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quinta-feira, 7 de novembro de 2019

OLHAR AS CAPAS



A Sangue Frio

Truman Capote
Tradução. Maria Isabel Braga
Colecção Dois Mundos nº 93
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Na segunda-feira, no dia em que o último abandonava Garden City, o Telegram publicava na primeira página uma carta escrita por Mr. Howard Fox, de Oregon. Illinois, irmão de Bonnie Clutter. A carta depois de exprimir a sua gratidão às pessoas da cidade por terem aberto as suas «portas e os seus corações» à família enlutada, constituía um apelo: «Existe grande dose de ressentimento nesta comunidade (isto é, Garden City)» escrevia Mr. Fox. «Ouvi mesmo afirmar, mais do que uma vez, que o criminosos, quando fosse apanhado, deveria logo ser enforcado na primeira árvores. Não devemos pensar assim. O mal está feito e o facto de se suprimir mais uma vida nada modificava. Em vez disso tratemos de perdoar, como é da vontade de Deus. Não é bom albergar ódio no coração. O autor deste crime vai achar muito difícil viver com o remorso. Só encontrará a paz quando alcançar o perdão de Deus. Que não sirvamos nós de estorvo a isso. Mas, antes, oremos para que encontre a paz.»

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


Breakfast At Tiffny’s
(Boneca de Luo)

Truman capote
Tradução: Margarida Vale de Gato
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junho de 2009

-Deves pensar que sou uma desavergonhada. Ou três fou, Ou uma coisa qualquer.
-De modo nenhum.
Pareceu desiludida.
- Pensas, sim. Toda a gente pensa. Não me importo. Dá-me jeito.
Sentou-se com as pernas dobradas sob o corpo numa das cadeiras bambas de veludo vermelho e olhou em redor, os olhos semicerrando-se mais pronunciadamente.
- Como é que podes aguentar isto? É a câmara dos horrores!
- Oh, uma pessoa habitua-se a tudo – disse, contrafeito comigo próprio, pois orgulhava-me bastante daquele lugar.
- Eu não. Nunca me vou habituar a nada, e quem se habitua mais vale estar morto.
O seu olhar de censura perscrutou de novo o quarto.
- O que é que fazes aqui o dia todo?
Apontei para uma mesa atulhada de livros e papéis.
- Escrevo coisas.
- Pensava que os escritores eram bastante mais velhos. Claro, está que o Saropyan não é velho. Conheci-o numa festa e de facto não é mesmo nada velho. Com efeito – ponderou ela – se ele se barbeasse melhor… a propósito, o Hemingway é velho?
- Anda pelos quarenta, quer-me parecer.
- Não está nada mal. Não consigo excitar-me com um homem com menos de quarenta e dois. Conheço uma miúda idiota que está sempre a dizer para eu ir ao psiquiatra; diz que tenho um complexo de Édipo. O que não passa de uma grande merde. Simplesmente treinei-me a mim própria para gostar de homens mais velhos, e foi a coisa mais acertada que alguma vez fiz. Que idade tem o W. Somerset Maugham?
- Não sei ao certo. Sessenta e qualquer coisa.
- Não está mal. Nunca fui para a cama com nenhum escritor.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Um Natal

Truman Capote
Tradução: Rita Alves Machado e Dinis Machado
Capa: Rogério Petinga
Difel, Lisboa s/d

Doze horas mais tarde estava eu em casa, na cama. O quarto estava escuro. Sook estava sentada a meu lado, oscilando na cadeira de baloiço, um som tão calmante como as ondas do oceano. Tentei contar-lhe tudo o que tinha acontecido, e só parei quando fiquei rouco como um cão cansado de uivar. Ela passou os dedos pelo meu cabelo e disse: - Claro que o Pai Natal existe. Só que ninguém consegue fazer sozinho tudo o que ele tem para fazer. Por isso o senhor distribuiu a tarefa por todos nós. Por isso toda a gente é Pai Natal. Eu sou. Tu és. Até o teu primo Billy Bob. Agora vai dormir. Conta as estrelas. Pensa na coisa mais tranquila que conheças. Como a neve. Lamento que a não tenhas podido ver. Mas agora a neve cai das estrelas. Estrelas brilhando, neve rodopiando dentro da minha cabeça; a última coisa de que me lembrei foi da voz calma do Senhor dizendo-me aquilo que eu tinha de fazer. E no dia seguinte fi-lo. Fui com o Sook aos Correios e comprei um postal. Esse mesmo postal existe hoje. Foi encontrado no cofre-forte do meu pai quando ele morreu o ano passado. Eis o que tinha escrito: Olá papá espero que estejas bem eu tou e tou a aprender a pedalar o meu avião tão depressa que daqui a pouco tou no céu por isso fica de olhos abertos e sim eu gosto muito de ti Buddy.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

OLHAR AS CAPAS


Os Cães Ladram

Truman Capote

Tradução: Margarida Vale de gato
Capa: Fernando Mateus
Relógio d’Água, Lisboa Julho de 2002

Certa manhã — julgo que era Dezembro, um domingo frio com um sol cinzento e triste — subi o bairro até ao velho mercado onde, nessa altura do ano, se encontram delicados frutos de Inverno, tangerinas doces, a vinte cêntimos a dúzia, e flores de inverno, poinsetias e camélias brancas. As ruas de Nova Orleães têm perspectivas compridas e solitárias; nas horas mortas o seu ambiente faz lembrar Chirico, e as coisas inocentes (um rosto por trás da luz entrecortada de uns estores, freiras caminhando ao longe, um braço gordo e escuro balouçando languidamente de uma janela, um rapaz negro agachado sozinho num beco, soprando bolas de sabão e observando tristemente a sua ascenção e explosão) adquirem geralmente contornos de violência. Nessa manhã, dizia, detive-me no meio de um quarteirão, porque me apercebera pelo canto do olho, de um túnel, de um jardim deixado ao abandono. Um cão de caça branco com um aspecto alucinado permanecia hirto na luz verde da relva que brilhava no fim do túnel e, compulsivamente, virei nessa direcção. Lá dentro havia uma fonte, a água jorrava delicadamente da boca de bronze da estátua de um macaco e produzia sons de sinos desolados em charcos de seixos. Pendia de um salgueiro: um homem com ar de bandido e cabelo platinado, artificial; pendia tão frouxamente como o próprio salgueiro. Havia terror naquele jardim sufocado e silencioso. As janelas fechadas espreitavam às cegas; as babas dos caracóis cintilavam, prateadas, sobre inhames, nada se mexia a não ser a sua sombra. Balouçava levemente, para trás e para a frente, e todavia não havia vento. Tinha um anel com um diamante de imitação que luzia ao sol, e no seu braço a tatuagem de um nome, «Francy». O cão baixou a cabeça para beber da fonte, e eu larguei a correr. Francy — teria sido por ela que se matara? Não sei. N. O. (noca Orleães) é um lugar secreto.