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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Não evoluo, viajo.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 28 de maio de 2025

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


 Carta de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro, 14 de Março de 1916 :

«Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.

Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a minha consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.

No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto; e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.

Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do "Marinheiro" ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.

Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as coisas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.

Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar.

Pode ser que, se não deitar hoje esta carta no correio, amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no "Livro do Desassossego". Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.

As últimas noticias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.

Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.

De que cor será sentir?

Milhares de abraços do seu, sempre muito seu

Fernando Pessoa

P. S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si-próprio que dele são tão características...

Você acha-me razão, não é verdade?»

1.

Cada vez mais pessoas em situação de sem-abrigo procuram as urgências hospitalares em busca de um teto, alimentação, higiene, entre as quais imigrantes e moradores que perderam a casa ou o quarto onde viviam por dificuldades financeiras.

2.

Odeiam trabalhadores.

Greve na CP.

Tiveram todo o tempo para resolver as justas reivindicações dos trabalhadores.

Ocuparam os seus tempos em tratar dos assuntos dos homens do dinheiro.

Agora dizem que os trabalhadores são uns ingratos, uns irresponsáveis por terem marcado greves para o tempo de eleições…

Ouvir Luís Montenegro, com o seu cínico sorriso dizer: "um dia, temos de pôr cobro a isto!", é de de colocar um cidadão no limiar do vómito.

Ver/Ouvir aquele ministro da tutela, Miguel Pinto Luz, completamente histérico: «Isto é política partidária, eleitoral que o Governo fez "tudo para evitar" a paralisação.

O pretexto para, mais uma vez, se atacar o direito à greve é a paralisação de comboios provocada pela adesão a uma série de paragens convocadas por 16 organizações sindicais da CP, umas filiadas na CGTP-IN, outras na UGT, outras sem filiação em qualquer central sindical.

3.

«É o imigrante mais antigo que recusa admitir direitos aos novos imigrantes; é o trabalhador mal pago que acredita que os pobres que recebem subsídios o estão a extorquir; é o branco que não aceita ver os negros fora dos musseques; é o homem macho que não suporta que as mulheres ganhem poder.

Em 50 anos de Democracia fizemos muito, mas muito ficou por fazer. Faltou educar a sociedade na ideia de cooperação entre todos e de abertura aos outros, e de uma saudável desconfiança em pregadores fáceis que vendem ilusões com os nossos ressentimentos. Não seremos capazes de reconhecer no que falhámos?

Pensar no que podemos e devemos fazer para contrariar esta deriva ideológica e moral em que vivemos, levar a nossa capacidade crítica ao fundo dos problemas criados, compreender que ser radical é ir à raiz dos problemas e que não o ser é colher passivamente os frutos que deixámos semear, é isto o que se pede aos responsáveis políticos. E tudo o resto será chover no molhado.»

Luís Filipe Castro Mendes no Diário de Notícias.

4.

Por fim

Alguém um dia afirmou que um canal de televisão tanto pode vender sabonetes como presidentes.

Interessante o artigo de Bárbara Reis no Público de hoje:

«João Pinhal, da Universidade Nova de Lisboa, trouxe luz para o debate sobre papel dos media na ascensão do Chega.

Pinhal, que tem 20 anos, contou, uma a uma, todas as entrevistas que as televisões públicas e privadas fizeram ao líder do Chega, André Ventura, e ao líder do PSD, Rui Rio ou Luís Montenegro, entre Outubro de 2019 e Junho de 2024 (este período inclui os primeiros meses de Montenegro como primeiro-ministro).

Os números dos 57 meses desde que Ventura foi eleito pela primeira vez mostram que o líder do Chega deu 61 entrevistas e o líder do PSD deu 42. Os números falam por si:


SIC+SIC Notícias: 15 entrevistas a Ventura; nove ao líder do PSD.

 

TVI+ TVI24+CNN: 29 a Ventura; 17 ao líder do PSD.

 

CMTV: 12 a Ventura; seis ao líder do PSD.

 

RTP e RTP3: cinco a Ventura; dez ao líder do PSD.

Estas são entrevistas a sós, em estúdio, ou com Ventura convidado para debater ou comentar algum tema da actualidade. Excluem os debates das campanhas eleitorais.
A principal responsabilidade pela ascensão do Chega é do Chega, que vende soluções fáceis embrulhadas em mentiras e ódio. Mas os media, em particular as televisões, não podem sacudir a água do capote.»

domingo, 9 de março de 2025

OLHARES

Há Bar e Bar, há ir e voltar, desfazendo um slogan publicitário inventado  pelo O ‘ Neill que dizia que Há mar e mar, há ir e voltar.

domingo, 17 de março de 2024

OLHAR AS CAPAS


Poesia de Ricardo Reis

Selecção de textos e prefácio: Ana Luísa Amaral

Capa: Pedro Proença

Colecção:  Obra Essencial de Fernando Pessoa nº5

Expresso, Lisboa, Outubro de 2015

Para ser grande, sê inteiro: nada
      Teu exagera ou exclui. 
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és 
      No mínimo que fazes. 
Assim em cada lago a lua toda 
      Brilha, porque alta vive.

quinta-feira, 7 de março de 2024

POSTAIS SEM SELO


 Pertenço a um género de portugueses que depois de estar a Índia descoberta ficaram sem trabalho. A morte é certa. Tenho pensado nisto muitas vezes.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 2 de março de 2023

DOS JARDINS FANTÁSTICOS


 Luiz Pacheco no seu primeiro Texto Local, a que chamou Os Namorados, escreve:

«Dos jardins fantásticos da minha infância que eu nem tive infância nasci assim já velho mas sou um bonacheirão incapaz de rancor aos meninos que tiveram infância e jardins, trago um na lembrança que era um jardim muito engraçado havia um coreto a música tocava aos domingos havia um urinol com aquele velho maluco que fazia coisas aos rapazes e também lembro um jardim, outro ou seria o mesmo que era um jardim muito engraçado com uma estantazinha verde o tipo que emprestava livros à gente tinha uma farda preenchia-se um papel com o nosso nome e morada era coisa séria.»

 Maravilha de texto lido com um prazer de velhos tempos, agora que nos jardins já encontramos poucas crianças e as que vão aparecendo têm telemóveis e outros mecanismos dos tempos de hoje.

 Nuno Pacheco, na sua apreciada crónica das quinta-feiras, no Público, escreve sobre jardins:

 «Há coisas que parecem premonitórias. No seu mais recente trabalho em torno da obra pessoana, Faust, o cantor e compositor italiano Mariano Deidda escreveu (e cantou, a fechar o disco) uma canção intitulada Nos jardins de Lisboa, dedicando-a ao escritor Antonio Tabucchi. Vale a pena citá-la na íntegra (é cantada em italiano, mas no libreto do disco surge também traduzida para português): “Meu caro professor Tabucchi/ agora que você se encontra/ entre as águas do aqueronte/ e o vórtex furioso dos átomos/ onde tudo está disperso/ e onde tudo é criado de novo/ em breve poderá voltar/ aos jardins de Lisboa/ como flor/ que floresce em Abril/ ou como chuva nos lagos/ e nas lagoas de Portugal/ e quando eu estiver a passear/ voltarei a ouvir a sua voz/ percorrida pelo vento.” O disco foi lançado em Março de 2022, e, passado quase um ano, um jardim de Lisboa ganhou oficialmente o nome de Jardim Antonio Tabucchi. Foi inaugurado numa sexta-feira, dia 3 de Fevereiro, e era conhecido como Jardim da Travessa da Piedade, a curta distância da casa onde o escritor italiano viveu, a Rua do Monte Olivete, a meio caminho entre a Assembleia da República e o Largo do Príncipe Real. O Gogle Maps já o reconhece.

Ora esta inauguração, no bairro que Tabucchi “percorreu vezes sem conta” e onde “sempre se sentiu bem”, como ali recordou a viúva do escritor, Maria José de Lencastre, e onde, em nome do município, o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, afirmou que “o grande escritor, o grande lisboeta, o grande homem livre”, se tornava assim “parte da cidade” que foi a “sua segunda casa”, ocorreu no início do ano em que se celebrarão os 80 anos do nascimento de Tabucchi (em 24 de Setembro) e passados 11 anos da sua morte (em 25 de Março de 2012. Na mesma Lisboa que adoptou como sua e onde viveu desde 1965 até ao final da vida.»

 Difuso no texto da crónica do Nuno Pacheco, copio o poema de Mariano Deidda:


«Meu caro professor Tabucchi

 agora que você se encontra

 entre as águas do aqueronte

e o vórtex furioso dos átomos

onde tudo está disperso

e onde tudo é criado de novo

em breve poderá voltar

aos jardins de Lisboa

como flor/ que floresce em Abril

ou como chuva nos lagos

e nas lagoas de Portugal

e quando eu estiver a passear

voltarei a ouvir a sua voz

percorrida pelo vento.»

Legenda: Jardim Constantino, em Lisboa, numa quarta-feira, que é dia de ali se relizar uma Feira Ocasional de Livros Usados.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

OLHAR AS CAPAS


Viola Interdita

Manuel Alberto Valente

Capa: Armando Alves

2 desenhos de José Rodrigues

Colecção de Poesia nº 1

Edição de Autor, Porto, 1970

 

Conversa Com Fernando Pessoa no Martinho

 

A casa continua como quando aqui paravas.

Talvez sejam os mesmos que agora a povoam

destas conversas sonolentas e cruzadas.

Ali ao longe o rio persiste em navegar

e só as águas envelheceram. O resto é

a cidade   quer dizer   o nevoeiro

que quando desembarcaste. Fala-se na esperança

e acredita-se no medo. O resto é a cidade

que cantaste e te desconheceu

e ainda desconhece os que procuram

o violino de palavras que criaste.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

UM IMPLACÁVEL TRANSFORMADOR DE SI PRÓPRIO


Neste dia, no ano de 1888 nasceu Fernando Pessoa.

Descobri Fernando Pessoa muito tarde.

Motivos diversos, que pouco agora adianta referir, mas o mais directo será o terem-me vendido que era um poeta do Estado Novo, o que apressei-me a «comprar», sintomático também era o facto de não existir nenhum livro de Fernando Pessoa na Biblioteca da Casa, constituída, muito lentamente, pelo meu avô e pelo meu pai.

Foi o Mário Castrim que, um dia,  se dispôs a dizer-me que deveria começar pelo Álvaro de Campos. E tinha toda a razão porque redundou numa leitura encantatória. Aliás o biógrafo Richard Zenith considera Álvaro Campos como algo de fascinante.

Debrucei-me depois no Livro do Desassossego e o encanto continuou.

Mais tarde passei a ler livros sobre o autor e lembro-me bem de um livro da autoria de Richard Zenith, publicado pelo Círculo de Leitores e que foi a base da biografia agora publicada.

Agora necessito de tempo, e talvez mais qualquer coisa, para, tirando os poemas soltos que já li, abordar, com profundidade os restantes heterónimos de Pessoa.

«Em qualquer génio, há sempre um elemento de diferença, um grau de superioridade, que não se explica, apenas se constata, mas a sua genialidade não nasce do nada.».

No dia 20 de Maio, o jornal Público, suplemento Ipsilon, publicou uma muito interessante entrevista, conduzida por Luís Miguel Queiroz, que refere a biografia que Richard Zenith publicou:

«Diz-se que Pessoa não teve vida fora da obra, mas Richard Zenith precisou de uma dúzia de anos e de 1200 páginas para escrever a sua biografia, agora lançada em português pela Quetzal, depois de a edição original em língua inglesa ter chegado à final do prémio Pulitzer. Sai-se deste livro, escrito numa prosa cativante e precisa, com a noção exacta de tudo quanto não sabíamos sobre o escritor central da literatura portuguesa do século XX.»

Alguma passagens que retirei da entrevista:

1.

Há também vários episódios que o leitor reconhece, mas que no seu livro parecem estar corrigidos. Penso, por exemplo, no célebre slogan para a Coca-Cola, que afinal seria um pouco mais comprido do que se pensava…

Quem primeiro mencionou a história da Coca-Cola foi o Luís Pedro Moitinho de Almeida, filho de um dos patrões de Pessoa, num livro publicado em 1985. Mas não se lembrava bem do slogan, e também se enganou no ano. Fui pesquisar e descobri o anúncio nos jornais da época. O texto correcto é: “No primeiro dia: Estranha-se. No quinto dia: Entranha-se.”

2.

Há um passo em que, aludindo aos contos que Joyce reuniu em Dubliners, sugere que Pessoa poderia ter escrito Os Lisboetas. Como vê a sua relação com a cidade onde viveu quase toda a sua vida?

Lisboa é central na obra de Fernando Pessoa. Identificamo-lo com Lisboa como identificamos Kafka com Praga ou Joyce com Dublin. No entanto, vejo a sua relação com a sua cidade de um modo um pouco diferente: creio que os habitantes de Lisboa são como uma família para ele. Pessoa não criou a sua própria família, mas no Livro do Desassossego, e também nos poemas, menciona muito essas figuras das camadas populares: os empregados dos restaurantes, os barbeiros, as costureiras, os moços de frete, que eram aqueles galegos que esperavam nas esquinas de Lisboa que alguém os contratasse para levar um recado ou transportar algum objecto. E há depois a sua relação com os escritórios de Lisboa e com quem lá trabalhava. Todas essas pessoas constituíam para Fernando Pessoa uma espécie de família. E são também muito importantes para ele o espaço, a topografia da cidade, que descreve com muito pormenor no Livro do Desassossego, e também o céu de Lisboa, as nuvens, o pôr-do-sol.

3. 

É correcto dizer que se situa a meio caminho entre os que acham que a heteronímia é um mero artifício e os que tendem a esquecer-se de que os heterónimos são textos, e não pessoas de carne e osso?

Há pessoanos que desdenham um pouco a heteronímia, mas a verdade é que muitos dos mais belos poemas de Pessoa não existiriam sem os heterónimos, porque os foi escrevendo em função deles. A ficção do heterónimo faz parte do poema assinado pelo heterónimo em causa. Ao escrever esta biografia, vi também claramente que as primeiras experiências de escrita, a criação de autores fictícios e o interesse por publicações, designadamente jornais, são coisas que nascem todas ao mesmo tempo e estão relacionadas.

4. 

Qual é o seu heterónimo preferido, incluindo o Pessoa ortónimo e Bernardo Soares?

O meu heterónimo favorito é normalmente aquele que estou a traduzir, ou acerca do qual estou a escrever no momento. Fico sempre seduzido pelo heterónimo de que me estou a ocupar. Mesmo Ricardo Reis, que tende a ser, talvez, o menos apreciado pelo público, deixa-me encantado quando o traduzo ou edito. E é assim com todos os outros. Mas diria que, na poesia, Álvaro de Campos é o heterónimo que acho mais fascinante. E é o que está mais perto de Fernando Pessoa. Parece ser muito diferente por fora – é exuberante, viaja imenso, tem amores, enquanto Pessoa é tímido e pouco ousado –, mas penso que representa o lado mais instintivo de Pessoa. Toda essa exuberância existia realmente dentro de Fernando Pessoa e a maneira de a exprimir chamou-se Álvaro de Campos. Na prosa, a sua obra mais genial é, para mim, o Livro do Desassossego, que se calhar até pode ser considerado poesia.

Pelo dia que vai correndo, apenas como memória, arrisco-me a fazer umas citações do Livro do Desassossego que muitas vezes visito:

«Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou casas de pasto em que, sobre uma loja com feitio de taberna decente se ergue uma sobreloja com uma feição pesada e caseira de restaurante de vila sem comboios. Nessas sobrelojas, salvo ao domingo pouco frequentadas, é frequente encontrarem-se tipos curiosos, caras sem interesse, uma série de apartes na vida.»

«O que há de mais reles nos sonhos é que todos os têm.»

«Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez».

«Amo, pelas tarde demoradas de Verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se lastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais quedos – tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto. Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele.»

«Hoje, em um dos devaneios sem propósito nem dignidade que constituem grande parte da substância espiritual da minha vida, imaginei-me liberto para sempre da Rua dos Douradores, do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, dos empregados todos, do moço, do garoto, e do gato. Senti em sonho a minha libertação, como se mares do Sul me houvessem oferecido ilhas maravilhosas por descobrir. Seria então o repouso, a arte conseguida, o cumprimento intelectual do meu ser.»

«Penso às vezes que nunca sairei da Rua dos Douradores. E isto, escrito, então, parece-me a eternidade.»

«Nunca tive ninguém a quem chamasse “Mestre”. Não morreu por mim nenhum Cristo. Nenhum Buda me indicou um caminho. No alto dos meus sonhos nenhum Apolo ou Atena me apareceram, para que me iluminassem a alma».

«Devaneio entre Cascais e Lisboa. Fui pagar a Cascais uma contribuição do patrão Vasques, de uma casa que tem no Estoril. Gozei antecipadamente o prazer de ir, uma hora para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da sua foz atlântica. Na verdade, ao ir, perdi-me em meditações abstractas, vendo sem ver as paisagens aquáticas que me alegrava ir ver, e ao voltar perdi-me na fixação desatas sensações. Não seria capaz de descrever o mais pequeno pormenor da viagem, o mais pequeno trecho de visível. Lucrei estas páginas, por olvido e contradição. Não sei se isso  é melhor ou pior do que o contrário, que também não sei o que é.»

 «Uma chávena de café; um tabaco que se fuma e cujo aroma nos atravessa, os

olhos quase cerrados num quarto em penumbra... não quero mais da vida do que

os meus sonhos e isto... Se é pouco? Não sei. Sei eu acaso o que é pouco ou

o que é muito?”

segunda-feira, 9 de maio de 2022

POSTAIS SEM SELO


Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!

Bernardo Soares no Livro do Desassossego

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

CONVERSANDO

 Agora que já entrámos por Fevereiro dentro, ele ainda anda às voltas com a história do avô e asua raiva aos meses de Janeiro e Fevereiro que, este ano, provocaram o disparate de zarpar do blogue sem avisar que isso iria acontecer, e o seu porquê.

Agora que anda a ler a excelente biografia de Manuel António Pina, escrita por ÁlvaroMagalhães, confirmou que o poeta foi um homem marcado pela sua atribulada infância.

Já encontrou uma frase de Clarice Lispector «Nunca é tarde para se viver uma infância», também o título da 1ª parte do livro «A infância não se vê da infância», e num pedacinho que aproveitou para o lançamento do Olhar asCapas de há dias, leu palavras de Ruy Belo é apenas por termos perdido a infância que a amamos tanto e, inevitavelmente, Eugénio de Andrade  a lembrar que a infância aquece à medida que se distancia.

Altura de ter vontade de perguntar:

Será que andamos, toda uma vida, de mão dada com a criança que fomos?

Talvez por isto, e algo mais, voltou a publicar o poema de Álvaro Campos de que muito gosta:

« Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.»

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

TODA A GENTE SABE

24 de Março de 1992

Toda a gente sabe que Jorge Luís Borges é um heterónimo de Fernando Pessoa e Pessoa um sonho de Borges.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II

quarta-feira, 30 de junho de 2021

UM CERTO GOSTO PELO RECATO


Fernando Pessoa sentia-se fácil de definir.

«Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas – a da minha nascença e da minha morte»

Assim como Milan Kundera, escritor que nunca me despertou interesses por aí além, talvez uma insustentável ignorância minha ou qualquer tique a lembrar preguiça…

Numa crónica recente, Pedro Mexia lembrava que sempre teve uma certa admiração pela lacónica nota que acompanha os seus livros:

«Nasceu na Checoslováquia. Em 1975, instalou-se em França».

Por ele os autores de biografias e autobiografias, teriam de arranjar outros meios de subsistência.

«Nem bibliografia, nem elogios, nem outras datas, apenas duas coordenadas. Kundera é um daqueles escritores que acreditam que não há nada de relevante a dizer numa nota biográfica, muito menos numa biografia, porque tudo o que importa vem nos livros. E avisa que nem sequer o “eu” dos livros é o “eu” empírico: “impor o nosso eu aos outros é a versão mais grotesca da vontade de poder.”»

quinta-feira, 27 de maio de 2021

ANNABEL LEE


Foi há muitos e muitos anos já,

Num reino de ao pé do mar.

Como sabeis todos, vivia lá

Aquela que eu soube amar;

E vivia sem outro pensamento

Que amar-me e eu a adorar.

 

Eu era criança e ela era criança,

Neste reino ao pé do mar;

Mas o nosso amor era mais que amor —

O meu e o dela a amar;

Um amor que os anjos do céu vieram

a ambos nós invejar.

 

E foi esta a razão por que, há muitos anos,

Neste reino ao pé do mar,

Um vento saiu duma nuvem, gelando

A linda que eu soube amar;

E o seu parente fidalgo veio

De longe a me a tirar,

Para a fechar num sepulcro

Neste reino ao pé do mar.

 

E os anjos, menos felizes no céu,

Ainda a nos invejar…

Sim, foi essa a razão (como sabem todos,

Neste reino ao pé do mar)

Que o vento saiu da nuvem de noite

Gelando e matando a que eu soube amar.

 

Mas o nosso amor era mais que o amor

De muitos mais velhos a amar,

De muitos de mais meditar,

E nem os anjos do céu lá em cima,

Nem demónios debaixo do mar

Poderão separar a minha alma da alma

Da linda que eu soube amar.

 

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos

Da linda que eu soube amar;

E as estrelas nos ares só me lembram olhares

Da linda que eu soube amar;

E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado

Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,

No sepulcro ao pé do mar,

Ao pé do murmúrio do mar.

 

Edgar Allan Poe, tradução de Fernando Pessoa

 

Legenda: fotograma do filme Way Down East de D.W. Griffith

Poema e fotograma tirados de  Um Mar de Filmes, Cinemateca Portuguesa 

domingo, 28 de fevereiro de 2021

EM MEMÓRIA DE FERNANDO PESSOA


Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boémia
Coberta de farrapos e de estrêlas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que êstes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio da descrença,
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns Senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga: as horas, os minutos,

As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma côr, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver 
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...

Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar -
Num cântico de sonho!, e junto dêle,
Do camarada raro que lembramos, 
Fiquemos uns momentos a cantar! 

António Botto

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

MELHOR É IR AO BAILE


Não vos queria chatear muito mas volto a dizer que gosto de dançar e a falta que isso me faz.

O desespero destes dias que vamos vivendo, obriga a dizer, a fazer qualquer coisa. Continuo a pintar, continuo a dançar sozinha enquanto faço bolos, limpo o pó, aspiro a casa, mas já vos disse isto, mas encontrei, num dos meus caderdinhos, esta quadra do Fernando Pessoa.

E o pé de chumbo do Sammy continua a não querer dançar, mesmo esta velha canção dos Simon Garfunkel que, quando era posta a tocar, obrigava o Garrudo a saltar da cadeira.

Saudades.

                                    No baile em que dançam todos

                                    Alguém fica sem dançar.

                                    Melhor é não ir ao baile

                                    Do que estar lá sem lá estar.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

OLHAR AS CAPAS


 O Ano do Macaco

Patti Smith

Tradução: Helder Moura Pinheiro

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Agosto de 2020

Prolongo a minha estadia na cidade de Pessoa, embora não seja fácil dizer o que ando a fazer. Lisboa é a cidade ideal para nos deixarmos levar pelo tempo. Manhãs em cafés a escrevinhar umas coisas em mais um caderno, parecendo que cada página em branco oferece uma fuga, ao receber a fluidez constante da caneta. Durmo bem, sonho pouco, limito-me a existir apenas num intervalo que ninguém interrompe. Num passeio ao crepúsculo, a música ecoa pela velha cidade, evocando em mim a voz harmoniosa do meu pai a trautear baixinho Lisbon Antigua, precisamente uma das suas melodias favoritas. Lembro-me de, em criança, lhe ter perguntado o que queria dizer o título. Ele sorriu e disse que era um segredo.

E agora, amigos meus, repicam os sinos ao início da noite. Candeeiros iluminam as ruas calcetadas. No meio de um silêncio que lembra os quadros de Edward Hopper, faço o caminho que Pessoa fez tantas vezes. Um escritor capaz de criar personalidades distintas de ver o mundo, e tantos diários, assinados por tantos nomes. Caminhando pelas calçadas de paralelepípedos, passo por uma janela e vejo um senhor todo bem-posto ao balcão de um bar, ligeiramente debruçado, a escrever qualquer coisa num caderno.

sábado, 9 de janeiro de 2021

DISTINGUIR E SUBTILIZAR

Tudo se penetra. A leitura dos clássicos, que não falam de poentes, tem-me tornado inteligíveis muitos poentes, em todas as suas cores. Há uma relação entre a competência sintáctica, pela qual se distinguem os valores dos seres, dos sons e das formas las, e a capacidade de compreender quando o azul do céu é realmente verde, e que parte de amarelo existe no verde azul do céu.

No fundo é a mesma coisa – a capacidade de distinguir e de subtilizar. Sem sintaxe não há emoção duradoura. A imortalidade é uma função dos gramáticos.

Bernardo Soares em O Livro doDesassossego

domingo, 26 de abril de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

ESTES PUBLICITÁRIOS!...

Contam os experts, que deve-se a Fernando Pessoa o slogan para a Coca-Cola:

Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

Os intelectuais deram à publicidade um toque único.

Alexandre O’Neill e José Carlos Ary dos Santos, na publicidade, são o exemplo perfeito do direito à diferença.

Pela publicidade dos anos 60 andaram, entre muitos outros, Luís de Sttau Monteiro, Vasco da Costa Marques, Alves Redol, José Cardoso Pires, Alberto Ferreira, Álvaro Guerra, Cipriano Dourado.

Ary, nos anos 60, inventa:

Cerveja Sagres, a sede que se deseja.

Para a Wollmark:

Minha lã, meu amor.

Também:

Knorr é naturalmente melhor.

Para o Grémio Nacional dos Seguradores:

Mais seguro, mais futuro.

Para o Banco Pinto & Sotto Mayor:

Deposite confiança no futuro.

Numa reunião para encontrar um slogan para o Halazon, um spray oral, Ary, durante a mesma, mostrou um perfeito desprendimento,  está em toda a parte menos ali.

Mas quase no final da reunião rabisca num papel:

Halazon, a melhor invenção depois do beijo!

Legenda: cartaz tirado de Ary dos Santos; O Homem, o Poeta, o Publicitário.

Texto publicado em 17 de Outubro de 2015.

sábado, 11 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS




Sábado de Aleluia.

Hoje, pela manhã, teria sido o tempo de ir a um supermercado comprar, para os netos, um coelho grande de chocolate, com surpresa, e gomas.

Mas pronto!, o tal vírus deu cabo do almoço de Páscoa, deu cabo do festival chocolateiro.

Claro, que havemos todos de nos vingar destas tropelias, que palavra tão suave, deste maldito, outra palavra suave, coronavírus.

A festa chocolateira não é só dos netos.

Chocolatedependente que sou, a posição primeira na grelha de partida, é minha.

Doce dependência, com o pormenor-escândalo-da-família, de que não se contenta, logo que a tablete é aberta, em comer um quadradinho, ficar a saboreá-lo de olhos fechados, enquanto se derrete na boca. 

Não!Tabelete aberta, tablete consumida.

O resto, bom o resto logo se vê e aguardar as palavras do costume do médico de família quando olha as análises deste emocionalmente desequilibrado portador de angústias chocolateiras.

Talvez tenha lido, não tem a certeza, que sem um toque de loucura não existem homens sensatos.

Mas de onde lhe vem o grito delicioso do chocolate?

Como quase tudo, terá que ir à infância

Já contei isto, mas continuemos.

A caminho do Liceu Gil Vicente, na Graça, também para a casa da avó paterna na Rua Senhora do Monte, percorria toda a Rua da Penha de França, chegava a Sapadores, e aí estava a Fábrica de Chocolates Favorita e, neste ponto, socorre-se de Mário de Carvalho porque conta melhor do que alguma vez posso contar:

«Voltemos ao volutpuoso aroma de chocolate que descia por sobre o bairro e impregnava os ares, as casas, as roupas e nos punha logo bem dispostos, na nossa meninice voraz de guloseimas caras. Provinha ele da Fábrica Favorita que levantava na outra esquina, a sua arquitectura graciosa e robusta, mesmo ao lado de um jardim esconso e sombrio em que ficava a casa do arquitecto Raul Lino. Nos anos oitenta do século vinte, por contingências do mercado ou por gestão trapalhona, a velha Favorita fechou e ficou  para ali, abandonada. Aquela atmosfera adocicada e benigna dilui-se tristemente nas alturas e o bairro foi invadido pelos odores banais de Lisboa. Se não fosse a variação dos ventos, pesaria ali a fumarada dos escapes e outros eflúvios maléficos…
Na Lisboa tristonha e pobre desses tempos eram estes pequenos milagres que alegravam a nossa infância e deixaram um sorriso na memória.»

Guardo o cheiro a chocolate e também lembro, com uma nitidez deveras melancólica, os operários de ganga azul, as operárias de bata branca, a descerem a rampa para irem almoçar.

Ou almoçavam no refeitório e depois saíam para irem beber café nas pastelarias em redor, certamente a «A Mimosa da Graça»?

Este pormenor não consigo clarificar, mas o que lembro são os operários, elas de bata branca, eles de ganga azul.

Depois chegaria ao poema de Álvaro Campos:

«Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso, e ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida!»

Há também Chocolate um delicioso filme de Lasse Hallstrom, um conto de fadas maravilhoso pelos chocolates mas também – e não é aspecto de somenos – pela Juliette Binoche.

Li,  já não lembro onde, que é um filme para comer com os olhos.

E ficamos assim.

Amanhã é Domingo de Páscoa.
No meio da quarentena, eu e a Aida, teremos um almoço virtual em que um coelho de chocolate, imaginariamente, será partilhado com os cinco netos.

Os sonhos são assim mesmo.

Ah!, o  Tom Hanks, na pele de Forresr Gump, sentado num banco à espera de um autocarro diz:

 «A vida é como uma caixa de bombons. Nunca sabemos o que nos espera…»



Mas fiquem a saber que há poucos problemas que um chocolate não possa resolver.

A música deste sábado de Páscoa , não poderia deixar de ser a  Hallelujah do Messias de Handel.


1.

A Suécia já registou mais de 10 mil casos de pessoas infetadas com o novo coronavírus, num país que tem uma população de cerca de 10 milhões de pessoas. Ao todo, 887 infetados já morreram de Covid-19.

«A nossa preparação não foi boa o suficiente e isso é evidente para todos, em vários aspectos».

Em termos concretos, Löfven não quis responsabilizar os suecos pelos números elevados de infectados e mortes por Covid-19 que se têm registado no país, que adoptou uma estratégia de imunidade de grupo, em contra-corrente com  o resto do mundo. O primeiro-ministro considerou que a maioria dos cidadãos seguiu as recomendações das autoridades, mas admitiu a possibilidade de fechar alguns restaurantes que não estejam a cumprir as regras: 

«Há aqueles que não as seguem, não compreendem ou não querem saber da gravidade da situação e aí teremos de colocar as luvas e passar à acção».

2.

O atelier da artista Joana Vasconcelos, em Lisboa, anunciou que encerrou portas, "pela primeira vez em 25 anos", devido à pandemia de covid-19, e abriu um processo de 'lay-off' para cerca de 50 trabalhadores.

3.

O grupo Estoril Sol explica que decidiu aplicar o 'lay-off' simplicado, com a suspensão temporária dos contratos de trabalho ou a redução dos tempos de trabalho da grande maioria dos trabalhadores.

O grupo Estoril Sol detém casinos no Estoril, em Lisboa e na Póvoa de Varzim, e todos estão encerrados desde 14 de março.

4.

Com a leitura mais atenta de toda a papelada, os especialistas vão ficando com a ideia de que o acordo do Eurogrupo deixa mais dúvidas que certezas.

5.

«O vírus mata portugueses. E mata a economia. Matará o conhecimento se deixarmos que mate o livro. Livro e leitura são a mais sólida forma de adquirirmos saber, ciência e identidade. Mas as livrarias fecharam e os editores não publicam.»

Manuel S. Fonseca

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Cais negramente reflectido nas águas paradas,
Bulício a bordo dos navios,
Ó alma errante e instável da gente que anda embarcada,
Da gente simbólica que passa e com quem nada dura,
Que quando o navio volta ao porto
Há sempre qualquer alteração a bordo!

Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso!
Alma eterna dos navegadores e das navegações!
Cascos reflectidos devagar nas águas,
Quando o navio larga do porto!
Flutuar como alma da vida, partir como voz,
Viver o momento tremulamente sobre águas eternas.
Acordar para dias mais directos que os dias da Europa,
Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar,
Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens
Por inumeráveis encostas atónitas...

Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe,
E depois as praias próximas, vistas de perto.
O mistério de cada ida e de cada chegada,
A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade
Deste impossível universo
A cada hora marítima mais na própria pele sentido!
O soluço absurdo que as nossas almas derramam
Sobre as extensões de mares diferentes com ilhas ao longe,
Sobre as ilhas longínquas das costas deixadas passar,
Sobre o crescer nítido dos portos, com as suas casas e a sua gente,
Para o navio que se aproxima.

Ah, a frescura das manhãs em que se chega,
E a palidez das manhãs em que se parte,
Quando as nossas entranhas se arrepanham
E uma vaga sensação parecida com um medo
– O medo ancestral de se afastar e partir,
O misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo –
Encolhe-nos a pele e agonia-nos,
E todo o nosso corpo angustiado sente,
Como se fosse a nossa alma,
Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira:
Uma saudade a qualquer coisa.
Uma perturbação de afeições a que vaga pátria?
A que costa? a que navio? a que cais?
Que se adoece em nós o pensamento,
E só fica um grande vácuo dentro de nós,
Uma oca saciedade de minutos marítimos,
E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dor
Se soubesse como sê-lo...

A manhã de Verão está, ainda assim, um pouco fresca,
Um leve torpor de noite anda ainda no ar sacudido.
Acelera-se ligeiramente o volante dentro de mim.
E o paquete vem entrando, porque deve vir entrando sem dúvida,
E não porque eu o veja mover-se na sua distância excessiva.

Fernando Pessoa