Dicionário de Calão
Albino
Lapa
Prefácio:
Aquilino Ribeiro
Editorial
Presença, Fevereiro de 1974
Chichar
– Anotação nos livros escolares, nas entrelinhas ou às margens.
Chicarado
– Embriagado. Acostumado a embebedar-se.
Albino
Lapa
Prefácio:
Aquilino Ribeiro
Editorial
Presença, Fevereiro de 1974
Chichar
– Anotação nos livros escolares, nas entrelinhas ou às margens.
Chicarado
– Embriagado. Acostumado a embebedar-se.
Frequentavam
os cafés, as livrarias.
Eram
o Chiado.
Aquilino Ribeiro, pelas tardes, bebia café na Brasileira, ficava à conversa na Livraria Bertrand, seu único editor, depois seguia para o consultório do médico Pulido Valente. Assim ficou conhecida a tertúlia que, todas as tardes, reunia no consultório de Pulido Valente, ao Chiado, e retratado no quadro de Abel Manta que acima se reproduz. Trata-se de uma tela de grandes dimensões, na qual estão representadas 12 figuras do nosso meio intelectual que, no final da tarde, se reuniam para discutir e conversar sobre temas diversos, desde a actualidade política aos problemas filosóficos e da cultura. A tertúlia do consultório acabou quando Francisco Pulido Valente deixou de fazer clínica, mas as suas ligações com alguns dos seus membros, como Manuel Mendes, Lopes Graça, Aquilino Ribeiro e Abel Manta, mantiveram-se até ao fim da sua vida em junho de 1963.
Não
podia passar sem estes vícios diários.
Numa
reunião em que se discutia a futura constituição da Sociedade Portuguesa de
Escritores, Aquilino que viria a ser o primeiro presidente, estava presente.
Antes Francisco Sousa Tavares e Sophia Mello Breyner Andresen não quiseram
tomar parte:
«Não entramos numa sala
onde se encontra um regicida.»
Aquilino
terá participado?
Há
acontecimentos que pertencem aos domínios dos deuses e aos quais os homens não
devem ter alcance.
No
seu livro de memórias Um Escritor Confessa-se, Aquilino escreve sobre o
acontecimento em que de alguma forma esteve envolvido: o regicídio, perpetrado
no Terreiro do Paço por Buíça e Alfredo Costa em 01 de Fevereiro de 1908,
Aquilino
conheceu estes dois operacionais do atentado e sobre eles escreve, mas em parte
alguma do texto chama a si responsabilidades pelo que aconteceu.
Ferreira
de Castro, Miguel Torga, Aquilino Ribeiro.
Histórias da época:
No
confronto Aquilino/Torga, aquele era uma orquestra sinfónica, e este último um
tocador de pífaro.
Sobre
Ferreira de Castro dizia-se: «Não é um escritor: é um escritório.»
Não
havendo consenso na escolha, numa noite de discussão, um boletineiro entregou
um telegrama:
«Cinco mil ferroviários
apoiam a candidatura de mestre Aquilino».
Aquilino
nunca foi militante do Partido Comunista.
Sabe-se
que algumas vezes disponibilizou a sua casa na Soutosa, na Beira, para refúgio
de clandestinos..
Do
Partido eram Alves Redol, Carlos de Oliveira, mais alguns escritores.
Quando,
em 1960, Aquilino Ribeiro foi proposto como candidato ao prémio Nobel da
Literatura, foi-o, de acordo com o filho, «como uma resposta dos escritores
portugueses mais notórios e mais sonantes, porque o regime lhe moveu um
processo judicial pela publicação de Quando os Lobos Uivam».
Francisco
Vieira de Almeida, José Cardoso Pires, David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares
Rodrigues, José Gomes Ferreira, Maria Judite de Carvalho, Mário Soares,
Vitorino Nemésio, Abel Manta, Alves Redol, Luísa Dacosta e Vergílio Ferreira
foram alguns dos escritores que apoiaram a sua candidatura.
Mas
as pressões do regime impediram que Aquilino Ribeiro fosse considerado
elegível.
1.
Nos últimos três
anos, nos centros urbanos, morreram 757 idosos que viviam sozinhos em
casa.
2.
Nos últimos seis
anos, saíram mais de seis mil médicos do SNS.
3.
Portugal só
produz 19% dos cereais que consome.
4.
«Em Portugal, onde os índices de leitura são muito
baixos e longas são as queixas por tão persistente dieta, editam-se, no
entanto, cerca de 20.000 livros por ano (contando os que, editados por
instituições, se destinam a ofertas ou têm um fim publicitário e não entram no
mercado). No Reino Unido editam-se por ano dez vezes mais; e em França o número
ultrapassa os 100 mil livros.
Quando hoje se deplora a ausência da crítica e de críticos, quando se lamenta o
silêncio, a falta de recepção no espaço público a que os livros estão votados,
esquece-se habitualmente que o excesso de livros também tem alguma responsabilidade
nesta situação.»
António
Guerreiro no Ipsilon
5.
O que está a acontecer na América ultrapassa tudo o que de pior poderíamos pensar que Donald Trump viesse a fazer para o país, para o mundo.
A história, já aqui contada, levou a que a capa original do livro levasse sumiço pelo que não
cons ta no Olhar as Capas.
A que se
apresenta, mostra a assinatura de propriedade que o meu pai colocou em alguns
dos livros da Biblioteca da Casa. Eu segui o exemplo, até ao dia em que o meu
pai disse que não o deveríamos fazer.
«Meu querido amigo e príncipe das letras: dê-me licença que lhe ofereça este livro, pobre de mim, rival em tudo daquele Marco Paulo, de Valentim Fernandes da Morávia, tosco nas imagens, incrível no que conta, composto até na mesma linguagem do tempo dos afonsinos. A acção decorre naqueles lugares onde a lenda se exprime ainda deste jeito: "Uma vez um homem travou do burro e partiu a correr as sete partidas do Mundo. Andou, andou até que foi dar a uma terra de que ninguém faz ideia: a gente comia calhaus e ladrava como os cães. " Circunscrito, adivinha-se, a indivíduos rudes, teve em mira este trabalho pintar dessas aldeias montesinhas que moram nos picotos da Beira, olham a Estrela, o Caramulo, a cernelha do Douro e, a norte, lhes parece gamela emborcada o Monte Marão. O vale, que as explora, trata-as despicientemente por Terras do Demo. Sem dúvida, nunca Cristo ali rompeu as sandálias, passou el-rei a caçar, ou os apóstolos da Igualdade em propaganda. Bárbaras e agrestes, mercê apenas do seu individualismo se têm mantido, sem perdas nem lucros, à margem da civilização.
O seu nome ilustre, meu querido amigo, merece-me mais
que esta lápide de granito mal lavrada; chamá-lo aqui é como induzir Sarasate a
presidir a uma tocata de bombo e ferrinhos. Mas para mim bateu a hora de lhe
prestar homenagem. Foi a sua mão, tão forte como delicada, que me guiou ao
proscénio das letras; aí me incutiu a força de ânimo necessária para persistir.
Ao romper, também o meu silêncio para admirar, o romancista da Paixão de Maria
do Céu, o jornalista que lá e cá mantém à sua altura a honra das letras
portuguesas, está na primeira fila dos que admiro. À consagração que o Brasil
acaba de lhe prestar eu junto, pois, este ramo de maias, colhidas na Serra, às
mãos larga, que lhe levem aldemenos aroma e cor que não sejam fáceis de copiar
por florista ou tintureiro. de seu pelo menos cor e aroma tão bravios e
elementares que não mereceram ainda a honra de ser copiados por florista ou tintureiro
A obra de análise que a crítica amável houve por bem de assinalar na Via Sinuosa raro se lhe há-de deparar aqui. Tampouco malbaratei louçanias, esmaltes ou vidrilhos ou esmaltes de linguagem, soando falso a propósito de criaturas em que assenta até mal a gravata que os tendeiros para lá levaram. Miôma é de todas as minhas personagens a única que se interroga; é um intruso; o meio repele-o.»
A longa
dedicatória, escrita no Outono de 1918 termina assim:
Aquilino em Paris
Jorge Reis
Capa: José Artur
Colecção Outras Obras
nº 8
Editora Veja, Lisboa
s/d
Como conheço tantas palavras? Porque li e reli os
clássicos… porque estudei, esmiucei o Camilo… e porque tenho passado a vida a
prestar atenção ao que os outros dizem… Sim, sim, a menos de ser surdo, um
escritor que tem a peito escrever na sua língua, deve anotar cada palavra, cada expressão que lhe
encanta ou lhe fere o ouvido… A língua do povo é um manancial!... Se o escritor
assim proceder, verá que, no momento oportuno, todo esse léxico virá por seu
próprio pé ao sabor da escrita. Mas foi com os nossos clássicos e com os homens
e mulheres da minha região que elaborei a minha língua e,
com ela, o meu estilo… que vale o que vale, mas que é o
meu!
Uma das
grandes figuras populares da Lisboa que fizeram desaparecer.
Deixou uma
enorme colaboração em jornais e revistas que mostra uma janela aberta sobre o
quotidiano daquela cidade onde a alegria é triste e a tristeza escorre alegremente
pelas ruas.
As
autoridades, políticas e intelectuais, do reino deixaram essa obra perdida por
aí.
Sempre houve
em Portugal uma mentalidade de descuido, de desinteresse, de ignorância, que
esquece, ou faz por esquecer, os nossos melhores, protagonizada por uma gajada
oportunista a que se podiam adiantar terríveis nomes mas há que poupar os
viajantes do blogue, que até sabem que nomes são, gente que amiúde me deixam
perplexo, revoltado, no limiar do vómito.
"Adeus, "pá", até qualquer dia", escreveu Leitão de
Barros no Diário de Notícias de 5 de Março de 1961, três dias depois da
morte do artista.
«Esta voz de Lisboa vem despedir-se de
ti, que foste durante meio século o mais lisboeta dos humoristas da imagem.
Desde saberes beber uma garrafa de vinho até desenhares, como mais ninguém, as
pernas das garotas que nascem nas calçadas deste velho burgo, como os esguios e
esbeltos caules dos lírios e dos jarros, foste modelarmente o nosso primeiro
artista de rua.»
Lembrar, ainda,
o que escreveu Aquilino no editorial do livrinho aqui citado:
«Malempregado Stuart! Num meio sem
carácter, com diminutíssima cultura, sem um estratificado social apreciador da
beleza artística, não podia encontrar, já não digo galardão, mas incentivo
condigno, o seu lápis tão singular, filho de uma genialidade nata.»
Stuart e os seus Bonecos
Prefácio de
Aquilino Ribeiro
Edição de
Armando Paulouro, Lisboa s/d
Perdeu-se em Stuart de carvalhais um
pintor? Na exposição que fez aqui há anos da sua obra, lembro-me das suas aguarelas
primorosas, costureirinhas de lisboa, meninas de janela, lisboetas danadas para
avida, com predomínio do belo sexo, o que era um índice da sua índole,
aguarelas e pastéis, que só isso, obra de acaso, de impressão imediata, lhe
asseguraria um lugar entre os mestres do género. Suart não imitava ninguém; mas
ainda nestas especulações fortuitas, pelo sentimento que tinha da vida e da
figura humana, com quem ele mais se parecia, a meu ver, era um Steinlen. Um e
outro foram apontando em seus desenhos e dísticos a marcha da humanidade, e não
haverá mais noite, a noite que vai em pós de tudo, que lhes apague os nomes.
(Do prefácio de Aquilino Ribeiro).
«Quem – obrigado (mesmo se voluntariamente) a dizer coisas inteligíveis e de preferência inteligentes todas as semanas – nunca se debateu com a “falta de assunto” que atire a primeira pedra.
Lembrei-me depois de Camilo Castelo Branco e da sua copiosa produção literária, que a vida custa a
todos (ou, pelo menos, à maioria).
Tomando-o por mestre – e mestre moderníssimo: que se lixem tanto os achaques
românticos como os rigores do realismo! –, poderia agora, parodiando Eusébio
Macário, um Macário agrário e não boticário, está bem de ver, reproduzir com
minúcia a lista das distintas variedades de figueiras do Algarve – perfazem,
segundo leio, oitenta e cinco –, o que decerto serviria para despachar pelo
menos meia crónica, e isto no caso de poupar o leitor à caracterização
morfológica das suas variedades, inventariando-lhes apenas os nomes próprios,
alguns de sonoridades manifestamente pitorescas, como bilharda, colhão do
mundo, sacristão da luz, cu de burro, bacorinha ou orelha de mula.
Se Cavaco Silva pode prefaciar Aquilino Ribeiro – segundo informação que me chega, o ex-Presidente da República
preambula a nova edição de Geografia Sentimental, retrato aquiliano
pessoalíssimo das terras da Beira Alta publicado originalmente em 1951 – porque
não poderei eu, nunca tendo sido sequer presidente de junta, mas sabendo que
“cidadões” é plural inexistente e que o número de cantos de Os Lusíadas são
dez, aventurar-me por solos camilianos, trepando aos ombros de outro dos nossos
gigantes, quando me falta assunto?
As Humanidades não humanizam, é sabido. Ainda assim, terem deslembrado os 500
anos de Luís de Camões é obra! E obra que explicará muita coisa. Por exemplo,
as quinas que passaram a sete do jovem ufanista Bugalho (tratar-se-á de aritmética marciana?), ou o Atlético Norte por Atlântico Norte
de Melo. Melo, o nosso mais original (até agora) ministro da Defesa Nacional
que, adaptando medidas castigadoras de antanho aos novos tempos, propõe punir
os jovens com a tropa no caso de assaltarem velhinhas.
Penso tudo isto, embora não necessariamente por esta ordem, enquanto me desvio,
no regresso a casa, da folhagem do tronco rastejante da figueira que sombreia o
alcatrão do caminho estreito que leva ao largo maior e mais adiante ao rio.
Escapando-me, porém, a coragem e a genialidade de Camilo para “desabar a
pontapés de estilo” a sociedade, acobardo-me, omito a lista das oitenta e cinco
espécies diferentes de figueiras algarvias e dou antes a palavra ao próprio: “…
é necessário a quem reedifica a sociedade saber primeiro se ela quer ser
desabada a pontapés de estilo para depois ser reedificada com adjectivos
pomposos e advérbios rutilantes. Para isso, o primeiro avanço é pô-la nua,
escrutar-lhe as lepras, lavrar grandes actas das chagas encontradas, esvurmar
as bostelas que cicatrizaram em falso, escoriá-las, muito cautério de frases em
brasa. É o que se faz nesta obra violenta, de combate, destinada a entrar pelos
corações dentro e a sair pelas mercearias fora.” (“Advertência” in Eusébio
Macário – História Natural e Social duma Família no Tempo dos Cabrais,
Camilo Castelo Branco, 1.ª ed., 1879).
Sem abandonar a paródia, volto à vida rural, a despeito do encerro das
mercearias, para dizer que a vida rural possui encantos e razões que a razão
urbana desconhece.
Na grande cidade, uma frase como “Anda comigo ver os aviões” é
facilmente interpretada como um metalogismo retórico em que o termo “aviões”
ultrapassa o seu sentido literal – de acordo com os dicionários mais
respeitáveis: “aparelho de locomoção aéreo, mais pesado do que o ar e provido
de asas e motor”.
Como decifrar, porém, o convite de um pastor que nos diz “Quer vir comigo ver
as ovelhas?”, desde logo de aparência mais respeitosa dada a forma
interrogativa da frase e a incorporação do verbo querer e logo conjugado na
terceira pessoa?»
Mas
Cavaco Silva, que nem contas sabe fazer, lê livros, lê Aquilino?
Admiti
estar perante uma tão em moda «falsa notícia» mas, por inacreditável que seja,
é mesmo verdade!
Consta que Salazar considerava Aquilino
um grande escritor, mas designava-o como um inimigo do regime e mandou
perseguir-lhe a obra.
É o caso de Quando os Lobos Uivam. O coronel censório que o analisou, começa
logo por escrever:
«O
autor intitula este livro de romance, mas com mias propriedade deveria
chamar-lhe um romance panfletário, porque todo ele foi arquitectado para fazer
um odioso ataque à actual situação política. »
É uma pena que Aquilino Ribeiro tenha
caído completamente no esquecimento, que os jovens não o leiam. Sim, a leitura
dos livros de Aquilino não é fácil obriga a um dicionário por perto, mas é um desfilar
daquela maravilhosa prosa barroca.
Castelo Branco Chaves, num livrinho publicado pela Seara Nova:
«O estilo é sem dúvida um dos valores
máximos da obra de aquilino, especialmente, pelo imaginoso dêsse estilo. É êste
escritor dotado de uma extraordinária imaginação verbal, de um invulgar poder
vocabular. E não é só a abundância; é também, e especialmente, o singular poder
decorativo das palavras que escolhe, a arte com que as agremia e um assombroso
sentido do seu valor prosódico. Tôdas estas riquezas do estilista sobressaem
naquelas suas páginas em que o descritivo domina e predomina. O seu estilo está
apto para toda a descrição, com um poder de colorido, uma riqueza de tons que
assombra e domina.
Possui Aquilino um verdadeiro talento
narrativo, uma arte de contar tão perfeita, acabada, de tão sugestivo desenho e
vivo colorido que lê-lo é uma maravilha e deleite.»
José Régio:
«Creio que até os que pessoalmente menos
estimam a arte de Aquilino nele sentem um Mestre.»
O que
Aquilino disse sobre a sua escrita:
«Como conheço tantas palavras? Porque li e reli os clássicos… porque estudei, esmiucei o Camilo… e porque tenho passado a vida a prestar atenção ao que os outros dizem… Sim, sim, a menos de ser surdo, um escritor que tem a peito escrever na sua língua, deve anotar cada palavra, cada expressão que lhe encanta ou lhe fere o ouvido… A língua do povo é um manancial!... Se o escritor assim proceder, verá que, no momento oportuno, todo esse léxico virá por seu próprio pé ao sabor da escrita. Mas foi com os nossos clássicos e com os homens e mulheres da minha região que elaborei a minha língua e, com ela, o meu estilo… que vale o que vale, mas que é o meu!»
Alguns livros de
Aquilino Ribeiro existiam na Biblioteca da Casa.
Sim, Aquilino não é
fácil, mas a leitura também tem de ser constituída por autores e livros que
requerem trabalho. Como um Sublinhado Saramaguiano aqui deixado na passada
semana:
«Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e
parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma».
Lembro-me que o único livro de Aquilino que comprei
foi A Casa Grande Romarigães.
A lápis, no canto superior direito da 1º página, o
livreiro escreveu: 45$00. Mas não passei da página 54. Sei isto porque, naquele
tempo, os livros não se vendiam com as folhas guilhotinadas, tinham de ser
abertos com uma faca («De repente senti saudade da velha ferramenta do jovem
leitor que fui. A faca de papel. A ferramenta fora de uso morre. A faca de
papel, belo objecto, está a desaparecer. E com ele talvez certa leitura via
Jorge Listopad em Secos e Molhados) e a minha tarefa ficou-se por
essa página. Havia quem comprasse os livros e os abrisse de uma vez só. Eu
gostava de ir abrindo à medida que os ia lendo.
Terá sido a velha história: chateei-me de ler tanta
palavra que desconhecia, e, numa de preguiça literária, cansei-me da
necessidade de tanto ter que pegar no Dicionário.
Tem um bonito começo:
O Vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso,
penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não
senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se
agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em
sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um
pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço.
Que pára-quedista!
E o livro termina
assim:
«Mata fora as aves cantavam e recantavam. Hilário,
cabeça dobrada para a terra, pois lá reside o segredo do mundo que mais
imediatamente se propõe à especulação da nossa inteligência, dizia consigo: -
Está dito, tudo morre e tudo volta. Reparo que uma força criadora, decerto
instilada do Sol, palpita de modo tão intenso que o sentimento da velhice no
homem se torna de uma tristeza funérea e confrangedora. É pena que se não possa
regular a vida como um relógio, andando com os ponteiros para diante e para trás
segundo a nossa conveniência. Como eu faria da Quinta do Amparo um jardim
maravilhosos, a minha instância de contemptor do Mundo, e de Nossa Senhora,
esta doce imagem de faces bochechudinhas, minha amiga do coração?! A Primavera,
tantas vezes rebelde ao calendário, rejuvenesce tudo menos o homem. As leis da
ciclidade física assim o mandam. Para o ano, por esta altura, voltarão as aves
a cantar. Que chova, que faça um sol radioso, com o mundo vegetal pletórico de
seiva ou mais aganado, à triste planta humana é que nada a afasta da sua
carreira para a morte. Será ela a obra-prima da Criação ou a pior de todas?»
Tudo isto é tão
bonito e tão diferente.
É sempre tarde
quando se chora, ou talvez as «leis da ciclidade» de que fala Aquilino.
Certo que já não
sou o jovem que então desistiu de Aquilino, e de o não ter lido como devia, muito
me lamento.
Ao ponto de ter
folheado hoje «Abóboras no Telhado» e acabar por ler esta maravilha:
«Já o escrevi e apraz-me repeti-lo: na Mitra ou em
Rilhafoles, não sei ao certo, estava um sujeito que rompeu a reivindicar a
autoria de livros que correm com o meu nome. Ele teria carpintejado os livros e
eu teria cometido a feia acção de por dolo ou extorsão haver-me apropriado
deles. Era com tal ou qual dialéctica que sustentava a suposta paternidade. E,
tendo-lhe alguém objectado como é que poderia ter escrito os livros sendo analfabeto,
respondeu: Ora essa, eu dito, o
Espírito-Santo escreve.
Uma tia que tive, boa e religiosa alma que sempre recordo com saudade, explicava a minha pretendida fecundidade quase da mesma maneira: o Espírito-Santo dita, ele escreve.»
Leio por aí que hoje
é o Dia Mundial da Abóbora.
As vezes que o meu
avô, por erros nos ditados, nas cópias nos problemas, me chamava cabeça de
abóbora.
Não seja por isso que
não simpatizo com algo que leve abóbora. Eu que nunca recuso nenhum doce, passo
ao lado do Doce de Abóbora.
As abóboras são cultivadas em todo o mundo por várias razões, desde propósitos agrícolas (como ração animal) até vendas comerciais e ornamentais. Dos sete continentes, apenas a Antártica é incapaz de produzir abóboras. A abóbora tradicional americana usada para o Halloween é a variedade do campo de Connecticut.
A contra capa do livro não tem nada de especial, excepto uma relação das obras de Aquilino Ribeiro. De resto, mais ou menos, como em todos os livros da época, não existe inficação do autor da capa, nem da data em que foi editado.
A parte que se cita de Abóboras no Telhado faz parte da longa e amistosa dedicatória que Aquilino faz a Jaime Cortesão.
Lembro-me que o único
livro de Aquilino que comprei foi A Casa Grande Romarigães.
A lápis, no canto
superior direito da 1º página, o livreiro escreveu: 45$00. Mas não passei da
página 54. Sei isto porque, naquele tempo, os livros não se vendiam com as
folhas guilhotinadas, tinham de ser abertos com uma faca («De repente senti saudade da velha ferramenta
do jovem leitor que fui. A faca de papel. A ferramenta fora de uso morre. A
faca de papel, belo objecto, está a desaparecer. E com ele talvez certa
leitura via Jorge Listopad em Secos e Molhados) e a minha tarefa ficou-se por essa página.
Havia quem comprasse os livros e os abrisse de uma vez só. Eu gostava de ir
abrindo à medida que os ia lendo.
Terá sido a velha história: chateei-me de ler tanta palavra que desconhecia, e, numa de preguiça literária, cansei-me da necessidade de tanto ter que pegar no Dicionário.
Tem um bonito começo:
O Vento, que é um pincha-no-crivo devasso e curioso, penetrou na camarata, bufou, deu um abanão. O estarim parecia deserto. Não senhor, alguém dormia meio encurvado, cabeça para fora no seu decúbito, que se agitou molemente. Volveu a soprar. Buliu-lhe a veste, deu mesmo um estalido em sua tela semi-rígida e imobilizou-se. Outro sopro. Desta vez o pinhão, como um pretinho da Guiné de tanga a esvoaçar, liberou-se da cela e pulou no espaço. Que pára-quedista!
4 de Agosto de 1970
Relido um bocado do
Torga, já não sei porquê. Uma ideia bem assente é que Torga é um Aquilino
depurado, ou seja, sem os grilhões de ouro vocabulares. (Este Aquilino. E andou
ele por França. Não viu nada. Que fidelidade à bruteza da província!) Ou ideia
bem assente é que Torga é muito melhor poeta que prosador. Ou: como poeta é que
é bom prosador. Esta segunda versão é que deve estar certa. O que invariavelmente
me irrita neste homem, bons deuses, é o falar constantemente de si – em voz
grossa. Mas não me chateiem por favor: já disse que é um bom poeta.
Vergílio Ferreira em Conta-Corrente I Volume
Castelo Branco
Chaves
Cadernos da
Seara Nova
Seara Nova,
Lisboa, 1935
O
estilo é sem dúvida um dos valores máximos da obra de aquilino, especialmente,
pelo imaginoso dêsse estilo. É êste escritor dotado de uma extraordinária
imaginação verbal, de um invulgar poder vocabular. E não é só a abundância; é
também, e especialmente, o singular poder decorativo das palavras que escolhe,
a arte com que as agremia e um assombroso sentido do seu valor prosódico. Tôdas
estas riquezas do estilista sobressaem naquelas suas páginas em que o
descritivo domina e predomina. O seu estilo está apto para toda a descrição,
com um poder de colorido, uma riqueza de tons que assombra e domina.
Possui
Aquilino um verdadeiro talento narrativo, uma arte de contar tão perfeita,
acabada, de tão sugestivo desenho e vivo colorido que lê-lo é uma maravilha e
deleite.