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sexta-feira, 8 de maio de 2026

TRAGÉDIA

Foi para a escola e aprendeu a ler

e as quatro operações, de cor e salteado.

Era um menino triste:

nunca brincou no largo.

Depois, foi para a loja e pôs a uso

aquilo que aprendeu

- vagaroso e sério,

sem um engano,

sem um sorriso.

Depois, o pai morreu

como estava previsto.

E o Senhor António

(tão novinho e já era «o Senhor António»!...)

ficou dono da loja e chefe da família...

Envelheceu, casou, teve meninos,

tudo como quem soma ou faz multiplicação!...

E quando o mais velhinho

já sabia contar, ler, escrever,

o Senhor António deu balanço à vida:

tinha setenta anos, um nome respeitado...

- que mais podia querer?

Por isso,

num meio-dia de Verão,

sentiu-se mal.

Decentemente abriu os braços

e disse: - Vou morrer.

E morreu!, morreu de congestão...

 

Manuel da Fonseca

sábado, 28 de março de 2026

POEMAS AUTOGRAFADOS


 A Portugália entregou a Mário Dionísio a tarefa de escrever o prefácio para o 7º volume da Colecção Poetas de Hoje, que é Poemas Completos do Manuel da Fonseca.

Mário Dionísio foi o melhor, o mais puro historiador do neo-realismo português, tão vilmente depreciado por críticos e autores.

«Não sei compreender um poeta e a sua obra, desligando-o e desligando-a da realidade em que nasceu, de que nasceu, que ele veio, a seu modo, enriquecer e, enriquecendo, transformar.»

Alentejano, um extraordinário contador de histórias, Manuel da Fonseca escreveu poemas de uma simplicidade cativante - «Ser espontâneo dá-me muito trabalho.»

Assim como «Domingo que vem eu vou fazer as coisas mais belas que um homem pode fazer na vida.» parece tão fácil, tão fácil como aquele endeusar dos tangidos bandolins, fitas violas gritos da heroica marcha Almadanim tocada pela Tuna do Zé Jacinto.

E um homem nunca é uma ilha isolada, um homem só não pode nada e «dá-me raiva ouvir seja quem for lamentar-se. Eu nunca me lamento».

Aldeia é o poema que Manuel da Fonseca deixou para seu autógrafo. E sempre o largo, que «antigamente era o centros do mundo».

   

Aldeia   

Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O SOL DO MENDIGO

Olhai o vagabundo que nada tem
e leva o Sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o Sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira...
Pela manhã acorda tonto de luz.
Vai ao povoado
e grita:
- Quem me roubou o Sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios
rosnam:
- Que grande bebedeira!

E só à noite se cala o pobre.
Atira-se para o lado,
dorme, dorme...

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

CORO DOS EMPREGADOS DA CÂMARA

É tão vazia a nossa vida,

é tão inútil a nossa vida

que a gente veste de escuro

como se andasse de luto.

Ao menos se alguém morresse

e esse alguém fosse um de nós

e esse um de nós fosse eu…

 

 … O Sol andando lá fora,

fazendo lume nos vidros,

chegando carros ao largo

com gente que vem de fora

(quem será que vem de fora?)

e a gente pràqui fechados

na penumbra das paredes,

curvados pràs secretárias

fazendo letra bonita.

Fazendo letra bonita

e o vento andando lá fora,

rumorejando nas árvores,

levando nuvens pelo céu,

trazendo um grito da rua

(quem seria que gritou?)

e a gente pràqui fechados

na penumbra das paredes,

curvados pràs secretárias

fazendo letra bonita,

enchendo impressos, impressos,

livros, livros, folhas soltas,

carimbando, pondo selos,

bocejando, bocejando,

bocejando.

 

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

QUARTA CANÇÃO DA VIDA

Depois que nossos pés andaram toda a terra,
cruzaram caminhos, devassaram florestas, escalaram montanhas
e volveram sangrentos riscando as estradas do mundo;
depois que o mar é um murmúrio azul de águas fáceis
e se foi o mistério que havia nas distâncias,
evaporado como espuma na quilha dos navios;
depois que nossas mãos mergulharam na noite milenária,
tocaram luas mortas, revolveram estrelas
e enfim! acenaram escorrendo luz de sóis:
- por que não vamos colher os frutos que nós semeámos?
porque não vamos, irmãos, porque não vamos?!

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

O SOL DO MENDIGO

Olhai o vagabundo que nada tem
e leva o Sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira...
Pela manhã acorda tonto de luz.
Vai ao povoado
e grita:
- Quem me roubou o sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios
rosnam:
- Que grande bebedeira!

E só à noite se cala o pobre.
Atira-se para o lado,
dorme, dorme...

E toda a noite o sol o cobre...

Manuel da Fonseca de Rosa-dos-Ventos em Poemas Completos

terça-feira, 23 de abril de 2024

PARTIR

Eu vou-me embora para além do Tejo,

não posso mais ficar!

 

Já sei de cor os passos de cada dia,

na boca as mesmas palavras

batidas nos meus ouvidos...

-- Ai as desgraças humanas destas paisagens iguais!...

Abro os olhos e não vejo

já não ando, já não oiço...

Não posso mais...

Grita-me a Vida de longe

e eu vou-me embora para além do Tejo.

 

Passa a ave no céu bebendo azul e diz:    Vem!

O vento envolve-me numa carícia,

envolve-me e murmura: -- Vem!

As ondas estalam nas praias e vão mar fora,

as mãos de espuma a prender-me os sentidos

chamam no fundo dos meus olhos: -- Vem!

 

-- Camaradas, eu vou, esperai um pouco...

Ai, mas a vida nunca espera por ninguém...

E a noite chega vingadora;

o vento rasga-me o fato,

as ondas molham-me a carne

e a ave pia misticamente no ar;

abro os olhos e não vejo,

já não ando, já não oiço

-- e fico, desgraçado de ficar!...

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

POEMA DA MENINA TONTA

A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa na rua,
que a outra metade fica
pra namorar-se ao espelho.
A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.
A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel...
No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...
A menina tonta tem coração sem corda
a boca sem desejos
os olhos sem luz...
E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta
tem a cabeça cheia de farelos.

 

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

quinta-feira, 22 de abril de 2021

OS OLHOS DO POETA

O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,
e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gestos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando com contos-de-fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade:
- todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

Legenda: fotografia de Yves Bottineau

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

SEGUNDO POEMA DA INFÂNCIA

Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, bricar comigo?...
... Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebecem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusa

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

Legenda: Pintura de Edith Martineau

terça-feira, 6 de outubro de 2020

ANTES QUE SEJA TARDE

 

Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

segunda-feira, 6 de abril de 2020

CANÇÃO


Num ano de grande fome,
minha família acabou-se.

Eu tinha uma boa enxada
donde tirava o sustento,
ia-me de monte em monte
chegava à porta e dizia:
- lavrador,
eu cavo-lhe a sua herdade!
E no meio das courelas, a minha enxada luzia.
Viesse o sol que viesse
e a chuva que caísse
e o vento, que vem do norte
e corta como uma foice,
que assobiasse e cortasse:
- a minha enxada luzia!

E a minha filha crescia,
estava uma moça vistosa.
Tanto que os homens saíam
para a porta das tabernas
dizendo ao vê-la passar:
- lá vai a Rosa Charneca.
E minha mulher cantava
estendendo a roupa, a corar,
sobre esteveiras, ao sol.

Quando veio a grande fome
tudo isto se acabou.

Minha mulher foi prà monda
lá para o Alto Alentejo.
E a minha filha abalou
com uma mulher que ri
e anda de feira em feira
armando aquela barraca
onde se bebe e se ama.

E numa manhã de Inverno,
não pude mais e parti
- pelas estradas do acaso
com a manta de maltês!...


Manuel da Fonseca em Poemas Completos

Legenda: fotografia de Rachel Giese

quarta-feira, 26 de junho de 2019

CANÇÃO DE HANS, O MARINHEIRO


Se tu soubesses
que em todos os portos do mundo
há uma mão desconhecida
a acenar - adeus, adeus - quando se parte prò mar;
se tu soubesses
que o mar não tem fronteiras nem distâncias
é sempre o mar;
se tu soubesses
a noite nas águas
onde os barcos são berços
e os marinheiros meninos a sonhar;
se tu soubesses
o desamor à vida quando o vento grita temporais
e a morte vem abraçar os homens na espuma das vagas;
se tu soubesses
que em todos os portos do mundo
há um sorriso para quem chega chega do mar;
se tu soubesses vinhas comigo prò mar
embora as nuvens do céu
e os ventos que vêm do Este e do Oeste, do Sul e do Norte
digam ao mundo que vai haver o temporal maior que todos!

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

Legenda: pintura de Pierre Bonnard

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

ANTES QUE SEJA TARDE


Amigo,
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida. 

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

SOLIDÃO


Que venham todos os pobres da Terra
os ofendidos e humilhados
os torturados
os loucos:
meu abraço é cada vez mais largo
envolve-os a todos! 

Ó minha vontade, ó meu desejo
— os pobres e os humilhados
todos
se quedaram de espanto!... 

(A luz do Sol beija e fecunda
mas os místicos andaram pelos séculos
construindo noites
geladas solidões.) 

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

DOMINGO


Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.

Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar...
E há os que vão para o campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«Bom tempo para amanhã»...
Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.
Um rapaz que era pintor
não disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.
Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando porque seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!
Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santos
quando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina...
Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escada
onde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
‑ porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!
Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.

Partindo deste princípio,
que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!

Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casas de penhores...
Penso isto, e vou a grandes passadas...
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia,
mas todos acharam estranhos os meus modo
se estranha a minha voz...
Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas
‑ ao sol
como num ritual consagrado a um deus! ‑
até chegar o homem bem-amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendida...

Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras;
venha a ânsia do peito para os braços!

E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura...
O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.
Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!
Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo natural.
A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez que chovia até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos...
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bom feito,
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.
No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.
Hoje encontramo-nos aí pelos cafés...
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos,
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
‑ rapaz, traz-me um café...
O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
‑ Olha,
quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol...
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:
‑ ... no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caia um fio para a água...
... um dia pescou um peixe,
e nunca mais lá voltou...
O pior é pensar:
que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre
como se fosse uma festa?... ‑
O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.

Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!

Mariazinha Santos,
que vá para o cinema morder o lencinho que sua mãe lhe bordou...
E os senhores serenos, acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes...
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó...
E tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!

Então,
virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!
… … … … … … … … … … … … … … … … …
Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!


Manuel da Fonseca em Poemas Completos

Legenda: fotografia da Jornada do domingo 7 de Outubro de 1974, tirada de  Portugal Século XX de Joaquim Vieira, Livraria Bertrand, Novembro de 2007.