Não evoluo, viajo.
Fernando Pessoa
«Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental —
uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a
dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O
absurdo da frase falará por mim.
Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro.
Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do
rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu
sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem
há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha
mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a
minha consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu.
Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo
partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às
nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu
sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem;
estão enrolados muito alto; e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha
imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu
estado de alma neste momento. Como à veladora do "Marinheiro"
ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles,
por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a
brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe
jurar que esta carta é sincera, e que as coisas de nexo histérico que aí vão
saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável
é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e
passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é
inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma
grande vontade de chorar.
Pode ser que, se não deitar hoje esta carta no
correio, amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases
e esgares dela no "Livro do Desassossego". Mas isso nada roubará à
sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.
As últimas noticias são estas. Há também o estado de
guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da
Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.
Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um
abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não
muito diferentes destes.
De que cor será sentir?
Milhares de abraços do seu, sempre muito seu
Fernando Pessoa
P. S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a,
vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes
tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes
sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com
todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si-próprio que dele são
tão características...
Você acha-me razão, não é verdade?»
1.
Cada vez mais pessoas em situação de sem-abrigo procuram as urgências hospitalares em busca de um teto, alimentação, higiene, entre as quais imigrantes e moradores que perderam a casa ou o quarto onde viviam por dificuldades financeiras.
2.
Odeiam
trabalhadores.
Greve na CP.
Tiveram todo o
tempo para resolver as justas reivindicações dos trabalhadores.
Ocuparam os seus
tempos em tratar dos assuntos dos homens do dinheiro.
Agora dizem que
os trabalhadores são uns ingratos, uns irresponsáveis por terem marcado greves
para o tempo de eleições…
Ouvir Luís
Montenegro, com o seu cínico sorriso dizer: "um dia, temos de pôr cobro a
isto!", é de de colocar um cidadão no limiar do vómito.
Ver/Ouvir aquele
ministro da tutela, Miguel Pinto Luz, completamente histérico: «Isto é política
partidária, eleitoral que o Governo fez "tudo para evitar" a
paralisação.
O pretexto para,
mais uma vez, se atacar o direito à greve é a paralisação de comboios provocada
pela adesão a uma série de paragens convocadas por 16 organizações sindicais da
CP, umas filiadas na CGTP-IN, outras na UGT, outras sem filiação em qualquer
central sindical.
3.
«É o imigrante mais antigo que recusa admitir direitos
aos novos imigrantes; é o trabalhador mal pago que acredita que os pobres que
recebem subsídios o estão a extorquir; é o branco que não aceita ver os negros
fora dos musseques; é o homem macho que não suporta que as mulheres ganhem
poder.
Em 50 anos de Democracia fizemos muito, mas muito
ficou por fazer. Faltou educar a sociedade na ideia de cooperação entre todos e
de abertura aos outros, e de uma saudável desconfiança em pregadores fáceis que
vendem ilusões com os nossos ressentimentos. Não seremos capazes de reconhecer
no que falhámos?
Pensar no que podemos e devemos fazer para contrariar esta deriva ideológica e moral em que vivemos, levar a nossa capacidade crítica ao fundo dos problemas criados, compreender que ser radical é ir à raiz dos problemas e que não o ser é colher passivamente os frutos que deixámos semear, é isto o que se pede aos responsáveis políticos. E tudo o resto será chover no molhado.»
Luís Filipe Castro Mendes no Diário de Notícias.
4.
Por fim
Alguém um dia
afirmou que um canal de televisão tanto pode vender sabonetes como presidentes.
Interessante o artigo de Bárbara Reis no Público de hoje:
«João Pinhal, da Universidade Nova de Lisboa, trouxe luz para o debate sobre
papel dos media na ascensão do Chega.
Pinhal, que tem 20 anos, contou, uma a uma, todas as entrevistas que as televisões públicas e privadas fizeram ao líder do Chega, André Ventura, e ao líder do PSD, Rui Rio ou Luís Montenegro, entre Outubro de 2019 e Junho de 2024 (este período inclui os primeiros meses de Montenegro como primeiro-ministro).
Os números dos 57 meses desde que Ventura foi eleito pela primeira vez mostram
que o líder do Chega deu 61 entrevistas e o líder do PSD deu 42. Os números
falam por si:
SIC+SIC Notícias: 15 entrevistas a
Ventura; nove ao líder do PSD.
TVI+ TVI24+CNN: 29 a Ventura; 17 ao líder do
PSD.
CMTV: 12 a Ventura; seis ao líder do PSD.
RTP e RTP3: cinco a Ventura; dez ao líder do PSD.
Estas são entrevistas a sós, em estúdio, ou com Ventura convidado para debater ou comentar algum tema da actualidade. Excluem os debates das campanhas eleitorais.Há Bar e Bar, há ir e voltar, desfazendo um slogan publicitário inventado pelo O ‘ Neill que dizia que Há mar e mar, há ir e voltar.
Poesia de Ricardo Reis
Selecção de textos e prefácio: Ana Luísa Amaral
Capa: Pedro Proença
Colecção: Obra Essencial de
Fernando Pessoa nº5
Expresso, Lisboa, Outubro de 2015
Para ser grande, sê
inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Fernando Pessoa
«Dos jardins fantásticos da minha infância que eu nem tive infância
nasci assim já velho mas sou um bonacheirão incapaz de rancor aos meninos que
tiveram infância e jardins, trago um na lembrança que era um jardim muito
engraçado havia um coreto a música tocava aos domingos havia um urinol com
aquele velho maluco que fazia coisas aos rapazes e também lembro um jardim,
outro ou seria o mesmo que era um jardim muito engraçado com uma estantazinha
verde o tipo que emprestava livros à gente tinha uma farda preenchia-se um
papel com o nosso nome e morada era coisa séria.»
Ora esta inauguração, no bairro que Tabucchi “percorreu vezes sem
conta” e onde “sempre se sentiu bem”, como ali recordou a viúva do escritor,
Maria José de Lencastre, e onde, em nome do município, o presidente da Câmara
de Lisboa, Carlos Moedas, afirmou que “o grande escritor, o grande lisboeta, o
grande homem livre”, se tornava assim “parte da cidade” que foi a “sua segunda
casa”, ocorreu no início do ano em que se celebrarão os 80 anos do nascimento
de Tabucchi (em 24 de Setembro) e passados 11 anos da sua morte (em 25 de Março
de 2012. Na mesma Lisboa que adoptou como sua e onde viveu desde 1965 até ao
final da vida.»
«Meu caro professor Tabucchi
agora que você se encontra
entre as águas do aqueronte
e o vórtex furioso dos átomos
onde tudo está disperso
e onde tudo é criado de novo
em breve poderá voltar
aos jardins de Lisboa
como flor/ que floresce em Abril
ou como chuva nos lagos
e nas lagoas de Portugal
e quando eu estiver a passear
voltarei a ouvir a sua voz
percorrida pelo vento.»
Legenda: Jardim Constantino, em Lisboa, numa quarta-feira, que é dia de ali se relizar uma Feira Ocasional de Livros Usados.
Viola Interdita
Manuel Alberto
Valente
Capa: Armando Alves
2 desenhos de José
Rodrigues
Colecção de Poesia nº
1
Edição de Autor,
Porto, 1970
Conversa Com Fernando
Pessoa no Martinho
A casa continua como quando aqui paravas.
Talvez sejam os mesmos que agora a povoam
destas conversas sonolentas e cruzadas.
Ali ao longe o rio persiste em navegar
e só as águas envelheceram. O resto é
a cidade quer dizer o nevoeiro
que quando desembarcaste. Fala-se na esperança
e acredita-se no medo. O resto é a cidade
que cantaste e te desconheceu
e ainda desconhece os que procuram
o violino de palavras que criaste.
Neste dia, no ano de 1888 nasceu Fernando Pessoa.
Descobri Fernando Pessoa muito tarde.
Motivos diversos, que pouco agora adianta referir, mas
o mais directo será o terem-me vendido que era um poeta do Estado Novo, o que
apressei-me a «comprar», sintomático também era o facto de não existir nenhum livro de
Fernando Pessoa na Biblioteca da Casa, constituída, muito lentamente, pelo meu avô
e pelo meu pai.
Foi o Mário Castrim que, um dia, se dispôs a dizer-me que deveria começar pelo
Álvaro de Campos. E tinha toda a razão porque redundou numa leitura
encantatória. Aliás o biógrafo Richard Zenith considera Álvaro Campos como algo
de fascinante.
Debrucei-me depois no Livro do Desassossego e o encanto continuou.
Mais tarde passei a ler livros sobre o autor e lembro-me bem de um livro da autoria de Richard Zenith, publicado pelo Círculo de Leitores e que foi a base da biografia agora publicada.
Agora necessito de tempo, e talvez mais qualquer
coisa, para, tirando os poemas soltos que já li, abordar, com profundidade os
restantes heterónimos de Pessoa.
«Em qualquer génio, há sempre um
elemento de diferença, um grau de superioridade, que não se explica, apenas se
constata, mas a sua genialidade não nasce do nada.».
No dia 20 de Maio, o jornal Público, suplemento Ipsilon,
publicou uma muito interessante entrevista, conduzida por Luís Miguel Queiroz,
que refere a biografia que Richard Zenith publicou:
«Diz-se que Pessoa não teve vida fora da obra, mas Richard Zenith precisou de uma dúzia de anos e de 1200 páginas para escrever a sua biografia, agora lançada em português pela Quetzal, depois de a edição original em língua inglesa ter chegado à final do prémio Pulitzer. Sai-se deste livro, escrito numa prosa cativante e precisa, com a noção exacta de tudo quanto não sabíamos sobre o escritor central da literatura portuguesa do século XX.»
Alguma passagens que retirei da entrevista:
1.
Há também vários episódios que o leitor reconhece, mas que no seu livro
parecem estar corrigidos. Penso, por exemplo, no célebre slogan para a
Coca-Cola, que afinal seria um pouco mais comprido do que se pensava…
Quem primeiro mencionou a história da Coca-Cola foi o Luís Pedro Moitinho de Almeida, filho de um dos patrões de Pessoa, num livro publicado em 1985. Mas não se lembrava bem do slogan, e também se enganou no ano. Fui pesquisar e descobri o anúncio nos jornais da época. O texto correcto é: “No primeiro dia: Estranha-se. No quinto dia: Entranha-se.”
2.
Há um passo em que, aludindo aos contos que Joyce reuniu em Dubliners,
sugere que Pessoa poderia ter escrito Os Lisboetas. Como vê a sua relação com a
cidade onde viveu quase toda a sua vida?
Lisboa é central na obra de Fernando Pessoa. Identificamo-lo com Lisboa como identificamos Kafka com Praga ou Joyce com Dublin. No entanto, vejo a sua relação com a sua cidade de um modo um pouco diferente: creio que os habitantes de Lisboa são como uma família para ele. Pessoa não criou a sua própria família, mas no Livro do Desassossego, e também nos poemas, menciona muito essas figuras das camadas populares: os empregados dos restaurantes, os barbeiros, as costureiras, os moços de frete, que eram aqueles galegos que esperavam nas esquinas de Lisboa que alguém os contratasse para levar um recado ou transportar algum objecto. E há depois a sua relação com os escritórios de Lisboa e com quem lá trabalhava. Todas essas pessoas constituíam para Fernando Pessoa uma espécie de família. E são também muito importantes para ele o espaço, a topografia da cidade, que descreve com muito pormenor no Livro do Desassossego, e também o céu de Lisboa, as nuvens, o pôr-do-sol.
3.
É correcto dizer que se situa a meio caminho entre os que acham que a
heteronímia é um mero artifício e os que tendem a esquecer-se de que os
heterónimos são textos, e não pessoas de carne e osso?
Há pessoanos que desdenham um pouco a heteronímia, mas a verdade é que muitos dos mais belos poemas de Pessoa não existiriam sem os heterónimos, porque os foi escrevendo em função deles. A ficção do heterónimo faz parte do poema assinado pelo heterónimo em causa. Ao escrever esta biografia, vi também claramente que as primeiras experiências de escrita, a criação de autores fictícios e o interesse por publicações, designadamente jornais, são coisas que nascem todas ao mesmo tempo e estão relacionadas.
4.
Qual é o seu heterónimo preferido, incluindo o Pessoa ortónimo e
Bernardo Soares?
O meu heterónimo favorito é normalmente aquele que estou a traduzir, ou acerca do qual estou a escrever no momento. Fico sempre seduzido pelo heterónimo de que me estou a ocupar. Mesmo Ricardo Reis, que tende a ser, talvez, o menos apreciado pelo público, deixa-me encantado quando o traduzo ou edito. E é assim com todos os outros. Mas diria que, na poesia, Álvaro de Campos é o heterónimo que acho mais fascinante. E é o que está mais perto de Fernando Pessoa. Parece ser muito diferente por fora – é exuberante, viaja imenso, tem amores, enquanto Pessoa é tímido e pouco ousado –, mas penso que representa o lado mais instintivo de Pessoa. Toda essa exuberância existia realmente dentro de Fernando Pessoa e a maneira de a exprimir chamou-se Álvaro de Campos. Na prosa, a sua obra mais genial é, para mim, o Livro do Desassossego, que se calhar até pode ser considerado poesia.
Pelo dia que vai correndo, apenas como memória, arrisco-me a fazer umas citações do Livro do Desassossego que muitas vezes visito:
«Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou casas de pasto em que, sobre uma loja com feitio de taberna decente se ergue uma sobreloja com uma feição pesada e caseira de restaurante de vila sem comboios. Nessas sobrelojas, salvo ao domingo pouco frequentadas, é frequente encontrarem-se tipos curiosos, caras sem interesse, uma série de apartes na vida.»
«O que há de mais reles nos sonhos é que todos os têm.»
«Uma só coisa me maravilha mais do que a estupidez com que a maioria dos homens vive a sua vida: é a inteligência que há nessa estupidez».
«Amo, pelas tarde demoradas de Verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se lastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais quedos – tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto. Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele.»
«Hoje, em um dos devaneios sem propósito nem dignidade que constituem grande parte da substância espiritual da minha vida, imaginei-me liberto para sempre da Rua dos Douradores, do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, dos empregados todos, do moço, do garoto, e do gato. Senti em sonho a minha libertação, como se mares do Sul me houvessem oferecido ilhas maravilhosas por descobrir. Seria então o repouso, a arte conseguida, o cumprimento intelectual do meu ser.»
«Penso às vezes que nunca sairei da Rua dos Douradores. E isto, escrito, então, parece-me a eternidade.»
«Nunca tive ninguém a quem chamasse “Mestre”. Não morreu por mim nenhum Cristo. Nenhum Buda me indicou um caminho. No alto dos meus sonhos nenhum Apolo ou Atena me apareceram, para que me iluminassem a alma».
«Devaneio entre
Cascais e Lisboa. Fui pagar a Cascais uma contribuição do patrão Vasques, de
uma casa que tem no Estoril. Gozei antecipadamente o prazer de ir, uma hora
para lá, uma hora para cá, vendo os aspectos sempre vários do grande rio e da
sua foz atlântica. Na verdade, ao ir, perdi-me em meditações abstractas, vendo
sem ver as paisagens aquáticas que me alegrava ir ver, e ao voltar perdi-me na
fixação desatas sensações. Não seria capaz de descrever o mais pequeno pormenor
da viagem, o mais pequeno trecho de visível. Lucrei estas páginas, por olvido e
contradição. Não sei se isso é melhor ou
pior do que o contrário, que também não sei o que é.»
olhos quase cerrados
num quarto em penumbra... não quero mais da vida do que
os meus sonhos e
isto... Se é pouco? Não sei. Sei eu acaso o que é pouco ou
o que é muito?”
Ah, não há saudades mais dolorosas do
que as das coisas que nunca foram!
Bernardo Soares no Livro
do Desassossego
Agora que já entrámos por Fevereiro dentro, ele ainda anda às voltas com a história do avô e asua raiva aos meses de Janeiro e Fevereiro que, este ano, provocaram o disparate de zarpar do blogue sem avisar que isso iria acontecer, e o seu porquê.
Agora
que anda a ler a excelente biografia de Manuel António Pina, escrita por ÁlvaroMagalhães, confirmou que o poeta foi um homem marcado pela sua atribulada
infância.
Já
encontrou uma frase de Clarice Lispector «Nunca é tarde para se viver uma
infância», também o título da 1ª parte do livro «A infância não se vê da
infância», e num pedacinho que aproveitou para o lançamento do Olhar asCapas de há dias, leu palavras de Ruy Belo é apenas por termos perdido a
infância que a amamos tanto e, inevitavelmente, Eugénio de Andrade a lembrar que a infância aquece à medida
que se distancia.
Altura
de ter vontade de perguntar:
Será
que andamos, toda uma vida, de mão dada com a criança que fomos?
Talvez
por isto, e algo mais, voltou a publicar o poema de Álvaro Campos de que muito
gosta:
« Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus
conhecidos têm sido campeões em tudo.»
24
de Março de 1992
Toda a gente sabe que Jorge Luís Borges
é um heterónimo de Fernando Pessoa e Pessoa um sonho de Borges.
Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II
Fernando Pessoa
sentia-se fácil de definir.
«Se depois de eu
morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só
duas datas – a da minha nascença e da minha morte»
Assim como Milan
Kundera, escritor que nunca me despertou interesses por aí além, talvez uma
insustentável ignorância minha ou qualquer tique a lembrar preguiça…
Numa crónica recente,
Pedro Mexia lembrava que sempre teve uma certa admiração pela lacónica nota que
acompanha os seus livros:
«Nasceu na Checoslováquia. Em 1975, instalou-se em França».
Por ele os autores de
biografias e autobiografias, teriam de arranjar outros meios de subsistência.
«Nem bibliografia, nem elogios, nem outras datas, apenas duas
coordenadas. Kundera é um daqueles escritores que acreditam que não há nada de
relevante a dizer numa nota biográfica, muito menos numa biografia, porque tudo
o que importa vem nos livros. E avisa que nem sequer o “eu” dos livros é o “eu”
empírico: “impor o nosso eu aos outros é a versão mais grotesca da vontade de
poder.”»
Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.
Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor —
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.
E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.
E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar…
Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.
Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demónios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.
Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.
Edgar Allan Poe,
tradução de Fernando Pessoa
Legenda: fotograma do
filme Way Down East de D.W. Griffith
Poema e fotograma tirados de Um Mar de Filmes, Cinemateca Portuguesa
Se eu pudesse fazer
com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boémia
Coberta de farrapos e de estrêlas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que êstes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio da descrença,
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns Senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga: as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma côr, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...
Poetas, escutai-me.
Transformemos
A nossa natural angústia de pensar -
Num cântico de sonho!, e junto dêle,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!
António Botto
Não vos queria chatear muito mas volto a dizer que gosto de dançar e a falta que isso me faz.
O desespero destes dias que vamos vivendo, obriga a dizer, a fazer qualquer coisa. Continuo a pintar, continuo a dançar sozinha enquanto faço bolos, limpo o pó, aspiro a casa, mas já vos disse isto, mas encontrei, num dos meus caderdinhos, esta quadra do Fernando Pessoa.
E o pé de chumbo do Sammy continua a não querer dançar, mesmo esta velha canção dos Simon Garfunkel que, quando era posta a tocar, obrigava o Garrudo a saltar da cadeira.
Saudades.
No baile em
que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é
não ir ao baile
Do que
estar lá sem lá estar.
Patti Smith
Tradução: Helder
Moura Pinheiro
Capa: Rui Rodrigues
Quetzal Editores,
Lisboa, Agosto de 2020
Prolongo a minha estadia na cidade de Pessoa, embora não seja fácil dizer o que ando a fazer. Lisboa é a cidade ideal para nos deixarmos levar pelo tempo. Manhãs em cafés a escrevinhar umas coisas em mais um caderno, parecendo que cada página em branco oferece uma fuga, ao receber a fluidez constante da caneta. Durmo bem, sonho pouco, limito-me a existir apenas num intervalo que ninguém interrompe. Num passeio ao crepúsculo, a música ecoa pela velha cidade, evocando em mim a voz harmoniosa do meu pai a trautear baixinho Lisbon Antigua, precisamente uma das suas melodias favoritas. Lembro-me de, em criança, lhe ter perguntado o que queria dizer o título. Ele sorriu e disse que era um segredo.
E agora, amigos meus, repicam os sinos ao início da noite. Candeeiros
iluminam as ruas calcetadas. No meio de um silêncio que lembra os quadros de
Edward Hopper, faço o caminho que Pessoa fez tantas vezes. Um escritor capaz de
criar personalidades distintas de ver o mundo, e tantos diários, assinados por
tantos nomes. Caminhando pelas calçadas de paralelepípedos, passo por uma janela
e vejo um senhor todo bem-posto ao balcão de um bar, ligeiramente debruçado, a
escrever qualquer coisa num caderno.
Tudo se penetra. A leitura dos
clássicos, que não falam de poentes, tem-me tornado inteligíveis muitos
poentes, em todas as suas cores. Há uma relação entre a competência
sintáctica, pela qual se distinguem os valores dos seres, dos sons e das formas
las, e a capacidade de compreender quando o azul do céu é realmente verde, e
que parte de amarelo existe no verde azul do céu.
No fundo é a mesma coisa – a
capacidade de distinguir e de subtilizar. Sem sintaxe não há emoção duradoura.
A imortalidade é uma função dos gramáticos.
Bernardo Soares em O Livro doDesassossego