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sexta-feira, 29 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


 

             Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


O que acima se vê, é um pormenor da 1ª página do semanário Cinéfilo nº 27, da semana 6-12 de Abril de 1974.

Ainda não se tinham apagado todos os sons, todos os sentimentos do espectáculo de Patxi Andión no Coliseu, e a 29 de Março realizava-se o I Encontro da Canção Portuguesa, organizado pela Casa da Imprensa, que entendera substituir a habitual “Grande Noite do Fado”,e à reportagem-crítica desse espectáculo, a rapaziada do Cinéfilo, colocava em título: EM BUSCA DA FESTA!

Que festa?

José Saramago já, anos antes, 1966, anunciava que, num qualquer dia  chegaria o DIA DAS SURPRESAS.

Entre outros participaram na festa: Carlos Paredes, José Carlos Ary dos Santos, José BarataMoura, Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Manuel Freire, Fernando Tordo, Fausto, Vitorino.

O crítico e radialista Mário Contumélias estava encarregado de contar aos leitores cinéfilos, o que nessa noite iria acontecer na velha sala das portas de Santo Antão e para ele mesmo dissera que aquilo talvez redundasse numa «pepineira intragável», mas fecha a abertura do texto deste modo:

«E agora que aquilo já passou, há uns dias largos, ainda guardo em mim uma grande emoção, Fosse lá porque fosse, naquela noite no Coliseu, senti-me. E isso não nos acontece todos os dias. Isso é importante!»

Dois pormenores da reportagem:

«E entrou José Carlos Ary dos Santos. Entrou no palco entre assobios e aplausos. Pense eu o que pensar do Ary como poeta ou como declamador, a verdade é que ele tem muita força. Eu venho cá dizer poesia. Se não gostarem manifestem-se no fim.

E a malta manifestou-se. Aplaudindo o Soneto Presente. Com dois poemas, Zé Carlos, face à insistência do público, diz um terceiro, o Retrato de Alves Redol.»

«Quando, depois do Adriano acabar de cantar, José Afonso se aproximou do microfone, as palmas rebentaram.

Venho aqui cantar uma canção GRÂNDOLA, disse Zeca.

Cerraram-se as luzes, e toda a sala, todos os 5 mil, de pé entoaram em coro os versos da canção. Braços dados, corpos balanceando, pés batendo no chão.

Quando o Zeca acabou, o público ficou lá, erguido ainda, nos camarotes, na galeria, na plateia, na geral, em todo o lado onde cabia mais um.»

Naquela noite, sob forte vigilância policial e pidesca, mais de cinco mil pessoas, entoaram espontaneamente, Grândola, Vila Morena, ironicamente uma das duas canções que a censura permitiu que, nessa noite, José Afonso cantasse. A outra seria Milho Verde,
mas «Grândola», canção de José Afonso, (incluída em Cantigas do Maio , de 1971, e interpretada pela primeira vez ao vivo em Santiago de Compostela, na Galiza ) posteriormente, escolhida pelos militares do MFA como segunda senha de arranque da Revolução dos Cravos.

 Não há machado que corte a raiz ao pensamento, um entusiasmo delirante e o espectáculo a encerrar com todos os artistas participantes a cantarem, com toda a sala de pé, braços dados, Grândola Vila Morena, ao ponto de Regina Louro escrever na Flama de 12 de Abril: “Até as luzes de gala se acenderam, para esse espectáculo-participação”.

Aquela noite fazia já antever o que, uma vintena de dias depois, veio a acontecer: o consumar do grito do poeta à rapariga, para que ela não esquecesse que um dia iriam soltar a Primavera no País de Abril, o microfone que falaria numa noite às 4 e tal… a madrugada donde um país emergiu da noite e do silêncio.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


 «Agora que as canções, boas ou más, memoráveis ou insignificantes, circulam livremente sem que alguém as trave ou proíba, convém recordar que no Portugal de há meio século a censura a canções e discos ainda estava bastante activa. Talvez por isso muita gente tenha assistido, com espanto, à vitória no Festival RTP de uma canção chamada Tourada. Com letra do poeta José Carlos Ary dos Santos e música de Fernando Tordo, que ali a defendeu, cantando-a, na noite de 26 de Fevereiro de 1973 (no palco do Maria Matos, em Lisboa), acabou por ir à Eurovisão, no Luxemburgo, ficando em décimo lugar (num total de 17). Porém, mais do que a vitória no festival, o relevo da canção ia para o que nela transparecia de escárnio face a uma ditadura travestida de “Primavera” que insistia em atolar-nos num “Inverno” sem fim à vista.»

Nuno Pacheco no Público

1.

A Assembleia da República vai assinalar o primeiro ano da guerra na Ucrânia, que teve início a 24 de fevereiro de 2022, com um debate temático e outras iniciativas, que arrancam esta quinta-feira com a iluminação da fachada do edifício do Parlamento com as cores da bandeira ucraniana, azul e amarelo.

2.

Artigo de João Pedro Pincha no Público:


«Falar desta guerra como uma luta em defesa da democracia cimentou a unidade entre Europa e Estados Unidos, mas está longe de convencer na Índia, na China ou na Turquia.

 Se europeus e norte-americanos estão alinhados no desfecho que consideram ideal — a vitória ucraniana com a reconquista de todos os territórios ocupados pela Rússia —, os cidadãos da Índia, da Turquia, da Rússia e da China são maioritariamente favoráveis a que a guerra termine o quanto antes, mesmo que isso implique cedências territoriais ucranianas.»

3.

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos considerou, numa decisão publicada nesta quinta-feira, que o Estado português não tem de indemnizar os clientes do Banco Espírito Santo, que acumularam prejuízos avultados com a compra de produtos financeiros que a entidade bancária apresentava como seguros. Para os juízes europeus, os estados não têm "qualquer obrigação de cobrir as dívidas de entidades privadas". 

4.

Empresas de trabalho temporário alcançam facturação recorde de 1 550 milhões em 2022

5.

Os resultados da última sondagem do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica para o PÚBLICO, RTP e Antena 1 dão aos socialistas 32% das intenções de voto e 31% aos sociais-democratas. Não é o PSD que melhora, é sobretudo o PS que piora: se as eleições legislativas se realizassem agora, haveria um empate técnico entre os dois maiores partidos e a direita conseguiria, toda junta, a maioria absoluta.

Dos inquiridos mais de metade (53%) classifica o desempenho do governo  de mau ou muito mau, mas 70% defendem que o melhor para o país é cumprir o mandato até 2026.

domingo, 14 de novembro de 2021

VELHOS DISCOS


TOMA LÁ DISCO - TLP 002 - 1976

Lado 1
Os Pais – O Lenhador – A Costureira – Os Carteiros

Lado 2
Os Palhaços – O Pasteleiro – Os Vendedores – Os Amigos

É escassa a produção portuguesa de Discos de Natal. Algumas pontas soltas por aí perdidas, a maior parte singles e EPs.

Mas existe Operários do Natal.

A editora discográfica Toma Lá Disco, uma cooperativa de música, teve curta duração, mas teve o tempo suficiente para conseguir produzir uma boa mão cheia de discos que marcam a música portuguesa.

Neste número encontra-se o LP dos Operários de Natal.

O disco foi gravado em 1976 e reúne as canções de um espectáculo que, com o mesmo título, foi representado no Teatro Adóque, um barracão improvisado a fazer de teatro, no Martim Moniz onde agora se erguem vários mamarrachos.

Apetece dizer que um naipe de poetas e artistas conseguiu realizar um trabalho em que as crianças são tratadas como gente e não como uns patetinhas e, por isso, está longe, muito longe, das costumadas parvoeiras.

Apetece dizer: tratadas com dignidade.

Canções com textos partilhados entre José Carlos Ary dos Santos e Joaquim Pessoa, interpretados por Carlos Mendes, Paulo de Carvalho e Fernando Tordo, que também escrevem as músicas, e introduzidas pela belíssima voz de Maria Helena d’Eça Leal.

Aqui terá que dizer que o disco faz parte do cancioneiro da vida dos filhos, começa a fazer parte da dos netos e, dirá ainda, que é um disco muito, mas mesmo muito cá de casa – cada amigo nosso vale mais que um pai natal.

Por muitos natais se cantaram estes operários. O tempo foi passando e, hoje, já não encontra a voz desafinada de alguns que à volta da mesa, e não só, se faziam ouvir.

sábado, 13 de novembro de 2021

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Mais do que um concerto, “Natal em Casa de Ary” é uma viagem aos tempos do número 23 da Rua da Saudade. O palco, cenicamente transformado na “sala dos veludos” da casa de Ary, servirá de ponto de partida para uma viagem pela obra de Fernando Tordo e Ary dos Santos. De “Cavalo à Solta”, “Tourada” ou “Estrela da Tarde”, passando por canções do disco Operários de Natal, e sem esquecer “Quando um Homem Quiser”.

Colaboração de Aida Santos

segunda-feira, 5 de abril de 2021

ISTO AQUI É PARA SENHORAS!


Quem com ele andou, tem dezenas e dezenas de histórias para contar.

Umas serão lendas, outras terão o seu cunho de verdade. Mas todas elas mirabolantes.

Pedro Bandeira Freire, no seu livro Entrefitas e Entretelas, conta uma dessas histórias.

Bandeira Freire não sabe se por engano, por aflição, por pura provocação, Ary dos Santos foi fazer o que tinha para fazer numa casa de banho de um qualquer restaurante.

«Quando ia a sair, cruza-se com uma senhora que ia a entrar e que lhe diz: «Isto aqui é para senhoras!»

 O Ary não hesitou na resposta no tom áspero, cáustico e irónico que, quando o provocavam, era tão dele: «E então? Vejam lá! E eu sou alguma puta, não?»

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

DO TEU POEMA À ESTRELA DA TARDE


No Festival RTP da Canção de 1976, Carlos do Carmo foi escolhido para único intérprete das oito canções selecionadas por um júri onde se encontravam Manuel da Fonseca e Pedro Tamen. 

Eram estas as canções:

No teu poema José Luís Tinoco, 

Novo Fado alegre José Carlos Ary dos Santos/Fernando Tordo, 

Os lobos e Ninguém José Luís Tinoco, 

Maria-Criada, Maria-Senhora Tozé Brito

Flor de verde pinho Manuel Alegre/José Niza

 Onde é que tu moras Joaquim Pessoa/ Paulo de Carvalho

 Estrela da Tarde José Carlos Ary dos Santos/Fernando Tordo.

Por votação do público saiu vencedora Flor de Verde Pinho que representou Portugal no XXI Festival Eurovisão da Canção.

As interpretações de Carlos do Carmo estão registadas no disco Uma Canção Para a Europa.

Neste bom naipe de canções, estão duas excelentes canções: Estrela da Tarde e No Teu Poema e uma delas é que deveria ter sido a representação portuguesa na Eurovisão, mas quando se coloca a escolha no público, os desarranjos acontecem!...

No artigo de opinião que escreveu para o Público, Augusto M. Seabra, faz notar que No Teu Poema era uma canção que calhava particularmente bem a Carlos do Carmo mas que, e bastante surpreendentemente, não a retomou e dir-se-ia que a entregou a Simone de Oliveira.

Fica aqui a interpretação de Carlos do Carmo com o pianista Bernardo Sassetti.

Carlos do Carmo, politicamente, sempre se situou à esquerda, foi aquilo que a gíria política designa por compagnon de route do Partido.

Mas por ali o fado não era muito bem visto, criava pele de galinha a muita gente, e devemos lembrar-nos que o excelente Fernando Lopes Graça era o chefe de fila do preconceito anti-fado.

A participação de Carlos do Carmo, na 1ª Festa do Avante, realizada na FIL em 1976, esteve para não acontecer, pois não fazia qualquer sentido alguém do fado subir ao palco, se bem que no Palco nr. 5, na tarde de domingo houvesse uma «Tarde de Fado Amador», e à noite, no mesmo palco, houvesse uma «Noite do Fado» com actuações de Adriano Correia de Oliveira, Fernando Farinha, Fernando Tordo, José Manuel Osório, Samuel e Saudade dos Santos, já para não referir o Concerto de Carlos Paredes, no palco nr. 2, nesse mesmo domingo.

A birra tinha a ver com o nome de Carlos do Carmo.

Mas foi aí que o calmeirão Adriano Correia de Oliveira, levantou a voz e disse a quem de direito:

«Ou o Carlos do Carmo canta, ou eu não canto».

Certas coisas que se dizem, pagam-se.

E Adriano Correia de Oliveira pagou.

O Adriano não era um sectário, nem alinhava em capelinhas, pela simples razão que entendia que o Partido não é nenhuma congregação religiosa.

Pensar pela própria cabeça tem riscos, e o sectarismo de muitos dos seus camaradas, afectou-o profundamente.

Junto a outras pequenas-grandes-coisas levaram o Adriano à morte.

Tinha 40 anos.

Cantou muitas vezes que a saudade é um luto e José Carlos Ary dos Santos retratou-o assim:

«Nas tuas mãos tomaste uma guitarra
copo de vinho de alegria sã
sangria de suor e de cigarra
que à noite canta a festa de amanhã.

Foste sempre o cantor que não se agarra
o que à terra chamou amante e irmã
mas também português que investe e marra
voz de alaúde rosto de maçã.

O teu coração de ouro veio do Douro
num barco de vindimas de cantigas
tão generoso como a liberdade.

Resta de ti a ilha dum tesouro
a jóia com as pedras mais antigas.
Não é saudade, não! É amizade.»

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

AS OUTRAS CANÇÕES DE NATAL

Pode uma canção, Like An Angel Passing Through My Room, que fala da escuridão que desenha sombras na parede, enquanto se ouve o crepitar da lareira, e anjos, na hora de crepúsculo, passam pela sala, ser uma canção de Natal?

O Ary dos Santos dizia que o Natal é quando nós quisermos que seja, uma canção de Natal pode ser aquela que quisermos que seja, esquecendo os Abba mas deixando-a com  Anne Sofie von Otter. 

domingo, 5 de julho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

UM LIVRO CONSIDERADO IMORAL

Diário de Lisboa de 2 de Junho de 1969, noticiava que, nessa mesma tarde, começava, no Plenário Criminal da Boa Hora, o julgamento dos escritores envolvidos na publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica: Natália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e José Carlos Ary dos Santos eram acusados de «abuso de liberdade de imprensa.».

Também figuravam como presumíveis delinquentes, o editor Fernando Ribeiro de Melo, o empregado de escritório Francisco Marques Esteves e o técnico têxtil Ernesto Geraldes de Melo e Castro.

Segundo a acusação «algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Como patronos dos acusados encontravam-se João da Palma Carlos, Vera Jardim, Salgado Zenha e António de Sousa.

Eram inúmeras as testemunhas de defesa.

O julgamento só aconteceria em Março de 1970.

E, segundo o Diário de Lisboa, de 21 de Março, os réus, excepto Francisco Marques Esteves que foi absolvido, foram condenados a 45 dias de prisão substituíveis por multa a 40 escudos diários.

E Luiz Pacheco volta a ser notícia:


«Dado a sua precária situação económica o tribunal dispensou Luiz Pacheco do pagamento da multa diária.»

No final do julgamento, o juiz Fernando António Morgado Filipe, mandou que fossem destruídos todos os exemplares da Antologia da Poesia Erótica e Satírica.

A poesia ofendia o pudor, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.

Mas quem assim pensava não se coibia de perseguir, torturar e assassinar cidadãos que lutavam pela Liberdade ou enviar para a guerra colonial a juventude de toda uma geração.

Um Portugal governado por um velho atroz, cercado por serviçais – que não eram assim tão poucos! - verdadeiramente desumanos, incultos e crentes abnegados numa senhora que um dia. por Fátima. «apareceu» a três pastorinhos.

Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2017

domingo, 26 de abril de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

ESTES PUBLICITÁRIOS!...

Contam os experts, que deve-se a Fernando Pessoa o slogan para a Coca-Cola:

Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

Os intelectuais deram à publicidade um toque único.

Alexandre O’Neill e José Carlos Ary dos Santos, na publicidade, são o exemplo perfeito do direito à diferença.

Pela publicidade dos anos 60 andaram, entre muitos outros, Luís de Sttau Monteiro, Vasco da Costa Marques, Alves Redol, José Cardoso Pires, Alberto Ferreira, Álvaro Guerra, Cipriano Dourado.

Ary, nos anos 60, inventa:

Cerveja Sagres, a sede que se deseja.

Para a Wollmark:

Minha lã, meu amor.

Também:

Knorr é naturalmente melhor.

Para o Grémio Nacional dos Seguradores:

Mais seguro, mais futuro.

Para o Banco Pinto & Sotto Mayor:

Deposite confiança no futuro.

Numa reunião para encontrar um slogan para o Halazon, um spray oral, Ary, durante a mesma, mostrou um perfeito desprendimento,  está em toda a parte menos ali.

Mas quase no final da reunião rabisca num papel:

Halazon, a melhor invenção depois do beijo!

Legenda: cartaz tirado de Ary dos Santos; O Homem, o Poeta, o Publicitário.

Texto publicado em 17 de Outubro de 2015.

quinta-feira, 19 de março de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


O tempo de excepção que nos impuseram obriga-nos a ficar em casa.

Apesar de tudo, alguns velhos ainda apareceram na Alameda para as suas jogatanas de sueca.

Amanhã, o olho vivo das autoridades, já não lhes permitirão esse gozo de tempo livre.

Ficarão em casa a ver televisão, provavelmente a implicar com quem lhes está próximo.

Continuo como ontem: a apanhar papéis, pedaços de livros, músicas…

Nesta clausura, lembrei-me de uns versos que Ruy Belo colocou no seu poema Ácidos e Óxidos:

«Não achas que a esplanada é uma pequena pátria
a que somos fieis? Sentamo-nos aqui como quem nasce.»

O resto é uma lindíssima canção do José Afonso para um poema do José Carlos Ary dos Santos.

Uma cidade de outros tempos negros que vivemos e a que conseguimos dar a volta.

Demorou tempo... mas conseguimos!


1.

A fábrica da Mitsubishi Fuso Truck Europe vai suspender a partir de segunda-feira, a produção automóvel no Tramagal, em Abrantes, para prevenir a expansão do Covid-19.

Esta paragem tem a duração de duas semanas e manter-se-á até dia 5 de Abril, disseram aos trabalhadores.

2.

A TAP vai reduzir temporariamente a sua operação, «uma decisão que é tomada após os sucessivos anúncios de restrições, como principal medida de contenção da Covid-19, por parte de vários estados das geografias em que a companhia portuguesa opera», explicou a transportadora, através de comunicado.

3.

Com a grande maioria dos campeonatos europeus em suspenso devido à pandemia de Covid-19, a Bielorrússia apresenta-se como uma excepção.

O presidente Aleksandr Lukashenko deixou as seguintes recomendações:

«É importante lavar as mãos, comer a horas certas. Eu não tenho por hábito beber álcool, mas o vodka não serve só para lavar as mãos. Bebam vodka, uns 100 mililitros por dia deve ser o suficiente para matar o vírus!», começou por explicar.
Façam uma sauna, seca. Os chineses dizem que o vírus morre a 60 graus».

4.

Soube-se hoje que a especulação com produtos necessários à protecção das pessoas: luvas, máscaras, luvas, gel desinfectante e álcool puro, atingiu já a barbárie.

Estabelecimentos venderam um simples frasco de álcool de 250 ml por cinco euros.

Antes do surto custavam perto de um euro

5.

As autoridades italianas actualizaram, hoje, os números relativos ao novo Coronavírus.

Com 3405 vítimas mortais a Itália é, agora, o país com mais mortes registadas.

Antes do balanço desta quinta-feira, a China era o país com mais mortes confirmadas.

A Espanha regista 767 mortes e 17.147 infectados

Portugal regista 4 mortes e 785 infectados.

No Mundo já morreram 9.970 pessoas e 241.021 infectados.

6.

Tragicamente ficámos a saber que o mundo não estava preparado para uma pandemia como esta.

7.

Ler é uma tarefa diária. Podem estar certos que não dói.


Se é uma tarefa quotidiana, não há necessidade de existirem livros para férias,
para fins-de-semana, para dias difíceis.

Não há mesmo.

Mas fiquem-se com esta frase, de um certo optimismo, deixada por  Montesquieu: «Não há desgosto que uma boa hora de leitura não me tenha consulado», enquanto vou à estante buscar a minha velhinha edição de Robinson Crusoé , de Daniel Defoe, da velha Biblioteca dos Rapazes publicada pela Portugália Editora com a narração das estranhas e surpreendentes aventuras de Robinson Crusoé e onde podemos encontrar a provação extrema da solidão.


«Robinson salva a vida a um índio; dá-lhe o nome de sexta-feira.»

8.

Os comentadores e jornalistas de direita realçaram a postura de estado e grandiloquência do discurso de Marcelo Rebelo de Sousa. 

O melhor de todo o seu tempo de presidência.

Mesmo que lá esteja, bem escarrapachada, esta pérola de nacionalismo salazarento:

«Nascemos antes de muitos outros. Existiremos ainda, quando eles já tiverem deixado de ser o que eram e como eram».

Certa gente pode deixar a aldeia, vir estudar para a grande cidade, dar doutor ou engenheiro, mas a aldeia nunca lhes sai da mente.

9.

Vamos continuar a viver o estado de emergência ontem decretado pelo Presidente da República.

Subsistem as dúvidas se uma situação destas era mesmo necessária.

Amanhã o conselho de ministros vai debruçar-se sobre as medidas, para estes tempos perigosos, de apoio às empresas e aos trabalhadores.

terça-feira, 2 de julho de 2019

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


O trabalhador em trânsito, bem acompanhado, na sua pausa de almoço.
Os camaradas ficaram a tratar da colocação das marmitas, neste tempo, que não consegui saber qual é, mas é antigo, ainda se levava marmita para o trabalho, a aquecer sobre as brasas, ele foi buscar os líquidos e sabe, de sabedoria certa, que, como disse o poeta, a «Cerveja Sagres é uma sede que se deseja».

Legenda: fotografia tirada do álbum «Alfama», texto de Gerrit Komrij, fotografias de Hans Roels e Serge Vermeir.

OLHARES


A Confeitaria Vitória, sita na Rua Dona Estefânia, frente ao busto de Neptuno que para ali foi depois de ter estado na Praça do Chile, Luiz Pacheco dixit, é uma das mais antigas de Lisboa.
Nos anos 60/70 faziam das melhores Broas Castelar que alguma vez comi, hoje não é tanto assim.
Do lado esquerdo de quem entra, tem colocada esta placa que informa os clientes que servem Cerveja Sagres abaixo de 0ºC.
Gosto de Cerveja Sagres.
Um gosto que já vem de muito longe no tempo, cimentado quando José Carlos Ary dos Santos esgalhou aquele lindíssimo e inebriante slogan publicitário - «Cerveja Sagres: a sede que se deseja.»
E muitos anos antes de saber que a Sagres seria o «sponsor» do Glorioso.
Tudo razões fortes para só beber Sagres.
Mas, no fundo no fundo, é mesmo por uma questão de gosto.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

RELACIONADOS


O poema Meu Limão de Amargura faz parte de um dos mais brilhantes trabalhos da discografia portuguesa.

AMÁLIA CANTA POETAS DE LÍNGUA PORTUGUESA NA MÚSICA DE ALAIN OULMAN

Os poetas:
Cecília Meireles
David Mourão-Ferreira
Manuel Alegre
Luís de Camões
António de Sousa
Alexandre O’Neill
Pedro Homem de Melo
José Carlos Ary dos Santos

Música:
Alain Oulman

Gravado nas noites de 7 e 8 de Janeiro de 1969.

Editado em Março de 1970.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

É QUE EU SOU UM GAJO MUITO FRIORENTO


Entramos hoje em mais uma entrevista de Luiz Pacheco que, como as restantes, se encontram antologiadas em O Crocodilo Que Voa.
O enfoque recai na entrevista feita por João Paulo Cotrim e publicada na revista Ler, Verão de 1995.

Na esmagadora da maioria das entrevistas feitas ao Pacheco, lá aparecia a perguntinha de como é que ele se inscrevera no Partido Comunista Português.
As respostas do Pacheco têm variantes mas a base é apenas uma: o funeral do José Carlos Ary dos Santos.

«Pois é, mas eu também só entrei para o partido quando me apareceu uma hérnia. Nessa altura, mandei um recado ao José Casanova: «Psst! Quero entrar para o partido como extrema-unção.» Isto não obriga a nada, nem aqui há uma esperança revolucionária. É porque é giro, um gajo morre e vai lá com a bandeira no caixão. É que eu tinha visto o enterro do Ary dos Santos a subir a Morais Soares, com eles aos gritos – Ary, amigo, o partido está contigo! – e pendei: «Isto é o que me convém, porra! Pagam-me o enterro, pagam-me o caixão e levo a bandeira que me deixa aconchegado. Sabe, é que eu sou um gajo muito friorento.»

terça-feira, 13 de junho de 2017

LISBOA E DESFADOS


Construir a cidade e dá-la a toda gente.
Lisboa é uma cidade que vê com os pés. «andando pensa-se melhor do que sentado», diz o João Botelho
«O que há em Lisboa?» pergunta Bogart na tela da sala escura.
Lisboa de Cesário Verde, «nas nossas ruas, ao anoitecer, há tal soturnidade, há tal melancolia», Lisboa de José Gomes Ferreira, Lisboa do Armindo «decerto esta é a mais bela cidade de todas as cidades do mundo, e hoje toda a cidade me fala de ti», Lisboa de Eugénio de Andrade «alguém diz com lentidão: Lisboa, sabes…». Lisboa de António de Sousa «de mal te conhecer é que eu sofria, cidade clara em tuas sete colinas!», Lisboa «cidade branca» de Tanner. Ou Fernando Assis Pacheco: «se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa», Lisboa que «cheira aos cafés do Rossio, cheira a castanha assada se faz frio. A fruta madura quando é Verão». Lisboa de José  Cardoso Pires, «logo a abrir, pareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar», Lisboa de José Saramago, Lisboa de José Rodrigues Miguéis, Lisboa de Alexandre O’Neill «se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa»,  a «Lisboa menina e moça de Ary dos Santos», Lisboa de tanta e tanta gente, «chamar-te a ti Lisboa camarada e depois eu sei lá enlouquecer», para citar Joaquim Pessoa, lembrar Desfado da Ana Moura e, hoje, por aqui ficar.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

ZECA AFONSO, UMA VOZ QUE JÁ NÃO CANTA


Chamada  da 1ª página do Diário de Lisboa de 31 de Dezembro de 1984 para uma entrevista de Ribeiro Cardoso.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

UM LIVRO CONSIDERADO IMORAL


O Diário de Lisboa de 2 de Junho de 1969, noticiava que, nessa mesma tarde, começava, no Plenário Criminal da Boa Hora, o julgamento dos escritores envolvidos na publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e SatíricaNatália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e José Carlos Ary dos Santos eram acusados de «abuso de liberdade de imprensa.».

Também figuravam como presumíveis delinquentes, o editor Fernando Ribeiro de Melo, o empregado de escritório Francisco Marques Esteves e o técnico têxtil Ernesto Geraldes de Melo e Castro.

Segundo a acusação «algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Como patronos dos acusados encontravam-se João da Palma Carlos, Vera Jardim, Salgado Zenha e António de Sousa.

Eram inúmeras as testemunhas de defesa.


O julgamento só aconteceria em Março de 1970.

E, segundo o Diário de Lisboa, de 21 de Março, os réus, excepto Francisco Marques Esteves que foi absolvido, foram condenados a 45 dias de prisão substituíveis por multa a 40 escudos diários.

E Luiz Pacheco volta a ser notícia:


«Dado a sua precária situação económica o tribunal dispensou Luiz Pacheco do pagamento da multa diária.»

No final do julgamento, o juiz Fernando António Morgado Filipe, mandou que fossem destruídos todos os exemplares da Antologia da Poesia Erótica e Satírica.

A poesia ofendia o pudor, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.

Mas quem assim pensava não se coibia de perseguir, torturar e assassinar cidadãos que lutavam pela Liberdade ou enviar para a guerra colonial a juventude de toda uma geração.

Um Portugal governado por um velho atroz, cercado por serviçais – que não eram assim tão poucos! - verdadeiramente desumanos, incultos e crentes abnegados numa senhora que um dia por Fátima «apareceu» a três pastorinhos.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

MÁRIO MONIZ PEREIRA (1921-2016)


Deixou-nos aos 95 anos.
São cada vez mais raras personalidades como Mário Moniz Pereira.
Um dia triste.



Fado Varina
Poema: José Carlos Ary dos Santos
Música: Moniz Pereira
Voz: Ana Moura

quarta-feira, 27 de abril de 2016

AINDA ABRIL




Terão sido estes os primeiros discos comprados pós-25 de Abril.

sábado, 17 de outubro de 2015

ESTES PUBLICITÁRIOS!...


Contam os experts, que deve-se a Fernando Pessoa o slogan para a Coca-Cola:

Primeiro estranha-se, depois entranha-se
.
Os intelectuais deram à publicidade um toque único.

Alexandre O’Neill e José Carlos Ary dos Santos, na publicidade, são o exemplo perfeito do direito à diferença.

Pela publicidade dos anos 60 andaram, entre muitos outros, Luís de Sttau Monteiro, Vasco da Costa Marques, Alves Redol, José Cardoso Pires, Alberto Ferreira, Álvaro Guerra, Cipriano Dourado.

Ary, nos anos 60, inventa:

Cerveja Sagres, a sede que se deseja.

Para a Wollmark:

Minha lã, meu amor.

Também:

Knorr é naturalmente melhor.

Para o Grémio Nacional dos Seguradores:

Mais seguro, mais futuro.

Para o Banco Pinto & Sotto Mayor:

Deposite confiança no futuro.

Numa reunião para encontrar um slogan para o Halazon, um spray oral, Ary, durante a mesma, mostrou um perfeito desprendimento,  está em toda a parte menos ali.

Mas quase no final da reunião rabisca num papel:

Halazon, a melhor invenção depois do beijo!

Legenda: cartaz tirado de Ary dos Santos; O Homem, o Poeta, o Publicitário.