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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


José Saramago: A Luz e o Sombreado

Fernando Venâncio
Colecção Campo da Literatura nº 53
Campo das Letras, Porto, Novembro de 2000

Fomos muitos os que passámos uma fase de deslumbramento por Agustina. De José saramago é que não se adivinhava semelhante fraqueza. São duas as vezes que dela na Seara Nova se ocupa, à distância de seis meses, e tanto parece ter bastado para a quebra do feitiço. Decerto: logo começara por achar que as ideias da romancista “não se limitam a ser conservadoras: são retrógadas.” Mas, pergunta-se ele, “como é possível não ser submergido pela beleza torrencial desta escrita, que não tem igual na literatura portuguesa deste tempo?” E conclui: se há em Portugal “um escritor de génio”, esse é Agustina Bessa-Luís.
Saramago estava apanhadinho. Mas, meio ano depois, caía em si. Começa devagar, com passos de felino: “Sendo ou não sendo o maior escritor de hoje, é caertamente o que melhor domina e molda o barro da língua.” Mas… ela tem “os defeitos das suas virtudes”, E poderá acabar embalada na música que ela própria produz. Deste modo, “tanta beleza plástica, tanta profundidade”, vão terminar afundadas na confusão, na incoerência.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

ONDE É QUE TINHA A CABEÇA?


Continuamos com a carta, datada de 8 de Maio de 1967, que José Saramago enviou a José Rodrigues Miguéis.

Depois de lhe comunicar que esteve uns dias em Paris avisa que vai mudar de registo e escreve:

Sabe que fui promovido a crítico literário? E da Seara, ainda por cima, que é coisa fina. Eu conto: Aqui há meses telefona-me o Costa Dias a dizer que queria falar comigo. Que era, que não era, e vai daí vem o convite. Abri a boca de puro pasmo. Encontrámo-nos, e eu, honesto e perplexo, modesto e desconfiado, dou as minhas razões Contra: falta de preparação e de grau universitário, pouco tempo disponível ou nenhum, independência ideológica, etc., etc. A nada o Costa Dias se moveu. Que eu sou um sujeito assim, que eu sou um sujeito assado, e por aí fora. Acabei por aceitar. E lá estou. Veremos por quanto tempo. É que, de mim para mim, assentei que à mais pequena pressão ou torcidela de nariz, tiro de lá os pés. Para o último número, escrevi duas críticas, uma das quais a Censura deitou abaixo. Bom princípio.

Num texto publicado, 29 de Outubro de 2010, aqui no Cais do Olhar, fazíamos um pequeno apanhado das críticas que Saramago escreveu para a Seara.

Copiamos esse apanhado:

José Saramago publica a sua primeira crítica na “Seara Nova” no nº 1459 referente a Maio de 1964, e a última aparece no nº 1476, referente a Outubro de 1968.

Numa crítica a “O Ser e o Ter” de José Marmelo e Silva, e publicada na “Seara Nova” nº 1472, referente a Junho de 1968 escreve:

“José Marmelo e Silva há-de vir a dar muitas dores de cabeça aos historiadores da nossa literatura. Entretanto, vai incomodando os críticos encartados ou aqueles que, como nós, sem carta nem diploma, vão fazendo o que podem para dar conta do que lêem aos leitores de boa fé.”

José Saramago, para além das acima referidas, colocou como “assustada condição” não fazer crítica de livros de poesia.

Enquanto crítico da “Seara Nova” debruçou-se duas vezes sobre livros de Agustina Bessa Luís:  “As Relações Humanas” e  “Homens e Mulheres”. Numa chamou “génio” a Agustina, noutra disse que Agustina “corre o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”

Quem não achou piada alguma à história foi José Gomes Ferreira, possivelmente, por entender que José Saramago seria a última pessoa no mundo a chamar “génio” a Agustina Bessa Luís. 

A 2 de Janeiro de 1968 escreve José Gomes Ferreira no 4º volume dos seus “Dias Comuns”:
“Quase todos os críticos têm chamado génio a Agustina Bessa Luís (verdade seja que alguns depois se arrependem; Gaspar Simões, Óscar Lopes, José Régio, sei lá quantos).
Agora, chegou a vez ao Saramago que, no último número da “Seara Nova”, não resistiu a proclamar: “como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vã esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?”

Abordando um outro livro, “Eva” de Sá Coimbra, Saramago considera-o, entre outras coisas, “uma oportunidade perdida” O autor (”sou um homem do foro e estou habituado à análise critica das provas antes de condenar…”) dirige-lhe uma carta querendo saber dos porquês da análise de Saramago. Na volta o crítico diz: “Valerá a pena responder? Então se eu tenho chamado obra-prima ao livro de Sá Coimbra ele perguntar-me-ia também porque?"  Acaba por colocar o seguinte ponto final na história:

“O ponto final é mesmo um ponto final. Tenho outras críticas a fazer (mas valerá a pena?) e Sá Coimbra outros romances a escrever. Marco um encontro a Sá Coimbra para daqui a vinte anos. O mais certo é estarmos ambos esquecidos. Não nos demos, pois, demasiada importância…”

A última crítica de José Saramago na “Seara Nova”,  aborda dois livros: “O Despojo dos Insensatos” de Mário Ventura e “O Delfim” de José Cardoso Pires.

Sobre a crítica ao livro de Cardoso Pires há-de escrever, a 22 de Julho de 1994, um texto que consta do Vol. II dos “Cadernos de Lanzarote”:

“Agora eis-me perante os fantasmas de opiniões que expandi há quase trinta anos, algumas bastante ousadas para a época, como dizer que Agustina Bessa Luís “corre
o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”. Apesar da minha inexperiência, e quanto sou capaz de recordar, creio não haver cometido grossos erros de apreciação nem injustiças de maior tomo. Salvo o que escrevi sobre “O Delfim” do José Cardoso Pires: muitas vezes me tenho perguntado onde teria eu nesse momento a cabeça, e não encontro resposta…”

Hoje, relida a crítica, percebe-se o espanto de Saramago ao” não saber onde tinha a cabeça” quando se debruçou sobre “O Delfim”.

Conhecendo-se o Saramago de então, não é fácil encontrar motivos para não ter entendido (?) o que Cardoso Pires queria com o livro.

Só Saramago nos poderia responder, e nunca o fez claramente.

Uma boa altura para lembrar o estafado "ninguém é perfeito!" 

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

SARAMAGUEANDO


Pode dizer-se: José Saramago admirava Agustina Bessa Luís.

É numa crítica, publicada na Seara Nova de Maio de 1967, ao livro de Agustina As Relações Humanas, que Saramago expõe essa admiração:

Algumas das ideias de Agustina Bessa Luís não se limitam a ser conservadoras: são retrógradas. Repugnam a um nosso deliberado amor de claridade, de abertura para o inteligível, de definição e construção de um sistema de relações em que a magia não seja utilizada como meio (entre tantos) de dominação de classe. Mas… Como é possível, resistindo e opondo-nos embora no plano das ideias e da sua prática, não ser submergido pela beleza torrencial desta escrita, que não tem igual na literatura portuguesa deste tempo? Como é possível ficar indiferente a certas bruscas iluminações que vão mais longe e mais fundo, no sentido do conhecimento de si e do outro, que todo o material de análise que comumente manuseamos? Como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vá esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?
(…)
Quem escreve assim, quem assim resolve, mistura e separa um universo de figuras dramáticas, mais que humanas, num cenário que mesmo quando quotidiano, apresenta sempre um ondular crispado de mundo em transe de criação, pode dar-se talvez ao supremo desdém de não exprimir ideias concretas ou de exprimi-las segundo uma escala de valores para nós, mortais de consumo corrente, ultrapassada e negativa. Fica uma lição e uma profissão de beleza. E a beleza, essa, não é concretamente um valor ultrapassado.

Fica por saber, se José Saramago manteve, para sempre, essa admiração.

Numa entrada,10 de Outubro de 1994, no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote, escreve José Saramago:

Agora chegou-me a notícia de que Agustina Bessa Luís passou a dedicar-se também a estas activ9dades conjuntas de polícia, ministério público e juiz. Declarou que eu não sou um «grande escritor», que sou apenas «produto de diversas circunstâncias»… Ser eu, ou não, um «grande escritor» não tiraria nem acrescentaria nada à glória literária e à importância social de Agustina Bessa Luís, mas isso para ela é insignificante perante a ocasião que lhe deram de mostrar-se tão traquinas quanto lho pede a natureza. Mesmo que demoradamente explicasse, Bessa Luís não compreenderia que nunca pretendi ser um «grande escritor», mas um escritor simplesmente. Bessa Luís tem os ouvidos tapados para estas distinções, tão tapados como parece que esteve neste caso o seu entendimento ao deixar os leitores da entrevista dada ao Independente sem saber – porque as não mencionou – de que as circunstâncias perversas sou eu mistificador produto. Muito pior ainda, se é possível, foi ter Agustina Bessa Luís calado as circunstâncias que fizeram dela a «grande escritora» que sem dúvida acredita ser…

Anos mais tarde, em Uma Longa Viagem com José Saramago, dirá a João Céu e Silva:

Não que seja um génio, mas apareço com o meu trabalho feito e a natureza do meu trabalho, o meu tipo de escrita, os temas que eu trato – que saem fora da rotina mais ou menos convencional de uma situação sentimental ou de conflito familiar. Isso é uma área que não me interessa – e os livros têm êxito, os leitores multiplicam-se e isso não se me perdoou. O Vergílio Ferreira… A Agustina, numa entrevista que deu disse que em Portugal só havia dois escritores que mereciam o Prémio Nobel: um era o Vergílio Ferreira outro era ela. E também diz a certa altura: «Não o José Saramago não é um grande escritor. É o produto de certas circunstâncias» e por aqui se ficou. Nem disse quais eram as circ8unstãncias nem disse como é que se chegava a ser grande escritor como certamente ela supunha que era. Não vale a pena, no fundo a inveja é uma coisa que todos mais ou menos sofremos. Alguns dominam-na e transformam-na noutra coisa. Se eu invejo aquele tipo que aquele tipo que é mais alto do que eu, vou fazer ginástica para ser mais alto que ele…


Legenda: a capa do livro de Agustina Bessa Luís foi tirada do site da Fnac.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

SARAMAGUEANDO


Numa carta, datada de 8 de Maio de 1967, José Saramago diz a José Rodrigues Migueis:

Sabe que fui promovido a crítico literário? E da Seara, ainda por cima, que é coisa fina. Eu conto: Aqui há meses telefona-me o Costa Dias a dizer que queria falar comigo. Que era, que não era, e vai daí vem o convite. Abri a boca de puro pasmo. Encontrámo-nos, e eu, honesto e perplexo, modesto e desconfiado, dou as minhas razões Contra: falta de preparação e de grau universitário, pouco tempo disponível ou nenhum, independência ideológica, etc., etc. A nada o Costa Dias se moveu. Que eu sou um sujeito assim, que eu sou um sujeito assado, e por aí fora. Acabei por aceitar. E lá estou. Veremos por quanto tempo. É que, de mim para mim, assentei que à mais pequena pressão ou torcidela de nariz, tiro de lá os pés. Para o último número, escrevi duas críticas, uma das quais a Censura deitou abaixo. Bom princípio.

José Saramago publica a sua primeira crítica na Seara Nova no nº 1459 referente a Maio de 1964, e a última aparece no nº 1476, referente a Outubro de 1968.

Numa crítica a O Ser e o Ter de José Marmelo e Silva, e publicada na Seara Nova nº 1472, referente a Junho de 1968 escreve:

José Marmelo e Silva há-de vir a dar muitas dores de cabeça aos historiadores da nossa literatura. Entretanto, vai incomodando os críticos encartados ou aqueles que, como nós, sem carta nem diploma, vão fazendo o que podem para dar conta do que lêem aos leitores de boa fé.

José Saramago, para além das acima referidas, colocou como assustada condição não fazer crítica de livros de poesia.

Enquanto crítico da Seara Nova debruçou-se duas vezes sobre livros de Agustina Bessa Luís: 

“As Relações Humanas” e  “Homens e Mulheres”. 

Numa chamou “génio” a Agustina, noutra disse que Agustina “corre o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”.

Quem não achou piada alguma à história foi José Gomes Ferreira, possivelmente, por entender que José Saramago seria a última pessoa no mundo a chamar “génio” a Agustina Bessa Luís.
 
A 2 de Janeiro de 1968 escreve José Gomes Ferreira no 4º volume dos seus “Dias Comuns”:
“Quase todos os críticos têm chamado génio a Agustina Bessa Luís (verdade seja que alguns depois se arrependem; Gaspar Simões, Óscar Lopes, José Régio, sei lá quantos).

Agora, chegou a vez ao Saramago que, no último número da “Seara Nova”, não resistiu a proclamar: “como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vã esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?”

Abordando um outro livro, “Eva” de Sá Coimbra, Saramago considera-o, entre outras coisas, “uma oportunidade perdida” O autor (”sou um homem do foro e estou habituado à análise critica das provas antes de condenar…”) dirige-lhe uma carta querendo saber dos porquês da análise de Saramago. Na volta o crítico diz: “Valerá a pena responder? Então se eu tenho chamado obra-prima ao livro de Sá Coimbra ele perguntar-me-ia também porque?"  Acaba por colocar o seguinte ponto final na história:

“O ponto final é mesmo um ponto final. Tenho outras críticas a fazer (mas valerá a pena?) e Sá Coimbra outros romances a escrever. Marco um encontro a Sá Coimbra para daqui a vinte anos. O mais certo é estarmos ambos esquecidos. Não nos demos, pois, demasiada importância…”

A última crítica de José Saramago na “Seara Nova”,  aborda dois livros: “O Despojo dos Insensatos” de Mário Ventura e “O Delfim” de José Cardoso Pires.

Sobre a crítica ao livro de Cardoso Pires há-de escrever, a 22 de Julho de 1994, um texto que consta do Vol. II dos “Cadernos de Lanzarote”:

“Agora eis-me perante os fantasmas de opiniões que expandi há quase trinta anos, algumas bastante ousadas para a época, como dizer que Agustina Bessa Luís “corre
o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”. Apesar da minha inexperiência, e quanto sou capaz de recordar, creio não haver cometido grossos erros de apreciação nem injustiças de maior tomo. Salvo o que escrevi sobre “O Delfim” do José Cardoso Pires: muitas vezes me tenho perguntado onde teria eu nesse momento a cabeça, e não encontro resposta…”

Hoje, relida a crítica, percebe-se o espanto de Saramago ao” não saber onde tinha a cabeça” quando se debruçou sobre “O Delfim” .

Conhecendo-se o Saramago de então, não é fácil encontrar motivos para não ter entendido (?) o que Cardoso Pires queria com o livro.

Só Saramago nos poderia responder, e nunca o fez claramente.

Uma boa altura para lembrar o estafado "ninguém é perfeito!" 

Legenda: Mário Dionísio, José Cardoso Pires e José Saramago na Avenida da Liberdade, em Lisboa, por ocasião de uma manifestação pacifista.

Fotografia de Luis Ochoa, “Expresso”.

terça-feira, 27 de julho de 2010

OS POEMAS POSSÍVEIS



Os Poemas Possíveis

José Saramago
Colecção Poetas de Hoje nº 22
Portugália Editora, Julho de 1966 

No momento em que soube da morte de José Saramago, fiquei sem capacidade para dizer alguma coisa a quem quer que  seja, eu incluído.

Bem tentamos, mas nunca estamos preparados para a morte. 

Principalmente a morte daqueles de quem muito gostamos.

Entendi, então, que a minha homenagem passaria pela simplicidade de colocar, aqui, a capa do primeiro livro que li de José Saramago, "Os Poemas Possíveis” e trazer as últimas palavras de “As Intermitências da Morte”. 

Nada mais.

Decidi depois, em cada dia, ir apresentando todos os seus livros. Sem entrar em grandes detalhes porque apenas, um leitor e nunca um crítico.

Com Caim a apresentação  dos livros de José Saramago chegou ao fim.

Mas tenho que voltar ao princípio, a Os Poemas Possíveis.

Foi na Livraria Portugal, naqueles escaparates que ainda hoje estão ao meio da sala do rés-do-chão, que topei, pela primeira vez, com o nome de José Saramago.


Estávamos em 1966, tinha então 21 anos, e não fazia a mínima ideia quem era José Saramago, tão pouco dele ouvira falar. Mas o livro que olhei fazia parte de uma colecção de prestígio: “Colecção Poetas de Hoje” da "Portugália Editora”.

Folheei o livro e do que fui vendo nascia um sentimento de gosto e prazer.


Houve tempo para passar os olhos pela “Fala do Velho do Restelo ao Astronauta”, mais dois, três poemas, mas a decisão foi apenas uma: estava com a minha gente.

E tudo começava logo no primeiro poema do livro:

“Até ao Sabugo”

“Outros porão em verso outras razões,
Quem sabe se mais úteis e urgentes,
Mas ninguém se refaz a natureza,
E como quem prevê acusações,
Aqui direi que busco a só maneira
De todo me encontrar numa certeza,
Leve nisso ou não leve a vida inteira.

Assim como quem rói as unhas rentes.”


Ainda hoje o livro tem o preço escrito a lápis pelo livreiro: 40 escudos.

E era daqueles  livros que, gostosamente, se tinham de abrir com uma faca. 

O quanto lamentei quando os livros passaram a dispensar o exercício desse prazer, demorando os olhos pelas páginas que se iam revelando e até o livro estar aberto por completo. Só depois a leitura começaria.

Foi assim que começou a minha josésaramaguite aguda.

Feliz do leitor que, por si só, descobre um autor que desconhece, que sem qualquer tipo de ajuda passa a gostar de alguém que, ainda não saberá, um dia será Prémio Nobel da Literatura.

Se isto não é a felicidade, eu andei por lá perto!

Fiquei à espera de outros livros, outras descobertas.



O meu pai era assinante da Seara Nova, e no nº 1459 referente a Maio de 1967, deparo com uma crítica de José Saramago ao romance A Execução de Júlio Moreira.

Num livro, publicado em Abril de 2010, pela Editorial Caminho e que reúne a correspondência trocada, durante os anos de 1959 e 1971, entre José Rodrigues Migueis e José Saramago, Saramago escreve:


Sabe que fui promovido a crítico literário? E da “Seara”, ainda por cima, que é coisa fina (…) Abri a boca, de puro pasmo.(…) e eu honesto e perplexo, modesto e desconfiado, dou as minhas razões contra: falta de preparação de grau universitário, pouco tempo disponível, ou nenhum, independência ideológica, etc., etc. (…) Acabei por aceitar. E lá estou. Veremos por quanto tempo. É que, de mim para mim, assentei que, à mais pequena pressão ou torcidela de nariz, tiro de lá os pés. Para o último número escrevi duas críticas, uma das quais a Censura deitou abaixo. Bom princípio.

(Carta datada de 8 de Maio de 1967)


Quem me conhece, sabe que nutro por José Saramago um gosto e uma admiração que vão para além da simples relação autor/ leitor.

Óbvio que nem tudo o que José Saramago escreveu, ou disse, ou atitudes que tomou, ou polémicas que manteve, alguma coisa não me provoque reparo, mas de modo algum, ofusca a imagem que dele faço: de um homem de rara personalidade, de braço dado com um brilhante escritor.

Do que de Saramago há aqui pela casa, irei revelando: os livros que outros escreveram sobre a sua obra, entrevistas, opusculos, o enorme dossier que fui organizando ao longo dos tempos e, acima de tudo, olharei as páginas riscadas de todos os seus livros.


Por aqui continuará José Saramago.

Para que a homenagem possa prosseguir.


Legenda: Fotografia da página da Seara Nova”com a crítica de José Saramago ao livro A Execução de Júlio Moreira