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terça-feira, 28 de julho de 2026

UMA LIÇÃO ANTES DE MORRER

Na esplanada vazia, para além de mim,

há só uma rapariga de blusa azul

e cabelo tomado pelo sol.

Bebe um sumo de cor vermelha

e lê um livro de capa vincada e escura.

É pouco? Há também esta luz

que não existe, que já passou, que não volta mais.


Luís Filipe Parrado em Resumo: a poesia em 2012

segunda-feira, 20 de maio de 2024

POESIA E REVOLUÇÃO

Na bala, nessa bala absolutamente vulgar
que desfez o coração desesperado
de Vladimir Maiakovski no dia
14 de abril de 1930. É nessa bala que eu penso
sempre que leio ou oiço certas coisas
que se dizem sobre poesia.
Porque, por estes dias, dizem-se
muitas coisas sobre poesia.
Algumas delas realmente espantosas.
E até por gente inteligente, respeitada.
Por exemplo, que a poesia é inútil,
que hoje ninguém lê poemas,
que a beleza não transforma a vida!
Até isso, imagine-se! Como se a chama de um fósforo
não fosse, só por si, luz suficiente
para desmanchar toda a escuridão do mundo.

Luís Filipe Parrado


Nota do Editor: este poema de Luís Filipe Parrado foi copiado do jornal Público, 2 de Maio de 2024

Poesia Pública é uma iniciativa do Museu e Bibliotecas do Porto comissariada por Jorge Sobrado e José A. Bragança de Miranda. Ao longo de 50 dias publicaremos 50 poemas de 50 autores sobre revolução.

domingo, 28 de janeiro de 2024

POSTAIS SEM SELO


 

Tudo o que o meu pai me disse quando, aos 15 anos, dclarei em família que iria começar a escrever poesia:

“Antes

De te sentares

à  mesa

lava bem

essas mãos”

 

Luís Filipe Parrado em Resumo: a poesia em 2009

 

Legenda:  fotografia de Melanie Safka tirada do álbum Candles in The Rain, Setembro 1970. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

ORQUÍDEAS

Foi um erro substituir

por orquídeas

as flores artificiais

no centro da mesa.

Exigem luz, cuidados,

uma humidade temperada.

Bem as conheço:

flores venenosas

donas de uma beleza gratuita.

Às outras bastava passar

o pano do pó às vezes,

nem olhava para elas,

para as suas folhas baças,

para os seus ramos secos de arame;

estas ensinam-me, com esplendor, a tua morte,

a ferida com que o mundo vai acabar.

Luís Filipe Parrado

domingo, 8 de maio de 2022

TUDO O QUE O MEU PAI ME DISSE

Tudo o que o meu me disse quando, aos 15 anos, declarei em família que iria começar a escrever poesia

 «Antes

de te sentares

à mesa

lava bem

essas mãos.»

Luís Filipe Parrado em Resumo: a poesia em 2009

terça-feira, 3 de maio de 2022

TEORIA DA NARRATIVA FAMILIAR

Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da cor da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois, a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

Luís Filipe Parrado

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

ESCREVER DEPOIS DE UM DIA DE TRABALHO ÁRDUO

Já não há maçãs

nem laranjas na fruteira

 

e o cesto do pão

está irremediavelmente vazio.

 

Ainda assim

escrevo,

 

ainda assim,

depois de um dia de trabalho árduo.

 

Depois de um dia de trabalho árduo

os poemas são de pele e osso

 

e parecem-se estranhamente

com listas de compras,

 

pão, laranjas,

maçãs,

 

coisas escritas à mão,

coisas de que precisamos para viver,

 

coisas em que pensamos só

quando nos fazem falta.

 

Luís Filipe Parrado em resumo: a poesia em 2012

Legenda: pintura de PaulCézanne