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terça-feira, 28 de julho de 2026

OLHAR AS CAPAS


Dicionário de Calão

Albino Lapa

Prefácio: Aquilino Ribeiro

Editorial Presença, Fevereiro de 1974

Chichar – Anotação nos livros escolares, nas entrelinhas ou às margens.

Chicarado – Embriagado. Acostumado a embebedar-se.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


 O tempo em que pelo Chiado passeavam escritores, músicos, pintores, políticos, médicos, advogados.

Frequentavam os cafés, as livrarias.

Eram o Chiado.

Aquilino Ribeiro, pelas tardes, bebia café na Brasileira, ficava à conversa na Livraria Bertrand, seu único editor, depois seguia para o consultório do médico Pulido Valente. Assim ficou conhecida a tertúlia que, todas as tardes, reunia no consultório de Pulido Valente, ao Chiado, e retratado no quadro de Abel Manta que acima se reproduz. Trata-se de uma tela de grandes dimensões, na qual estão representadas 12 figuras do nosso meio intelectual que, no final da tarde, se reuniam para discutir e conversar sobre temas diversos, desde a actualidade política aos problemas filosóficos e da cultura. A tertúlia do consultório acabou quando Francisco Pulido Valente deixou de fazer clínica, mas as suas ligações com alguns dos seus membros, como Manuel Mendes, Lopes Graça, Aquilino Ribeiro e Abel Manta, mantiveram-se até ao fim da sua vida em junho de 1963.

Não podia passar sem estes vícios diários.

Numa reunião em que se discutia a futura constituição da Sociedade Portuguesa de Escritores, Aquilino que viria a ser o primeiro presidente, estava presente. Antes Francisco Sousa Tavares e Sophia Mello Breyner Andresen não quiseram tomar parte:

«Não entramos numa sala onde se encontra um regicida.»

Aquilino terá participado?

Há acontecimentos que pertencem aos domínios dos deuses e aos quais os homens não devem ter alcance.

No seu livro de memórias Um Escritor Confessa-se, Aquilino escreve sobre o acontecimento em que de alguma forma esteve envolvido: o regicídio, perpetrado no Terreiro do Paço por Buíça e Alfredo Costa em 01 de Fevereiro de 1908,

Aquilino conheceu estes dois operacionais do atentado e sobre eles escreve, mas em parte alguma do texto chama a si responsabilidades pelo que aconteceu.

Ferreira de Castro, Miguel Torga, Aquilino Ribeiro.

 Histórias da época:

No confronto Aquilino/Torga, aquele era uma orquestra sinfónica, e este último um tocador de pífaro.

Sobre Ferreira de Castro dizia-se: «Não é um escritor: é um escritório.»

Não havendo consenso na escolha, numa noite de discussão, um boletineiro entregou um telegrama:

«Cinco mil ferroviários apoiam a candidatura de mestre Aquilino».

Aquilino nunca foi militante do Partido Comunista.

Sabe-se que algumas vezes disponibilizou a sua casa na Soutosa, na Beira, para refúgio de clandestinos..

Do Partido eram Alves Redol, Carlos de Oliveira, mais alguns escritores.

Quando, em 1960, Aquilino Ribeiro foi proposto como candidato ao prémio Nobel da Literatura, foi-o, de acordo com o filho, «como uma resposta dos escritores portugueses mais notórios e mais sonantes, porque o regime lhe moveu um processo judicial pela publicação de Quando os Lobos Uivam».

Francisco Vieira de Almeida, José Cardoso Pires, David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, José Gomes Ferreira, Maria Judite de Carvalho, Mário Soares, Vitorino Nemésio, Abel Manta, Alves Redol, Luísa Dacosta e Vergílio Ferreira foram alguns dos escritores que apoiaram a sua candidatura.

Mas as pressões do regime impediram que Aquilino Ribeiro fosse considerado elegível.

1.

Nos últimos três anos, nos centros urbanos,  morreram 757 idosos que viviam sozinhos em casa.

2.

Nos últimos seis anos, saíram mais de seis mil médicos do SNS.

3.

Portugal só produz 19% dos cereais que consome.

4.

«Em Portugal, onde os índices de leitura são muito baixos e longas são as queixas por tão persistente dieta, editam-se, no entanto, cerca de 20.000 livros por ano (contando os que, editados por instituições, se destinam a ofertas ou têm um fim publicitário e não entram no mercado). No Reino Unido editam-se por ano dez vezes mais; e em França o número ultrapassa os 100 mil livros.
Quando hoje se deplora a ausência da crítica e de críticos, quando se lamenta o silêncio, a falta de recepção no espaço público a que os livros estão votados, esquece-se habitualmente que o excesso de livros também tem alguma responsabilidade nesta situação.»

António Guerreiro no Ipsilon

5.

O que está a acontecer na América ultrapassa tudo o que de pior poderíamos pensar que Donald Trump viesse a fazer para o país, para o mundo.

quarta-feira, 19 de março de 2025

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 As Terras do Demo de Aquilino é mais uma das encadernações amadoras do meu avô. Serão algumas mas não chegam às cinquenta.

A história, já aqui contada, levou a que a capa original do livro levasse sumiço pelo que não cons ta no Olhar as Capas.

A que se apresenta, mostra a assinatura de propriedade que o meu pai colocou em alguns dos livros da Biblioteca da Casa. Eu segui o exemplo, até ao dia em que o meu pai disse que não o deveríamos fazer.

 Terras do Demo é dedicado a Carlos Malheiro Dias.

«Meu querido amigo e príncipe das letras: dê-me licença que lhe ofereça este livro, pobre de mim, rival em tudo daquele Marco Paulo, de Valentim Fernandes da Morávia, tosco nas imagens, incrível no que conta, composto até na mesma linguagem do tempo dos afonsinos. A acção decorre naqueles lugares onde a lenda se exprime ainda deste jeito: "Uma vez um homem travou do burro e partiu a correr as sete partidas do Mundo. Andou, andou até que foi dar a uma terra de que ninguém faz ideia: a gente comia calhaus e ladrava como os cães. " Circunscrito, adivinha-se, a indivíduos rudes, teve em mira este trabalho pintar dessas aldeias montesinhas que moram nos picotos da Beira, olham a Estrela, o Caramulo, a cernelha do Douro e, a norte, lhes parece gamela emborcada o Monte Marão. O vale, que as explora, trata-as despicientemente por Terras do Demo. Sem dúvida, nunca Cristo ali rompeu as sandálias, passou el-rei a caçar, ou os apóstolos da Igualdade em propaganda. Bárbaras e agrestes, mercê apenas do seu individualismo se têm mantido, sem perdas nem lucros, à margem da civilização.

O seu nome ilustre, meu querido amigo, merece-me mais que esta lápide de granito mal lavrada; chamá-lo aqui é como induzir Sarasate a presidir a uma tocata de bombo e ferrinhos. Mas para mim bateu a hora de lhe prestar homenagem. Foi a sua mão, tão forte como delicada, que me guiou ao proscénio das letras; aí me incutiu a força de ânimo necessária para persistir. Ao romper, também o meu silêncio para admirar, o romancista da Paixão de Maria do Céu, o jornalista que lá e cá mantém à sua altura a honra das letras portuguesas, está na primeira fila dos que admiro. À consagração que o Brasil acaba de lhe prestar eu junto, pois, este ramo de maias, colhidas na Serra, às mãos larga, que lhe levem aldemenos aroma e cor que não sejam fáceis de copiar por florista ou tintureiro. de seu pelo menos cor e aroma tão bravios e elementares que não mereceram ainda a honra de ser copiados por florista ou tintureiro

A obra de análise que a crítica amável houve por bem de assinalar na Via Sinuosa raro se lhe há-de deparar aqui. Tampouco malbaratei louçanias, esmaltes ou vidrilhos ou esmaltes de linguagem,  soando  falso a propósito de criaturas em que assenta até mal a gravata que os tendeiros para lá levaram. Miôma é de todas as minhas personagens a única que se interroga; é um intruso; o meio repele-o.»

A longa dedicatória, escrita no Outono de 1918 termina assim:

 «Digne-se o meu amigo aceitar esta modestíssima oferenda como preito homenagem ao seu talento ao talento e tributo à sua amizade e estarei forro de minhas penas.»

sábado, 19 de outubro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Aquilino em Paris

Jorge Reis

Capa: José Artur

Colecção Outras Obras nº 8

Editora Veja, Lisboa s/d

Como conheço tantas palavras? Porque li e reli os clássicos… porque estudei, esmiucei o Camilo… e porque tenho passado a vida a prestar atenção ao que os outros dizem… Sim, sim, a menos de ser surdo, um escritor que tem a peito escrever na sua língua, deve anotar cada palavra, cada expressão que lhe encanta ou lhe fere o ouvido… A língua do povo é um manancial!... Se o escritor assim proceder, verá que, no momento oportuno, todo esse léxico virá por seu próprio pé ao sabor da escrita. Mas foi com os nossos clássicos e com os homens e mulheres da minha região que elaborei a minha língua e, com ela, o meu estilo… que vale o que vale, mas que é o meu!

domingo, 4 de agosto de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Stuart Carvalhais.

Uma das grandes figuras populares da Lisboa que fizeram desaparecer.

Deixou uma enorme colaboração em jornais e revistas que mostra uma janela aberta sobre o quotidiano daquela cidade onde a alegria é triste e a tristeza escorre alegremente pelas ruas.

As autoridades, políticas e intelectuais, do reino deixaram essa obra perdida por aí.

Sempre houve em Portugal uma mentalidade de descuido, de desinteresse, de ignorância, que esquece, ou faz por esquecer, os nossos melhores, protagonizada por uma gajada oportunista a que se podiam adiantar terríveis nomes mas há que poupar os viajantes do blogue, que até sabem que nomes são, gente que amiúde me deixam perplexo, revoltado, no limiar do vómito.

"Adeus, "pá", até qualquer dia",
escreveu Leitão de Barros no Diário de Notícias de 5 de Março de 1961, três dias depois da morte do artista.

«Esta voz de Lisboa vem despedir-se de ti, que foste durante meio século o mais lisboeta dos humoristas da imagem. Desde saberes beber uma garrafa de vinho até desenhares, como mais ninguém, as pernas das garotas que nascem nas calçadas deste velho burgo, como os esguios e esbeltos caules dos lírios e dos jarros, foste modelarmente o nosso primeiro artista de rua.»

Lembrar, ainda, o que escreveu Aquilino no editorial do livrinho aqui citado:

«Malempregado Stuart! Num meio sem carácter, com diminutíssima cultura, sem um estratificado social apreciador da beleza artística, não podia encontrar, já não digo galardão, mas incentivo condigno, o seu lápis tão singular, filho de uma genialidade nata.»

OLHAR AS CAPAS


Stuart e os seus Bonecos

Prefácio de Aquilino Ribeiro

Edição de Armando Paulouro, Lisboa s/d

Perdeu-se em Stuart de carvalhais um pintor? Na exposição que fez aqui há anos da sua obra, lembro-me das suas aguarelas primorosas, costureirinhas de lisboa, meninas de janela, lisboetas danadas para avida, com predomínio do belo sexo, o que era um índice da sua índole, aguarelas e pastéis, que só isso, obra de acaso, de impressão imediata, lhe asseguraria um lugar entre os mestres do género. Suart não imitava ninguém; mas ainda nestas especulações fortuitas, pelo sentimento que tinha da vida e da figura humana, com quem ele mais se parecia, a meu ver, era um Steinlen. Um e outro foram apontando em seus desenhos e dísticos a marcha da humanidade, e não haverá mais noite, a noite que vai em pós de tudo, que lhes apague os nomes.

(Do prefácio de Aquilino Ribeiro). 

sábado, 18 de maio de 2024

CONVERSANDO


Longe do mundo, que é também o título de um livro do seu amigo Jorge Fallorca, Ana Cristina Leonardo, nas excelentes crónicas – é a minha opinião – que semanalmente publica no Público e depois coloca na Pastelaria, pode não ter assunto, como por aqui diz, o Eça lembrava que quando não se tem assunto para a crónica, há sempre um Bey que se pode matar em Tunes, manda-nos para outras paragens,  que olhemos as papoilas nos campos, mas depois, de sopetão, revela que a ex-múmia de Belém prefacia um livro de Aquilino, que não pero acaso está hoje no Olhar aa Capas.

«Quem – obrigado (mesmo se voluntariamente) a dizer coisas inteligíveis e de preferência inteligentes todas as semanas – nunca se debateu com a “falta de assunto” que atire a primeira pedra.

Lembrei-me depois de Camilo Castelo Branco e da sua copiosa produção literária, que a vida custa a todos (ou, pelo menos, à maioria).

Tomando-o por mestre – e mestre moderníssimo: que se lixem tanto os achaques românticos como os rigores do realismo! –, poderia agora, parodiando Eusébio Macário, um Macário agrário e não boticário, está bem de ver, reproduzir com minúcia a lista das distintas variedades de figueiras do Algarve – perfazem, segundo leio, oitenta e cinco –, o que decerto serviria para despachar pelo menos meia crónica, e isto no caso de poupar o leitor à caracterização morfológica das suas variedades, inventariando-lhes apenas os nomes próprios, alguns de sonoridades manifestamente pitorescas, como bilharda, colhão do mundo, sacristão da luz, cu de burro, bacorinha ou orelha de mula.

Se Cavaco Silva pode prefaciar Aquilino Ribeiro – segundo informação que me chega, o ex-Presidente da República preambula a nova edição de Geografia Sentimental, retrato aquiliano pessoalíssimo das terras da Beira Alta publicado originalmente em 1951 – porque não poderei eu, nunca tendo sido sequer presidente de junta, mas sabendo que “cidadões” é plural inexistente e que o número de cantos de Os Lusíadas são dez, aventurar-me por solos camilianos, trepando aos ombros de outro dos nossos gigantes, quando me falta assunto?

As Humanidades não humanizam, é sabido. Ainda assim, terem deslembrado os 500 anos de Luís de Camões é obra! E obra que explicará muita coisa. Por exemplo, as quinas que passaram a sete do jovem ufanista Bugalho (tratar-se-á de aritmética marciana?), ou o Atlético Norte por Atlântico Norte de Melo. Melo, o nosso mais original (até agora) ministro da Defesa Nacional que, adaptando medidas castigadoras de antanho aos novos tempos, propõe punir os jovens com a tropa no caso de assaltarem velhinhas.

Penso tudo isto, embora não necessariamente por esta ordem, enquanto me desvio, no regresso a casa, da folhagem do tronco rastejante da figueira que sombreia o alcatrão do caminho estreito que leva ao largo maior e mais adiante ao rio.

Escapando-me, porém, a coragem e a genialidade de Camilo para “desabar a pontapés de estilo” a sociedade, acobardo-me, omito a lista das oitenta e cinco espécies diferentes de figueiras algarvias e dou antes a palavra ao próprio: “… é necessário a quem reedifica a sociedade saber primeiro se ela quer ser desabada a pontapés de estilo para depois ser reedificada com adjectivos pomposos e advérbios rutilantes. Para isso, o primeiro avanço é pô-la nua, escrutar-lhe as lepras, lavrar grandes actas das chagas encontradas, esvurmar as bostelas que cicatrizaram em falso, escoriá-las, muito cautério de frases em brasa. É o que se faz nesta obra violenta, de combate, destinada a entrar pelos corações dentro e a sair pelas mercearias fora.” (“Advertência” in Eusébio Macário – História Natural e Social duma Família no Tempo dos Cabrais, Camilo Castelo Branco, 1.ª ed., 1879).

Sem abandonar a paródia, volto à vida rural, a despeito do encerro das mercearias, para dizer que a vida rural possui encantos e razões que a razão urbana desconhece.

Na grande cidade, uma frase como “Anda comigo ver os aviões” é facilmente interpretada como um metalogismo retórico em que o termo “aviões” ultrapassa o seu sentido literal – de acordo com os dicionários mais respeitáveis: “aparelho de locomoção aéreo, mais pesado do que o ar e provido de asas e motor”.

Como decifrar, porém, o convite de um pastor que nos diz “Quer vir comigo ver as ovelhas?”, desde logo de aparência mais respeitosa dada a forma interrogativa da frase e a incorporação do verbo querer e logo conjugado na terceira pessoa?»

Mas Cavaco Silva, que nem contas sabe fazer, lê livros, lê Aquilino?

Admiti estar perante uma tão em moda «falsa notícia» mas, por inacreditável que seja, é mesmo verdade!

terça-feira, 24 de outubro de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Consta que Salazar considerava Aquilino um grande escritor, mas designava-o como um inimigo do regime e mandou perseguir-lhe a obra.

É o caso de Quando os Lobos Uivam. O coronel censório que o analisou, começa logo por escrever:

«O autor intitula este livro de romance, mas com mias propriedade deveria chamar-lhe um romance panfletário, porque todo ele foi arquitectado para fazer um odioso ataque à actual situação política. »  

É uma pena que Aquilino Ribeiro tenha caído completamente no esquecimento, que os jovens não o leiam. Sim, a leitura dos livros de Aquilino não é fácil obriga a um dicionário por perto, mas é um desfilar daquela maravilhosa prosa barroca.    

Castelo Branco Chaves, num livrinho publicado pela Seara Nova:

«O estilo é sem dúvida um dos valores máximos da obra de aquilino, especialmente, pelo imaginoso dêsse estilo. É êste escritor dotado de uma extraordinária imaginação verbal, de um invulgar poder vocabular. E não é só a abundância; é também, e especialmente, o singular poder decorativo das palavras que escolhe, a arte com que as agremia e um assombroso sentido do seu valor prosódico. Tôdas estas riquezas do estilista sobressaem naquelas suas páginas em que o descritivo domina e predomina. O seu estilo está apto para toda a descrição, com um poder de colorido, uma riqueza de tons que assombra e domina.

Possui Aquilino um verdadeiro talento narrativo, uma arte de contar tão perfeita, acabada, de tão sugestivo desenho e vivo colorido que lê-lo é uma maravilha e deleite.»

José Régio:

«Creio que até os que pessoalmente menos estimam a arte de Aquilino nele sentem um Mestre.»

O que Aquilino disse sobre a sua escrita:

«Como conheço tantas palavras? Porque li e reli os clássicos… porque estudei, esmiucei o Camilo… e porque tenho passado a vida a prestar atenção ao que os outros dizem… Sim, sim, a menos de ser surdo, um escritor que tem a peito escrever na sua língua, deve anotar cada palavra, cada expressão que lhe encanta ou lhe fere o ouvido… A língua do povo é um manancial!... Se o escritor assim proceder, verá que, no momento oportuno, todo esse léxico virá por seu próprio pé ao sabor da escrita. Mas foi com os nossos clássicos e com os homens e mulheres da minha região que elaborei a minha língua e, com ela, o meu estilo… que vale o que vale, mas que é o meu

sábado, 3 de dezembro de 2022

CONVERSANDO


 Como é possível certas coisas me terem acontecido…

Alguns livros de Aquilino Ribeiro existiam na Biblioteca da Casa.

Sim, Aquilino não é fácil, mas a leitura também tem de ser constituída por autores e livros que requerem trabalho. Como um Sublinhado Saramaguiano aqui deixado na passada semana:

«Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma».

Lembro-me que o único livro de Aquilino que comprei foi A Casa Grande Romarigães.

A lápis, no canto superior direito da 1º página, o livreiro escreveu: 45$00. Mas não passei da página 54. Sei isto porque, naquele tempo, os livros não se vendiam com as folhas guilhotinadas, tinham de ser abertos com uma faca («De repente senti saudade da velha ferramenta do jovem leitor que fui. A faca de papel. A ferramenta fora de uso morre. A faca de papel, belo objecto, está a desaparecer. E com ele talvez certa leitura via Jorge Listopad em Secos e Molhados) e a minha tarefa ficou-se por essa página. Havia quem comprasse os livros e os abrisse de uma vez só. Eu gostava de ir abrindo à medida que os ia lendo.

Terá sido a velha história: chateei-me de ler tanta palavra que desconhecia, e, numa de preguiça literária, cansei-me da necessidade de tanto ter que pegar no Dicionário.

Tem um bonito começo:

O Vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista!

E o livro termina assim:

«Mata fora as aves cantavam e recantavam. Hilário, cabeça dobrada para a terra, pois lá reside o segredo do mundo que mais imediatamente se propõe à especulação da nossa inteligência, dizia consigo: - Está dito, tudo morre e tudo volta. Reparo que uma força criadora, decerto instilada do Sol, palpita de modo tão intenso que o sentimento da velhice no homem se torna de uma tristeza funérea e confrangedora. É pena que se não possa regular a vida como um relógio, andando com os ponteiros para diante e para trás segundo a nossa conveniência. Como eu faria da Quinta do Amparo um jardim maravilhosos, a minha instância de contemptor do Mundo, e de Nossa Senhora, esta doce imagem de faces bochechudinhas, minha amiga do coração?! A Primavera, tantas vezes rebelde ao calendário, rejuvenesce tudo menos o homem. As leis da ciclidade física assim o mandam. Para o ano, por esta altura, voltarão as aves a cantar. Que chova, que faça um sol radioso, com o mundo vegetal pletórico de seiva ou mais aganado, à triste planta humana é que nada a afasta da sua carreira para a morte. Será ela a obra-prima da Criação ou a pior de todas?»

Tudo isto é tão bonito e tão diferente.

É sempre tarde quando se chora, ou talvez as «leis da ciclidade» de que fala Aquilino.

Certo que já não sou o jovem que então desistiu de Aquilino, e de o não ter lido como devia, muito me lamento.

Ao ponto de ter folheado hoje «Abóboras no Telhado» e acabar por ler esta maravilha:

«Já o escrevi e apraz-me repeti-lo: na Mitra ou em Rilhafoles, não sei ao certo, estava um sujeito que rompeu a reivindicar a autoria de livros que correm com o meu nome. Ele teria carpintejado os livros e eu teria cometido a feia acção de por dolo ou extorsão haver-me apropriado deles. Era com tal ou qual dialéctica que sustentava a suposta paternidade. E, tendo-lhe alguém objectado como é que poderia ter escrito os livros sendo analfabeto, respondeu: Ora essa, eu dito, o Espírito-Santo escreve.

Uma tia que tive, boa e religiosa alma que sempre recordo com saudade, explicava a minha pretendida fecundidade quase da mesma maneira: o Espírito-Santo dita, ele escreve.»

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Leio por aí que hoje é o Dia Mundial da Abóbora.

As vezes que o meu avô, por erros nos ditados, nas cópias nos problemas, me chamava cabeça de abóbora.

Não seja por isso que não simpatizo com algo que leve abóbora. Eu que nunca recuso nenhum doce, passo ao lado do Doce de Abóbora.

 As abóboras são cultivadas em todo o mundo por várias razões, desde propósitos agrícolas (como ração animal) até vendas comerciais e ornamentais. Dos sete continentes, apenas a Antártica é incapaz de produzir abóboras. A abóbora tradicional americana usada para o Halloween é a variedade do campo de Connecticut.

 A contra capa do livro não tem nada de especial, excepto uma relação das obras de Aquilino Ribeiro. De resto, mais ou menos, como  em todos os livros da época, não existe inficação do autor da capa, nem da data em que foi editado.

 A parte que se cita de Abóboras no Telhado faz parte da longa e amistosa dedicatória  que Aquilino faz a Jaime Cortesão.

Lembro-me que o único livro de Aquilino que comprei foi A Casa Grande Romarigães.

A lápis, no canto superior direito da 1º página, o livreiro escreveu: 45$00. Mas não passei da página 54. Sei isto porque, naquele tempo, os livros não se vendiam com as folhas guilhotinadas, tinham de ser abertos com uma faca («De repente senti saudade da velha ferramenta do jovem leitor que fui. A faca de papel. A ferramenta fora de uso morre. A faca de papel, belo objecto, está a desaparecer. E com ele talvez certa leitura via Jorge Listopad em Secos e Molhados) e a minha tarefa ficou-se por essa página. Havia quem comprasse os livros e os abrisse de uma vez só. Eu gostava de ir abrindo à medida que os ia lendo.

Terá sido a velha história: chateei-me de ler tanta palavra que desconhecia, e, numa de preguiça literária, cansei-me da necessidade de tanto ter que pegar no Dicionário.

Tem um bonito começo:

O Vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista!

 

sexta-feira, 30 de abril de 2021

COMO POETA É QUE É UM BOM PROSADOR


4 de Agosto de 1970

Relido um bocado do Torga, já não sei porquê. Uma ideia bem assente é que Torga é um Aquilino depurado, ou seja, sem os grilhões de ouro vocabulares. (Este Aquilino. E andou ele por França. Não viu nada. Que fidelidade à bruteza da província!) Ou ideia bem assente é que Torga é muito melhor poeta que prosador. Ou: como poeta é que é bom prosador. Esta segunda versão é que deve estar certa. O que invariavelmente me irrita neste homem, bons deuses, é o falar constantemente de si – em voz grossa. Mas não me chateiem por favor: já disse que é um bom poeta.

Vergílio Ferreira em Conta-Corrente I Volume

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

OLHAR AS CAPAS


Aquilino Ribeiro

Castelo Branco Chaves

Cadernos da Seara Nova

Seara Nova, Lisboa, 1935

O estilo é sem dúvida um dos valores máximos da obra de aquilino, especialmente, pelo imaginoso dêsse estilo. É êste escritor dotado de uma extraordinária imaginação verbal, de um invulgar poder vocabular. E não é só a abundância; é também, e especialmente, o singular poder decorativo das palavras que escolhe, a arte com que as agremia e um assombroso sentido do seu valor prosódico. Tôdas estas riquezas do estilista sobressaem naquelas suas páginas em que o descritivo domina e predomina. O seu estilo está apto para toda a descrição, com um poder de colorido, uma riqueza de tons que assombra e domina.

Possui Aquilino um verdadeiro talento narrativo, uma arte de contar tão perfeita, acabada, de tão sugestivo desenho e vivo colorido que lê-lo é uma maravilha e deleite.

domingo, 19 de janeiro de 2020

POSTAIS SEM SELO


Olhem sempre em frente, olhem o Sol, não tenham medo de errar, sendo originais, iconoclastas e anti, o mais anti que puderem, e verdadeiros, fugindo aos velhos caminhos trilhados de pé posto e a todas as conjuras dos velhos do Restelo.

Aquilino Ribeiro

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Diversos livros de Aquilino Ribeiro vieram da biblioteca do meu pai.

Sempre tive grandes dificuldades com Aquilino Ribeiro.

Ainda hoje, é uma enorme lacuna das minhas leituras de autores portugueses.

Mas recordo-me que o único livro de Aquilino que comprei foi A Casa GrandeRomarigães.

A lápis, no canto superior direito da 1º página, o livreiro escreveu: 45$00. Mas não passei da página 54. Sei isto porque, naquele tempo, os livros não se vendiam com as folhas guilhotinadas, tinham de ser abertos com uma faca.

 «De repente senti saudade da velha ferramenta do jovem leitor que fui. A faca de papel. A ferramenta fora de uso morre. A faca de papel, belo objecto, está a desaparecer. E com ele talvez certa leitura.
Jorge Listopad em Secos e Molhados.

 A minha tarefa de leitura ficou-se por essa página. Havia quem comprasse os livros e os abrisse de uma vez só. Eu gostava de ir abrindo à medida que os ia lendo.

Terá sido a velha história: chateei-me de ler tanta palavra que desconhecia, e, numa de preguiça literária, cansei-me da necessidade de tanto ter que pegar no Dicionário.

«O que é um pincha-no-crivo?»

«Tens aí dicionários, procura!»

Pergunta minha na preguicite dos meus 16 anos e a resposta do meu avô.

Mas A Casa de Romarigães tem um começo extraordinário e um final não menos extraordinário.


É pena que se não possa regular a vida como um relógio, andando com os ponteiros para diante e para trás segundo a nossa conveniência. Como eu faria da Quinta do Amparo um jardim maravilhosos, a minha instância de contemptor do Mundo, e de Nossa Senhora, esta doce imagem de faces bochechudinhas, minha amiga do coração?! A Primavera, tantas vezes rebelde ao calendário, rejuvenesce tudo menos o homem. As leis da ciclidade física assim o mandam. Para o ano, por esta altura, voltarão as aves a cantar. Que chova, que faça um sol radioso, com o mundo vegetal pletórico de seiva ou mais aganado, à triste planta humana é que nada a afasta da sua carreira para a morte. Será ela a obra-prima da Criação ou a pior de todas?

Ainda terei tempo para ler o que não li de Aquilino?

Tempo, se bem que cada vez mais curto, talvez tenha. Mas vontade?

Legenda: pág. 285 do 8º volume do velho Dicionário de Morais

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS



Matai-vos Uns Aos Outros

Jorge Reis
Prefácio: Aquilino Ribeiro
Capa: António Domingues
Prelo, Lisboa, 1963

A terra pertencerá aos que a estimam, porque tudo será amor! Amor pelo próximo, amor por esta coisa maravilhosa que é a Vida!

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

NÃO SUPORTO A VERTIGEM


Carta de António José Saraiva para Óscar Lopes, datada de Amsterdão, Janeiro de 1972, e em que continua a manifestar o seu encantamento pela obra de Agustina Bessa-Luís. Antes já dissera que relendo algumas páginas de Agustina ficara tonto «como se ouvisse música de Beethoven.»

Quanto à Agustina gostaria que me desses as tuas razões Eu considero-a com Fernando Pessoa um dos dois escritores verdadeiramente geniais que Portugal produziu no século XX, e creio que todos os outros estão muito, mas muito baixo deles. Mais: para mim a Agustina é o maior escritor em prosa de toda a literatura portuguesa, talvez com excepção do Fernão Lopes (na parte em que este pode ser considerado como artista criador, como o João de Barros nunca foi). Eu não consigo ler a Agustina durante muito tempo porque não suporto a vertigem, e o mesmo me acontece com o Pessoa. Não entendo como a poder pôr abaixo do Aquilino. É um dos raríssimos pontos em que estou quase de acordo com o Sena: o Aquilino é um grande escritor menor, salvo no Malhadinhas e nas Terras do demo. É um artífice com muito talento, ao passo que a Agustina e o Pessoa são escritores-mediuns. Tem-se vontade de crer que algo a que chamaríamos Espírito os tocou, e nos toca para eles.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O ÚLTIMO GIGANTE


Publicou sessenta e nove livros, dezassete dos quais são romances. O resto é História, biografia, polémica, investigação literária, literatura infantil, memórias, jornalismo, crónica.
Na obra de Aquilino Ribeiro há como que uma súmula de toda uma literatura, o balanço terno, suave, manso, truculento, genial, fradesco, libertário, aventureiro, troca-tintas, aquilo que fomos e somos.

Baptista-Bastos, abertura de um dossier Publicado no Expresso de 24 de Março de 1984, por ocasião dos vinte anos da morte de Aquilino.

Legenda: retrato de Aquilino Ribeiro feito por Leal da Câmara , tirado de Aquilino em Paris de Jorge Reis, Editora Veja, Lisboa s/d..

CEM ANOS SOBRE A MORTE DE AQUILINO


 Quem hoje lê Aquilino?

Tentei, mas reconheço que não fui muito além.

Talvez mais tarde, ia pensando.

Não aconteceu bem assim.

A transladação dos restos mortais de Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional (Setembro de 2007) não foi consensual. Uns quantos vieram dizer que Aquilino não merecia estar no Panteão por ter sido um terrorista que esteve envolvido na organização do atentado que matou o rei D. Carlos e outros porque a obra de Aquilino não tem valor para que lhe seja reconhecida a honraria de entrar no Panteão. Lembro que Vasco Pulido Valente, no Público, bolsou uma das suas idiotices: Aquilino é um escritor medíocre”.

Por esse tempo, lembro-me de ter concluído comigo mesmo que, do princípio ao fim, apenas lera um livro de Aquilino: Quando os Lobos Uivam.

Há diversos livros de Aquilino que vieram da casa do meu pai.

Mas lembro-me que o único livro de Aquilino que comprei foi A Casa Grande Romarigães.

A lápis, no canto superior direito da 1º página, o livreiro escreveu: 45$00. Mas não passei da página 54. Sei isto porque, naquele tempo, os livros não se vendiam com as folhas guilhotinadas, tinham de ser abertos com uma faca (De repente senti saudade da velha ferramenta do jovem leitor que fui. A faca de papel. A ferramenta fora de uso morre. A faca de papel, belo objecto, está a desaparecer. E com ele talvez certa leitura via Jorge Listopad emSecos e Molhados) e a minha tarefa ficou-se por essa página. Havia quem comprasse os livros e os abrisse de uma vez só. Eu gostava de ir abrindo à medida que os ia lendo.
Terá sido a velha história: chateei-me de ler tanta palavra que desconhecia, e, numa de preguiça literária, cansei-me da necessidade de tanto ter que pegar no Dicionário.

Tem um bonito começo:

O Vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista!

Voltei hoje a pegar no livro.

Lá estão, ainda, as páginas por abrir.

Dei um salto ao fim do livro, terno final:

É pena que se não possa regular a vida como um relógio, andando com os ponteiros para diante e para trás segundo a nossa conveniência. Como eu faria da Quinta do Amparo um jardim maravilhosos, a minha instância de contemptor do Mundo, e de Nossa Senhora, esta doce imagem de faces bochechudinhas, minha amiga do coração?! A Primavera, tantas vezes rebelde ao calendário, rejuvenesce tudo menos o homem. As leis da ciclidade física assim o mandam. Para o ano, por esta altura, voltarão as aves a cantar. Que chova, que faça um sol radioso, com o mundo vegetal pletórico de seiva ou mais aganado, à triste planta humana é que nada a afasta da sua carreira para a morte. Será ela a obra-prima da Criação ou a pior de todas?

Vou abrir o resto do livro e lê-lo.

Os olhos também são outros… e é sempre tempo…

Mas quem hoje lê Aquilino Ribeiro?

terça-feira, 29 de novembro de 2011

FREQUENTADO POR ARTISTAS


Desceu na praça e pensou em tomar qualquer coisa no British Bar do Cais do Sodré. Sabia que era um lugar frequentado por artistas e contava encontrar lá algum. Entrou e sentou-se numa mesa do canto. Na mesa vizinha, realmente, estava o romancista Aquilino Ribeiro a almoçar com Bernardo Marques, o desenhador de vanguarda, que tinha ilustrado as melhores revistas do Modernismo português. Pereira deu-lhes os bons dias e os artistas responderam com um aceno de cabeça.

Antonio Tabucchi em Afirma Pereira, Quetzal Editores, Lisboa 1995

domingo, 16 de outubro de 2011

POSTAIS SEM SELO


Olhem sempre em frente, olhem o Sol, não tenham medo de errar, sendo originais, iconoclastas e anti, o mais anti que puderem, e verdadeiros, fugindo aos velhos caminhos trilhados de pé posto e a todas as conjuras dos velhos do Restelo.
Cultivem a inquietação como fonte de renovamento.

Aquilino Ribeiro

Legenda: ilustração de Luís Filipe de Abreu