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quarta-feira, 18 de junho de 2025

OLHAR AS CAPAS


Nos Bastidores de Hollywood

Mário Augusto

Prefácio de António Pedro de Vasconcelos

Há não muito tempo, em Madrid, fui entrevistar uma vez mais o actor Nicolas Cage e o produtor Jerr Bruckheimer, a propósito de “O Tesouro”. Com eles vinha também o realizador. Na conversa com a equipa espanhola da Disney (a empresa produtora do filme) fiquei  a saber que só para o “staff” dos mues três entrevistados foram necessários 14 carros de luxo. Isto porque, para além dos guarda-costas pessoais, cada um deles trazia o seu agente, a sua secretária, o seu cabeleireiro, a sua maquilhadora, o seu “personal trainer”, o seu relações-públicas e ainda umas quantas pessoas que nunca se percebe muito bem o que ali estão a fazer, mas que andam com papéis de um lado para o outro, a falar nervosamente com os “walk-talkies” que trazem na mão.

Colaboração de Aida Santos

terça-feira, 9 de abril de 2024

CONVERSANDO

A história conta-a Nuno Pacheco na habitual crónica, às quintas-feiras, no Público:

«Cineasta, mas também combatente activo em diversas causas que o apaixonavam (como a TAP, o rumo do Audiovisual ou a recusa do Acordo Ortográfico de 1990), A.-P.V., acrónimo por que era conhecido e mencionado, contou a história da sua vida no livro Um Cineasta Condenado a Ser Livre, uma longa conversa com José Jorge Letria (Guerra & Paz, 2016). Nele lembra uma história relacionada com a manhã do 25 de Abril de 1974, quando estava a trabalhar na revista Cinéfilo, que A.-P.V. e Fernando Lopes haviam “ressuscitado” em 1973. A dada altura, entra na redacção o homem que durante anos levava as provas do jornal O Século à censura. Inquiriu: “Tem provas?...” E A.-P.V.: “Ó senhor Joaquim, isso já acabou.” Mas o homem insistiu: “Ó senhor Vasconcelos, não brinque comigo. Olhe que eles estão lá.” A.-P.V.: “Acabou. A censura acabou. O regime acabou. Vá gozar a liberdade.” E o homem, branco como a cal, respondeu. “E agora, o que é que eu vou fazer?...” Tinha percebido que ia ficar desempregado. “Foi a única vítima do 25 de Abril por quem tive compaixão”, concluiu A.-P.V.. Talvez esta história constasse do seu documentário. Iria bem com o seu humor.

sábado, 6 de abril de 2024

CONVERSANDO


 A Conversa de hoje, chega a propósito da morte de António-Pedro Vasconcelos na 1ª página do Público, onde se lê: «O cineasta que acreditava no grande público».

Agora entendam o começo da prosa como uma brincadeira, quando se diz:

«Karen Blixen teve uma fazenda em África, a Aida teve um tasco em Almoçageme».

Comida simples mas a saber a comida.

Durante uns dias, o João César Monteiro albergou-se numa casa que sua mulher, a Margarida Gil, tinha em Almoçageme.

Num sábado e num domingo, acompanhado por alguém, almoçaram no tasco.

No sábado petinga frita com arroz de pimentos, no domingo cosido à portuguesa.

Toda a conversação com esse alguém, desenrolou-se em francês. Talvez alguém ligado àquele seu projecto da adaptação do filme «La Philosophie Dans le Boudoir», e talvez ainda não tivesse chegado a conversa sobre caralhos:

Extracto da carta para o produtor Paulo Branco em Uma Semana Noutra Cidade:

«O custo unitário dos caralhos oscilava, consoante os tamanhos entre os 45 e os 60 contos. Neste passo vislumbrei com bonomia, a carinha do produtor, a tua, meu caro_

-Pa ra que são preciso tantos caralhos?

- Não sei. Pergunta ao Max.»

Na parte popular do tasco, balcão, duas mesas corridas, pipos de vinho ao alto, tínhamos colocado uma série e cartazes de filmes da colecção do Luís Miguel Mira, excepto um enorme cartaz do Casablanca. João César, depois do almoço, cigarro na beiça, deslocou-se a essa parte do tasco, olhou os cartazes e disse que fazia filmes e se estivéssemos de acordo um cartaz do seu último filme talvez  ali ficasse bem.

Foi-lhe dito que ficariam mesmo muito bem. O filme era  «A Comédia de Deus».

Pensou-se que a história ficaria por ali e o cartaz talvez para nunca mais.

Errado!

Na segunda-feira, João César, estava no tasco a depositar um rolo de cartazes do filme para escolhermos.

De imediato se mandou fazer a moldura e ali ficou.

António Pedro Vasconcelos, juntamente com uns amigos e amigas, algumas vezes, amesentava no tasco.

História primeira

Olhou e perguntou;

- Como é que aquele cartaz do filme do João César está por aqui?

Foi-lhe contado como tudo aconteceu.

- Vou trazer-lhe um cartaz do meu filme «O Lugar do Morto».

- Excelente ideia, o meu pai, por causa das pernas da Anna Zanatti, viu o filme três vezes.

O António Pedro voltou mais vezes ao tasco, mas sem o cartaz.

História Segunda

A parte popular do tasco tinha uma pequena televisão e uma telefonia para ouvir os relatos da Antena 1.

Sábado. Benfica a jogar em Braga, transmissão televisiva.

Visitas rápidas do António Pedro ao tasco para se inteirar  do resultado e ficar alguns minutos para ver como a coisa estava a correr. Na parte do restaurante, os amigos continuavam a conversar.

História Terceira.

Uma noite, António Pedro a perguntar se a Alheira que estava na lista era de Mirandela.

- Oh! António Pedro como é que os 600$00: batatas fritas, uma forma de arroz, um ovo estrelado, poderiam comportar uma alheira de Mirandela?

- Eh pá! Tem razão! Desculpe lá!...

Um homem delicado, sensível tal como largamente se disse na hora da sua morte.

Quarta história

Havia os afazeres do tasco e aguardei uma das suas visitas para ter a oportunidade de lhe perguntar como é que um homem que tanto sabia de cinema, e tanto gostava de filmes, se batia ardorosamente sobre a dobragem de filmes. A pergunta que lhe faria, olhando o cartaz do Casablanca seria para lhe dizer, que com a dobragem, não ouvir a voz, o catarro do Bogart, mas sim um qualquer assomo de um tipo desconhecido.

Esta história não aconteceu.

O tasco começou a ter um excesso de clientela. A cozinha era exígua, havia que fazer obras, mas aquilo não nos pertencia, renda mensal de 100 contos, e, por impedimentos vários, uma delas uma antiga querela de herdeiros do proprietário, não poderíamos o tasco.

António-Pedro de Vasconcelos gostava de um cinema popular, um cinema para todos.

João César Monteiro, segundo Vitor Silva Tavares odiava espectadores, estava-se nas tintas para o público.

 Ainda se lembram, na estreia de Branca de Neve, à pergunta do jornalista respondeu:

“Eu quero que o público se foda”.

António Pedro e João César foram amigos, tempos do Vavá, ambos estiveram nessa maravilhosa aventura do Cinéfilo: António-Pedro Vasconcelos como chefe, João César Monteiro na redacção, Fernando Lopes director.

Depois… as histórias, e respectivas versões, são várias.

João César Monteiro, a propósito de uma cena do seu filme «Quem Espera por Sapatos de Defunto» no seu livros Os Que Vão Morrer Saúdam-te:

«Antes do mais, é conveniente esclarecer que este plano foi, a meu pedido, filmado pelo sr. António-Pedro Vasconcelos, atendendo a que, farto do filme, me deslocara, no entretanto, para Itália em viagem nupcial. Ao sr. Vasconcelos foram deixadas todas as indicações julgadas úteis para a boa execução do plano, tarefa de que ele se encarregou escrupulosamente, segundo creio, e pela qual lhe estou grato. Bem feia acção seria, pois, eu vir agora queixar-me do trabalho generosamente despendido por um colega em proveito de um filme meu, mas lá que o enquadramento é uma boa merda, isso é. Então eu tenho que gramar aquelas verticais todas abauladas sem ficar roxo de cólera? E quem é que o mandou, seu fantasista , pôr o senhor da senhora que está na cama a ler os Cahiers du Cinéma? Não vê que isso desvia a atenção do movimento obsessivo do plano? Era preferível ter posto o homem a brincar com a pila!»

quarta-feira, 6 de março de 2024

POSTAIS SEM SELO


 

O mundo está cheio de locais como este, mais pobres ou mais ricos, bares, restaurantes, ou mesmo prostíbulos, onde os homens que sabem o preço irremediável da solidão consolam as mágoas e disfarçam as feridas, com ironia e panache.

O Gambrinus, a barra do Gambrinus, faz parte, para mim, da poesia da noite, que só os homens, românticos incorrigíveis como são, entendem e partilham.

António-Pedro Vasconcelos

ANTÓNIO-PEDRO VASCONCELOS (1939-2024)


Morte de António Pedro Vasconcelos aos 84 anos.

Um homem de cultura, gostava perdidamente de livros, não tinha problemas com a morte mas angustiava-o o saber que a dita o impedisse de ler todos os livros, gostava do Benfica, sofria amargamente com as derrotas do Glorioso, gostava de charutos, «não sou muito contemplativo: sou um agitado, sôfrego, impaciente. Mas,  se tiver um charuto, descobri que sou capaz de ficar uma hora a olhar para o Tejo, deixando que as ideias e as imagens se sucedam, livremente, sem pressas, e sem as dirigi, gostava de cinema, de filmes, acima de tudo.

sábado, 24 de fevereiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram


Não sei se terei tempo para viajar por Abril com todos aqueles que escreveram, cantaram, representaram, fotografaram, sei lá que mais.

Vamos caminhando.

Pertence a Sérgio Godinho a mais feliz definição de José Afonso:

Abriu janelas onde nem paredes havia.

José Afonso disse:

«Já fui andarilho e cantor, Bendito seja o pão, Bendita seja a dor, Bendita as portas do amor!»

Autodefinindo-se numa entrevista a José Amaro Dionísiso, Expresso, 15 de Junho de 1985.

«… talvez no fundo eu seja um homem mal resolvid».

Na revista K de Agosto de 1992:

«Quando há alguém maior do que o tempo, só podemos ficar gratos. Quando é português, só podemos ficar orgulhosos. As canções de José Afonso são tão bonitas e importantes que não se consegue imaginar a sua ausência. Vivem de um tempo para a eternidade, como tudo o que é genial e belo. Toda a obra de José Afonso está agora reeditada em CD. Não deve ser preciso dizer mais nada.»

Mais palavras do José Afonso:

«Sem muros nem ameias, gente igual por dentro e por fora».

«O medo foi sempre um sentimento que conviveu comigo. O medo a que se sobrepunha uma sensação de angústia, género «como é que me vou comportar em tal ou tal situação?»

José Afonso das suas muitas e bonitas canções:

«Amigo maior que o pensamento.»

«Um dia hás-de aprender haja o que houver».

João de Freitas Branco:

«Se os encartados arrumadores de música persistirem, mesmo assim, em recusar à obra de José Afonso um lugar na categoria da música «clássica» que se apressem a rever a sua definição desta, antes que, por completo, os deixemos de tomar a sério.»

Entrevista a O Diário , Janeiro de 1983:

«Sou fruto de muita gente, de muitos lugares e dissabores.»

Entrevista Alexandre Manuel ao Diário de Notícias de 28de Abril de 1984

«Nunca tive prazer em fazer música.»

José Afonso ao Cinéfilo, de Novembro de 1973, Cinéfilo de muito boa memória,concedeu uma entrevista conduzida pelo António Pedro de Vasconcelos, Eduardo Guerra Carneiro, James Anhanguera, com uma bela capa de Luís Filipe Conceição, que podem ver aí em cima, «julgamos que se trata de uma entrevista bastante importante para se compreender (e julgar) a obra e a carreira deste homem que se recusa (lucidamente) a transformar-se num mito, ou num intocável.»

 No meio da entrevista uma daquelas humildes saídas do José Afonso, tão à Carlos Paredes:

«Eh pá, eu não tenho nenhum conhecimento científico. Eu sou um total ignorante».

 No tempo desta entrevista, Novembro de 1973, faltavam ainda alguns meses para a tal madrugada, José Afonso termina, lembrando Grândola:

«Eu fiz uma canção (Grândola» que, vendo bem já não me pertence. Agora é mesmo cantada em meios populares. Mas um cantantea com as minhas características tem de fazer canções laboradsa a partir de elçemnetos cukturais que sejam da sua própria experiênca, confinado aos limites da classe a que pertence».

Nas despedidas, no dizer sempre de um vemo-nos quando nos virmos:

… e afinal, eu só queria dizer que fazes uma falta do caraças!

 Manuel Freire, Fevereiro de 1992

 … pois tu é que partiste cedo demais, meu sacana!

 Samuel, Fevereiro 2012.

 

Olhei as capas dos LPs do José Afonso, os lados A e B, na vã tentativa de encontrar uma canção para esta manhã, para esta Viagem com o José Afonso.

O olhar deu em nada.

Fica uma canção lindíssima, tão simples, tão comovente:  poema de José Carlos Ary dos Santos, música de José Afonso que faz parte do álbum «Contos Velhos, Novos Rumos»:


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

OLHARES


 O que ele gostava dos cafés de Lisboa.

Um dos muitos simples prazeres da sua vida.

Depois começaram a transformá-los em agências bancárias, em casas de trapos.

As grandes mágoas que então nasceram.

Quando José Rodrigues Miguéis foi obrigado ao exílio nos Estados Unidos, o primeiro grande choque que enfrentou foi a não existência de cafés.

Sua mulher Camila conta o episódio:

«Quando chegou aos Estados Unidos a primeira coisa que o ia matando foi quando descobriu que não havia cafés. Como é que podia viver sem um café onde encontrava os amigos, onde se sentava e levantava logo que se sentia desconfortável ou aborrecido, ou quando lhe surgia uma ideia e tinha de regressar a casa para a escrever? Como é que as pessoas podiam viver daquela forma? Isto foi um problema muito, muito difícil para ele, e eu sentia-me desanimada, porque não o podia resolver. Quando lhe disse o que tínhamos – restaurantes, cafetarias, balcões, vários locais -, ele disse: «Mas eu estou a falar de um café; tu não percebes.» E esta situação aborreceu-o a vida toda. Aborreceu-o mesmo.»

Foi dura, e inglória, a luta pela manutenção dos cafés.

O poeta José Gomes Ferreira nos seus Dias Comuns fala dessas lutas, quando juntamente com o Carlos de Oliveira, O Augusto Abelaira, tantos outros, andaram em bolandas, de café para café que lhes dessa possibilidades de manterem as suas tertúlias.

Os cafés da minha preguiça" como escreveu o Mário de Sá-Carneiro.

Ler o jornal, um livro num café com uma bica à frente.

Jorge Silva Melo: Sabores de outros tempos: o ovo a cavalo, o molho, as batatas fritas dos velhos cafés de Lisboa.

Façamos a evocação de um café de Lisboa: o Vává, símbolo dos anos 60 que viu nascer o cinema novo português, também músicas, conspirações várias.

Lauro António, que há dias nos deixou, escreveu diversas crónicas sobre a cidade no jornal digital  «Mensagem de Lisboa».

Uma dessas crónicas lembra o VáVá e a sua história:

Nasci em 1942, em Campo de Ourique. Passei sete anos da minha vida em Portalegre, para onde o meu pai, professor, foi deslocado para se efectivar. Regressei a Lisboa em 1958 e vim morar para as avenidas novas, precisamente para a avenida dos EUA, muito perto do cruzamento com a avenida de Roma. O Café Restaurante Vavá existe desde esse ano e foi um dos meus cafés de eleição. Os outros foram a Grãfina e o Nova Iorque

Além de mais, tem sido o meu café-restaurante prioritário, acompanhei todas as transformações, lidei com todas as gerências, fui assistindo à reciclagem da clientela, e descobri que o espaço, apesar de tudo, se mantém como local de culto e de saudosa romagem. Por isso vale a pena contar a história física, que é pouca, mas sobretudo recordar o espírito do lugar, que se conserva, muito para lá das vicissitudes do tempo e dos circunstancialismos vários da vida de cada um.

Julgo ser, por isso, uma pessoa bem informada para dar conta do recado, ainda que nestes casos, o recado, por muito factual que se queira, tenha sempre de ser subjectivo, com o que a posição comporta de risco, mas também de sinceridade. O meu testemunho não é totalmente imparcial e a tender para o abstracto, antes se afirma desde início, pessoal e apaixonado. Esta será uma “visão”, uma “visão” possível entre muitas outras, de um espaço que vem cumprindo, vai para cima de seis décadas, a função para que foi criado.

 OVavá nasceu em 1958, criado por uma dupla de gerentes, dois irmãos, Petrónio e Luís Gonzaga. Irmãos que apenas se pareciam no apelido, e igualmente na gentileza, dado que um era basto volumoso, de presença imponente, arrastando por detrás do balcão uma bonomia ruborizada, enquanto o outro, mais discreto e aprumado, ia deslizando delicadamente pelo mesmo balcão. Às vezes em simultâneo, outras revezando-se no comando das operações.

 O Vavá que eles idealizaram era um espaço enorme, que abrangia o que ainda hoje lhe compete, e ainda o que o Banco BPI agora ocupa e lhe comprou. O Vavá não era apenas o dobro, em extensão, à superfície, mas ainda possuía uma extensa cave, onde se encontrava uma, na época, muito disputada sala de bilhares.

 A decoração inicial produziu o milagre que ainda hoje perdura, apesar de pouco restar dela presentemente. Mas todo o recinto ganhava um ar acolhedor e recolhido, com as madeiras de um castanho-escuro, os maples de couro, igualmente de castanho-escuro, colados juntos às paredes, circulando todo o espaço. Mesas e cadeiras a condizer e um balcão que dividia a sala em duas, sem as tornar isoladas, como hoje acontece, pela intromissão de uma parede que não fazia parte da estrutura original.

 A iluminação era dourada, discreta, difusa, pequenos candeeiros desciam do tecto sobre as mesas, o ambiente era intimista, o que terá seduzido a clientela destas avenidas novas que iam surgindo lentamente por estes lados.

Não muito longe do cruzamento da Avenida de Roma com a Avenida dos EUA, nesta praça onde se encontram frente a frente o Vavá e o Luanda, começavam as quintas e os quintais, viam-se rebanhos de ovelhas e cabras e cultivavam-se as couves. Paulo Rocha fala dos “Verdes Anos” destes locais no seu filme, um dos que abriu caminho ao Novo Cinema Português (curiosamente o Novo Cinema marchou lado a lado com o Vavá, mas disso falarei mais a frente).

 Avenidas Novas, vidas novas, novos arrendatários. Quem veio habitar estes bairros foram os filhos da burguesia endinheirada, num período em que a estabilidade social e uma ligeira abertura ao exterior permitiram a ascensão de novas classes profissionais, vivendo com relativo desafogo, que lhes possibilitava pagar rendas mais caras, e usufruir de maior qualidade de vida.

 Do Areeiro à Avenida do Brasil, a Avenida de Roma era o exemplo da modernidade em Lisboa. Aqui se vinham descobrir as novidades, na moda, nos usos e costumes. Os quarteirões encheram-se de jovens de novas profissões: publicidade, moda, canção, cinema, televisão, aviação, arquitectura, decoração, etc. Mas, por detrás dessas luxuosas avenidas novas, existiam novos bairros de habitação social que contribuíam igualmente para o aparecimento de uma população diferente e diversificada.

 Foram esses os frequentadores habituais do Vavá nesses primeiros anos. Foram eles que criaram o estilo da casa e impuseram um tom. Aberto até de madrugada (fechava às duas da manhã), permitia a criação de tertúlias espontâneas, de amigos e conhecidos que todas as noites ali se reuniam para falar e discorrer sobre os mais variados temas, com a política sempre como prato de resistência.

 É importante referir que os finais da década de 1950 e o início da de 60 foram tempos difíceis para o governo de Salazar. Poucos meses depois das eleições de 1958, que opuseram Humberto Delgado a Américo Tomás, e que este haveria de ganhar com batota descarada, abria o Vavá. Iniciava-se igualmente um tempo de revolta e conspiração sem precedentes na história do Estado Novo.

 Em todas as tertúlias lisboetas se comentava o que não se podia saber pela informação escrita, radiofónica ou televisiva (a RTP acabava igualmente de iniciar as suas transmissões) e se soprava de ouvido a ouvido. O Vavá não era excepção. Congregando clientes já de alguma idade com a rebeldia da juventude, o Vavá era local de conspiração certa (segura nunca seria, pois “os olhos e os ouvidos” do regime estavam um pouco por todo o lado).

 A proximidade da Cidade Universitária criava outra clientela, maioritariamente irreverente e interventiva. Os alunos que vinham estudar para a capital escolhiam quartos de abrigo perto das faculdades. Este era outro potencial cliente, que o Vavá logo aglutinou. A contestação universitária que eclodiu em pleno durante a crise académica de 1962 foi dispersando pólos de inquietação. Os cafés eram centros de estudo, mas igualmente focos de rebelião, onde se discutia e se organizava a revolta.

 Tínhamos assim uma fauna variada, de extractos sociais diferenciados, profissionalmente irreverente e moderna, maioritariamente jovem. Entrando no café numa noite de inverno ou atravessando a esplanada numa solarenga tarde de verão, eles estavam lá, em pequenos grupos que se distinguiam pelos interesses profissionais ou pelos escalão etários, mas que por vezes se interpenetravam e fundiam em grandes grupos de amena cavaqueira.

Em Novembro de 1993, para uma revista então publicada pela livraria Barata, escrevi um texto que não resisto a recuperar. Dizia assim:

O café, enquanto local, e não só chávena, e não só bebida, refere duas realidades, ambas de agradável evocação: a bica, que se toma, e a tertúlia de amigos com quem se fala, enquanto se bebe a primeira.

 Muitos escritores têm relembrado, em saborosos textos, tertúlias célebres ao longo das décadas. Não vem ao caso historiar, mas Lisboa esteve bem provida destes locais de referência obrigatória, e não há certamente quem ignore o papel do Martinho da Arcada, da Brasileira do Chiado, do Nicola, do Café Gelo, do Monte Carlo, do Ribadouro, de tantos e tantos outros. Escritores e pintores deixaram marca num local, actores e encenadores eram habituais noutros, os cinéfilos reuniam-se sobretudo no antigo VaVá,  mesas pegadas com cançonetistas e baladistas dos idos de 60, e, antes do 25 de Abril, políticos e “gente do reviralho”, como então eram chamados os opositores ao regime, apareciam um pouco por todo o lado, acumulando funções na maioria dos casos.

 Os cafés eram locais de encontro, logo depois do almoço, e antes de se entrar no trabalho, ou a seguir ao jantar, prolongando-se então a cavaqueira pela noite dentro, até que as portas do café fechassem, e muitas vezes até para lá do seu encerramento. Nunca antes das duas ou três da matina. Muitos artigos se escreveram, muitos romances e poemas se pensaram, muitos espectáculos se montaram, muitos filmes se idealizaram, muitos quadros adquiriram ali cores e formas, muitos governos caíram e muitos outros se formaram à mesa de um café de Lisboa, do Porto, de qualquer cidade do interior de Portugal.

Não havia ainda televisão em doses industriais, para agarrar audiências pelos processos mais singulares; não havia internet, chats, blogues ou Facebook; não havia ainda Betas, VHS ou DVDs para se verem os filmes em casa; não havia concertos rocks todos os dias, nem espectáculos a toda a hora; não havia as drogas pesadas a influir negativamente nos horários dos donos dos cafés, que se querem ver livres de tão ingratos clientes, e fecham muito mais cedo; não havia a ameaça da violência urbana que apesar de tudo pesa sobre o comportamento de muita gente que prefere a segurança do lar à incerteza das ruas; nem havia, sobretudo, estes mercantis balcões de agora, onde as pessoas tomam apressadamente café, enquanto outras comem sofregamente uma sopa e pastelinhos de bacalhau, bifanas ou mesmo “pratinhos” de feijoada à transmontana, antes de regressarem ao seu balcão no centro comercial ou à secretária no escritório.

 Dos meus tempos de Universidade, relembro cafés inesquecíveis. Desde logo, o bar da Faculdade de Letras, onde se estudava a vida, quando se faltava às aulas, para se discutir um filme, uma peça de teatro ou um livro, onde se tentava mudar o mundo à medida dos nossos sonhos, ou simplesmente se namorava uma colega, quando o tempo não estava de molde a poder-se sair com ela até ao estimulante verde do discreto estádio universitário.

 Depois, à tarde e à noite, estudavam-se as matérias, em mesas de outros cafés, por apontamentos emprestados por quem assistira ao verbo do Professor. Por mim, que morava então em casa de meus pais, na Av. EUA, os mais utilizados eram o Nova Iorque, hoje transformado em banco, e a Grãfina. Mas muitas noites as passava também entre o Monte Carlo e o Monumental, espreitando actores e actrizes com quem se procurava meter conversa, ou sendo lentamente perfilhado por tertúlias de escritores, jornalistas, pintores e excêntricos avulso.

 Pouco a pouco, fui subindo avenida acima, até ao VáVá, que então tinha bilhares e cave, e não era ainda metade banco e metade pastelaria. Ali se reunia o grupo de cinéfilos, que observava de longe, e o dos cantores, que ouvia na rádio e muito pouco na TV estatal. Com breves incursões pela Suprema, pela Sul-América e pelo Luanda, adoptei o Vává como segunda casa, ali fiz amizades e vi partir amigos, ali conheci amores e desamores, ali escrevi e li, ali pensei guiões e filmes, dali parti com equipas de filmagem para a serra da Estrela, para Sintra, para o Alentejo, ali filmei mesmo uma sequência de um deles, ali vi rodar alguns outros, ali me despedi do 24 e ali saudei o 25, há quem diga que ele é a minha sala de jantar (quanto muito seria a de almoçar), e um prolongamento do meu escritório.

 O Vává foi mudando com os anos, deixando sempre saudades do velho Vává, de maples de cabedal castanho encostados às paredes, de luz difusa e discreta, de acolhedor conforto. Ali conheci o Manuel Guimarães, que seria meu padrinho de casamento e padrinho cinematográfico, cedendo-me umas bobines de película virgem do seu derradeiro “Cântico Final” para eu realizar uma das minhas primeiras curtas-metragens; ali conheci melhor o Manuel de Azevedo, o Villas-Boas, o Rafael, o Pinto Bandeira, o Manuel Costa e Silva, o Sam, o Pedro Bandeira Freire, o João Maria Tudela, o Fernando Tordo, o Paulo de Carvalho, o Carlos Mendes, o Fernando Silva, o Mário Damas Nunes, a Acácia Thiele; ali continuo a encontrar o Manel, o Fanan, o Vasco, o Mário, o Rangel, a Lena, o Carlos, e tantos outros, alguns deles agora já acompanhados das respectivas e respectivos, com a prole a gatinhar por entre mesas e cadeiras, ganhando já, se calhar, o mesmo “vício” de ali se encontrarem no futuro; por ali passam também personagens bisonhas de tristes recordações, ali ficam suspensas memórias efémeras ou persistentes, ali se discute o presente do cinema, do xadrez, da televisão e da canção portugueses, ali se debate o futuro da TAP, ali se comentam, à segunda-feira, os “roubos” dos árbitros, invariavelmente a prejudicarem o Sporting e a beneficiarem quem se sabe, por lá passava ao fim da tarde o Frederico, na volta do colégio, para a Cola e o bolo da praxe, ali descia e desço com a Eduarda para tomar o café, antes de ir para o cinema ou de regressar a casa, para um serão televisivo.

 Os cafés de Lisboa tendem a desaparecer, e os que restam são já sombras de um passado que procuramos apesar de tudo manter vivo, contra a arremetida das leis inexoráveis do comércio, da cobiça dos bancos, do poder da televisão, da proliferação de bares e discotecas. São, aliás, os bares e as discotecas que, de certa forma, vieram a ocupar o lugar desempenhado pelos cafés, reunindo tertúlias de amigos, agora ao som da música de momento. Até esta transferência é significativa da mudança dos tempos. Em lugar do café, bebe-se whisky ou vodka; em vez do espreguiçar do pensamento em redor da bica bem quente, gritam-se frases rápidas por entre dois compassos mais trepidantes. Nem melhor, nem pior. “Tudo é feito de mudança”, como dizia o poeta. “A nostalgia não é deste mundo”, como explicava Signoret. E as bicas bem quentes continuam a incendiar a imaginação dos poetas. Que nunca dispensaram outros “acompanhamentos”, a começar pelo absinto.

 A última grande transformação do Vavá data de 2017, quando a empresa Petrónio e Gonzaga, Lda foi comprada aos anteriores proprietários pelos sócios Pedro Ferreira e João Simões. O café restaurante sofreu uma profunda remodelação, mantendo e reabilitando o espólio artístico (as obras de Menez foram todas restauradas por especialistas), tarefa levada a cabo por familiares dos gerentes, a designer Mafalda Ferreira e o arquitecto paisagista Filipe Pedro. A inauguração aconteceu a 21 de Julho de 2017 e, não muito depois, a casa foi considerada “Loja com História” pela Câmara Municipal de Lisboa.

Muitos se perguntam por quê a designação Vavá?

 Estranha homenagem a um jogador brasileiro que aparece a dar nome a um café restaurante no cruzamento da av. de Roma com a dos EUA, em Lisboa. “Vavá” era mesmo o nome por que era conhecido Edvaldo Izídio (Recife, 12 de Novembro de 1934 – Rio de Janeiro, 19 de Janeiro de 2002), jogador brasileiro de futebol, bi-campeão mundial nas copas de 1958 e 1962, conhecido também por “peito de aço”. Nascido no Recife, Pernambuco, foi como avançado da selecção brasileira bicampeão mundial nas campanhas da Suécia (1958) e do Chile (1962). Iniciou a sua carreira no Sport de Recife, transferiu-se depois para o Rio de Janeiro (1952), para jogar no Vasco, passou pelo Atlético de Madrid, Palmeiras, América do México, San Diego, dos EUA, e Portuguesa do Rio. Conquistou dois campeonatos cariocas pelo Vasco da Gama e um paulista, pelo Palmeiras, além das duas Copas do Mundo pela selecção.

 Era visto como o clássico “matador” de grande área: oportuno, sem muita técnica, mas dono de muita garra e inteligência táctica, além de bom a jogar de cabeça. O seu vigor físico valeu-lhe o apelido de “Peito de Aço”. Marcou nove golos pelo Brasil em Copas do Mundo, e em 22 jogos pela selecção brasileira, contabilizou 14 golos. Foi auxiliar técnico de Telê Santana (1982) na selecção brasileira que disputou a Copa da Espanha. Morreu aos 67 anos, na Clínica São Victor, na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, após internado por três dias com insuficiência cardíaca, e enterrado no Cemitério do Catumbi.

 Porque se chama Vavá o café restaurante a que estamos a dedicar este texto, eis um enigma que não conseguimos decifrar. Numa época em que no Brasil havia Pelé e Garrincha, porquê optar por Vavá? Um mistério a que pouca gente dá qualquer atenção. Curiosamente, os nomes fixam-se e raras vezes se procura encontrar uma razão para a sua escolha. Vavá é hoje em dia algo abstracto que, neste caso, designa um café, nada mais. Uma sonoridade apenas.

 Mas esta sonoridade faz retinir recordações e memórias de outros tempos. No final da década de 1950 e na de 60 do século passado o Vavá foi local de encontro e de tertúlias diárias de uma certa inteligência nacional, urbana, resistente ao Estado Novo, ponto de encontro de diversos grupos sociais. Um deles, os jovens do que viria a ser chamado o novo cinema português, onde pontificaram os nomes de Fernando Lopes, Paulo Rocha, António Pedro Vasconcelos, Alberto Seixas Santos, António da Cunha Telles, João César Monteiro, Manuel Costa e Silva, entre outros que habitavam perto e ali se reuniam diariamente, à noite, para a bica da praxe e a conversa habitual. Foi aqui que se convencionou ter nascido o novo cinema português, que um filme como “Verdes Anos”, de Paulo Rocha, confirma (grande parte filmado no edifício do próprio Vavá onde então morava o seu realizador).

 Mas o café não era apenas refúgio de jovens cineastas, mas também de um ou outro veterano, como era o caso de Manuel Guimarães, o mais conhecido realizador português a testemunhar a influência do neorrealismo italiano no nosso país, com títulos como “Saltimbancos” ou “Nazaré”. Não confraternizavam todos na mesma mesa, o conflito geracional existia. Guimarães era frequentador de uma outra tertúlia, onde surgiam vários opositores ao regime, “malta do reviralho”, como então eram chamados, como Aquilino Ribeiro Machado, engenheiro, filho do escritor Aquilino Ribeiro e futuro Presidente da Câmara de Lisboa, entre 1977 e 1979, Dias Amado, professor da Faculdade Ciências, Manuel de Azevedo, jornalista do “Diário de Lisboa”, Aventino Teixeira, coronel, um dos capitães de Abril, Pinto Bandeira, o artista plástico Sam, Rafael, proprietário de uma agência de publicidade, entre alguns mais. Senhoras de certa idade eram raras. Uma delas era a mulher de Manuel Guimarães, a Dª Clarice, que acompanhava sempre o marido.»

Legenda:

Foto 1 – Fotografia de Aida Santos

Foto 2 – Fotografuia do jornal I

Foto 3 - Site de Lojas Com História

Foto 4 – Site de Lojas Com História

Foto 5 – Site de Lisboa ComVida

segunda-feira, 12 de abril de 2021

SARAMAGUEANDO


12 de Maio de 1993

Cavaco Silva convidou Zita Seabra, pessoalmente, dizem-me a ocupar o lugar de António Pedro de Vasconcelos no Secretariado para o Audiovisual, Depois de o vermos e sofrermos no Governo durante estes anos, parecia que já deveríamos saber tudo a respeito de Cavaco: as suas maldades e as suas bondades, os seus tiques e manias, a esperteza e a estupidez, a cartilha económica e ignorância literária. Santo engano o nosso. Ainda nos faltava conhecer atá que ponto ele era capaz de demonstrar o seu desprezo por alguém. Fê-lo agora. Salvo se… Salvo se eu estou enganado, e tudo isto, sendo farsa, é a sério. Caso em que não teremos mais remédio que desprezá-los nós. A ambos.

José Saramago em Cadernos de Lanzarote Volume I

terça-feira, 30 de abril de 2019

RELACIONADOS


Capa do programa do filme Uma Abelha na Chuva, um trabalho cuidado: oito páginas ilustradas, um artigo de António Pedro Vasconcelos a contar das dificuldades do novo cinema português, uma selecção de declarações de Fernando Lopes sobre as filmagens, a montagem do filme., um artigo de Eduardo Prado Coelho fazendo a ligação entre o livro e o filme, uma breve biografia de Carlos de Oliveira e o poema Cinema extraído de Sobre oLado Esquerdo.

«A abelha abriu as asas, atirou-se ao voo e foi apanhada pela chuva. Sofreu de tudo. Os fios do aguaceiro a enredá-la; golpes de vento a amocharem-lhe o voo; sacolejões, vergastadas, impulsos. Deu com as asas em terra. A chuva espezinhou-a, arrastou-se no saibro, debateu-se ainda. Mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas.»

João César Monteiro não tinha qualquer dúvida quando afirmou: «devo dizer que foi com o poeta Carlos de Oliveira que mais aprendi de cinema.»


Contra capa  do programa de Uma Abelha na Chuva com a reprodução do poema Cinema de Carlos de Oliveira:


CINEMA

I

O écran petrificado,
muros, ossos,
o movimento áspero da câmara
mergulhando nos poços
das leis universais,
o rigoroso cálculo da luz
em que a matéria já cansada,
autómatos, metais,
se envolve pouco a pouco
no vagaroso amor
que é o trabalho quase imperceptível
das manchas de bolor,
a ferrugem, o espaço rarefeito,
e um relógio apressado no meu peito.

II

A lentidão da imagem
faz lembrar
o automóvel na garagem,
o suicídio com o gás do escape,
quer dizer,
o coração vertiginoso
e a lentidão do mundo
a escurecer
nas bobines veladas
dos suaves motores crepusculares
ou, por outras palavras,
flashes, combustões,
entregues ao acaso das artérias,
melhor, das pulsações.

III

Radioscopia incerta
como nós,
mas provável, exacta
na dosagem da sombra com o cálcio
da sua arquitectura
milimetricamente interior,
transforma-se o espectáculo
por fim
no próprio espectador
e habita agora
a fluidez do sangue:
cada imagem de fora,
presa ao fotograma que já foi,
de glóbulo em glóbulo se destrói.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

NOTÍCIAS DO CIRCO


O Governo enredou-se numa birra imensa, subversiva e dramática com o Tribunal Constitucional a roçar a grosseria, a irresponsabilidade, a infantilidade, a pura incompetência.

O Partido Socialista vive momentos tumultuosos que o colocam à beira do caos.

Cristiano Ronaldo está a braços, ou as pernas, com uma tendinose rotuliana, o que coloca em risco a sua participação no Mundial do Brasil.

Cavaco Silva que não gosta de futebol, não vai ao cinema, não lê livros e, segundo o Luís Contas, nem de números percebe, entende que não tem nada a dizer sobre o que pelo país acontece e rodeia-se de um ensurdecedor silêncio.

A crer nos comentadores, o povo vive entra as angústias de lhe lixarem ainda mais a vida e a lesão de Cristiano Ronaldo.

Ainda não há nenhuma sondagem que mostre qual das duas angústias mais preocupação lhe traz.

O cineasta António Pedro Vasconcelos termina um seu artigo no Público citando Giraudoux:

A Pátria está em perigo, mas, se calhar, esse perigo é o que nos resta da Pátria.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

VIAGEM EM REDOR DE UMA REVISTA


No dia 20 de Abril de 1974, saía o nº. 29 da revista Cinéfilo.

O Cinéfilo representou um marco importante nas escassas ofertas de revistas sobre/de espectáculos que, ao tempo, existiam.

Mais tarde irei debruçar-me sobre alguns dos seus números, mas agora, este é o núnero que interessa referir, que abrangia a semana de de 20 a 28 de Abril de 1974.

O Cinéfilo tinha como director Fernando Lopes e António Pedro de Vasconcelos era  o chefe de uma redacção onde pontificavam Adelino Cardoso, José Martins, João César Monteiro.

O presente número é substancialmente dedicado ao filme Jaime de António Reis, uma média-metragem, a estrear brevemente em Lisboa,, mas para o qual, como Carta na Manga, o Cinéfilo, para os seus assinantes, agendara uma ante-estreia marcada para domingo 28, às 11 horas da manhã no cinema Satélite.

A importância que a revista dava a este filme, manifestava-se num longa entrevista a António Reis, feita por Joâo César Monteiro, que será amanhã aqui abordada.

Nas primeiras páginas da revista era publicada uma rubrica intitulada Sete Dias da Semana, em que, por cada dia, se dava destaque a livros, filmes, espectáculos de teatro e bailado, televisão ou exposições.

Eduardo Guerra Carneiro era o responsável da selecção e apresentação dos eventos.



O cineasta Eduardo Geada tinha a responsabilidade de organizar o cartaz dos cinemas, principalmente de Lisboa.

No Apolo 70 estava em exibição Nova Geração (American Graffiti) de George Lucas com Richard Dreyfus, Ronny Howard:

A imagem que George Lucas nos fornece da América de 1962 não corresponde tanto à tentativa de elaborar um documento crítico da época como visão inconsistente que ele possui desse período. Oscilando entre um revivalismo romântico, hoje bastante credenciado junto do público, e uma nostalgia conformada, o filme nunca consegue ultrapassar o esboço superficial e inconsequente.

Atentem, agora, nas sessões da meia-noite para o dia 20 de Abril de 1974:

Alvalade

O Mensageiro de Joseph Losey com Alan Bates e Julie Christie.

Exemplo típico do que é hoje um filme académico, embora seja também, indiscutível
mente inteligente. Uma realização cuidada, minuciosa (O que impõe sempre muito respeito ao público) ilustra às mil maravilhas uma ficção em que a burguesia reconhece com facilidade os vestígios da sua decadência e o saudosismo do seu esplendor classista.

Apolo 70

A Maldita, o Gato e a Morte de Roger Corman com Vincent Price,

(Para mais fácil leitura clicque na imagem).