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domingo, 7 de dezembro de 2025

À LUPA

Na Indonésia, “há um consenso de que a invasão de Timor foi um erro”.

Há 50 anos, a “fobia anticomunista” — alimentada pelos EUA e até pelo Papa — levou à invasão de Timor-Leste.

A jornalista Bárbara Reis, no Público, lembra a data de 7 de Dezembro de 1975, quando se concretizou a invasão de Timor pela Indonésia.

«Às 3h da manhã de 7 de Dezembro de 1975, um domingo, os primeiros navios de guerra indonésios abriram fogo sobre Díli. Às 4h30, 400 fuzileiros desembarcaram numa praia ao pé da capital. Às 6h, nove Hércules lançaram pára-quedistas sobre a sede do governo. Às 8h, já havia corpos de militares e civis, mulheres e crianças, um pouco por toda a cidade. Começou assim a Operação Lotus, início da invasão indonésia de Timor-Leste. Seguiram-se 25 anos de ocupação, resistência e morte. A Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação de Timor-Leste, criada em Díli, em 2001, com ajuda da ONU, estabeleceu que, entre 1975 e 1999, morreram um mínimo de 102.800 pessoas — talvez 183 mil. Vinte mil foram assassinadas ou desapareceram e 84 mil morreram de fome ou de doença. A maior parte das mortes ocorreu nos anos 1970 e 1980, quando era quase impossível entrar em Timor-Leste. 

domingo, 13 de dezembro de 2015

OS IDOS DE DEZEMBRO DE 1975


Por Novembro de há 40 anos, andávamos às voltas com o Verão Quente que terminaria no 25 de Novembro.
Notícias aconteceram que o frenesim daqueles dias, fez com que ficassem submergidas no que então ia acontecendo.
Timor é um desses casos.
Apenas na última página do Expresso de 1 de Dezembro de 1975, se consegue encontrar a notícia de que, em finais de Novembro, a bandeira portuguesa fora arriada em Dili e acontecia a proclamação da independência da FRETILIN.
É este o recorte.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

OS IDOS DE OUTUBRO DE 1975


8 de Outubro de 1975

Segundo o Comité Central da Fretilin, às primeiras horas da manhã, a Indonésia, com unidades do Exército, Marinha e Força Aérea, terá lançado um grande ataque contra a povoação fronteiriça de Batugalé, em Timor ainda sobre a protecção portuguesa.

Há uma semana a Fretilin lograra expulsar da Batugalé as forças d UDT e seus aliados, ficando a controlar todo o Timor Português, à excepção da Ilha do Ataúro, onde se mantém o governador Lemos Pires.

A conquista de Batugadé e, dentro de uma semana, de Balibó, marca o início efectivo da invasão indonésia de Timor.

Após o 25 de Abril por motivos pouco claros, Timor nunca conseguiu fazer parte dos planos de autodeterminação das colónias portuguesas.

Portugal abandonava um povo que durante séculos fora feitoria e colónia.

O Governo Português autorizou a criação de partidos políticos, surgindo assim três organizações partidárias em Timor Leste: UDT (União Democrática Timorense), que preconizava a integração de Timor numa comunidade de língua portuguesa; a ASDT (Associação Social-Democrata Timorense) depois transformada em FRETILIN (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente) , defendia o direito à independência; e a APODETI (Associação Popular Democrática Timorense), propunha a integração com autonomia na comunidade Indonésia.


Em 11 de Julho de 1975, foi publicada a lei que previa a nomeação de um Alto Comissário português, e, em Outubro do mesmo ano, a eleição de uma Assembleia Popular para definir o seu estatuto político. O diploma previa um período de transição de cerca de três anos.

Segundo observadores de então, a esmagadora maioria dos timorenses recusava totalmente a integração na Indonésia.

Começou, então, uma luta fraticida e partidária de que resultarão milhares de mortos.

No dia 28 de Novembro de 1975, após 400 anos de administração, a bandeira portuguesa é arriada na praça de Dili e é proclamada, pela FRETILIN, a independência do território.

No dia seguinte tropas indonésias, a pretexto de proteger os seus cidadãos em território timorense lançam uma ofensiva com vista à ocupação do território e de imediato se fica  a saber que a FRETILIN não tem forças nem armamento suficientes para fazer face ao ataque indonésio.


Em 1998, com a queda de Suharto, e após uma longa e sangrenta luta de resistência do povo timorense, cujo marco trágico é, em Novembro de 1991, o massacre do Cemitériode Santa Cruz. os novos governantes, sob pressão internacional, acabam por concordar com a realização de um referendo onde a população votaria "sim" se quisesse a integração na Indonésia com autonomia, e "não" se preferisse a independência.

O referendo foi realizado em 30 de Agosto de 1999 e, com mais de 90% de participação no referendo e 78,5% de votos, o Povo Timorense rejeitou a autonomia proposta pela Indonésia, escolhendo, assim, a independência.

Em 20 de Maio de 2002 nasce um novo país: Timor Lorosae.

Por mera curiosidade, retira-se das Farpas, Vol. XIII de Ramalho Ortigão, um texto, datado de Agosto de 1872, com notícias de Timor:

Eis o que um viajante inglês, Russell Wallace, diz em resumo daquela colónia, onde chegou depois de ter atravessado as ricas e poderosas colónias holandesas:

«Metade de Timor, pertence aos portugueses: é extraordinário o contraste entre esta região e a parte holandesa: há três séculos que os portugueses a possuem e não há em todo o país uma légua de estrada, nenhum residente europeu no interior. Os


empregados do governo roubam os indígenas, como num saque, e apesar disso nenhum meio de defesa no caso de um ataque da cidade de Dilhi. Os oficiais portugueses são ali tão ignorantes que tendo recebido um pequeno morteiro e obuses não sabiam servir-se deles. Durante a estada de Russell Wallace, rebentou uma ressurreição: o comandante que a devia combater fechou-se em casa dando parte de doente: os insurgentes cortavam com toda a facilidade os víveres à cidade, de sorte que foi necessário ir suplicar um socorro tardio ao governador holandês de Amboine…»

Desleixo, roubo, estupidez e covardia! Parece-nos que Portugal seria exigente, - desejando aos que governam e defendem as suas colónias – maior soma de qualidades nobres.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- As Farpas, Vol. XIII, de Ramalho Ortigão, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1945 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1975


24 de Setembro de 1975

HÁ DOIS DIAS, a Associação de Deficientes das Forças Amadas ocupou a portagem da Ponte 25 de Abril, dando origem à passagem. sem pagamentos de portagens, a todas as viaturas.
Nem o Presidente da Republica, nem o governo quiseram ter qualquer conversação com a Associação.
Um elemento da Direcção disse aos jornalistas: Se há 12 milhões de contos para os retornados de Angola, porque é que não há-de haver dois milhões de contos para os deficientes.
A revista Vida Mundial pergunta: Deficientes das F.A. Quem se lembra deles?:


NO DIÁRIO DE LISBOA, deste dia, pode ler-se:


ASCENDE a 50 mil o número de refugiados de Timor na metade indonésia da ilha. Dada a pobreza que ali impera a presença desta multidão de deslocados não deverá tardar a criar situações trágicas, escreve a France-Press em telegrama de Jacarta.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

sábado, 19 de setembro de 2015

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1975


19 de Setembro de 1975

TOMADA DE POSSE do VI Governo Provisório chefiado pelo Almirante Pinheiro de Azevedo que, no discurso de tomada de posse, disse:
É um governo que tem o mérito de procurara, num determinado momento histórico, encontrar uma saída para uma grave crise política, económica e social através de uma definição política conjunta dos três principais partidos políticos.
Com este governo, a direita conclui que o avanço das suas forças é um passo muito importante.
No discurso de tomada de posse Pinheiro de Azevedo repudia a social-democracia, mas foi apenas uma tirada para granjear um hipotético apoio das organizações sindicais e de esquerda. A prática demonstrou que foi completamente engolido por essa tal social-democracia.
Composição do governo:
Administração Interna: Comandante Almeida e Costa
Negócios Estrangeiros: Major Melo Antunes
Comércio Externo: Jorge Campinos
Agricultura: Lopes Cardoso
Trabalho: Capitão Tomás Rosa
Educação: Major Vitor Alves
Indústria: Marques do Carmo
Equipamento Social: Veiga de Oliveira
Transportes: Valter Rosa
Comunicação Social: almeida Santos
Finanças: Salgado Zenha
Justiça: Pinheiro Farinha
Assuntos Sociais: Sá Borges.
No dia seguinte à tomada de posse do governo, Otelo Saraiva de Carvalho parte para uma visita à Suécia e no aeroporto, em conversa com os jornalistas, avisa que se Pinheiro de Azevedo começar a fazer uma política de direita lhe retirará a sua confiança.

A INDONÉSIA ameaça invadir Timor: não podemos tolerar a situação que ali se desenvolve, prejudicando-nos e pondo-nos em perigo. E Portugal será o responsável!
Almeida Santos, regressado. Há dias, de Dili, diz que não deve pôr-se de lado a hipótese de Indonésia intervir militarmente no território.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1975


10 de Setembro de 1975

PROSSEGUEM AS reuniões com vista à formação do VI Governo Provisório.
O Almirante Pinheiro de Azevedo tem reunido com representantes do PS, PCP, PPD, CDS, UDP. MÊS e PPM.
Têm sido longas e difíceis as negociações.

A FRETILIN declara vitória em Dili. A Indonésia declara-se completamente contra qualquer solução do problema de Timor baseada no facto consumado. A Austrália mostra-se disposta a apoiar uma possível intervenção na Indonésia para impedir a formação de um governo de extrema-esquerda no território.
A passividade dos governantes portugueses com os acontecimentos que se sucedem em Timor, é algo que a História, um dia terá de esclarecer.

SÃO DESVIADAS mais de mil espingardas G3 do Depósito de Material de Guerra de Beirolas.
O desvio é reivindicado pelo Capitão Fernandes, oficial de segurança do COPCON.
Em Abril de 1976, o Capitão Fernandes publica o livro Portugal Nem Tudo Está Perdido.
Numa nota biográfica constante do livro, o episódio é contado deste modo:
Foi encarregado por Otelo de distribuir por diversas unidades de Lisboa parte do armamento recém-vindo das colónias e armazenado no Depósito de Material de Guerra de Beirolas. Durante a operação o Cap. Fernandes desviou para s mãos de operários e camponeses – segundo reivindicou – 1.500 armas. Entrou poucos dias depois na clandestinidade e dado como desertor.
Daqui a duas semanas, quando regressar da visita à Suécia, Otelo há-de proferir a frase:
As armas estão em boas mãos-

DEPOIS DE UMA conferência de imprensa realizada no Porto, no dia 7 e transmitida pelo Rádio Clube Português,  os SUV aparecem, durante algumas horas nas ruas do Porto. Largas centenas de membros de Comissões de Moradores e Trabalhadores, juntam-se aos representantes de oficiais, sargentos e praças dos três ramos das Forças Armadas.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

Legenda: a fotografia da conferência de imprensa dos SUV é tirada de  Os Dias Loucos do PREC. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1975


7 de Setembro de 1975

Fim do V Governo Provisório, o governo de passagem, tal como lhe chamou Costa Gomes, no dia em deu posse a Vasco Gonçalves.
Não teve mais de um mês de vida.

Mário Murteira no seu livro Depois das Revoluções:

 Para quem, como o autor destas linhas, teve a honra de ser colaborador do general Vasco Gonçalves durante o IV e V Governos Provisórios, é bem claro que o “gonçalvismo” como sistema de poder, ou concepção do seu exercício, não existiu. Em rigor, acrescente-se, só pode voltar a falar-se de “poder político em Portugal (verificado o desmantelamento do regime anterior ao golpe do MFA) precisamente depois do 25 de Novembro de 1975. E qualquer pessoa razoavelmente objectiva e informada sabe que o II, III, IV e o V Governos Provisórios, todos tendo Vasco Gonçalves como primeiro-ministro, foram bem distintos entre si, por corresponderem a diferentes fases do processo português desencadeado (inadvertidamente?) pelo 25 de Abril. A análise deste faseamento, e da sua lógica interna e externa, está por fazer, e esperemos que não sejam – uma vez mais – estrangeiros a explicar-nos o que se passou em Portugal nos anos febris de 1974 e 75. Aliás, quem poderá gabar-se de tê-lo já totalmente apreendido, em rigor e profundidade, para além das propagandas? (…)
O chamado gonçalvismo nunca existiu. Existiu, sim, no Portugal recém-libertado, um movimento social anti-capitalista que entre Março e Novembro de 1975 atingiu o clímax. Em 16 de Novembro desse ano, no Terreiro do Paço, entre algumas centenas de milhares de manifestantes, pareceu-me que a revolução era possível. Mas tratava-se de um equívoco. A revolução é em última análise, uma questão de poder. E o poder não estava nas ruas de Lisboa ou nos campos do Alentejo.

Editorial do Jornal Novo, da autoria de Artur Portela Filho:



 Opinião de Armando Pereira da Silva publicada no Diário de Lisboa:


A FRETILIN propôs a Portugal a abertura de negociações sobre a independência de Timor.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1975


5 de Setembro de 1975

ARTIGO DE OPINIÃO de Manuel Anta publicado no Diário de Lisboa.

A FRETILIN controla Dili que apresenta uma aparente calma.

PELA PRIMEIRA VEZ, a África do Sul admitiu que as suas tropas entraram em território angolano.

NA REUNIÃO DE TANCOS, face aos resultados verificados, Vasco Gonçalves renunciou à chefia das Forças Armadas para que tinha sido, há dias, por Costa Gomes.
Foi reestruturado o Conselho da Revolução. Sai a maioria dos conselheiros afectos a Vasco Gonçalves. O Conselho de 29 passa para 19 conselheiros. O grupo dos Nove consolida a sua posição.

BALANÇO das acções terroristas no período de Maio a Agosto de 1975:

Assaltos:                             105
Bombas, petrados               34
Incêndios                             20
Apedrejamentos                   5
Atentados atiro                     3
Espancamento organizado  1

Alvos políticos:

PCP                                            77
MDP/CDE                                 31
Sindicatos                                    7
Informação/Cultura                   7
FSP                                              5
Outros partidos de esquerda   13
Militares                                      4
Acções de intimidação              24   

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Dossier Terrorismo, Edições Avante, Lisboa, Junho de 1977

terça-feira, 25 de agosto de 2015

OS IDOS DE AGOSTO DE 1975


25 de Agosto de 1975

EM SEGUNDA EDIÇÃO, O SÉCULO, publica o comunicado que anuncia a constituição da FUR – FRENTE DE UNIDADE REVOLUCIONÁRIA,
Mesmo os que viveram aqueles dias quentes do Verão de 1975 têm sérias dificuldades em os descrever.
Apenas para se fazer uma pequena ideia do que então ia acontecendo, atente-se neste comunicado que os trabalhadores de O Século publicaram na 1ª página junto à notícia da constituição da FUR;


APARECEU NAS BANCAS o 1º número de A Luta, tendo como director Raul Rego e uma redacção composta pelos jornalistas que saíram de A República.
Recordo as palavras de César Oliveira no seu livro Os Anos Decisivos:
O PS «sempre se deu mal» com a imprensa após o 25 de Abril. A Luta falhou, o Portugal Hoje fracassou e todos os homens que o PS nomeou, quando no governo, para cargos importantes nos órgãos de comunicação social, desde Mário Mesquita a José Eduardo Moniz, ou saíram do PS ou passaram-se para o PSD.

NOTÍCIAS CHEGADAS DE TIMOR dão conta de centenas de mortos nas ruas de Dili.

PELO QUE CORRE nos gabinetes dos ministérios, pelas redacções dos jornais, continuam as discussões entre elementos do Grupo do 9 e do Copcon com vista à formação do VI Governo e em que o General Fabião é apontado como primeiro-ministro. Mas não tem sido fácil o diálogo.

ONTEM, EM LEIRIA, largos milhares de pessoas participaram numa manifestação exigindo Informação Livre, Rádio Renascença para a Igreja, Não à Violência.
O Bispo de Leiria D. Alberto Cosme do Amaral proferiu um discurso que lembrava as recentes reivindicações do Episcopado.
Após a condenação da violência, centenas de manifestantes assaltaram e destruíram todo o recheio da sede do MDP/CDE.
De seguida dirigiram-se para as instalações do Centro de Trabalho do PCP e tentaram o assalto.
Uma força militar do RAL impediu o saque mas os tumultos sucederam-se  pela noite dentro  e dos graves incidentes resultaram dezenas de feridos.

VERGÍLIO FERREIRA no seu Conta-Corrente:
Dói-me a cabeça. Há grandes rumores nela.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

OS IDOS DE AGOSTO DE 1975


11 de Agosto de 1975

EM BRAGA, NO FINAL de uma manifestação de apoio ao Episcopado, que juntou cerca de 2.000 pessoas, algumas centenas de manifestantes dirigiram-se para o Centro de Trabalho do Partido Comunista, provocando desacatos. Dois dos manifestantes treparam até à varanda do edifício, arriaram a bandeira do Partido que foi queimada na rua. Uma força militar, enviada para repor a ordem e permitir a evacuação dos militantes, foi recebida com gritos de «Abaixo a Nova Pide».
O Centro de Trabalho foi invadido, lançado para a rua todo o mobiliário, e com os despojos foram feitas enormes fogueiras.
Registaram-se confrontos que provocaram 30 feridos, três dos quais em estado grave.

Pormenor da reportagem de A Capital:


Coluna de opinião no República:


INSURREIÇÃO, ontem, em Timor. Elementos da UDT – um dos três partidos timorenses mais importantes do território, defensor da manutenção de laços especiais com Portugal – atacaram o comando da PSP, apoderaram-se de armas e cercaram em seguida o Quartel-General das Forças Armadas portuguesas.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

LIÇÃO DE COISAS


O sangue é um líquido complexo
que circula. Vermelha é a sua cor
sem paralelo e no entanto variável
como planície sob várias luas.

O sangue contém numerosos elementos
de que algumas pessoas conhecem a fórmula.

É o nosso sangue! Ele,
que gira, circula
e nos alimenta.

O sangue escoa-se facilmente
- basta-lhe uma abertura.

Mas o sangue de um morto por acidente
não é o mesmo, na rua,

que o sangue de um morto pela liberdade,
escorrendo também ao longo da rua.

Cada um deles tem uma maneira diferente
de ser vermelho e de gritar.


Legenda: Massacre de Santa Cruz, Timor, 12 de Novembro de 1991

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1974


1 a 15 de Setembro

NUMA CONFERÊNCIA realizada em Djakarta, o dirigente do Partido Pró-indonésio afirmou que a 70% da população de Timor pretende a unificação política com a Indonésia.

NUMA VIAGEM que efectuou às Lajes, Mário Soares anunciou que é propósito de Portugal manter o acordo que permite aos americanos a utilização daquela base aérea, obtendo porém alguma contrapartida que beneficie especialmente os habitantes dos Açores.

NO ESTÁDIO Universitário, em Lisboa, reúnem-se pela primeira vez em público as Testemunhas de Jeová.

OS TRABALHADORES do Jornal do Comércio manifestam-se irredutíveis quanto ao saneamento de Carlos Machado, director do jornal.

OS SINDICATOS dos trabalhadores das Artes Gráficas, Jornalistas, Administrativos e Revisores de Imprensa e Vendedores de Jornais e Lotarias, em Assembleia Plenária realizada na Voz do Operário, decidiram uma greve de 24 horas (4 de Setembro),em solidariedade para com os trabalhadores do Jornal do Comércio.

ENTRADA no dia 5 de Setembro que Cristóvão Aguiar colocou no seu Diário «Relação de Bordo»  «A História diz-se, não se repete. Mas, se não queda mal o perguntar, não será possível, em Portugal, uma edição revista e remodelada do Chile? É que há por aí movimentos escudos, olhos espreitando do fundo dos seus poços de sombra velha, aguardando a hora do grande descuido, também muitos corvos crocitando e corujas piando nas torres de algumas igrejas…»

MILHARES DE PESSOAS, num comício realizado no Pavilhão dos Desportos em Lisboa, presidido por Rui Luís Gomes, exigiram o fim da repressão no Chile.

A INTERSINDICAL, de acordo com o pedido da Central Única dos Trabalhadores do Chile (CUT) e de acordo com todas as organizações internacionais, decidiu que no dia 11, pelas 11 horas, hora a que foi assassinado o presidente Salvador Allende, uma paralisação de cinco de 5 minutos como forma de solidariedade e apoio à luta do povo chileno.

SEGUNDO O Expresso de 7 de Setembro, muitos padres estão a levantar obstáculos à campanha de alfabetização desenvolvida por um grupo de estudantes universitários.


APROVADA em Conselho de Ministros a nacionalização dos bancos de Portugal, de Angola e Ultramarino.

MÁRIO NEVES é nomeado o primeiro embaixador português em Moscovo.

EM LUSAKA as delegações de Portugal e da FRELIMO chegam a total acordo. Deste modo, Moçambique obterá a independência em meados de 1975.

É ANUNCIADO em Portugal um golpe reccionário em Moçambique em que extremistas brancos ocuparam o Rádio Clube de Moçambique e soltaram os Pides detidos na Machava. O MFA considera estes actos como crimes de alta traição aos superiores interesses de Portugal e de Moçambique, enquanto Vasco Gonçalves afirma que são «obra de uma minoria desesperada que não compreende o futuro.»

É ANUNCIADO oficialmente que os motins de Lourenço Marques originaram 100 mortos e 250 feridos, sendo negros a maior parte das vítimas.

NO ACTO OFICIAL de reconhecimento solene por Portugal da República da Guiné-Bissau (10 de Setembro), o Presidente da República António Spínola, na sua  comunicação ao país disse: «A maioria silenciosa do povo português terá pois de despertar e de se defender activamente dos totalitarismos extremistas que se degladiam na sombra servindo-se das técnicas bem conhecidas de manipulação de massas para conduzir e condicionar a emotividade e o comportamento do povo perplexo e confuso por meio século de obscurantismo político.»

JOVENS PARTIDÁRIOS DO MPP-Movimento Popular Português, foram detidos a colar cartazes no Terreiro do Paço em Lisboa:


 SEGUNDO UM grupo de democratas espanhóis, os Pides estão a ser bem recebidos pelas autoridades espanholas.

MÁRIO SOARES encontrou-se em Paris com o presidente Leopold Senghor e informou que Portugal tenciona debater a independência de Angola com o MPLA, a FNLA e a UNITA.
PÁGINA 61 de Portugal Depois de Abril: «O recurso ao financiamento estrangeiro não foi possível: o boicote económico do capitalismo internacional era já um facto, apesar das promessas demagógicas dos governos sociais-democratas e da OCDE e CEE, que não se concretizaram.
O boicote do grande capital mundial intensificou-se logo que Palma Carlos foi substituído por Vasco Gonçalves.»

Legenda:
1)      O Século, 7 de Setembro de 1974
2)      Diário de Lisboa, 14 de Setembro de 1974
3)      Expresso, 7 de Setembro de 1974

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

sábado, 7 de junho de 2014

OS IDOS DE JUNHO DE 1974


1 a 7 de Junho

CAUSOU estranheza, alguma indignação o aparecimento do general Galvão de Melo na Televisão mostrando-se indignado por a revolução não estar a correr dentro dos parâmetros que a parte retrógrada do MFA pretendia e que nunca foi aceite pelos restantes sectores do MFA.
Galvão de Melo serviu-se do expediente de ler uma carta que um português lhe enviara e que poderia ter sido escrita por todos os portugueses autênticos.
Gato escondido com rabo de fora.
Mário Castrim titulou o seu Canal da Crítica: Muito mal, meu general.
Castrim também admitia que a impaciência não resolve nada, só pode agravar, mas a aparente desordem em que vivemos é preferível mil vezes à «ordem» em que vegetávamos: o nosso povo não está a criar o caos: está a libertar-se do caos que lhe deixou o fascismo.

O RECÉM-FORMADO Partido Liberal, reunido com os órgãos de informação, afirmou não ter «uma revivescência do velho liberalismo, pelo contrário o partido tem um marcado cunho social.»

MÁRIO Soares e Almeida Santos partem para Lusaca a fim de iniciarem conversações com a FRELIMO, representada por Samora Machel que afirmou aos jornalistas: «Não é a independência que vamos discutir com os portugueses. A independência é um direito nosso inalienável… só que a paz é indissociável da independência.»

FERNANDO Celso Ferreira presidente da Comissão Directiva do Sindicato dos Operários Texteis que fazia parte do Movimento Democrático do Porto e participou na acção das candidaturas Norton de Matos, Rui Luís Gomes e Humberto Delgado foi detido dado que se verificou a sua actividade de informador na ex-PIDE/DGS.

AS AUTORIDADES portuguesas das ilhas de Timor vão organizar um referendo em Março de 1975 para determinar o estatuto do território. Existem três partidos políticos: o  Partido da União Democrata, favorável à continuação da presença portuguesa; o Partido Social-Democrata, que reclama a independência total,  e o AITI, associação para a integração de Timos na Indonésia.

NUMA ENTREVISTA à agência TASS, Álvaro Cunhal afirma que «continua intacta a hegemonia dos monopólios em Portugal.»

AO DAR POSSE à Comissão Encarregada de elaborar o projecto da nova lei eleitoral o Primeiro-Ministro declarou que a nova lei eleitoral terá de assegurar a todos os portugueses, sem quaisquer distinções, o pleno exercício do direito ao voto.

O MOVIMENTO Democrático dos Artistas Plásticos divulga que no dia 10 de Junho promoverá no Mercado da Primavera um conjunto de iniciativas. O acontecimento dominante será a pintura colectiva duma tela com 24 por 5 dividida em 48 partes tantos quanto os anos de fascismo.

Os TRABALHADORES da Companhia Nacional de Navegação propõem a nacionalização da empresa.

EM MACIEIRA de Cambra, distrito de Aveiro, onde se encontrava a passar uns dias de férias, adoeceu gravemente o escritor Ferreira de Castro. Transportado para o Hospital de Santo António no Porto, apresenta hemiplegia esquerda de prognóstico muito reservado.

PARALISAÇÃO  total do trabalho na Docapesca. Pescadores de bacalhau entram em greve na Gronelândia e Terra Nova.

UM OLHAR sobre o livro Portugal Depois de Abril:.


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo,
A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa

sábado, 12 de novembro de 2011

SARAMAGUEANDO



Há vinte anos ocorria o massacre de Santa Cruz, que mostrou ao mundo, o drama de Timor.

Mais de 200 pessoas morreram.

A 6 de Dezembro de 1975, o presidente dos Estados Unidos Gerald Ford e o seu secretário de estado, Henry Kissinger, de visita a Djacarta, deram o seu consentimento ao presidente Suharto para  a Indonésia invadisse Timor, e advertiram Suharto:

É importante que o que venha a acontecer tenha um sucesso rápido. Seria melhor que fosse feito depois de regressarmos.

No dia seguinte a Indonésia invadiu Timor, interrompendo o processo de descolonização.

Começava então uma longa e dura luta pela independência.

A 30 de Agosto de 1999, 80% do povo timorense, em referendo promovido pelas Nações Unidas, pronunciava-se pela independência de Timor, mas as tropas indonésias, apesar da presença das forças das Nações Unidas, não acataram a decisão e continuaram a perseguir e a matar timorenses.

9 de Setembro de 1999, 6º dia do genocídio em Timor Lorosae, José Saramago publicava, simultaneamente no Público, no Le Monde e em La Repibblica, um artigo de opinião em que interrogava: Que se Passa com o Ser Humano?

Em 20 de Maio de 2002 nascia a República Democrática de Timor-Leste, o nascimento o primeiro país do século XXI.

Hoje é o país mais pobre da Ásia, e um dos 20 mais pobres do mundo.


José Saramago:

 Que importa ao mundo que eu me sinta humilhado e ofendido? Que importa ao mundo que eu tenha chorado lágrimas de indignação impotente perante as imagens infames de um crime infame?

 Se esta desgraçada humanidade, faltando uma vez mais ao respeito que deve a si mesma, não impôs à Indonésia, em nome da simples moral, o acatamento imediato e incondicional da vontade do povo de Timor Leste, que importa que um escritor acuda agora a protestar usando as palavras de toda a gente, que demasiados calam porque estão mais preocupados com os seus interesses no presente e no futuro do que com o sangue que corre e as vidas que se perdem?

 Quanto pesa o povo de Timor Leste nas balanças políticas da China e da Rússia? Qual é a cotização de um habitante de Dili na bolsa de Nova York? A Indonésia tem mais de 3.000 ilhas e Timor Leste é apenas metade de uma delas. Valerá a pena, por tão pouco, levantar-se o mundo para reclamar responsabilidades aos culpados diretos e indiretos das atrocidades que diante dos nossos olhos se cometem, para exigir o castigo dos assassinos e dos seus mandantes? Quanto é preciso, então, para que nos levantemos? Um continente? Dois continentes?

 Levantar-se-á o mundo quando já estiver a ponto de perder-se o mundo? Que se passa com o ser humano? E a democracia, para que tem servido?
Serviu de alguma coisa em Timor? Faz-se um referendo para logo o negar, antes mesmo que os votos estejam contados? Não será um crime contra a dignidade e a honra desprezar e violentar a vontade de independência de um povo? E que sentido tem hoje aquelas palavras? Há honra num ministro, há dignidade num general, se são o general e o ministro que armam o braço dos criminosos? Ou são eles próprios os criminosos?

Quando se porá fim ao cinismo da mal denominada comunidade internacional? Quando acabará a hipocrisia dos que mandam? E a inércia dos que são mandados, quando acabará? Quando deixaremos de chorar sobre nós próprios? Quando deixaremos de dizer que não temos culpa?

Não se salve Timor, e nós não teremos salvação.