Nos quatro anos de
casados nunca ninguém foi tão feliz: Orson chamava-lhe «angel girl»,«queridíssima
bebé», dizia-lhe «és a minha vida, a minha verdadeira vida» ou «que o
sol ande mais depressa para eu poder voltar a ver-te» quando não estavam
juntos, e assinava «o teu rapaz».
Apetece ser assim,
lamechas, sentimental à «outrance»; afinal é tão breve a nossa vida breve.
Dia
das Bruxas. Dia de Todos os Santos. Dia de Finados.
Pode
brincar-se com coisas sérias?
Não
sei o que o meu avô diria.
Sabe-se
que não se morre quando de quer mas quando se pode.
Será
mesmo?
Há
um delirante filme de Jim Jarmuch em que se brinca com coisas sérias.
A
canção que faz parte do filme, tem o cantor country Sturgill Simpson, a
interpretar a canção-tema que nos diz que os mortos são fantasmas dentro
de um sonho, uma vida que não possuímos, que a vida continua para além da morte.
É tão
estranho que entre a avalancha de saberes úteis e inúteis que acumulamos uma
vida inteira. não esteja este: aprender a morrer.
O
Mário de Sá-Carneiro deixou um poema em que exigia:
Quando
eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.
Não
se morre quando se quer mas quando se pode.
Falará apenas do que sobre o assunto, variadas vezes, o pai lhe disse: «Não
quero lutos. Os lutos ofendem-me. Terão que arranjar forças para que tudo o que
for festas, as façam como se eu também lá estivesse. Se assim não fizerem,
venho por aí abaixo e desato à bofetada».
Foi este o recado. Qualquer dia passará o discurso aos filhos...
Não é fácil...
Este
velho recorte é um belíssimo texto do Mário Castrim, e assim, sem quase ninguém
dar por isso, passou o centenário do seu nascimento (31 de Julho de 1920).
Bom
dia, Mário.
Também
não te vou ver ao cemitério. Estás sempre por aqui, os mortos que vão ao nosso
lado como dizia o José Gomes Ferreira.
Aquela
letra é do próprio Castrim que foi professor de caligrafia na Escola Francisco
de Arruda.
O
texto é ilustrado com a cena final de O
Terceiro Homem de Carol Reed, mais de Orson Welles do que Carl Reed , dizia o meu pai.
A paixão assolapada que ele tinha por Alida Valli, e o meu pai nunca leu o que
João Bénard da Costa escreveu: «os olhos
mais verdes que já vi, uma testa altíssima, uma boca sôfrega, perfil suavíssimo
e um corpo que, sem ser vistoso ou agressivamente sensual, tinha as proporções
feitas para a sedução.»
Altiva e orgulhosa, Alida Valli deixa o cemitério de Salzburgo e caminha
estrada fora, indiferente à boleia que Joseph Cotten lhe oferece. Em fundo
ouve-se a cítara de Anton Karas, até Alina Valli se perder, sublimemente, na
linha do horizonte.
«Percebo que a imagem só se moveu, ou
seja, só houve cinema, para nos dar movimentos desses e mulheres assim»,
para voltar a citar João Bénard da Costa.
Mas João Bénard
da Costa diz que ela morreu num dia, num mês, do ano de 1948 quando Orson Wells
mandou cortor-lhe os longos cabelos acobreados para que ela assim entrasse em A
Dama de Xangai.
O Diário de
Notícias, publica-se uma vez por semana em formato papel, encontra-se on line, mas para mim morreu no dia em, diariamente, deixei de o olhar nas bancas dos jornais.
Tudo isto para
vos dizer que me chegou às mãos um suplemento do Diário de Notícias semanal em
que é feita a evocação da louca viagem, iniciada a 24 de Julho de 2010, do
Idílio Freire desde o norte da América até à América do Sul.
Não dei pelo
tempo passar e fiquei assim meio aparvalhado coisa que me acontece regularmente
desde que passei os setenta anos.
O Cais do Olhar
acompanhou essa viagem e, à sua tosca maneira, foi deixando por aqui textos e
textinhos sobre essa extraordinária aventura.
Tudo pode ser
revisto na etiqueta «Idílio Freire» deste blogue.
Divirtam-se e
maravilhem-se.
Legenda. capa do suplemento do Diário de Notícias de 20 de Julho de 2019
O meu pai tinha uma profunda admiração por Orson Welles.
Gostava muito de O Terceiro do Homem e alinhava na conspiração de que o filme tem tudo de
Orson Welles e nada de Carol Reed.
Tinha uma pancada pelo tema musical do filme, The Harry
Lime Theme, tocado pela cítara de Anton Karas, e não lhe restava qualquer
dúvida quando dizia que o filme foi feito para aquela música.
Ainda me lembro do 78/rpm que, na altura, comprou. Tinha no lado B The Cafe Moxart Waltz, que também faz parte deste EP, que um dia comprei por 1 euro na Feira da Ladra.
Junte-se-lhe a paixão assolapada por Alina Valli, e
o meu pai nunca leu o que João Bénard da Costa escreveu: «os olhos mais verdes
que já vi, uma testa altíssima, uma boca sôfrega, perfil suavíssimo e um corpo
que, sem ser vistoso ou agressivamente sensual, tinha as proporções feitas para
a sedução.»
Altiva e orgulhosa, Alida Valli deixa o cemitério de Salzburgo e caminha
estrada fora, indiferente à boleia que Joseph Cotten lhe oferece. Em fundo
ouve-se a cítara de Anton Karas, até Alina Valli se perder, sublimemente, na
linha do horizonte.
«Percebo que a imagem só se moveu, ou seja, só houve cinema, para nos dar movimentos
desses e mulheres assim», para voltar a citar João Bénard da Costa.
A popularidade não deveria ter importância na eleição
dos políticos. Se dependêssemos da popularidade, o Pato Donald e os Marretas
teriam assento no Senado.
O Parlamento Europeu
realizou ontem um debate sobre o resultado do referendo suíço do dia 9, em que
a maioria dos suíços, 50,3%, votaram a favor do "Sim" da imposição de
quotas para imigrantes e mão-de-obra estrangeira. Durante o mesmo, os ânimos
exaltaram-se e vários eurodeputados trocaram acusações.
Não raro, quando
vejo uma referência à Suiça, ocorre-me o Orson Welles no filme O Terceiro Homem de Carol Reed que muitos dizem ter todos os dedos de Welles
na realização do filme:
Um país que é um
modelo de ordem, de organização, de seriedade, mas o que deu ao mundo? O
relógio de cuco.
Ana Cristina
Leonardo, numa crónica no Expresso,
escrevia que o suíço de que mais gostava era Robert Walser.
Numa entrevista dada a José Carlos Vasconcelos, e publicada
na Visão
de 16 de Janeiro de 2003, José Saramago aborda o mundo dos Centros Comerciais:
Os ventos da história nem sempre são favoráveis. Como tento mostrar em «A
Caverna.» É hoje patente que o único lugar limpo, iluminado, colorido, seguro,
com música, nas cidades e já nas aldeias, que as pessoas frequentam e são
felizes, é o centro comercial! Antigamente, a mentalidade humana formava-se na
grande superfície das de uma catedral; hoje, forma-se na grande superfície de
um centro comercial. O que diz tudo.
No 2º volume de O Caderno, volta ao tema e chama-lhe
Outra
Leitura para a Crise:
A mentalidade antiga formou-se numa grande superfície que se chamava
catedral; agora forma-se noutra grande superfície que se chama centro
comercial. O centro comercial não é apenas a nova igreja, a nova catedral, é
também a nova universidade. O centro comercial ocupa um espaço importante na
formação da mentalidade humana. Acabou-se a praça, o jardim ou a rua como
espaço público e de intercâmbio. O centro comercial é o único espaço seguro e o
que cria a nova mentalidade. Uma nova mentalidade temerosa de ser excluída,
temerosa da expulsão do paraíso do consumo e por extensão da catedral das
compras.
E agora, que temos? A crise.
Será que vamos voltar à praça ou à universidade? À filosofia?
No seu 1º Livro de Crónicas, António Lobo
Antunes tem este áureo pedacinho:
Aos domingos a seguir ao almoço visto o fato de treino roxo e verde e
os sapatos de ténis azuis, a Fernanda veste o fato de treino roxo e verde e os
sapatos de salto alto do casamento, subo o fecho éclair até ao pescoço e ponho
o fio de ouro com a amedalha por fora, a Fernanda sobe o fato de treino e põe
os dois fios de oro com a medalha e o colar da madrinha por fora, tiramos o
Roberto Carlos do berço, metemos-lhe o laço de cetim branco na cabeça, saímos
de Alverca, apanhamos os meus sogros em Santa Iria da Azóia e passamos o
domingo no Centro Comercial.
Orson Welles lembrou um dia que, neste mundo das grandes
superfícies, haverá o dia em que teremos saudades do merceeiro da nossa rua.
O principio de tudo num velho disco de 78 rpm que o meu pai comprou.
Anton Karars, mais a sua cítara, a tocar o tema do filme O Terceiro Homem.
Tinha visto o filme com o meu avô e ambos ficaram encantados com a música.
Tinha para aí 9 anos e a música, de tanto rodada no gira-discos, o que eu gosto desta palavra e tudo o que a envolve, ficou-me também no ouvido.
Só muito mais tarde vi o filme de Carol Reed e encontra-se na minha lista de filmes negros preferidos, longa lista diga-se.
Dizem as más-línguas que o filme tem mais de Orson Welles do que Carol Reed, mas isso já são contas de outro rosário.
Todo o filme está pontuado pelo tema musical e quase se poderá pensar que o filme foi feito para aquela música, filme que ainda tem Orson Welles Josephh Cotten, Alida Valli,os olhos mais verdes que já vi, uma testa altíssima, uma boca sôfrega, perfil suavíssimo e um corpo que, sem ser vistoso ou agressivamente sensual, tinha as proporções feitas para a sedução, e aquele final de filme, um dos muitos grandes finais que o cinema já nos deu.
Altiva e orgulhosa, Alida Valli deixa o cemitério de Salzburgo e caminha estrada fora, indiferente à boleia que Joseph Cotten lhe oferece. Em fundo ouve-se a cítara de Anton Karas, até Alina Valli se perder, sublimemente, na linha do horizonte.
Percebo que a imagem só se moveu, ou seja, só houve cinema, para nos dar movimentos desses e mulheres assim, para voltar a citar João Bénard da Costa.
Em Itália, Alida Valli, manteve suspensa a sua carreira por se recusar a aparecer naquilo que, no seu lúcido entender, considerava ser propaganda fascista.
Orson Welles deixou escrito: Não penso no que ficará de mim, nem isso me importa. Creio que é tão vulgar trabalhar para a posteridade como por dinheiro.
Quando no seu Muito Lá de Casa, João Bénard da Costa, chama à boca de cena Alida Valli, o título que escolhe é: Condessa Alida Livia Valli Serpieri e começa assim:
Disse Proust que nunca se deve desejar demasiado ardentemente qualquer coisa. Porque a alancaremos, mas tarde demais.
Apaixonei-me por Alida Valli quando me curei da minha paixão por Esther Wulliams. Por muito estranho que pareça, assim foi. E foi a segunda vez (a terceira, se incluir inconsciências de que só muito mais tarde tive consciência) que mulher foi melhor e que nela todo inteiro me despenhei. O meu desejo era tão mais ardente quanto mais se assumia por impossível. Saciá-lo era pecado contra o meu espírito e a natureza dela. Nessa altura, não sonhava transgredir tanto. Era novo de mais na terra e na carne. Se um duende, maligno ou benigno, me viesse profetizar que um dia lha seguraria o pulso e lhe fecharia os olhos, respondia-lhes que não abusasse da minha tendência para excessos imaginativos. E se o dito espírito acrescentasse que isso só não aconteceria por recusa ou incompetência minha, mais nomes violentos lhe teria chamado.
Os motivos eram outros, mas Orson Welles disse um dia que ainda chegaria a hora de termos saudades do merceeiro da nossa rua.
Alguns ainda vão permitindo que as compras sigam para o rol.
Segundo o Público em 2011 perderam-se 6593 empregos na grande distribuição, a maior parte nos super e hipermercados
De acordo com dados da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição (APED), entre Janeiro de 2011 e Março deste anos, encerraram 37 lojas, “uma realidade claramente em contraciclo com a expansão do sector nos últimos anos”.
Se em 2010 foram criados 5195 postos de trabalho, em 2011 a realidade foi inversa: perderam-se 6593 empregos, 64% na área alimentar.
O sector da distribuição em Portugal atravessa uma grave crise, que resulta de uma forte quebra do poder de compra dos consumidores, gerada pelas medidas de austeridade. O consumo em Portugal sofreu alterações profundas e está em queda livre disse um responsável do sector.