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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

RETRATOS


 E outros momentos. Soltos. Deslumbrantes na opaca escuridão do que não volta mais. Cada um terá os seus, a sua história privada, a sua respira­ção. A última reunião da Comissão de Escritores do MUD, a que tinha pertencido toda a gente (fal­tavam às vezes cadeiras) e a que, por fim, já só compareciam, inutilmente renitentes, três pessoas: a Manuela Porto, o Flausino Torres, eu. Que coor­denava o sector desde a própria ideia de o formar. Como o dos artistas (arquitectos, pintores, esculto­res, desenhadores, fotógrafos, publicitários) que, a partir de 46, fizeram juntos as suas Exposições num clima de entusiasmo e unidade como nunca houvera no país nem sei se, exactamente assim, te­rá voltado a haver.

 Momentos soltos lucilando na distância. O José Cardoso Pires a bater-me à porta com o seu pri­meiro original. O Piteira a paginar comigo, em minha casa, à noite, a Gazeta musical e de todas as artes.

 A Manuela Porto foi quem primeiro declamou a «Ode Marítima», como nunca mais ninguém faria. E, antes (ou depois?), a nossa poesia que mal ainda despontava, no velho Salão de O Século, com uma palestra introdutória do Armando Bacelar. Vejo-a a beijar, num pé, a minha filha então de meses: «Posso? E um milagre!» E, a seguir, na redacção da Eva, que ela chefiava e onde a vi pela última vez. Estava assente que eu passasse por lá para lhe dar a senha de contacto com o MUNAF, organiza­ção ilegal a que resolvera aderir. Era um prodígio de vontade e de coragem aquela mulher tão frágil, delicada, toda ela poesia. Mas tinha no gabinete, inesperadamente, alguém que não me devia ver, a directora da revista. Vem lá de dentro, à pressa, sorridente. Traz nas mãos as Cartas a um jovem poeta. Deixa a porta entreaberta, só o bastante para que a ouçam bem. «Desculpe não poder hoje rece­bê-lo. Está aqui o livro. Gostei muito». Mímica apressada a explicar porquê o livro e aquela con­versa. Dois dias depois suicidava-se.

 E vejo o Flausino também, muito mais tarde, com o seu arcaboiço de camponês, grossa samarra de gola levantada, já a noite caíra, à porta da sua casa de Tondela, em pleno campo, com os braços estendidos e os olhos molhados: «Tu é que tinhas razão». Enquanto eu, durante o abraço demorado e apertado, retomava um convívio interrompido du­rante anos: «E era preciso ires tão longe?»

Regressara de Praga, depois da invasão. Passara por lá as passas do Algarve nas mãos de uma co­nhecida dirigente, dessas de «antes quebrar que torcer», que se deslocava em luxuosos automóveis de Estado, vivia em bons hotéis por lá e anda agora por aí, nos períodos eleitorais, a fazer a propa­ganda de tudo o que seja de Direita.

Exactamente a mesma. Quando, em 42, fiz a minha conferência na Universidade Popular sobre arte moderna, essa expressão acabada da «burgue­sia decadente», foi ela que comentou: «Que grande desilusão!» Mas não se referia à qualidade da con­ferência. A minha grande falha ideológica é que a deixara desolada...

Varrer o lixo. Sem descanso. Conservar o que nos foge por entre os dedos, como fumo.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Manuela Porto

sábado, 28 de março de 2026

POEMAS AUTOGRAFADOS


 A Portugália entregou a Mário Dionísio a tarefa de escrever o prefácio para o 7º volume da Colecção Poetas de Hoje, que é Poemas Completos do Manuel da Fonseca.

Mário Dionísio foi o melhor, o mais puro historiador do neo-realismo português, tão vilmente depreciado por críticos e autores.

«Não sei compreender um poeta e a sua obra, desligando-o e desligando-a da realidade em que nasceu, de que nasceu, que ele veio, a seu modo, enriquecer e, enriquecendo, transformar.»

Alentejano, um extraordinário contador de histórias, Manuel da Fonseca escreveu poemas de uma simplicidade cativante - «Ser espontâneo dá-me muito trabalho.»

Assim como «Domingo que vem eu vou fazer as coisas mais belas que um homem pode fazer na vida.» parece tão fácil, tão fácil como aquele endeusar dos tangidos bandolins, fitas violas gritos da heroica marcha Almadanim tocada pela Tuna do Zé Jacinto.

E um homem nunca é uma ilha isolada, um homem só não pode nada e «dá-me raiva ouvir seja quem for lamentar-se. Eu nunca me lamento».

Aldeia é o poema que Manuel da Fonseca deixou para seu autógrafo. E sempre o largo, que «antigamente era o centros do mundo».

   

Aldeia   

Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

OLHAR AS CAPAS


Vértice

Nº 473-475  Julho- Dezembro  1986

Homenagem a José Gomes Ferreira após a sua morte.

Colaboração.

António Ramos Rosa, Fernando Piteira Santos, Maria Velho da Costa, Fernando Lopes Graça, Artur Ramos, Baptista-Bastos, José Cardoso Pires, José Manuel Mendes, Mário Dionísio, Urbano Tavares Rodrigues

Capa: Armando Alves

Preço deste número: 500 escudos

Sonho, morte, frio, terra, pedras, árvores, nuvens, estrelas, astros – eis algumas das palavras que se nos deparam com mais frequência nos poemas de José Gomes ferreira. O sonho não é mais que um momento, um ímpeto que se realiza no movimento do poema e só nele, dado que o sonho é impossível total. Assim, o sonho ou o desejo, só na linguagem encontra a totalidade que o revela como possibilidade poética ou seja, como palavra que, opondo-se à negação, se afirma independentemente da lógica negativa que muitas vezes domina este discurso poético.

 

                Se eu ao menos construísse

                a casa num terreno de cristal

                que o meu olhar atravessasse

                lâmpada de água que sobe à superfície

                para a luz ter face.

domingo, 27 de abril de 2025

POEMAS AUTOGRAFADOS


Um dos nossos mais brilhantes intelectuais, é o 19 da Colecção Poetas de Hoje da Editora Portugália, com Memória Dum Pintor Desconhecido. 

Falamos de Mário Dionísio.

Transcrevo o poema que Mário Dionísio escolheu:

 

Altos cachões de espuma

com instantes de prata

Um corpo aqui se afunda

em seu túmulo de água

 

De extremo a extremo um pano azul puído e sujo

batido pelo vento em si mesmo desata um arvoredo

de mágoa

 

Rola no horizonte o peso

redondo e cavo dum balão de medo

 

Ao longe um eco verde

de lata

 

É de José Gomes Ferreira uma das mais fulgurantes frases sobre Mário Dionísio:

«…afinal toda aquela frieza aparente não passa de uma ternura adiada.» Podemos recordar uma outra, a de Maria Teresa Horta: «Mário Dionísio tem o espantoso fascínio da inteligência.»

Professor, pintor, escritor, um intelectual que fez da postura ética uma referência a toda a prova.

Quem o quiser conhecer tem à sua disposição um livrinho, publicado em Dezembro de 1987, e em que desenhou a sua Autobiografia, do qual fizemos, neste Cais, algumas leituras:

«O quê? Projectos? Mais projectos? Coço a cabeça, meio envergonhado. Um homem com esta idade! Terei tempo sequer para metade deles?

Vale-me então um espírito maligno, género anãozinho da floresta (outra vez a floresta...) que me pousa no ombro enquanto escrevo ou pinto e que me diz, gozão: «Inquietas-te porquê? Que falta é que tudo isso faz?» E, com esta, arruma-me de vez: «Estás convencido de teres estado sempre certo?»

A defesa, abro o meu irregularíssimo Diário num dia de 63, aí calhou, e leio-o como se a data fosse a de hoje: «Não queiras que cada página seja um monumento. Não queiras tudo. E o melhor ca­minho para não encontrares nada. Não te sintas esmagado pelos grandes nem condoído com a fa­lência dos que detestas ou desprezas ou apenas la­mentas. Escreve. Esquece tudo, tapa os ouvidos, mete-te bem na tua experiência, só na tua expe­riência. Grande ou pequena, é o que tens. Não de­sanimes, não desistas, não te perturbes com a indi­ferença dos outros, não te entusiasmes com os aplausos dos outros. Escreve! Escreve!».

O livro, Memória dum Pintor Desconhecido, é dos poucos da Colecção Poetas de Hoje, que não tem a acompanhá-lo um estudo sobre a sua obra.

Desconheço as razões. Mas José Gomes Ferreira seria o prefaciador ideal, como o demonstram  as palavras que escreveu em A Memória das Palavras:

«Confesso que sempre me deslumbraram os homens do tipo de inteligência de Mário Dionísio, que deixam um rasto de prata em tudo oque escrevem, e cujo bom senso acaba por corrigir as inclinações natu­rais para o Absoluto, atinentes aos espíritos afectivos como o dele, ávidos de pureza leal.

Aliás, só uma inteligência de grande lucidez junta a um instinto muito fino da cultura e do julgamento crítico pode explicar a autoridade rá­pida com que se impôs, como doutrinador do neo-realismo, não ape­nas aos pares da sua idade, mas sobretudo aos adversários. Além disso, como dispunha de dotes fundos de riqueza artística e um espírito com dons de maleabilidade incomum, nunca recusou a ilumi­nação de novos temas poéticos e caminhos ainda mal pisados. Coisas que os críticos, não afeitos à necessidade da justiça das géneses, geral­mente se esquecem de apontar.» 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

VELHOS RECORTES


 

A Abril em Maio foi uma das muitas actividades que Eduarda Dionísio desenvolveu, ao longo da sua vida, no campo cultural. A Eduarda Dionísio deixou-nos em Maio de 2023 e como último grande trabalho deixou-nos a Casa da Achada onde se encontra o espólio, devidamente tratado e catalogado, de seu pai, o pintor e escritor Mário Dionísio.

A Wikipédia diz-nos o que foi a Abril em Maio:

«A Abril em Maio é uma associação cultural fundada em 1994, por ocasião dos vinte anos do 25 de Abril. Materializou, ao longo destes anos (1994-2005), um projecto singular de associativismo e de intervenção cultural que se inspirou na memória do movimento popular que marcou a revolução (em especial na sua dimensão emancipatória), tendo vindo a afirmar-se desde a sua fundação como uma alternativa às lógicas culturais de mercado. Daí que na declaração de princípios desta associação se leia: "À Abril em Maio não interessa o cultural em que a cultura se transformou, mas a cultura enquanto conjunto de saberes, de saberes-fazer e de saberes-viver, fundado numa prática colectiva em que os indivíduos e os grupos são actores da sua própria existência. À Abril em Maio interessam, sim, os produtos culturais (e muitos deles são arte) que, pelo modo como são produzidos e reproduzidos e o valor de uso que podem ter, resistem à instrumentalização política e económica. Aqueles que, de uma maneira ou de outra veiculem ideais de solidariedade e cooperação, visando a transformação, e que combatam o autoritarismo, a ideologia competitiva, o discurso dominante e os ditames do mercado. À Abril em Maio interessa o trabalho dos intelectuais e dos artistas que, em vez de aceitarem, aprovarem e aplaudirem a ordem estabelecida, a contestam, a criticam e tentam combatê-la.»

Estes dois velhos recortes são textos de José Duarte e Manuel Gusmão pedindo desculpas por não conseguirem mais colaboração para a Abril em Maio. Creio que também existe um texto do Vitor Silva Tavares sobre os mesmo pedido de colaboração da Eduarda, mas, apesar de voltas e mais voltas, não o encontro.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL


Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 Campanhas de Dinamização Cultural e Ação Cívica do MFA.

Uns nunca ouviram falar, outros já esqueceram.

Existe um livro, publicado pela Ulmeiro, da autoria de Ramiro Correia, Pedro Soldado e João Marujo : MFA: Dinamização Cultural, Acção Cívica, onde tudo, ou quase tudo, está explicado.

Um projecto de boas ideias que encontrou dificuldades enormes, desde o primeiro minuto boicotado, sabotagens diversas, umas silenciosas, outras bem gritadas.

Em MFA Dinamização Cultural Acção Cívica, Ramiro Correia reconhece que um problema que surgiu desde o início, foi o da dificuldade dos militares responderem a questões políticas delicadas. Era evidente a incapacidade na criação de quadros e também se tornava cada vez mais claro que as lutas pela conquista do poder, iriam afectar a qualidade e quantidades de militares dispostos a empenharem-se em acções desta natureza.

Neste país, a cultura sempre foi um enorme busílis.

Decididamente não devemos, não podemos, espantar-nos com as atitudes (não) culturais dos políticos, dos autarcas, dos deputados, dos governos. Têm todos sem excepção,  um soberano desprezo pela cultuar. Talvez não puxem da pistola mas não conseguem distinguir um livro de uma abóbora.

Deixou escrito Mário Dionísio:

«Que a cultura é uma arma poderosa na luta pela emancipação dos homens, nunca o fascismo português o ignorou ou esqueceu. O seu reino de opressão durou quase meio século – o tempo bastante para que outros fascismos nascessem, crescessem, desencadeassem a maior Guerra mundial de todos os tempos, nema fossem vencidos, fossem esquecidos, embora com outras máscaras regressassem ou  sem grandes alterações continuassem a existir. Nesse quase meio século, o fascismo português teorizou e praticou, do princípio ao fim, uma doutrinação obscurantista tão zelosa e permanentemente observada que ele próprio nunca mais conseguiu libertar-se dela, mesmo quando julgou que isso poderia ser-lhe de alguma utilidade: quando por necessidades de funcionamento  do Regime e, não menores de propaganda ante um mundo mais e mais hostil (sobretudo a partir da Guerra colonial), em vão tentou, nos últimos anos corrigir à pressa, ainda que superficialmente, a base fundamental da sua filosofia.»

Com as Campanhas de Dinamização Cultural não se pretendia levar cultura, mas motivar a população para que recuperasse as suas realidades através de uma cultura que possuíam mas não desenvolviam, não frequentavam.

Foi quando apareceram uns habilidosos que entenderam que o importante não era dinamizar a cultura mas estupidificar o povo.

Montanhas e montanhas de tele-novelas que obrigassem as gentes a ficar agarradas aos televisores e… nada de cultura.

Ao ponto de, durante os debates televisivos para as eleições de 10 de Março se tenha abordado tudo (?) excepto CULTURA.

As televisões transmitem diariamente horas e horas e horas, e horas de programas sobre futebol e não gastam 3 minutos a falar de um livro, de um f ilme, de uma exposição.

Sobre as dificuldades dos dinamizadores culturais, recorda-se  aquele oficial miliciano que, numa aldeia  transmontana, perguntou à assistência presente da sala:

«Vocês sabem o que é o socialismo?

Uma velhota devolveu-lhe:

E vossemecê sabe o que é um engaço?

O recorte, no topo do texto, recorda o episódio.

Habilidosamente, o jornalista que mais tarde recorda a cena, não deixa de comentar:

«…suspeito que o doutor já se tenha esquecido do socialismo mas ainda hoje a velhota, se for viva, há-de saber o que é o engaço.»

terça-feira, 16 de janeiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL

                 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

 Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 A viagem de hoje, situa-se num depoimento de Mário Dionísio sobre o que para ele foi o 25 de Abril.

Um depoimento comovente, com a conclusão firme de que para se compreender o que foi aquele dia, e o que ele nos trouxe, houve que viver o «tempo do desprezo», os dias que o salazarismo e o marcelismo nos impuseram.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

CASA DA ACHADA


Eduarda Dionísio deixou-nos em Maio deste ano.

«É impossível dizer em poucas palavras o que foi e o que fez esta mulher extraordinária. A Eduarda gostava que as coisas fossem úteis, protestava contra o desperdício de materiais, de esforços e ideias. Todo o seu trabalho associativo tem a ver com quebra de barreiras: entre leigos e os especialistas, entre amadores e profissionais e entre classes sociais diferentes. Derrubar as barreiras, também, entre o pensar e o fazer, propondo sempre que juntássemos acção e pensamento, mãos e cabeça. “Viva a liberdade, dentro e fora da cabeça”, dizia uma camisola feita na Abril em Maio, associação onde circulavam ideias, objectos, textos, filmes, artes e artesanatos contra as lógicas culturais mercantis. Fazedora incansável em mil disciplinas diferentes (escrever, ensinar, pintar, fazer artes gráficas, editar, intervir, investigar…), a Eduarda valorizava os saberes-fazer, as técnicas, as sabedorias que extravasam os currículos académicos, as formas diferentes de nos relacionarmos como seres humanos, de viver e pensar o mundo (livremente!) e as possibilidades de o transformar. Outra barreira ainda a superar: ser capaz de alargar as fronteiras do possível, contra o “sempre foi assim”, coisa que ela combateu com todas as suas forças. Porque pensava que tudo podia ser de outra forma. Por isso fez amizades pelo mundo inteiro com gente que partilhava, de uma forma ou de outra, esta atitude crítica, solidária, transformadora.»

Do site da Casa da Achada

A Casa da Achada comemora o seu 14º aniversário.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 
É bom voltar a Mário Scaramento.

Foram os autores do neo-realismo português e italiano que me abriram os caminhos dos dias no mundo atribulado em que os li. Não foi o pouco que li de Karl Marx que me levaram a esses caminhos. Junto-lhes Albert Camus, Roger Vailland, Roger Marin do Gard, autores americanos, foram eles que me deram, sela lá o que isso for, a visão marxista do mundo.

Num livrinho de Mário Sacramento, Há Uma Estética Neo-Realismo?, lido  pr’aí em 1968, o autor coloca uma epígrafe de Almeida Garrett: «A história do mundo não é senão uma série de reacções e contra-reacções. A da literatura é o mesmo. O que unicamente fica imutável são os eternos princípios da verdade, do gosto e da razão em tudo.»

Mário Dionísio, dos mais inteligentes e claros intérpretes do neo-realismo, mas não se pode esquecer Alexandre Pinheiro Torres, lembrou Fernando Namora que já escrevera que não se pode escrever sobre camponeses que só se tinham visto da janela do comboio.

O Neo-Realismo teve entre nós imensos detractores, provavelmente o mais incompreendido dos movimentos literários do século passado. Tão adulterado, tão vilipendiado pelos que nunca puderam sentir-lhe as raízes e o significado. Ainda por aí andam uns jovens que, sem terem lido nada de nada, bolsam disparates aterradores.

Claro que a expressão neo-realismo tem hoje uma expressão nitidamente datada. Mas foi ali que aprendi parte importante dos parcos conhecimentos que tenho. Foram aqueles autores que intentaram a literatura como instrumento de luta política e ideológica, num tempo de trevas colocado em cena por um botas vindo de Santa Comba, e acolitado por uma série de gente sem escrúpulos, profundamente analfabetos, de baixíssima moral e maus. Talvez, escreveu Alves Redol, «o embalar da esperança valha mais do que o desespero da realidade desesperada»

E não esqueço uma frase do poeta Joaquim Namorado: «Nós dizíamos que éramos neo-realistas porque não podíamos dizer que éramos comunistas.»

terça-feira, 17 de maio de 2022

POSTAIS SEM SELO


Numa sociedade socialista, idealmente, não existem pintores, existem pessoas que pintam. 

Mário Dionísio

quinta-feira, 23 de julho de 2020

CONVERSANDO


De muito novo comecei a ler Alves Redol e sempre gostei do que li. 

Como hábito antigo, para além de ler as obras dos autores de que gosto, sempre me habituei a ler o que sobre esses autores está escrito.

No caso de Redol, li o que Alexandre Pinheiro escreveu em Os Romances de Alves Redol, e no caso de A Barca dos Sete Lemes, que é o livro de hoje, recordo:

«A Barca dos Sete Lemes é um belo título para um livro, mas aquele que mais estaria de acordo com o seu conteúdo seria então: «A Arte de Transformar Um Homem do Povo num Carrasco.»

Do que li, há a conclusão de que Alves Redol era um homem de carácter, um homem ávido de gente.

Ou como escreveu José Gomes Ferreira::

«Senhores e senhoras: o segredo da Arte de Redol resume-se nesta frase: amou verdadeiramente o povo.»

Carlos de Oliveira deixou escrito em O Aprendiz de Feiticeiro:

«Quem fala do povo com a paixão obsidiante de redol, a sua teimosia, os seus momentos de grandeza, incomoda e vive na incomodidade. Isto explica, julgo eu, certos preconceitos políticos e literários, certo musgo que a humidade circunstancial (às vezes sem querer, mas outras de propósito) tentou gerar em torno de uma obra notável sob vários aspectos: autenticidade, fôlego, importância histórico-literária.

José Cardoso Pires estava em Londres quando Redol morreu:

«Esta manhã chegou-me o telegrama da Edite. Morreu o Redol. Fiquei diante da janela do quarto, a olhar, ou a não olhar, sei lá, o pátio coberto de neve - e tudo branco, tudo puro, o nada, e a notícia ali na minha mão a dizer-me que tínhamos' perdido o nosso velho António, o nosso querido e paciente amigo.
Não adianta, bem sei, desabafar-se assim. Mas na morte de qualquer escritor português digno há sempre um remorso do tempo, sempre. Há um outro cancro que vem detrás e que é a injustiça e o suportar em silêncio. E esse mal, quando não vence uma verdade interior, mata primeiro do que o vírus decretado pelas certidões de óbito.
As vezes que falámos nisto, eu e o Redol. Ainda há pouco, numa carta em que se despedia de mim para sempre, lá vinha esta verificação magoada e terrivelmente simples: «Sou um dos que vai morrer na incomunicabilidade com o seu tempo».

Grande parte da sua obra, redol escreveu-a durante as horas dos seus frugais almoços ou durante as viagens de comboio entre Vila Franca de Xira e Lisboa.

Mário Dionísio chamou-lhe um operário das letras e José Carlos Ary dos Santos deixou este magnífico retrato:

Porém    se por alguém não foi ninguém
cantou e disse flor canção amigo
a si o deve.    A si e mais a quem
floriu cresceu    cantou lutou consigo.

Homem que vive só    não vive bem
morto que morre só é negativo
morrer é separar-se de ninguém
e contudo    com todos    ficar vivo.

Nado-vivo da morte.    É isso.    É isso.
Uma espécie de forno de bigorna
de corpo imorredoiro que transforma
em fusão o metal do compromisso:
Forjar o conteúdo pela forma:
marrar até morrer.    E dar por isso.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

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Gosto de livros que reúnem a correspondência entre personalidades da cultura.

Ajuda-nos, para além dos livros, dos filmes, das exposições, a compreender melhor os personagens.

Jorge de Sena é o intelectual de que conheço mais correspondência publicada.

Devemos esse trabalho a sua mulher Mécia de Sousa que, amorosa e ferreamente, se dedicou a esse extraordinário trabalho.

«E está longe de ser tudo, mesmo sem infindável arca. Assim eu tenha vida, saúde e lucidez para realizar essa monstruosa tarefa»

(Carta de Mécia de Sousa a João Gaspar Simões.).

Por alturas da Feira do Livro do ano passado o Luís Eme perguntava-me sobre a Correspondência entre Jorge de Sena e João Gaspar Simões, se já tinha lido o livro.

Não tinha lido nem comprado.

Entendia que, apesar de amigos, acabaram por se desentender, e detestavam-se.

Não sabia que raio de correspondência existiria entre os dois.

Falava-lhe também de que os livros da «Guerra e Paz» atingiam preços algo pesados. As coisas são o que são e os livros saem caros. Resta-nos fazer uma gestão do orçamento mensal e por aí fora.

Mas a pergunta do Luís deixara  pozinhos a bailar por mim dentro.

Numa última ida à Feira, acabei por comprar o livro.

Folheado em casa, não me entusiasmou e acabou por ir para a secção de «Livros a Ler».

Em tempo de pandemia, a obra foi lida.

Não é daqueles livros imprescindíveis, mas não lamento o tempo que lhe dediquei.

Através da introdução de Filipe Delfim Santos, das cartas trocadas entre Gaspar Simões e Mécia de Sena, que a determinada altura, dado o grave ataque de coração que Sena sofreu, passa a responder às cartas que são dirigidas ao marido, se fica a perceber, um pouco mais, de como foram as relações, pessoais e de escrita, entre Sena e Gaspar Simões.

Pessoalmente, nunca apreciei o cidadão João Gaspar Simões, como crítico nada digo porque me falta tudo, e mais alguma coisa, para poder dizer o que quer que seja.

Mas entre as diversas referências que tenho sobre/de Gaspar Simões, apresento três, cada uma a seu modo:

Uma de JoséGomes Ferreira, no IX volume dos seus Dias Comuns, realçando a camaradagem de Gaspar Simões:

«2 de Julho de 1970
O João Gaspar Simões disse-me ontem pelo telefone que se vira obrigado a emendar algumas palavras na minha última crónica, para a gente de O Primeiro de Janeiro a deixar sair.
Que palavras?
Estas: tipa, macha, pernas, etc. (Incrível), consideradas impróprias por um energúmeno velhorro da redacção que as sublinhou com lápis vermelho.
Fiquei furioso. Duas censuras ( a oficial e a do velhorro paralítico cerebral) parecem-me cadeias demais para poder dançar!
Quanto à atitude de João Gaspar Simões – seria uma covardia escrever aqui o que não ousei dizer-lhe por delicadeza… Aliás, estou convencido de que da parte dele houve apenas camaradagem jornalística. Custava-lhe que eu perdesse os 400 paus do artigo – como me confessou.
Agradeci-lhe a camaradagem.»

Outra é a espantação de Mário-Henrique Leiria, numa carta à sua «querida menina», contando-lhe que o Gaspar Simões dissera bem de um seu livro:

Sabes que o Gaspar Simões botou elogio grosso aos CONTOS DO GIN-TÓNICO na página literária do “Diário de Notícias”? Pois foi: Só tenho coisas que me ralem; só me faltava o Gaspar Simões a dizer bem de mim. Ele há cada coisa!

Por fim, o passo de uma crítica de João Gaspar Simões ao livro As Solicitações e Emboscadas  de Mário Dionísio:

O que nos fica, finda a leitura deste livro, não é a imagem de um homem fazendo gestos para que o vejam: é a imagem de uma alma segredando aos outros qualquer coisa impossível de calar.

Não quero terminar este apontamento, sem referir uma frase de Adolfo Casais Monteiro que Filipe Delfim Santos coloca a abrir a introdução sobre a Correspondência de Sena e GasparSimões:

«… é muito difícil fazer crítica a um livro do Sena».

domingo, 19 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS


José Milhazes, comentador político na SIC, escreveu num destes dias:

Em vez de celebrar de forma atabalhoada o 46º aniversário do 25 de Abril, seria mais sensato transferir as comemorações para quando a pandemia estiver dominada, e realizá-las no dia 25 de Novembro.

Os muitos Josés Milhazes que esperneiam por aí, respiram uma demência senil para a qual ainda não foi encontrada vacina.

Este José Milhazes nasceu em 1958, foi militante do PCP, estudou História na então União Soviética, doutorou-se e por ali viveu uns bons anos.

Nunca fui de grandes viagens, e se aconteceram foi por motivos profissionais.

Há uma série de países que gostava de visitar, mas a União Soviética está completamente fora de questão.

Era miúdo quando aconteceu a invasão da Hungria, já não era miúdo nenhum quando aconteceu a invasão da Checoslováquia e isso, com boas ou más fontes que me passaram pelos olhos, chegou para deixar escorregar os amanhãs que um dia poderiam vir a ser cantados.

Sobre a invasão da Checoslováquia tive longas conversas com o meu pai, que era um convicto marxista-leninista, discussões bem acompanhadas por tintos de colheita do ano, nunca grandes vinhos-para-enganar-burguês.

 Não que o meu pai concordasse com tudo o que se passava na União Soviética, ou que o socialismo estava à disposição numa qualquer loja de esquina, mas guardava convicções que o levavam a ser um homem daquele sonho.

Sou de esquerda mais por Roger Vailland, Albert Camus, Roger Martin du Gard, os neo-realistas italianos, portugueses, outras leituras, do que por Marx, Engels ou Lenine, não lidos na íntegra, sou de esquerda porque é uma maneira de ser, como dizia o José Saramago.

Bastas vezes chateio-me com o Partido, entendo que lêem pouco, dizem, praticam coisas que não consigo entender, mas li a Autobiografia de Mário Dionísio, de quem gosto muito, e por lá está escrito que os erros dos nossos amigos não podem fazer-nos esquecer os nossos inimigos.

Bom, mas eu vim aqui pelo disparate do José Milhazes e acabei por me meter por ruas, travessas e becos, mas o que queria dizer realmente é que para um fulano que se formou em História, mesmo que tivesse sido na União Soviética, não calha bem dizer que a gente do 25 de Abril comemora o 25 de Novembro.

Equívocos, ou habilidades, palavras suaves, que servem para continuar a enganar quem não pensa pela sua cabeça, ou tem preguiça em assim pensar.

Por aqui me fico e é tempo de escolher a música.

Porque é domingo, e como andámos por aqueles lados, ficamos com a Valsa nº 2 de Shoskatovich.

1.

«O mercado de trabalho português é marcado pelos baixos salários e pela precariedade (em 2018, mais de um terço dos trabalhadores do privado tinha um contrato de trabalho não permanente e 76% do emprego líquido criado no privado nos últimos seis anos assentou em vínculos precários). São estes os trabalhadores mais vulneráveis.

Do mesmo modo, a dinâmica de emprego dos últimos anos traz consigo elementos de fragilidade. Entre 2013-19 foram criados 500 mil postos de trabalho, entre os quais 75 mil no sector do alojamento e restauração. Empregos que, agora, ficarão muito expostos a este choque brutal de procura. Os dados preliminares dão conta de que nestas semanas, neste sector, 62% das empresas encerraram temporária ou definitivamente.»

Pedro Adão e Silva

2.

A afirmação de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia de que os velhos deveriam manter-se isolados até ao final do ano, deixou-me em polvorosa.

A deputada do Partido Socialista Isabel Moreira, escreve sobre esta ideia da senhora presidente, no Expresso:

«Simplesmente, sabemos que a partir de um determinado momento vamos começar, lentamente, a fazer a nossa vida em novos moldes. Nada será como antes. Ainda não sabemos como decorrerão os dias após o isolamento sem vacina, mas certamente teremos de nos proteger e de proteger terceiros, tentando que saúde e vida mais ou menos habitual se conjuguem, porque precisamos de sair disto com um país de pé.

Precisamos, também, de sair disto como gente. Todas as pessoas precisam de ver as suas pessoas, todas as pessoas precisam de passear, ainda que com restrições, todas as pessoas precisam de algum sentido de normalidade.

O que não é normal é o discurso da clausura dos idosos por tempo indeterminado como se gente acima de certa idade, que vive em contextos muito diferenciados, não tivesse autonomia individual, autodeterminação, capacidade de tomar decisões, incluindo a capacidade de escolher quais os riscos de saúde que quer ou não assumir.

Não se pode esperar com enorme tranquilidade que homens e mulheres acima de 65 anos fiquem fechados em casa ou em lares por meses e meses, sem direito ao mundo exterior, sem direito ao afeto, sem direito a escolher. Quando estivermos em período de regresso à normalidade, as pessoas idosas não podem ser condenadas a morrer da precaução. Pelo contrário, temos de as respeitar enquanto cidadãos e cidadãs capazes de fazerem as suas escolhas, livres naquilo que não afete terceiros, gente que ainda quer ser gente.»

3.

Um homem de 26 anos morreu, na tarde deste domingo, vítima de agressões com uma arma branca, ocorridas no bairro da Brandoa, na Amadora. Os dois alegados autores do homicídio foram detidos no local.

4.

Os negros números:

Em Portugal morreram 714 pessoas.

Os Estados Unidos registam 38.664 mortos, no estado de Nova Iorque ocorreram 14.451 mortes.

Itália: 23.660 mortos
Espanha: 20.453 mortos
França: 19.718 mortos
Grã-Bretanha: 16.060 mortos


Em todo o mundo já morreram 164.716 pessoas.

Legenda: contracapa do catálogo da Cinemateca, Imagens, Abril 1984

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


O que nos fica, finda a leitura deste livro, não é a imagem de um homem fazendo gestos para que o vejam: é a imagem de uma alma segredando aos outros qualquer coisa impossível de calar.

João Gaspar Simões, crítica ao livro As Solicitações e Emboscadas de Mário Dionísio

Legenda: citação tirada da Frenesi Loja

terça-feira, 25 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Nasci para Nascer

Pablo Neruda
Tradução:
Eduardo Saló (texto em prosa)
Mário Dionísio (poemas)
Colecção Estudos e Documentos nº 159
Publicações Europa-América, Lisboa

Nas nossas Américas há achados: em ilhas desabitadas ou selvas irascíveis debaixo da terra depressa se encontram estátuas de ouro, pinturas na pedra, colares de turquesa, cabeças imensas vestígios de inúmeros seres desconhecidos que se têm de descobrir e nomear para que respondam do seu silêncio secular.
Se, numa ilha nossa, se encontrassem as capas sucessivas de Picasso, a sua monumental abstracção, a sua criação rupestre, as suas jóias exactas, os seus quadros de felicidade e terror, os arqueólogos, assombrados, procurariam os habitantes, as culturas que tanto fizeram acumulando jogos e milagres fabulosos.
Picasso é uma ilha. Um continente povoado por argonautas, caraíbes, touros e laranjas. Picasso é uma raça. No seu coração, o Sol nunca se põe.

(Escrito por motivo da celebração, em Paris, do 90º aniversário de Picasso, Outubro de 1971)

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

QUE ME DEIXOU UM POUCO PERPLEXO


Em Amsterdão, Outubro de 1970, António José Saraiva escreve a Óscar Lopes e a dado ponto anda às bicadas ao neo-realismo português:

Provisoriamente a minha conclusão (ainda há autores para ler ou reler) é esta. À excepção do Manuel Alegre (e do O’Neill, se teimarmos em o considerar neo-realista, o que me parece impróprio) não há um ínico grande escritor neo-realista, não há sobretudo um único grande criador literário que tenha inventado alguma coisa de novo em Literatura. Em prosa não há ninguém comparável ao Aquilino, à Agustina, ou mesmo ao Miguéis, ou mesmo ao Torga, ou mesmo à Irene Lisboa, que, sem ser propriamente uma águia, inventou uma maneira nova de fazer prosa. O que não quer dizer que não haja entre eles alguns bons poetas e prosadores: O Manuel da Fonseca, o Mário Dionísio, o Cardoso Pires, o Namora por exemplo (excluo o Carlos de Oliveira, que li agora pela primeira vez, e que me pareceu profundamente inautêntico, a não ser na amargura envenenada). Parece-me que a teoria estética neo-realista não tem culpa disto, porque quando um autor tem génio não há teorias que o limitem.
E não há só uma invenção. Há talvez até recuo em relação a aquisições já feitas. Há um classicismo inquietante no Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, etc. (sem falar na simples ignorância do ofício do redol e outros.
(…)
Para resumir, para o conhecimento do nosso povo rural os neo-realistas nada acrescentaram ao Camilo e ao Aquilino; para o conhecimento da nossa burguesia citadina, nada acrescentaram ao Eça e ao Teixeira de Queiroz, e ficam muito abaixo do Paço d’Arcos.
Há a excepção do Ferreira de Castro, que me deixa um pouco perplexo. Ele não sabe escrever, tem diálogos horrorosos e é muito provável que a obra dele caia no esquecimento por lhe faltar a factura artística que dá perdurabilidade a uma obra. Mas abriu horizontes, chamou à literatura outra temática, e por esse lado tem um grande papel histórico. Mas tenho o palpite que, à excepção do Redol e do Soeiro, os neo-realistas voltaram a fechar o horizonte.


Legenda: Ferreira de Castro

quinta-feira, 5 de abril de 2018

POSTAIS SEM SELO


 A arte nada tem com qualquer espécie de negócio e tudo com o ócio. De que nasce.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

OLHARES


Dedicatória de José Gomes Ferreira em O Mundo dos Outros para Mário Dionísio e sua mulher Maria Letícia, presente na Exposição Passageiro Clandestino que esteve patente no Museu do Neo Realismo de 14 de Maio de 2016 a 26 de Fevereiro de 2017. 
Zé Gomes dizia que o livro talvez já esteja morto e que a única parte viva era o prefácio que Mário Dionísio escreveu, em 1978, para a 7ª edição de O Mundo dos Outros.
A 1ª edição é de 1950. 
Tenho a edição de 1961, Colecção das Três Abelhas das Publicações Europa-América e que por um destes dias ocupará um Olhar as Capas.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Passageiro Clandestino
Catálogo da Exposição Mário Dionísio 100 Anos

Organização: António Pedro Pita e Fátima Faria Roque
Capa: Dulce Munhoz
Edição Museu do Neo-Realismo e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Maio de 2016

A qualquer uma destas circunstâncias sobreleva, todavia, um aspeto: a vinculação política era então profundamente existencial, era uma questão de vida, uma vez que o comunismo e o partido que dele se reclamava dava à vida aos seus militantes, como disse um deles, um destino. A transformação da vida em destino e a inscrição individual na transcendência da história tronam a rutura dolorosa até ao limite – sobretudo, como é o caso de Mário Dionísio, quando é expulso depois de se ter demitido.
Essa mágoa não teve cura. Por isso, quando Álvaro Cunhal ensaia uma reaproximação, logo a seguir à fuga de Peniche, Mário Dionísio refere que todod esse passo o levou a um estado de amargura (…) e de falta de desconfiança talvez definitivo. Nunca mais poderei voltar a ter em ninguém a confiança que tive em pessoas que se mostraram indignas dela. Sem esta confiança não há acção possível”.
Este conjunto de cartas documenta a deceção e a dor. E a esperança difícil de um homem para quem a arte foi sempre um modo sublime de a vida conduzir-se, sempre, a um limiar.

(Do texto de António Pedro Pita tirado do capítulo do catálogo «Correspondência com o PCP»)

quarta-feira, 26 de julho de 2017

COM O SAL BRUXO NAS SOMBRAS


27 de Agosto de 1969

O café do Sr, Cunha fechou – disse-me o Mário Dionísio a quem visitei em Cascais.
Outro!
Café por onde passa o nosso grupo, já se sabe, fecha.
Trazemos o sal bruxo nas sombras.
Nos últimos tempos, que me recorde, lancámos a maldição aos seguintes recintos onde nos reuníamos: Café Chiado, Martinho, Bocage, A Cubana, e, por fim, «a do Sr. Cunha».
Pergunta lancinante do Mário:
- E agora?

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.


Legenda: Brasileira do Chiado, desenho de Bernardo Marques. Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Carlos Botelho, Ofélia Marques, o criado João franco, Sarah Afonso, José Gomes Ferreira, Bernardo Marques e José Bacelar.
«... meus filhos não nada a fazer... Isto é um país de merda!