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segunda-feira, 13 de julho de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 A pacata vida intelectual portuguesa funciona entre os artistas como vasos comunicantes. Somos uma pequena banheira e entre editores e escritores há uma troca habitual de favores.

Neste Somos Livros, Francisco José Viegas debruça-se sobre um livro de Gerald Murnane publicado pela Relógio d’Água. Apenas conheço o autor de nome e o que li levou-me a interessar-me pelo livro e debrucei-me sobre o catálogo da Relógio d’Água:

Sobre As Planícies, de Gerald Murnane

 «Aos 87 anos, Gerald Murnane continua a ser o mais provável candidato australiano a juntar-se ao panteão do Nobel, onde já está o seu compatriota Patrick White, vencedor em 1973. […]

Murnane é um autor das vastas extensões australianas, de onde na verdade nunca quis sair. “As Planícies”, de 1982, provavelmente a sua obra-prima e texto mais conhecido, prova-o à saciedade. Trata-se de uma narrativa estranha, esquiva, sempre a deslizar-nos nas mãos, sobretudo quando pensamos que finalmente a agarrámos. […]

O prodígio de “As Planícies” está na forma como Murnane consegue arrancar tanta coisa de quase nada.» José Mário Silva no Expresso de 10 de Abril de 2026.

«Nos seus vastos terrenos, as famílias proprietárias das planícies preservaram uma cultura rica e singular. Obcecadas pelo próprio habitat e pela sua história, contratam artesãos, escritores e historiadores para registarem, com o máximo pormenor, todos os aspetos das suas vidas e da natureza das suas terras.

Um jovem cineasta chega às planícies, na esperança de dar o seu contributo para a elaboração dessa história. Numa biblioteca privada, começa a tomar notas para um filme e escolhe a filha do seu mecenas para o papel principal. Vinte anos mais tarde, inicia o relato da sua inquietante história de vida nas planícies.                                                                  

«O maior escritor vivo da língua inglesa de que a maioria das pessoas nunca ouviu falar.» [The New York Times]

«Murnane, um génio, é um herdeiro digno de Beckett.» [Teju Cole]

«A convicção emocional é de tal intensidade, o lirismo sombrio de tal forma comovente, a inteligência por detrás das frases lapidadas tão inegável, que suspendemos toda a incredulidade.» [J. M. Coetzee]

«Como em Proust, a especificidade das imagens que persegue e cataloga proporciona um prazer próprio. Mas o efeito da sua escrita reside menos nas imagens em si e mais na forma como o pensamento funciona na mente humana.» [The Guardian]

Gerald Murnane, nascido a 25 de fevereiro de 1939, é um romancista, contista, poeta e ensaísta australiano. Sobretudo conhecido pelo romance As Planícies, publicado em 1982, conquistou reconhecimento pela sua prosa distinta que explora a memória e a identidade, frequentemente esbatendo as fronteiras entre ficção e autobiografia.»

Sobre o livro e o autor retenho uma frase de Francisco José Viegas:

«O estilo tardio e descarnado de Murnane não tem enredo, nem personagens, só memórias e reflexões do narrador. E não pretende mostrar o mundo como ele é, mas como ele nos “parece”, neste caso “lhe parece”, o mundo através da mediação das mente e da memória.»


quarta-feira, 27 de maio de 2026

LIVROS QUE SE ESPALHAM PELO PARQUE


Abriu a Feira do Livro e por ali permanecerá até 14 de Junho.

Hei-de lá ir pelos jacarandás, pela frescura que a noite traz, mas este Maio está a ser terrível com um calor de ananases.

E pelos livros também lá irei, claro!

Recordando Francisco Vale, editor da Relógio d’Água:

«Na década de 90, despedia-me por vezes de colegas da Feira do Livro de Lisboa com um «até para o ano, se ainda houver livros».
A frase era irónica, numa época em que os artigos sobre a crise do livro tipográfico formavam uma espécie de género ensaístico menor. Alguns anos depois tingiu-se de humor negro com o surgimento dos leitores de e-books e de uma geração habituada aos écrans e desabituada de livros.
Mas o livro impresso entrou no século XXI com inesperado vigor e as previsões sobre o avanço da edição electrónica revelavam-se apressadas.»

quinta-feira, 10 de abril de 2025

UM CATÁLOGO SINGULAR


 

Volta e meia chegam notícias de que mais uma livraria fechou portas. Os tempos correm, e como eles correm!... e os melhores editores deste nosso país também vão deixando de andar por aí.

O editor Fernando Vale, há muito bom tempo, à frente da Relógio d’Água, registou a morte do editor Luís Oliveira, ocorrida no passado dia 24 de Março, que segundo Isabel Coutinho no Público, «criou a editora mais subversiva e desobediente do mercado português»:


UM CATÁLOGO SINGULAR

 

«Ser editor é viver uma realidade contraditória.

O catálogo que vai construindo é obra dos escritores que publica. Mas, no caso dos editores independentes, que não se inspiram nas vendas ou em sugestões de agentes literários, esse catálogo pode ser uma conjunção única, uma criação singular.

Por isso, qualquer editor tende a oscilar entre o zero e o infinito.

Por vezes, sente-se apenas como aquele que fornece os suportes para a divulgação dos livros, tendo o mérito das boas revisões, do grafismo bem feito, e, sendo caso disso, de uma tradução cuidada.

Nos acessos de megalomania, reclama para si quase todo o mérito, imagina que, sem os ter escolhido e publicado, os autores quase nem existiriam.

É certo que há escritores que permaneceriam esquecidos ou que não chegariam, pelo menos tão cedo, aos leitores portugueses sem o trabalho de Luís Oliveira. É o caso de Graça Pina de Morais, António José Forte, Tomás da Fonseca, Karl Korsch, Michael Herr, Frédéric Gros, Albert Cossery, Donald Barthelme, e dezenas de outros.

Mas a maioria dos trezentos e quarenta títulos da Antígona poderia ter chegado aos leitores através de outros editores. Quem não desejaria ter no seu catálogo as distopias de Orwell, Huxley e Zamiatine, ou criações de Blake, Sterne, La Boétie, John Berger, Jack London, Galeano, Saunders, Henry Miller ou Bukowski?

Não são pois apenas os autores considerados individualmente que fazem da Antígona a Antígona. Há um fio condutor que Luís Oliveira tem segurado ao longo de quatro décadas. É isso que faz com que todos os autores que publica sejam água da mesma corrente, diversa e que procura ser digna da audácia com que Antígona, mulher de Tebas, desafiou, em nome do sangue e da fraternidade, as leis da cidade, personificadas em Creonte.

O que há de singular no catálogo da Antígona é esta coerência, um leito por onde fluem as palavras e ideias dos mais diversos autores, que têm em comum a capacidade de nunca deixarem indiferentes os leitores.

Luís Oliveira contou com a colaboração de Torcato Sepúlveda, de João Henriques, José Miranda Justo, e outros colaboradores. Mas, mesmo eles, foram escolhidos tanto como escolheram e a sua ligação à Antígona surge como natural e até inevitável.

Na Antígona, é também visível, além da arte da aceitação, outra ainda mais difícil que é a de excluir. Não é um verdadeiro editor quem não for capaz de pôr em causa uma amizade por se recusar a publicar um livro que o não convenceu.

E Luís Oliveira soube erguer defesas contra a mediocridade ou as facilidades de venda. Evitou comprazer-se na edição marginal, enfrentou crises, situou-se, para além do bem e do mal, nas disputas de obras que lhe pareciam essenciais. Fez assim da Antígona não «uma conspiração permanente contra o mundo», como diz com prosápia no seu catálogo, mas uma deliberada conspiração contra a mediocridade imperante.

Andou devagar para chegar longe. Tenho a certeza que saberá envergar até ao fim, com garbo, a armadura de editor independente.

Depoimento escrito por Francisco Vale para a edição comemorativa «Antígona: 40 Anos + 1»

segunda-feira, 7 de abril de 2025

METAM A «IA» NUM SÍTIO QUE EU CÁ SEI!

Talvez partir do princípio que o mundo, se não acabou já, está em vias de…

Segundo o editor Francisco Vale da Relógio d’Água, uns artistas-mal-cheirosos fazem chegar a Portugal traduções «feitas» por Inteligência Artificial: 

«Neste momento circulam em Portugal, nas livrarias, em feiras do livro ou na companhia de alguns jornais, centenas de milhares de exemplares de clássicos ingleses, franceses, alemães, italianos ou russos traduzidos com recurso a programas de inteligência artificial (IA), do Google Translate ao ChatGPT, passando pelo DeepL.

Isto verifica-se sem qualquer indicação, perante o desconhecimento dos leitores, a indiferença de jornalistas e críticos literários e o alheamento das associações de tradutores ou da SPA. O processo está a provocar uma acentuada regressão editorial com a divulgação de traduções primárias, insípidas, insensíveis a contextos e subtilezas linguísticas, que tendem a sobrepor-se a textos de enorme qualidade elaborados nas últimas décadas por Paulo Quintela, Aníbal Fernandes, Maria Teresa Dias Furtado, João Barrento, Paulo Faria, Sara Seruya, Margarida Periquito, Margarida Vale de Gato, Vasco Graça Moura, António Pescada, Nina Guerra e Filipe Guerra e António Sousa Ribeiro, entre outros.

Tudo indica que um dos principais agentes desta situação seja a Book Cover Editora, que tem publicadas centenas de clássicos de diversas línguas, o mais das vezes com preços de cerca de 5 euros.

À primeira vista trata-se de uma oferenda aos leitores — clássicos a preços acessíveis.

Mas na verdade a Book Cover é uma esfinge com alguns mistérios.

Todos os seus livros, excepto a série de Conan Doyle, são traduzidos por Lúcia Nogueira, a tradutora mais eficiente do planeta. Só em 2023 aparece na ficha técnica como tradutora de dezenas de obras, entre elas Guerra e Paz, com as suas mais de mil páginas, e outros romances volumosos. Nos últimos dois anos e meio terá traduzido cerca de oitenta clássicos, muitos deles extensos, como Os Miseráveis, E Tudo o Vento Levou ou Vinte Mil Léguas Submarinas.

Qualquer editor sabe que mesmo tradutores a tempo inteiro e com larga experiência são incapazes de traduzir mais de 10 a 15 páginas por dia, o que a incansável Lúcia Nogueira parece fazer antes do pequeno-almoço, seja a partir do inglês, do alemão, do italiano, do cirílico russo e em breve talvez do mandarim ou grego antigo.

As fichas técnicas da Book Cover não indicam o título original nem a língua de que se traduz, nem o nome de revisores.

O mundo está cheio de maravilhas e não se pode excluir a possibilidade de Lúcia Nogueira ser um prodígio, uma supersónica poliglota, que, mesmo sem traduzir a tempo inteiro — segundo o LinkedIn, trabalhou na Booktailors e é agora assistente editorial na Porto Editora —, consegue diariamente passar a um português sofrível várias dezenas de páginas de clássicos.

Mas é muitíssimo mais provável que se trate de uma tradutora experimentada em tecnologias de tradução automática, que começaram no Google Translate, evoluindo para a tradução neuronal do DeepL e, mais recentemente, o ChatGPT. Lúcia Nogueira deve limitar-se a fazer uma revisão que corrige alguns dos erros mais graves da tradução automática já mencionados por alguns dos seus leitores e sem que, em geral, possa cotejar o texto com o original. Na verdade, ficam numerosas gralhas, erros ortográficos e gramaticais, confusão de Acordos, termos brasileiros e outras incongruências (ver críticas de leitores da Book Cover Editora no Google ou comparar páginas das traduções de António Pescada ou Nina Guerra e Filipe Guerra de Guerra e Paz com as de Lúcia Nogueira).

Outra hipótese, menos provável por exigir que se escrevam os textos ao computador, é a de que dirija uma equipa de tradutores/revisores que usam o inglês, o que deveria ser referido e individualizado.

Nada há de ilegal nesta actividade. O problema é que infringe regras editoriais elementares, a começar pela indicação das línguas de partida e dos programas de IA utilizados ou dos tradutores implicados. Além disso, a medíocre qualidade dos resultados leva a um retrocesso em relação aos avanços conseguidos desde os anos 60 do século passado, quando foi possível começar a traduzir autores ingleses, alemães e russos, não a partir do francês, mas das línguas originais, tornando acessíveis aos leitores portugueses as subtilezas dos estilos de Shakespeare, Virginia Woolf, Tolstoi, Goethe ou Dostoiévski.

Claro que o recurso às traduções automáticas permite realizar economias. Mas estas não são suficientes para explicar os preços da Book Cover, que recorre também a grandes tiragens, associando-se a alguns jornais. Estes, que são muitas vezes exigentes com as traduções nas suas secções literárias, aceitam tudo o que lhes é oferecido nessas parcerias, feitas em geral através dos seus serviços comerciais e perante a desatenção das direcções editoriais. 

Não se pode excluir que alguns tradutores recorram em parte a programas de tradução automática para executarem fases do seu trabalho, o que em qualquer dos casos deverá ser indicado nas fichas técnicas. Mas a ocultação do seu uso como instrumento principal ou quase exclusivo de tradução, que transforma os tradutores em meros revisores, não pode ser ignorada. É, por isso, estranho que críticos de diferentes órgãos de informação não comparem algumas páginas dos livros de que falam com os textos originais, pelo menos nos casos em que conhecem a língua de partida.

O próprio ChatGPT, que se afirma capaz de traduzir Guerra e Paz do russo para português, reconhece a sua incapacidade para elaborar uma obra literária significativa. Algo de semelhante se passa com as traduções dos clássicos, que têm sempre aspectos criativos, estando longe de se resumirem a um jogo de correspondências mais ou menos lineares entre diferentes línguas. 

Afinal, os vários programas, do Google Translate ao ChatGPT, apenas podem gerar textos que são o agregado de todos os textos que digerem, indo muitas vezes buscar soluções a tradutores humanos sem que o rasto dessa utilização ou plágio seja controlado.»

Francisco Vale

sexta-feira, 26 de junho de 2020

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Estragar capas de livros com a prensagem ou colocação de auto colantes, é um crime.

Que isso aconteça na Leya, onde o dono daquilo gosta mais de corridas de automóveis do que de livros, agora que aconteça na Relógio D’Água, dirigida por Francisco Vale, alguém que sabe verdadeiramente o que é um livro, torna-se um sacrilégio.

Os tempos pandémicos já são terríveis de viver, pior ficam com crimes destes.

O livro da Hélia Correia destinava-se a oferta. Tentei retirar o auto colante, mas deveriam ter utilizado uma cola de prender cientistas no tecto.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

SARAMAGUEANDO


Na sua primeira edição, em 1982, Memorial do Convento perdia para Balada da Praia dos Cães de José Cardoso Pires. Em 1984 Amadeo de Mário Cláudio foi escolhido em vez de O Ano da Morte de Ricardo Reis. Dois anos depois, Jangada de Pedra perdeu para Um Amor Feliz de David Mourão Ferreira e em 1989 era a vez de História do Cerco de Lisboa perder para Fora de Horas de Paulo Castilho.

De modo algum estão em causa as obras que foram escolhidas, simplesmente o entusiasmo que os leitores tinham para com as obras de José Saramago, não era acompanhado por uma boa parte dos seus pares.

No dia 23 de Junho de 1992 sabia-se que José Saramago, finalmente  ganhava o Grande Prémio de Romance e Novela  com O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

À quinta foi de vez mas sem unanimidade do júri.

José Saramago aceitou o prémio mas o dinheiro ia para os PALOP.

O escritor explicou:

Vistas as circunstâncias – as recentes e as antigas -, e para não juntar o choque de uma recusa ao escândalo de uma exclusão, aceito este prémio sob condição de o seu valor ser usado na compra de autores portugueses contemporâneos a enviar aos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) que estejam interessados em os receber.
Peço à APE, ao Pen Clube e à SPA o favor de se encarregarem da selecção das obras e do seu encaminhamento…

Saramagueano que sou, torno-me mais que suspeito na matéria, mas sempre adianto que, tanto com O Memorial do Convento como com O Ano da Morte de Ricardo Reis, houve tremenda injustiça., talvez alguma coisa mais, mas fiquemo-nos pela injustiça.

O editor Francisco Vale recordou:

 Houve uma edição em que estiveram em competição Balada da Praia dos Cães e o Memorial do Convento e José Cardoso Pires ganhou. Era o melhor?
 Essa é uma pergunta complicada porque fui bastante amigo do José Cardoso Pires, que foi meu sogro durante bastantes anos, e Balada da Praia dos Cães é um dos seus melhores romances. Eu gosto muito do Memorial do Convento, que para mim é de longe a melhor obra de José Saramago e é um dos grandes livros da literatura portuguesa de sempre: Portanto, tenho muita dificuldade retrospetiva em fazer justiça nesse caso. Além do mais, o Memorial do Convento criou uma das poucas personagens da literatura portuguesa que ficam - toda gente sabe quem é Blimunda. Que personagens mais há? A Sibila da Agustina talvez, o Delfim do Cardoso Pires, o Malhadinhas do Aquilino... Claro que há também as personagens criadas por Eça em Os Maias, Carlos da Maia e Ega, ou em A Relíquia, Teodorico Raposo, bem como as de Camilo no Amor de Perdição, Simão e Teresa, na Brasileira de Prazins e Maria Moisés, ou as que saíram do universo ficcional de Júlio Dinis e, muito antes dele, do teatro de Gil Vicente.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

CONVERSANDO


Como leitor fiz descobertas sem mapa, sem bússola, lembro José Gomes Ferreira, José Saramago, mais o Saramago que o Zé Gomes.

Havia a biblioteca do meu pai, havia os suplementos literários, quase todos a publicarem-se à quinta-feira.

Líamos os críticos, colhíamos orientações que eram, ou não, seguidas, mas orientações.

Lembro Eduardo Prado Coelho que terá sido, por aqui, o último moicano da crítica literária.

O Eduardo Prado Coelho era o Eduardo Prado Coelho, como em tempos recuados o João Gaspar Simões era o João Gaspar Simões.

Assim como uma espécie de instituições.

Quando morreram ficámos a saber da falta que nos ficaram a fazer, depois de, amiúde, termos andado a chamar-lhes todos os nomes e dando de barato que por vezes, um e outro, se punham a jeito.

Francisco Vale, que é editor da Relógio d’Água, também jornalista, também escritor, lembra Pierre Bayard que escreveu um livro, Como Falar dos Livros Que Não Lemos.

Deixa no ar que os críticos, por vezes, falam dos livros que nem sequer leram.

Será?

Também nos diz dessa coisa horrorosa de os críticos darem estrelas aos livros que criticam: «a classificação que se justifica nos hotéis, como questão de conforto dos quartos e serviço de bar, e que talvez faça sentido nas estrelas do Guia Michelin, é de todo inadequada para leitura e ensaio.»

Pegando no Expresso, no Público, ressalta que nas poucas críticas (?) que fazem o que por ali se nota é um certo amiguismo, a influência que as editoras mexem e remexem.

Legenda: pintura de Jean-Honoré Fragonard

terça-feira, 19 de setembro de 2017

VELHOS RECORTES



O recorte com o título de uma entrevista de Francisco Vale ao Diário de Notícias não é tão velho quanto isso: é de 9 de Agosto.


Velho, nem sequer encontrei a data do jornal, é este recorte de um percurso que o quinzenário JL, um dia, fez de Francisco Vale.

A Relógio d’Água é uma das boas editoras portuguesas que não estão metidas nos grandes grupos editoriais.

Francisco Vale é um homem dos livros que sabe muito bem do que fala.

«A edição de livros é por natureza uma indústria artesanal, descentralizada, improvisada e pessoal; realizam-na melhor pequenos grupos de pessoas com ideias afins, consagrados à sua rate, ciosas da sua autonomia, sensíveis às necessidades dos escritores e aos diversos interesses dos leitores.»

Japson Epstein, co-fundador da The New York Review of Books, citado por Francisco Vale em Autores, Editores e Leitores.

Será polémica a opinião que tem sobre o escritor-pivot-televisivo, mas tem a sua boa dose de razão.

Guilherme de Azevedo, editor da Gradiva, não gostou da opinião e respondeu a Francisco Vale nas colunas do Diário de Notícias. Não mostrou unhas para tocar tal guitarra – há damas difíceis de defender… – e enredou-se em coisinhas marginais.

Francisco Vale respondeu-lhe mas teve o cuidado de avisar os leitores:

«Nota final: à medida que escrevi este texto, fui tendo a desagradável sensação de que não pode ser esclarecedora a discussão com alguém em tão avançado estado de megalomania como GV. Por isso não voltarei a responder-lhe, confiando na inteligência dos leitores.»

segunda-feira, 29 de maio de 2017

A FESTA DOS LIVROS


Francisco Vale, editor da Relógio d’Água, no seu livro Autores, Editores e Leitores, escreve:

Na década de 90, despedia-me por vezes de colegas na Feira do Livro de Lisboa com um «até para o ano, se ainda houver livros».

Ainda há livros, e tenho a firme convicção que, apesar de tudo o que tem por aí aparecido, os livros sempre existirão.

Ontem, li no Diário de Notícias, que os editores estão preocupados com o festival de comes e bebes que se vai realizar durante a Feira do Livro.

Compreendo os editores, mas não vejo os motivos da preocupação.

Quem vai aos livros pode pelo meio beber um fininho, comer uma fartura ou um pratinho de caracóis.

Quem for só pelos comes e bebes – e não estou a ver que isso aconteça… - também pode passar por um stand e trazer um livro.

Vai-se a um jogo de futebol e também se vai à bifana e aos couratos.

Tudo pode estar ligado, já dizia o velho.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Autores, Editores e Leitores

Francisco Vale
Capa: Carlos César
Relógio d’Água, Lisboa, Novembro de 2009

A tradução literária é, para usar uma metáfora que ouvi a Hélia Correia, transportar água nas mãos em concha de um lugar para o outro. Por mais que se estreitem os dedos, perde-se sempre alguma coisa.

sábado, 15 de outubro de 2016

LOUVOR E DECEPÇÃO À VOLTA DO NOBEL



A atribuição do Nobel de Literatura a Bob Dylan provocou em Portugal reacções tão desencontradas como significativas.

O Nobel é o principal prémio literário internacional. Mas nem por isso deixa de estar confinado ao horizonte da Academia Sueca, por mais que esta tente alargá-lo, encomendando traduções de autores das mais variadas línguas e geografias.

Além disso, se colocarmos num prato da balança os escritores que receberam o Nobel e resistiram à passagem dos anos, e no outro os grandes romancistas que nunca o receberam, de Conrad, Proust e Virginia Woolf a J. L. Borges, é bem provável que o equilíbrio se rompa a favor destes últimos.

E ainda claro que há uma ou duas dezenas de escritores que poderiam receber o prémio este ano, de Javier Marías a Cormac McCarthy, e que, mesmo entre os poetas de canções, haveria alternativas como Leonard Cohen e Chico Buarque.

Mas parece que a Academia Sueca está decidida a inovar, desiludida talvez com a inexistência de grandes romances na última década. Isso explica escolhas inesperadas como foram no seu tempo a de Churchill, a da primeira mulher a receber o Nobel (Selma Lagerlöf) ou os textos jornalísticos de Svetlana Alexievich.

Até por isso as reacções são significativas. Abstraindo do «paternalismo» e visão conspirativa do crítico e escritor Bruno Vieira Amaral, que afirma que a Academia atirou o prémio à cabeça e que Bob Dylan não merecia tal gesto, houve dois tipos de reacções.

A dos poetas e críticos ligados à música, de Miguel Esteves Cardoso a Pedro Mexia, que se mostraram favoráveis ou até entusiasmados.

E, no pólo oposto, a de alguns editores, críticos e escritores, que tinham na sua lista de expectativas nomes que iam de Philip Roth a Murakami, e tiveram reacções perplexas ou desfavoráveis.

Há editores que condicionam o seu catálogo à procura dos nobelizáveis e que estão cada vez mais condenados a uma desilusão anual em Outubro
.
E o mesmo sucede com certos autores que a meio da vida vão acomodando a escrita à procura de um prémio que afinal só traz uma fama anual, uma viagem invernosa a Estocolmo, vendas não muito acrescentadas e solicitações, capazes de perturbar a mais fecunda das imaginações.
Foi assim que tivemos Alice Vieira a acusar esta atribuição do Nobel de desvirtuamento e a indicar Murakami como alternativa, e os habituais defensores de Pynchon.

Recorde-se que, quando o Nobel foi atribuído em 2013 a Alice Munro, a escritora Inês Pedrosa «denunciou» o facto de o prémio ser atribuído a uma simples contista (o que não impede que o seu último livro seja de contos e que sublinhe agora a importância deste género literário).

Ou seja, há ainda muitos críticos e autores ligados ao perfil que durante décadas serviu de referência à Academia Sueca e que Javier Marías resumiu no seu artigo «Não tão Memoráveis»:

«O escritor “conhecido” e popular terá além disso de (…) proclamar que apoia os oprimidos do mundo; ser um pouco perseguido no seu país (ou, à falta disso, dizer que o é); clamar muito no deserto e ser voz estridente das consciências adormecidas; deverá ser solene ou um pouco sombrio, a amargura nunca é de mais; a sua obra deve reflectir a miséria do homem contemporâneo, ou a fragilidade do homem contemporâneo, ou o desconcerto do homem contemporâneo, ou o seu egoísmo, ou o seu sofrimento, ou a sua maldade, ou a sua desorientação (em qualquer caso, algo negativo do homem contemporâneo, ou melhor, um lugar-comum a todas as contemporaneidades); por último, não deve falar muito de literatura nem ter qualquer sentido de humor.»

De qualquer modo, em favor de Bob Dylan pode dizer-se que com a sua obra musical, literária e pictórica será um dos vencedores do Nobel a perdurar. Levou o melhor da poesia à música das suas canções, absorvendo influências que vão desde Walt Whitman a Ashbery, passando por Allen Ginsberg e outros autores da Beat Generation. Nas suas letras criou personagens que nada devem às de obras de narrativa ficcional. E as suas crónicas inacabadas constituem uma referência de literatura autobiográfica.

P. S. Declaração de interesses. A Relógio D’Água publicou em 2006 uma ampla antologia da poesia de Bob Dylan (Canções 1962-2001).

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

OS AMANTES DE LIVROS E OS OUTROS


Já foi há um bom par de meses que se ficou a saber que os herdeiros de José Cardoso Pires decidiram que as obras do autor deixavam de ter a chancela das Publicações Dom Quixote.

A editora perde, dos seus catálogos, um nome de vulto da literatura portuguesa.

Desde que a Leya comprou editoras como as Publicações Dom Quixote, a Caminho, bem como outras, aos poucos tem vindo a perder autores que saem muito pouco satisfeitos com o trabalho do consórcio.

Entre outros já saíram José Saramago, Mário de Carvalho, João Tordo e agora José Cardos Pires.

Fica ainda António Lobo Antunes mas acredita-se que só por ali se mantém porque é «surdo».

Talvez que a aglutinação de editoras seja algo inevitável.

O problema da Leya é que, desde o seu começo, apenas esteve interessada em lucros, nunca em cultura.
Ao contrário da Texto Editora, que também comprou outras editoras, mas que teve o cuidado de colocar à frente da edição um homem que sabe o real e único valor dos Livros: o poeta Manuel Alberto Valente.

Que em Maio de 2008 teve o cuidado de dizer:

Os primeiros sinais que surgem entre nós deixam antever uma filosofia  a subordinação dos diferentes quadros editoriais a um «comité central» completamente alheio ao mundo do livro.

 A Leya pouco ou nada se preocupou com livros e com os autores.

 Aliás tudo aquilo começou mal, no exacto momento em que dispensaram, verdadeiro crime de lesa pátria, o editor Nelson de Matos que, durante anos, foi a trave mestra da Dom Quixote.

À agência Lusa, o editor João Amaral, das Publicações D. Quixote, que detinha os direitos da obra de Cardoso Pires, confirmou a saída do autor do seu catálogo, por decisão das herdeiras.“Fiz tudo o que podia fazer pela obra de Cardoso Pires, e é um autor em que nada me pesa na consciência”, disse.

José Cardoso Pires passa a ser editado pela Relógio d’Água que à frente tem Francisco Vale, escritor e um homem que há muitos anos tem conseguido edificar um projecto editorial de qualidade.


Disse o editor, à Lusa:

Até meados de junho, a Relógio D’Água vai editar quatro obras de José Cardoso Pires, contribuindo assim para o regresso às livrarias de um dos mais importantes prosadores portugueses do século XX”, disse fonte da editora. “Os livros reproduzem as últimas edições revistas pelo autor”, mas têm novos prefácios: o romance “Balada da praia dos cães” será prefaciado por António Lobo Antunes, a novela “O anjo ancorado”, por Mário de Carvalho e, “O delfim”, por Gonçalo M. Tavares.

Porque isto de editar livros não é para qualquer um.

O editor francês Galimard era de opinião de que o verdadeiro editor é aquele que procura publicar um livro que gostaria de encontrar como leitor.

É uma relação de amor, de gosto, de responsabilidade.

Os livros não são coisas pontuais

A leitura faz de nós melhores pessoas, melhor ainda quando há editores que quando nos apresentam as obras dos autores o fazem em edições bonitas, agradáveis.

Nos inícios dos anos 80, quando Henrique Monteiro assumiu a direcção da Assírio & Alvim, que estava à beira da falência,  disse:

Gosto de pensar que edito livros como quem trata de uma vinha.

Um outro exemplo: 

Em Junho de 2011 o editor José da Cruz Santos começou a disponibilizar novas edições da obra de Eugénio de Andrade.

Aconteceu, porém, que uma gralha caiu no título de uma das obras.

De imediato o editor fez publicar, nos jornais, um pedido de desculpas e de rectificação e assegurava que devolvia o dinheiro, mais os portes, a todos os que não quiserem ficar com o livro.

Estão a ver Miguel Pais do Amaral, corredor de automóveis (correr em Le Mans é o máximo, o prazer de correr é único e sinto-me um privilegiado, disse, um dia, numa entrevista) a ter uma atitude destas?

Claro que não!

No dia 2 de Outubro, José Cardoso Pires faria 90 anos.

Legenda: retrato de José Cardoso Pires por Júlio Pomar e capa de O Anjo Ancorado, publicado pela Relógio D’Água e com prefácio de Mário de Carvalho

sábado, 5 de maio de 2012

JANELA DO DIA


Aquando da inauguração, em Lisboa, da Feira do Livro, abri a janela e deixei a minha estranheza por os responsáveis livreiros terem mudado a data de abertura da feira, de finais de Maio para a que agora vai ocorrendo.

Aparentemente ninguém consegue perceber.

Deixo-vos a opinião de Francisco Vale, lida no blogue da Relógio d’Água, alguém que sabe da poda, não só pela sua condição de escritor, como  pela de editor:

Não, não estou a sugerir que no 6.º andar do n.º 27 da Av. Estados Unidos da América os directores da APEL se dedicam a práticas de autoflagelação em meio da habitual parafernália de blusões negros, chicotes e algemas.

A autoflagelação a que me refiro não vem de profundezas do inconsciente, mas do céu, ou mais exactamente das nuvens.

Tal como sucedeu o ano passado, a Feira do Livro de Lisboa abre sob a chuva, a humidade e o frio que afasta visitantes e ameaça livros e sessões de autógrafos. Entretanto, o efeito da promoção dissipa-se.

Muitos de nós têm já nostalgia da Feira de Lisboa percorrida em tardes de sol, onde à sombra de um castanheiro-da-índia podíamos ler algum desses clássicos russos que ajudaram a formar o nosso itinerário sentimental.

Deixou de ser assim porque a APEL insiste em realizar a Feira entre a última semana de Abril e meados de Maio. Ora é estatisticamente mais provável ocorrer chuva nesse período do que, por exemplo, entre 3 e 20 de Maio, que tem ainda a vantagem dos jacarandás floridos no Parque Eduardo VII. Não é só a meteorologia a dizê-lo. A sabedoria popular fala de «Abril, águas mil» e a poética, através de T. S. Eliot, refere que «Abril é o mês mais cruel» (…), «agita raízes dormentes com chuva da Primavera».

Que explica então este reiterado masoquismo anual? A APEL certamente dirá que, sendo os pavilhões da Feira do Livro do Porto os mesmos de Lisboa, não se pode empurrar aquela feira para o Verão e a dispersão das férias. Mas que mal haveria em realizá-la entre, digamos, 8 e 24 de Junho?

De resto, não se entende porque não se alterna entre as duas cidades o início das Feiras. Como há muito menos pavilhões no Porto, no ano em que a Feira começasse a norte, poder-se-ia mesmo avançar a sua montagem em Lisboa, estreitando o prazo entre as feiras, e permitindo assim que acabassem mais cedo.

E já agora, sendo cada vez menos as inscrições para a Feira do Porto, porque não adiá-las de modo a poderem ser feitas já com as receitas recolhidas na de Lisboa? É que o aluguer dos pavilhões é bem mais caro que o de uma suíte num bem situado hotel de Manhattan ou mesmo de Luanda.