário Popular de 5 de Março de 1977, para percebermos o que é O Que Diz Molero.

O assombro está logo no título do texto:

«Descobri um autor: Dinis Machado».

Há que ter em atenção que a Pachecal Figura era um exímio crítico do que por aqui se escrevia e muito pouco dado a lambidelas de botas:

« Um livro-bomba. Uma obra referenciada para gente nova. Contém cenas eventualmente chocantes aos literatos da nossa praça e já está. Não recomendável a ceguetas, que cinema («o cinema é um álbum, o mais fabuloso e embriagador dos álbuns imaginários», afirma o guarda da última fronteira) e banda desenhada (álbum ou folhetim semanal também fabuloso e embriagador, afirmo agora eu) passeiam-se muito pelas suas páginas. O Gaspar Simões não vai gostar (excelente coisa!). A malta vai (excelentíssima coisa!).

Podiam ser frases publicitárias. Quem ler «O Que Diz Molero», de Dinis Machado (Bertrand), por ruas e montras e olhos ávidos de maravilhados ou espavoridos leitores nos próximos dias, confirmará que não: é que é mesmo assim, como eu digo.Fiquei banzado. Para já, para já, não julgava poder haver disto em português tão cedo. A livralhada de minha lavra envelheceu vinte anos a partir de hoje. Não faz mal. Faço 52 no sábado, se lá chegar, é tempo de reforma. Vou-me dedicar à pesca (de dólares, de marcos, como o nosso Primeiro), vou deixar a Associação Portuguesa de Escritores (é o deixas!, eu cá sei as linhas com que me coso) e ingressar no Mercado Comum dos Cravas. Felizmente não sou invejoso, cada um, cada geração cumpre a sua rábula e passa o facho. É a Lei.»

E a terminar:

«Repito e finalizo: um livro-bomba, uma obra d’arromba.»

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


João Carlos Raposo Nunes, nasceu em Lisboa, em 1955 é livreiro e alfarrabista na baixa de Setúbal, perto da Câmara Municipal.

O Raposão passou a ser um dos comparsas do Luiz Pacheco e que amiúde lhe mandou, durante 13 anos bilhetes-postais, cartas, o que calhava.

Convém lembrar, se há escriba que deram largo trabalho aos Correios portugueses, Luiz Pacheco está em lugar de topo.

Segundo João Pedro George, Luiz Pacheco sofria «de compulsão epistolar.»

O próprio Pacheco escreveu:
«No gesto de guardar cartas há uma certa afectividade ou interesse ou coisa que o valha. Um gajo que está numa cadeia, num hospital, numa aldeia, se comunica com alguém, se gosta de comunicar, a carta é um derivativo».

Postal de Pacheco para o poeta Zé Gomes Ferreira em 14 de Abril de 1968:

«Chego a Lisboa de Albarraque e encontro um postal muito circunspecto (Ex.mo Senhor Dr. José Gomes Ferreira) do Luiz Pacheco a pedir-me 50 escudos.

«Encontro-me numa fase em que não me repugna pedir porque o meu caso é daqueles que, talvez, a tempo, um empurrãozinho me liberte da cadeia (outra vez), ou do hospício, ou da fome. Tenho outro livro ente mãos, Exercícios de Estilo, título larapiado ao Queneau.»

Serafim Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa, que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e 1996.

Do prefácio:

«No entanto, talvez seja através das suas cartas que epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito de tudo e de nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das suas amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou das Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no percurso de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se coloca na linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por ter direito a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado apagamento pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias entrevistas  e depoimentos que se conhecem.»

Temos, pois, mais um livro de cartas do Pacheco.

Talvez coisas banais mas, acima de tudo o livro vale pelo prefácio e as notas do António Cândido Franco. 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Um vagabundo perdido no meio de uma intelectualidade, em que a esmagadora maioria, não o quis compreender, aceitar.

Nos dias que correm, a Editora Tinta-da-China terá encetado um trabalho de trazer para a mesa, este quase desprezado Luiz Pacheco.

Começa a aprendizagem com a Antologia Ser Livre em Português.

A Biblioteca da Casa, em livros, em antologias, nos folhetos-dá-cá-vintes!, está bem representado, mas numa antologia, o caso de que temos vindo  a falar, há sempre qualquer coisa que vale a pena conferir e para quem ainda não o conhece, está aqui o melhor que Pacheco nos deixou e sabe-se que o filho Paulo, o Paulocas, tem em casa um baú como o do Fernando Pessoa.

Serenamente, vamos esperar.

terça-feira, 28 de abril de 2026

RETRATOS


«Luiz Pacheco envia-me um artigo que publicou em O Inimigo de 29 de Abril sobre o primeiro volume des­tes Cadernos. Melhor do que outros encartados críticos e observadores de olho de falcão, mostra ter compreen­dido porquê e para quem ando eu a escrever estas sin­ceridades. Ao postal e aos livros que também enviou, teve a delicadeza de juntar uma colecção de reproduções do Retábulo da Igreja de Jesus, de Setúbal. Só quem não conheça o Pacheco o julgará incapaz de atenções assim. Relendo O Teodolito, repassando os Textos Sadinos (o título é pouco feliz, o que ali está não tem nada que ver com o Sado), pensei: «Por que bulas infernais não está este homem traduzido em Espanha e outras partes?» Na verdade, andam aí uns quantos espertos a fingir de li­teratos marginais e de escritores malditos que nem che­gam aos calcanhares do Pacheco, e prosperam, e são aplaudidos - enquanto uma das mais fortes expressões que conheço de uma vida e uma obra ao lado perma­nece desconhecida fora das fronteiras.»

José Saramago em Cadernos de Lanzarote, 2º volume

«Talvez seja o maior prosador da língua portuguesa, talvez seja o mais corrosivo, aquele que maior número de inimigos tem, contudo aqueles que o atacam talvez porque por ele foram mordiscados, não são certamente os amadores transformados na coisa amada. Ser mordido  por Luís Pacheco é ser vacinado contra o grande mal da nossa literatura, a mediocridade a escrita piegas, a escrita a metro para os prémios e outros afins.

Libertino, maldito, marginal, tudo do pior para uns e do melhor para outros, mas sobretudo um Anjo sobrevoando galáxias, rindo muito sendo muito feliz.»

João Carlos Raposos Nunes, contra capa de Textos Sadinos

«Eu não sou um marginal, porra. Sou um senhor.»

Luiz Pacheco numa entrevista a Pedro Castro em A Capital, Julho de 2005   

terça-feira, 7 de outubro de 2025

NESTE DIA


Neste Dia, que não é bem isso, será um qualquer dia de Outubro do ano de 1995, pegamos nas cartas trocadas entre Luiz Pacheco e em que verificamos que a maior parte não estão datadas.

Pacheco revela a Nicolau Santos que a tensão arterial vai alta (17,6 – 7,9 ou 16 -8,5), e a máquina de escrever enguiçou; o A foi-se. Vai à mão, e informa que a artigalhada versa a menina Agustina policiária:


Legenda: fotografia Editora Guerra & Paz

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

NESTE DIA


A nova maneira para abordar os Diários que existem na Biblioteca da casa, permitem voos diversos.

Estamos, hoje, com o Diário de Miguel Torga.

Miguel Torga não é um escritor que me entusiasme. Provavelmente nunca o soube ler. Mas do que escreveu, os Diários são o que me despertaram uma atenção diferente das restantes obras.

Lamento de José Saramago no momento da morte de Miguel Torga:

«Não conheci Miguel Torga. Nunca o procurei, nunca lhe escrevi. Limitei-me a lê-lo, a admirá-lo muitas vezes, outras não tanto. Foi só de leitor a minha relação com ele.

(…)

Achava que havia em Torga algo que eu gostaria de ter, e não tinha: o direito ganho por uma obra com uma dimensão em todos os sentidos fora do comum, a música profunda de uma sabedoria que nascera da vida e que à vida voltava, para não se tornarem, ambas, mais ricas e generosas. Que Torga não era generoso, dizem-no. Mas eu falo de outra generosidade, a que se entranha nesse movimento de vaivém que em raríssimos casos une o homem à sua terra e a terra toda ao homem.

Demasiado cedo morreu Miguel Torga. Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado tarde».

 José Saramago em Cadernosde Lanzarote, 3º volume

Agustina Bessa-Luís não gostava de Torga?

Provavelmente não.

Agustina Bessa-Luís em em O Livro de Agustina:

«Escrevi o Mundo Fechado enquanto minha filha dormia; a cozinha era de telha-vã e havia um ratinho esperto ao qual eu punha comida na dispensa todas as noites. E lá vinha o aroma das tílias anunciando os exames e o seu terror laureado de esperanças. O livro foi recebido com agrado, só o Torga me deu uma resposta convencional que não me caiu bem. Fiquei fula e qualifiquei-o entre os sete fariseus-hipócritas que estão registados no Talmude e dos quais faz a sátira.»

Luiz Pacheco sobre Torga:

«O Torga não era um escritor avençado! Era até um escritor único em Portugal, e no mundo, porque se editava a si próprio. Mas é um chato do caneco. Por exemploi, faz um poema para cada Natal: é como quem mata uma galinha ou um perú.»

Entrevista a Mário Santos no Público, Março de 1995 em O Crocodilo Que Voa

Miguel Torga, no dia 14 de Abril de 1974, está em S. Martinho de Anta. Neste dia, escreve um poema que intitula ABRIL, contrariando o Luiz Pacheco, não é um poema sobre o Natal:


Dia feliz, passeado.

Sol a jorros, sem calor;

Os santos de sentinela

Nos miradoiros lavados

Onde flameja a brancura

Da graça do seu renome;

Centeio a jurar à fome

O advento da fartura;

Ninhos, namoros, ternura,

E caminhos de amargura

Atapetados de flores

De uma insolência sincera:

Vulvas de todas as cores

No impudor da primavera.

 

A curiosidade possível deste simples poema é que 11 dias depois acontecerá o 25 de Abril e Torga escreve:

«Coimbra, 25 de Abril de 1974 — Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira, é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada...»

Miguel Torga, Diário  no 12º volume

sábado, 9 de agosto de 2025

NESTE DIA


Em Agosto de 1972, Luiz Pacheco  escreve no seu Diário Remendado que vive noites de mil milhões de macacos. Nervosismo? Fraqueza geral, come pouco ou nada, noites e noites de insónias, aproveitadas para pôr uma qualquer ordem na muita papelada e livralhada que está espalhada pelo quarto.

Neste dia, ao acordar, reconhece que teve sonhos porreiros.





segunda-feira, 2 de outubro de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


O volume do mês de Agosto da Biblioteca da Censura, comissariada por Álvaro Seiça, que o Público tem vindo a publicar é Bloco.

Trata-se de uma pequena antologia organizada por Luiz Pacheco e Jaime Salazar. Que contém textos de Teatro, Poesia e Conto e com a seguinte colaboração:

Aproximação, peça de teatro de Jaime Salazar Sampaio

Semana Inglesa, conto de José Cardoso Pires

Poesia de Mário Ruivo

Sombras, conto de Ferro Rodrigues

Poesia de Jaime Salazar Sampaio

Um Conto de Maria Natália Duarte Silva

Poesia de Matilde Rosa Araújo

História Antiga e Conhecida, peça de teatro de Luiz Pacheco.

Segundo António Cândido Franco, no seu livro sobre a vida de Luiz Pacheco, Bloco saiu no final do primeiro semestre de 1946, a morada para correspondência era nº 91 – 1º andar da Rua de Dona Estefânia onde viviam os pais de Luiz Pacheco. A capa é de Castro Rodrigues, a ilustração de Daniel de Morais e foi apreendido logo depois da impressão. Parte da edição ainda estava na tipografia quando a apreensão teve lugar e perdeu-se nas mãos da polícia política. Sobreviveram apenas umas centenas de exemplares, preço de capa 5$00, que foram distribuídas à mão entre amigos e enviadas para bibliotecas.

Este é o relatório nº 2920, datado de 17 de Setembro de 1946 e assinado pelo major A. Rogado.

O analfabeto-major-censor, para além de considerar o livro «altamente inconveniente» não cedeu ao despudor de aconselhar a PIDE de que «poderia ser aplicada multa à tipografia pela impressão de semelhante escrito.»

OLHAR AS CAPAS


 Bloco

Coordenação de Luiz Pacheco e Jaime Salazar Sampaio

Colaboração de Jaime Salazar Sampaio, José Cardoso Pires, Poesia Mário Ruivo

                            Ferro Rodrigues, Maria Natália Duarte Silva, Matilde Rosa

                            Araújo e Luiz Pacheco

Capa: Castro Rodrigues

Ilustração de Daniel de Morais

Biblioteca da Censura nº 17

Edição Fac-simile do jornal Público, Agosto de 2023


Epitáfio

Passou a vida a

A procurar saber

O que os outros pensavam dele.

 

Chegou até aqui

Em caixão de mogno.

domingo, 1 de outubro de 2023

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


José Saramago sobre o que somos. Palavras saídas, a maior parte delas dos Cadernos de Lanzarote.

Muita gente, muitos leitores, muitos críticos não compreenderam, não compreendem o porquê deste diário-quase-diário.

No volume II, Saramago, face a uma crítica que Luís Pacheco escreveu, deixa opinião:

«Melhor do que outros encartados críticos e observadores de olhos de falcão, mostra ter compreendido porquê e para quem ando eu a escrever estas sinceridades.»

No Ensaio Sobre a Cegueira, a rapariga dos óculos há-de dizer:

«Há dentro de nós uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos»

«Em Março de 1997, José Saramago deu uma conferência na Universidade Johann Wolfgang Goethe, em Frankfurt :

“Que fazemos, em geral, nós, os que escrevemos? Contamos histórias. Contam histórias os romancistas, contam histórias os dramaturgos, contam histórias os poetas, contam-nas igualmente aqueles que não são, e não virão a ser nunca poetas, dramaturgos ou romancistas. Mesmo o simples pensar e o simples falar quotidiano são já uma história. As palavras proferidas, ou apenas pensadas, desde o levantar da cama, pela manhã, até ao regresso a ela, chegada a noite, sem esquecer as do sonho e as que ao sonho tentaram descrever, constituem uma história com uma coerência própria, contínua ou fragmentada, e poderão, como tal, em qualquer momento, ser organizadas e articuladas em história escrita. (…) o autor está no livro, o autor é todo o livro, mesmo quando o livro não consiga ser todo o autor.»


«As perguntas: “Quem és?” ou “”Quem sou?” têm respostas fáceis: a pessoa conta a sua vida e assim se apresenta aos outros. A pergunta que não tem resposta formula-se de outra maneira: “Que sou eu?” Não “quem” mas “quê”. Aquele que fizer essa pergunta enfrenta-se com uma página em branco e o pior é que não será capaz de escrever uma palavra que seja.»

 «Queriam saber tudo quanto me aconteceu e fiz, desde que nasci como escritor e como pessoa. Era como se procurassem a receita mágica, ou não tanto, que faz passar alguém do anonimato nas letras ( sempre relativo) às letras da fama ( relativa sempre). Falo-lhe de trabalho e de disciplina, digo-lhes que não ter pressa não  é incompatível com não perder tempo, que o pecado mortal do escritor é a obsessão da carreira, ilustro tudo isto com a minha própria vida, valha ela o que valer, e não me esqueço de acrescentar que para tudo se necessita sorte: a sorte grande de que os leitores nos descubram a tempo, ou, menor sorte essa, que nos descubram ainda que já seja demasiado tarde para que o saibamos nós.»

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

POSTAIS SEM SELO


A tristeza é um privilégio dos estúpidos.

Luiz Pacheco, epígrafe escolhida por António Cândido Franco para o seu livro O Firmamento é Negro e não Azul

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Aqui para nós, que ninguém nos ouve, sou um leitor fatela.

Sempre gostei do Luiz Pacheco.

Aprecio gente que escreve bem o português.

Sim, o Pacheco era um tipo corrosivo, mal-educado, um obsceno provocador, mas o Armindo acentuava bem que escrevia de uma forma a roçar o génio.

Sempre que subia o Chiado, olhava para todo o lado na esperança de ele me  aparecer a pedir «vintes».

Aconteceu algumas vezes, não tantas como gostaria que tivessem acontecido,  eu que sempre fui um teso de tostões bem contados.

Volta e meia aparece alguém a escrever sobre o Pacheco. Provavelmente nem sempre o trataram bem mas agora dá jeito para ganhar uns euros.

Tenho este livro do António Cândido Franco sobre a vida do Luiz Pacheco desde Março, oferta do Alentejano («ainda bem que há amigos») e só agora o irei desbravar.

Neste Cais há diversas etiquetas Luiz Pacheco.

Não percam a etiqueta Luiz Pacheco, Editor, talvez o melhor lado do Luiz Pacheco.

quinta-feira, 2 de março de 2023

DOS JARDINS FANTÁSTICOS


 Luiz Pacheco no seu primeiro Texto Local, a que chamou Os Namorados, escreve:

«Dos jardins fantásticos da minha infância que eu nem tive infância nasci assim já velho mas sou um bonacheirão incapaz de rancor aos meninos que tiveram infância e jardins, trago um na lembrança que era um jardim muito engraçado havia um coreto a música tocava aos domingos havia um urinol com aquele velho maluco que fazia coisas aos rapazes e também lembro um jardim, outro ou seria o mesmo que era um jardim muito engraçado com uma estantazinha verde o tipo que emprestava livros à gente tinha uma farda preenchia-se um papel com o nosso nome e morada era coisa séria.»

 Maravilha de texto lido com um prazer de velhos tempos, agora que nos jardins já encontramos poucas crianças e as que vão aparecendo têm telemóveis e outros mecanismos dos tempos de hoje.

 Nuno Pacheco, na sua apreciada crónica das quinta-feiras, no Público, escreve sobre jardins:

 «Há coisas que parecem premonitórias. No seu mais recente trabalho em torno da obra pessoana, Faust, o cantor e compositor italiano Mariano Deidda escreveu (e cantou, a fechar o disco) uma canção intitulada Nos jardins de Lisboa, dedicando-a ao escritor Antonio Tabucchi. Vale a pena citá-la na íntegra (é cantada em italiano, mas no libreto do disco surge também traduzida para português): “Meu caro professor Tabucchi/ agora que você se encontra/ entre as águas do aqueronte/ e o vórtex furioso dos átomos/ onde tudo está disperso/ e onde tudo é criado de novo/ em breve poderá voltar/ aos jardins de Lisboa/ como flor/ que floresce em Abril/ ou como chuva nos lagos/ e nas lagoas de Portugal/ e quando eu estiver a passear/ voltarei a ouvir a sua voz/ percorrida pelo vento.” O disco foi lançado em Março de 2022, e, passado quase um ano, um jardim de Lisboa ganhou oficialmente o nome de Jardim Antonio Tabucchi. Foi inaugurado numa sexta-feira, dia 3 de Fevereiro, e era conhecido como Jardim da Travessa da Piedade, a curta distância da casa onde o escritor italiano viveu, a Rua do Monte Olivete, a meio caminho entre a Assembleia da República e o Largo do Príncipe Real. O Gogle Maps já o reconhece.

Ora esta inauguração, no bairro que Tabucchi “percorreu vezes sem conta” e onde “sempre se sentiu bem”, como ali recordou a viúva do escritor, Maria José de Lencastre, e onde, em nome do município, o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, afirmou que “o grande escritor, o grande lisboeta, o grande homem livre”, se tornava assim “parte da cidade” que foi a “sua segunda casa”, ocorreu no início do ano em que se celebrarão os 80 anos do nascimento de Tabucchi (em 24 de Setembro) e passados 11 anos da sua morte (em 25 de Março de 2012. Na mesma Lisboa que adoptou como sua e onde viveu desde 1965 até ao final da vida.»

 Difuso no texto da crónica do Nuno Pacheco, copio o poema de Mariano Deidda:


«Meu caro professor Tabucchi

 agora que você se encontra

 entre as águas do aqueronte

e o vórtex furioso dos átomos

onde tudo está disperso

e onde tudo é criado de novo

em breve poderá voltar

aos jardins de Lisboa

como flor/ que floresce em Abril

ou como chuva nos lagos

e nas lagoas de Portugal

e quando eu estiver a passear

voltarei a ouvir a sua voz

percorrida pelo vento.»

Legenda: Jardim Constantino, em Lisboa, numa quarta-feira, que é dia de ali se relizar uma Feira Ocasional de Livros Usados.

terça-feira, 21 de junho de 2022

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Logo nas primeiras palavras do longo e excelente prefácio de João Pedro George, lê-se

«Luiz Pacheco sofria de compulsão epistolar.»

Sou um velho  apreciador de correspondência entre escritores.

Acresce que em tempos idos, enquanto subia/descia o Chiado, fiz parte daqueles a quem o Pacheco esticava um livreco e dizia: «Dá cá vintes!»

Mais tarde entrei na longa lista de assinantes da Contraponto para bebeficiar do envio das edições de livros que o Pacheco fazia e que não chegavam às livrarias.

Se tiverem paciência para isso, vejam nas etiquetas deste blogue: «Luiz Pacheco» e «Luiz Pacheco Editor», as minhas aventuras com a pachecal figura.

Num velho artigo no suplemento Ipsilon do Público, Luís Miguel Queirós conta quem é Laureano Barros:

 «Grande bibliófilo, matemático e intelectual anti-fascista Laureano Barros (1921-2008), que reuniu na sua quinta da Fonte da Cova uma das mais extraordinárias bibliotecas privadas portuguesas da segunda metade do século XX.

 Quem frequentou os velhos alfarrabistas do Porto, alguns ainda em actividade, sabe que se referiam sempre a Laureano Barros com um respeito muito próximo da veneração. E não apenas por ser um proveitoso cliente, mas porque lhe reconheciam um vastíssimo saber na sua própria área de especialidade, consultando-o a pretexto de dúvidas bibliográficas, ou pedindo-lhe até que lhes recomendasse o preço adequado a pagar por qualquer raridade que lhes era proposta. E admiravam-lhe também essa intransigente rectidão moral que, logo aos 26 anos, em 1947, o lançou no desemprego. Assistente de Ruy Luís Gomes, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, protestou contra a prisão de uma aluna pela PIDE, o que bastou para ser impedido de leccionar no ensino público. Viveu os 20 anos seguintes a dar explicações, com alguma contribuição paterna a arredondar os proventos, já então maioritariamente investidos na aquisição de livros.

A sua biblioteca, leiloada após a sua morte pela Livraria Manuel Ferreira, era tão extensa e tão valiosa que foi preciso organizar um leilão em três partes, com meses de intervalo entre elas. Laureano Barros era um coleccionador exaustivo de Pessoa ou Sá-Carneiro, mas também, por exemplo, de Eugénio de Andrade, Luiz Pacheco ou Herberto Helder. E este seu particular interesse pela literatura portuguesa do século XX convivia com outras predilecções, entre as quais se contava a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, da qual conseguiu reunir todas as dez primeiras edições.

É claro que é preciso algum dinheiro para construir uma biblioteca deste nível, e Laureano Barros tinha até reputação de manter alguns hábitos não apenas dispendiosos, mas um pouco excêntricos, como o de levar regularmente os trabalhadores da quinta a almoçar ao reputado restaurante do Hotel do Elevador, no Bom Jesus de Braga. Mas o coleccionador também teve períodos difíceis. Num dos mais interessantes testemunhos recolhidos por Paulo Pinto no seu filme, o histórico livreiro da Académica, Nuno Canavez, então ainda empregado do fundador da casa, Joaquim Guedes da Silva, recorda que Laureano Barros recorreu a dada altura ao seu patrão para vender a biblioteca que por essa altura já reunira. O livreiro ainda tentou, em vão, emprestar-lhe dinheiro, mas acabou mesmo por lhe comprar a colecção. Ou seja, a biblioteca que veio a ser leiloada era já a segunda.»

 O matemático bibliófilo foi também amigo e correspondente de vários escritores, incluindo Luiz Pacheco ou Eugénio de Andrade, que passava temporadas regulares na quinta da Fonte da Cova. Em Laureano Barros, Rigoroso Refúgio vê-se o exemplar que o poeta ofereceu ao amigo do seu raríssimo (e rejeitadíssimo) livro de estreia, Narciso (1940). No final do volume, Eugénio escreve: “Reli isto, Laureano. Que horror! Para que diabo quer você esta porcaria?”. Quando a biblioteca foi leiloada, este mesmo exemplar foi arrematado por quatro mil euros.

Pena que  «O Grilo na Varanda» não reúna a parte da correspondência que Laureano Barros enviava a Luiz Pacheco  «escritor até aos ossos» tal como o descreve João Pedro George:

E, no entanto, apesar das óbvias diferenças, a correspondência revela a consideração de Pacheco por Laureano Barros, uma estima que se pressupõe mútua. “Pressupõe”, porque as cartas aqui apresentadas são apenas as que Pacheco escreveu a Laureano; e nem mesmo essas são todas as que haverá, como adverte JPG. As cartas que acabam de ser editadas foram arrematadas no leilão portuense, e foi apenas a essas que JPG teve acesso.

A aproximação entre ambos deu-se pela bibliofilia de Laureano, que contactou Pacheco em busca de espécimes bibliográficos da Contraponto e de Pacheco. Muita da correspondência que se seguiu, ao longo de 35 anos, versaria, naturalmente, sobre edições levadas a cabo por Luiz Pacheco. Mecenas tão discreto quanto fiável, Laureano financia empreitadas editoriais e salva bastas vezes Pacheco dos seus infindáveis padecimentos de saúde, da falta de fundos e de todo um sortido crescente de tribulações: com a justiça, com credores, com a vida que lhe ia acontecendo.»

Legenda: contra capa de O Grilo Falante

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

CONVERSANDO


 No Corpo Visível do Mário Cesariny, eslão lá estes versos: o moço que há uma hora não fazia senão fumar cigarros, o mesmo que julgou ter a noite perdida, que maçada, sempre encontrou o seu par, lá vão eles já no extremo do outro lado da praça

e também há aquele outro poema

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto, tão perto, tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura

O Manuel António Pina, na morte do poeta (26 de Novembro do ano de 2006), disse que o Cesariny tinha vivido como quem aproveita uma oportunidade única e sabíamos do seu fascínio por marinheiros e várias vezes foi preso pela polícia de costumes o que, segundo Luiz Pacheco deitaram-no muito abaixo, ele tinha de ir todos os meses ao Torel, à apresentação, uma imposição muito chata, se faltava prendiam-no.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

OLHARES


No dizer de Luiz Pacheco, existem «os jardins fantásticos da cidade mais bela de todas as cidades do mundo» e cita o Jardim Constantino como sendo um desses jardins.

O Jardim Constantino também foi o jardim fantástico do José Cardoso Pires e, por arrasto, Lisboa também:

«Lisboa, vista do outro lado do mundo, tem muito que se lhe diga. Eu que já a vi, sentado na esplanada de um hotel de Colombo, sei bem o trabalho que isso dá porque mete muita História e paciência, e sobretudo muita cortesia.»

Às quartas-feiras no Jardim Constantino, meia-dúzia de alfarrabistas estendem os seus escaparates com livros, revistas e o que mais calhar.

Volta e meia passo por lá, dou uma vista de olhos pela livralhada e volto a espantar-me como se publica tantos e tantos livros que não sei se terão leitores. Muitos deles ocuparam, continuam a ocupar, espaço nas livrarias em detrimento de outros livros, provavelmente de outros interesses que não os dos livreiros que, normalmente apostam em jogadores de futebol, em «pivots» de telejornais em vedetas de novelas.

Existe uma certa serenidade naqueles vendedores que, uma vez por semana, se encontram no Jardim Constantino, talvez em outros lugares.

segunda-feira, 20 de julho de 2020