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sábado, 8 de março de 2025

POEMAS AUTOGRAFADOS


Na Biblioteca da Casa, então situada em casa do meu pai, existiam pouquíssimos livros de poesia. Lembro Bocage, Luís de Camões, José Régio, Cardoso Marta, pouco mais.

Os poetas que nos impingiam nas Selectas Literárias, por onde estudei, eram uma treta.

Em Outubro de 1965, com a cumplicidade do Carvalho, livreiro da então Livraria Clássica Editora, nos Restauradores, no edifício onde era o Cinema Eden, adquirimos a «Antologia de Poesia Portuguesa do Pós Guerra», organizada por Afonso Cautela e Serafim Ferreira, publicada pela Ulisseia na altura dirigida por Vitor Silva Tavares.

 Um ou dois dias depois, a PIDE realizou um raid pelas livrarias e colocou a Antologia «fora do mercado».

 O passar dos olhos pelos poemas da Antologia, deu para verificar que o meu conhecimento da moderna poesia portuguesa era um verdadeiro escândalo.

Falei ao meu pai sobre a necessidade de colmatar, um pouco, essa minha ignorância.

Sugeriram-lhe que o primeiro passo poderia ser  a Colecção Poetas de Hoje editada pela Portugália.

Assim foi.

Sei que todos estes livros, como a grande maioria dos que compõem a Biblioteca da Casa, foram comprados com enorme sacrifício. 

Só o 25 de Abril permitiu alguns desafogos monetários.

Tentei obter uma lista completa dos livros publicados na Colecção Poetas de Hoje, mas não consegui obter essa informação.

Pode ser que tenha procurado mal, pode ser que a idade já não permita grandes caminhadas

O pouco que consegui apurar, deu para verificar que a Biblioteca da Casa não possui obras dos seguintes autores:

Poemas de António Salvado

Obra Poética Saúl Dias

Cancioneiro – Cabral do Nascimento

Poemas de Edmundo Bettencourt

Obra Poética – Cesário Verde

Poemas de Nelly Sachs

Ofício Cantante Herberto Helder

Cantos Cativos Arquimedes da Silva Santos

Poesias de Manuel Bandeira

Memória Descritiva – Ruy Cinatti

Poesias Completas – Adolfo Casais Monteiro

Constituição do Corpo – António Ramos Rosa

Tempo de Orfeu – Alfredo Guisado

Poemas Inactáveis – Raúl de Carvalho

Corpo Terrestre – João Rui de Sousa

Antologia – Sophia de Mello Breyner Andresen

Em alfarrabistas tenho encontrado alguns dos livros que faltam, mas pedem-me preços completamente disparatados. Dou um exemplo: Os Poemas Possíveis de José Saramago:

«Primeiro livro de poesia de José Saramago, e o seu segundo livro.

Sendo este o primeiro título constante da sua bibliografia, embora Saramago já tivesse publicado o romance a "Terra do Pecado".

Colecção "Poetas de Hoje".

Excelente exemplar.

Muito Raro.

500.00€»

A capa de todos os livros da colecção é de João da Câmara Leme.

Cada autor escreveu à mão e assinou um poema que aparece nas primeiras páginas. A Portugália teve o cuidado pedir a outros poetas que apresentassem, em modo de prefácio, o autor e a obra.

Há uma outra ausência, Jorge de Sena, por exemplo entendeu que ele é que faria a apreciação do seu livro «Peregrinatio Ad Loca Infecta» e intitulou o estudo: «Isto Não é Um Prefácio»

Não guardo ideia de qual terá sido o primeiro livro da Colecção que foi comprado. Talvez tenha sido a Poesia III do José Gomes Ferreira, mas será com o livro de Jorge de Sena que esta série de Poemas Autografados começa.

sábado, 15 de julho de 2017

VENDERAM-ME, SUPONDO QUE EU ESTAVA À VENDA


Esta é a última carta de José Saramago, datada de 8 de Novembro de 1971, aquela em que Saramago confirma a Miguéis a saída da editora Estúdios Cor:

Querido Miguéis:

Se um homem vai a passar junto da Torre de Pisa e a torre lhe cai em cima e o esmaga, todo o mundo achará natural, pois a torre já estava inclinada. Até se pensará que há certa beleza em ficar esborrachado debaixo de tão ilustres pedras.
Mas se em cima desse homem desaba, sem aviso prévio, um enorme monte de merda, todo o mundo ficará espantado, pois não são costumeiros tais desabamentos, nem ninguém será capaz de perceber donde veio tão grande quantidade de trampa.
Estas considerações escatológicas têm a seguinte explicação: demiti-me da editora em virtude de me terem criado uma situação vexatória, qual seja a demissão de um novo director literário (Natália Correia), imposto pelo grupo financeiro que tomou posição na firma.
Tudo isto se passou na minha ausência de férias (entre 15 de Outubro e 2 de Novembro), e depois de ao longo de anos se ter dito aqui, em todos os tons, que nunca se quereria um director literário realmente director. E quando a questão foi posta aos Srs. Canhão e Correia, estes senhores não tiveram a coragem moral mínima de defenderem a minha posição aqui dentro, o meu trabalho de quinze anos. Aceitaram tudo a troco do prato de feijões. Venderam-me, supondo que eu estava à venda. No que se enganaram.
Aliás, tudo isto já vem de longe. Por alguma razão as suas cartas têm caído num poço de silêncio. Tenho-me recusado a tratar de certos assuntos enquanto toda a minha situação na editora não fosse esclarecida de vez. Acabou por sê-lo agora, em termos que, confesso, não esperava. Porque a safadeza ainda foi maior que a minha ingenuidade.
Saio no dia 31 de Dezembro para entregar, com tempo, os assuntos noutras mãos, mas foi a partir do dia 3 de Novembro que deixei de tratar de qualquer questão para além do que considero ser minha estrita obrigação. Outras pessoas comunicarão consigo para tratar dos seus assuntos.
E é tudo. Se no dia em que daqui sair não tiver ainda (já) outro emprego, começo o ano da estaca zero, completamente desprovido. Mas continuo a ter uma grande consideração por mim mesmo.

Em Correspondência

quinta-feira, 6 de julho de 2017

DA PRIMAVERA MARCELISTA


Carta de José Saramago, datada de 16 de Dezembro de 1968, para José Rodrigues Miguéis:

Notícias daqui, não há muitas para dar. No fim de contas, os jornais dizem tudo… Após a ilusão de alguns, veio a desilusão de todos. Por mim, que tenho diploma de céptico, isto não tira nem põe. (…)
De mim, propriamente dito, também não há muito que dizer: é o jornal, é a editora, e entre estes dois pólos vai vivendo o meu descontentamento. Bem gostaria de tirar o corpo da engrenagm, mas já não é possível: vou defendendo a alma conforme posso, mas essa mesma já se vai descobrindo comprometida. A chamada vida prática tem muitas exigências.
Espero as suas notícias. E peço-lhe que não faça caso da aridez desta carta: ontem deu-me para recordar o meu avô camponês – e fiquei assim: amargo. Felizmente para a literatura portuguesa deu crónica… Manha de literato, defeito de escriba: tudo acaba por se transformar em literatura…

quarta-feira, 28 de junho de 2017

ESTAS CRÓNICAS SÃO DE UM POETA



Em carta, datada de 3 de Julho de 1968, José Saramago informa José Rodrigues Miguéis que lhe vai enviar as crónicas, publicadas em A Capital, posteriormente inseridas e Deste Mundo e do Outro, e diz:

Segundo o que entendo, estas crónicas são qualquer coisa de novo na nossa terra.
Aguardo com interesse o seu juízo.

Em carta, datada de 24 de Julho de 1968, Miguéis dá o seu instigante e esplendoroso «juízo» sobre as crónicas:

Devolvo-lhe hoje as crónicas (como suponho V. esperava) com muita pena de não me sentir mais eloquente e explícito – arrasado que estou de Verão e apoquentações. Verá em algumas delas as anotações a lápis, que fiz à margem ao lê-las e não apaguei. Desculpe. As suas Crónicas são excelentes, por vezes óptimas, e sempre de leitura absorvente; novas ou pelo menos raras no nosso ambiente de doutrinas e castanhas piladas; sem retórica de jornal nem prosa de encher. Justas. Embora seja difícil manter-se todas as semanas ao nível do ter-carradas-de-talento, então com a vida que Você leva, nunca (até aqui) cai no fácil, no corriqueiro, no sentimental de bairro: e isto em Lisboa-Portugal, onde o Assunto é, como diria a Dona Rosa, «aves-rara»! Você consegue sempre evitá-lo, mesmo nos quadros de rua (Amolador, Cego do harmónio, etc.). Por outro lado, as notas rústicas (Alice, Sapateiro, Cair no céu, etc.) são sempre duma justeza e flagrância (e fragância) de evocação: e sem Rusticidade. (Fala do campo, das águas e das flores como quem os conhece de dentro.) Consegue sempre ser simples (que é o mais difícil) dentro da complexidade do seu estilo de poeta, pela visão e pela linguagem: algo críptica (como é devido!) mas sempre sugestiva e tão visual, e em geral risonha. Estamos desabituados desta feição especulativa e acentuadamente literária… sem «literatura». O curioso é que o seus factos, pessoas e ambiente resultam sempre mais reais (ou realísticos) através da névoa Chagalliana de cores, formas e movimento, e integrados. Porque Você desenha e colora a escrever! (Cito: «… volatilizado no interior do sol atómico». Incisivo, justo e pictural!) Ao invés dos nossos cronistas e comentadores sentenciosos, que tudo vêem (?) através dos vidros defumados de doutrinas mal digeridas, V. tem uma «filosofia» que, sem ser optimista, antes levemente céptica, amarga e protestante, nos leva a crer e a agir: «desanimar e recomeçar até chegar ao ponto onde o arco-íris tem a primeira raiz.» Isto, além de afirmativo, é belo (Desculpe). É claro, há sempre o perigo de nos deixarmos arrastar pela Prosa – mas, como eu disse do Herberto Helder, «os autênticos Poetas são de uma disciplina severa!»

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A CRISE CONTINUA,. TALVEZ PIOR



Um desabafo:

A crise continua, talvez pior. Desencanto, desânimo, velhice, contrariedades, e que sei eu. Cheguei à beira de uma decisão – a de não continuar a escrever ou a publicar: escrever para mim é relativamente fácil, mas pôr ordem nas ideias e frases é um calvário. A impaciência dos velhos!...

José Saramago terá sondado Miguéis para que colaborasse em A Capital, vespertino dirigido por Norberto Lopes e Mário Neves depois de terem deixado o Diário de Lisboa.

Assim conta Miguéis:

Não lhe posso dizer em pormenor porque recuso o seu convite a colaborara n’A Capital: é um problema entre mim – a minha ética – e o Mário Neves. Este, logo que leu o meu artigo de Janeiro no Diário de Lisboa, escreveu-me uma longa e lamentosa carta («este seu pobre amigo,» etc.): que eu o tinha abandonado e estava servindo de bandeira aos seus inimigos. Ora nem ele me procurou em Lisboa (eu telefonei-lhe em vão algumas vezes) nem me convidou para o novo jornal. Levei dez dias e 20 folhas a responder-lhe amigavelmente, e no fim mandei-lhe uma curta carta a prometer explicar tudo em Lisboa, e sacrifiquei-lhe a minha colaboração no DL para não o melindrar. A verdade é que o DL me ofereceu, e pagou, 20 dólares pelo artigo, ou seja DOIS dias de vida em N. York, onde há quase 4 anos não ganho um centavo. Se me calei (embora a decisão não seja definitiva) é porque não quero agravar mais o boicote de que estou sendo vítima, o silêncio que as chamadas «esquerdas» fazem à minha volta: despeito, inveja, necessidade de inventar «inimigos», etc. É positivo (isso lhe disse) que, se não colaboro no DL, também não o farei n’A Capital. Ele não respondeu, e não recebi o jornal: só dois expls trazidos por alunos de português da Camila. Achei-os pindéricos, lamentável. Da sua colab, diz-me Você: «Como sabe estou na…» Como havia de saber!? V. só me tinha escrito as suas (más) impressões do jornal. Depois disso Mário Sacramento instou-me (em nome do DL) a escrever para este; pedem-me colaboração para o Comércio do P., e o poeta Eugénio de Andrade, que estimo muito, quer um trecho sobre o Porto para um livro de… Saudades do Porto (suponho). Recuso ou não respondo. Comemorações, Necrológios, Homenagens… O que me apetece é escrever o tal panfleto contra Tudo-e-Todos, a desmascarar as hipocrisias e conformismos dos nossos Inconformistas… E este polemismo que me anda cá por dentro às cambalhotas, paralisa-me e esteriliza-me. Chiça! Antigamente eu trabalhava duro pelo meu pão, pensando no Futuro, e escrevia quando, como e o que me apetecia; agora tornei-me um escravo disso. Quando saio, largando os papéis, sinto-me outro, respiro fundo. Chiça e rechiça, três vezes chiça!
(…)
Das minhas razões morais para não colaborara só lhe direi quando as tiver exposto ao Mário Neves. Estes sujeitos que se dizem «liberais» (e fazem rios de dinheiro à sombra disso) vêm coarctar a minha liberdade de escrever onde me apeteça, e impedir-me de ganhar uns magros centavos indispensáveis, numa crise com a que atravesso… Um dia rebento com eles… ou rebento comigo. Tudo isso lhe rogo fique entre nós. Não gosto de me explicar por interposta pessoa. Vê agora o que me força ao silêncio? Não entro na Academia dos Elogiosos…

Miguéis tinha uma velha amizade com Mário Neves que sempre lhe foi publicando contos e outros textos enquanto dirigiu o Diário de Lisboa.

No livro que escreveu sobre a Vida e Obra de José Rodrigues Miguéis, Mário Neves não refere este desentendimento que, suponho, terá sido resolvido numa posterior conversa havida entre os dois.

Para isso aponta alguma correspondência, publicada em Apêndice do livro, em que ressalta a cordialidade, respeito mútuo e amizade que continuaram a nutrir um pelo outro.

Legenda: reprodução de um exemplar de A Capital tirada do blogue Ainda Sou do Tempo

quarta-feira, 31 de maio de 2017

ONDE É QUE TINHA A CABEÇA?


Continuamos com a carta, datada de 8 de Maio de 1967, que José Saramago enviou a José Rodrigues Miguéis.

Depois de lhe comunicar que esteve uns dias em Paris avisa que vai mudar de registo e escreve:

Sabe que fui promovido a crítico literário? E da Seara, ainda por cima, que é coisa fina. Eu conto: Aqui há meses telefona-me o Costa Dias a dizer que queria falar comigo. Que era, que não era, e vai daí vem o convite. Abri a boca de puro pasmo. Encontrámo-nos, e eu, honesto e perplexo, modesto e desconfiado, dou as minhas razões Contra: falta de preparação e de grau universitário, pouco tempo disponível ou nenhum, independência ideológica, etc., etc. A nada o Costa Dias se moveu. Que eu sou um sujeito assim, que eu sou um sujeito assado, e por aí fora. Acabei por aceitar. E lá estou. Veremos por quanto tempo. É que, de mim para mim, assentei que à mais pequena pressão ou torcidela de nariz, tiro de lá os pés. Para o último número, escrevi duas críticas, uma das quais a Censura deitou abaixo. Bom princípio.

Num texto publicado, 29 de Outubro de 2010, aqui no Cais do Olhar, fazíamos um pequeno apanhado das críticas que Saramago escreveu para a Seara.

Copiamos esse apanhado:

José Saramago publica a sua primeira crítica na “Seara Nova” no nº 1459 referente a Maio de 1964, e a última aparece no nº 1476, referente a Outubro de 1968.

Numa crítica a “O Ser e o Ter” de José Marmelo e Silva, e publicada na “Seara Nova” nº 1472, referente a Junho de 1968 escreve:

“José Marmelo e Silva há-de vir a dar muitas dores de cabeça aos historiadores da nossa literatura. Entretanto, vai incomodando os críticos encartados ou aqueles que, como nós, sem carta nem diploma, vão fazendo o que podem para dar conta do que lêem aos leitores de boa fé.”

José Saramago, para além das acima referidas, colocou como “assustada condição” não fazer crítica de livros de poesia.

Enquanto crítico da “Seara Nova” debruçou-se duas vezes sobre livros de Agustina Bessa Luís:  “As Relações Humanas” e  “Homens e Mulheres”. Numa chamou “génio” a Agustina, noutra disse que Agustina “corre o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”

Quem não achou piada alguma à história foi José Gomes Ferreira, possivelmente, por entender que José Saramago seria a última pessoa no mundo a chamar “génio” a Agustina Bessa Luís. 

A 2 de Janeiro de 1968 escreve José Gomes Ferreira no 4º volume dos seus “Dias Comuns”:
“Quase todos os críticos têm chamado génio a Agustina Bessa Luís (verdade seja que alguns depois se arrependem; Gaspar Simões, Óscar Lopes, José Régio, sei lá quantos).
Agora, chegou a vez ao Saramago que, no último número da “Seara Nova”, não resistiu a proclamar: “como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vã esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?”

Abordando um outro livro, “Eva” de Sá Coimbra, Saramago considera-o, entre outras coisas, “uma oportunidade perdida” O autor (”sou um homem do foro e estou habituado à análise critica das provas antes de condenar…”) dirige-lhe uma carta querendo saber dos porquês da análise de Saramago. Na volta o crítico diz: “Valerá a pena responder? Então se eu tenho chamado obra-prima ao livro de Sá Coimbra ele perguntar-me-ia também porque?"  Acaba por colocar o seguinte ponto final na história:

“O ponto final é mesmo um ponto final. Tenho outras críticas a fazer (mas valerá a pena?) e Sá Coimbra outros romances a escrever. Marco um encontro a Sá Coimbra para daqui a vinte anos. O mais certo é estarmos ambos esquecidos. Não nos demos, pois, demasiada importância…”

A última crítica de José Saramago na “Seara Nova”,  aborda dois livros: “O Despojo dos Insensatos” de Mário Ventura e “O Delfim” de José Cardoso Pires.

Sobre a crítica ao livro de Cardoso Pires há-de escrever, a 22 de Julho de 1994, um texto que consta do Vol. II dos “Cadernos de Lanzarote”:

“Agora eis-me perante os fantasmas de opiniões que expandi há quase trinta anos, algumas bastante ousadas para a época, como dizer que Agustina Bessa Luís “corre
o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”. Apesar da minha inexperiência, e quanto sou capaz de recordar, creio não haver cometido grossos erros de apreciação nem injustiças de maior tomo. Salvo o que escrevi sobre “O Delfim” do José Cardoso Pires: muitas vezes me tenho perguntado onde teria eu nesse momento a cabeça, e não encontro resposta…”

Hoje, relida a crítica, percebe-se o espanto de Saramago ao” não saber onde tinha a cabeça” quando se debruçou sobre “O Delfim”.

Conhecendo-se o Saramago de então, não é fácil encontrar motivos para não ter entendido (?) o que Cardoso Pires queria com o livro.

Só Saramago nos poderia responder, e nunca o fez claramente.

Uma boa altura para lembrar o estafado "ninguém é perfeito!" 

sábado, 20 de maio de 2017

NÃO HÁ POVO COMO O PORTUGUÊS


Carta de José Saramago, datada de 8 de Maio de 1967, para José Rodrigues Miguéis:

Leva uma pessoa quase uma vida a sonhar com Paris, e depois chega lá, olha em redor, vê o Sena que é assim a modos que o Tejo visto do outro lado do binóculo, e murmura, decepcionado: «Afinal é só isto?» Pois é, é só aquilo. Duas horas depois, porém, começa a sentir-se que a cidade vai entrando, e daí a nada levantamos a bandeira branca: rendição! Foram quatro dias de re-descoberta, que é aventura bem melhor que a descoberta. Vi o que era possível ver em tão pouco tempo e andei quilómetros de enfiada, ali, a pé. Imagine se eu ia perder uma passada que fosse… Ficou-me foi a ideia fixa de voltar…
Mas descobri uma coisa muito séria: é que nós, portugueses, somos, afinal, um excelentíssimo povo! Talvez eu esteja enganado, mas não creio que os franceses (ou os parisienses) mereçam a cidade que têm. Aquilo pode ser a douce France, mas o povo é que não tem nada da tal douceur de vivre tão apregoada. Ponho-me a pensar que grande troca seria pôr em Paris os alfacinhas e em Lisboa (vá lá) os parisienses. Faziam-se duas grandes cidades… A sério: ou eu estou muito enganado, ou não há povo como o português. Apelo para a sua experiência de vagamundo. Estou errado?

quarta-feira, 19 de abril de 2017

DE QUEM LHE ROUBARAM O QUE NÃO TINHA


Nos começos de Maio de 1963, desde Nova York, José Rodrigues Miguèis escreve a José Saramago:

Posso dizer que esta é a 1ª carta que escrevo desde que aqui cheguei (a 5 de Abril): ao devolver provas à Seara, mandei uma curta nota ao Dr. Rogério Fernandes. Nem as condições em que parti, nem aquelas em que me encontro – sem apartamento até Julho,  possivelmente sem perspectiva de trabalho remunerado, e sobretudo num estado de espírito de quem lhe roubaram o que não tinha! – são de molde a consentir que a mão cumpra o dever de escrever – seja o que for! Mas basta de divagações…
«Há sempre outros céus!» - escrevi eu em 1935; e o José Régio diz que «há mais mundos»… (que ele não descobre, mas enfim!)
Das minhas janelas (um 9º andar desafogado, em Brooklyn) vejo todo o perfil da parte baixa e média de Manhattan, com os seus arranha-céus, e as duas pontes inferiores por onde corre dia e noite o rio do tráfego: mas, não sei porquê, N. York perdeu para mim todo o glamour e mistério que tinha. Tem chovido quase sempre. E apesar do cinema, do ballet, dos teatros e concertos (quem tivesse dinheiro para gozar tanta riqueza!...) sinto-me longe de tudo, inútil e estéril. Aos 62 anos não é fácil viver sem perspectiva de vida pessoal.

Saramago responde a 1 de Junho e diz-lhe:

Não me surpreende o seu estado de espírito. Este nosso Portugal é afinal tudo quanto temos. Por mim, sei bem que não poderia viver fora desta «desgraça». Talvez masoquismo (vai com z, como quer o nosso Severiano), gosto de sofrer, o diabo!

José Rodrigues Miguéis/José Saramago em Correspondência

quinta-feira, 30 de março de 2017

QUASE NINGUÉM ME ESCREVE



As amarguras do exilado José Rodrigues Miguéis, percorrem as diversas cartas que escreveu a José Saramago, enquanto editor da Estúdios Cor.

Findar de carta datada de 26 de Abril de 1961:

Só me arrelia saber que vou esperar agora mais UM MÊS pela sua próxima carta! É que quase ninguém me escreve: sinal dos tempos ou temporais.

Esperou mais de um mês.

Saramago escreve-lhe no dia 12 de Maio, outra carta a 26 do mesmo mês, mais uma a 30 de Junho. Miguéis responde a 3 de Julho, curta carta de Saramago a 31 de Julho, dando conta da venda dos livros de Miguéis e o envio de um cheque de 4 contos referente a direitos.

A 15 de Agosto escreve Miguéis:

Enquanto o avião vai e vem, folga o ocioso (EU) – Não lhe escrevo (raio de penas!!) para lhe forçar a mão a escrever-me pois bem imagino o que é a sua vida de trabalho. No entanto, neste violentamento cada vez maior e (pior), e no desgosto dos acontecimentos que me fazem sentir tão profundamente inútil como escritor – quanto como (ex-) homem de acção – sempre que me ocorrem ideias gosto de as lançar ao papel, amigo passivo e silencioso.

Mais um desabafo, no findar da carta:

Ainda haverá esperança para este desgraçado país? Quantos cadáveres passando por vivos! Espectros – nem sequer ibsenianos! – Quase ninguém me escreve, nem eu escrevo: isolado no corpo e no espírito. Mas inda resta em mim um pouco da vocação de Mártir…

Um mês depois desta carta, Miguéis entra sem paninhos quentes:

Como imagino de longe a COR muito corada de vergonha pelo abandono a que me tem votado, resolvi interromper o meu silêncio para os tirar do embaraço! Que se passa? Continuam a reorganizar o escritório? Viajam? Gozam férias? Arrepelam-se de crise? O calor dissolveu-os? – Os últimos cheques, com carta chegaram a 4 de Agosto. Todos os dias abro a caixa do Correio na esperança de notícias, uma palavra animadora, talvez um cheque – embora este último me chegue a parecer menos importante, apesar da situação em que vivo. (Tive de aceitar um trabalho técnico para obviar as despesas correntes, e cobrir o prejuízo do roubo de que fomos vítimas no domingo 30 de Julho: assaltaram a na/ casa, durante a n/ ausência, e roubaram-nos roupas (4 fatos meus), relógios, rádios, as poucas joias de minha mulher, etc. – ao todo algumas centenas de dólares; além dos estragos e despesas que fizemos a pôr fechaduras e trancas – depois da casa roubada…)

A 22 de Setembro, Saramago dá notícias, sinceras:

Oh, quão corado estou, realmente! De todo este mau proceder, bem me parece que sou eu o maior responsável. Da falta do envio das «massas» e do resto. Das «massas» porque tendo o Canhão e o Correia ido para férias, eu não tomei as devidas providências necessárias para que a conseguida regularidade de pagamentos não sofresse interrupção. Do resto, da falta de notícias tout court, devidas por todas as razões, que mais não fosse para o acompanhar nesse tremendo aborrecimento do roubo, ainda mais responsável sou. Mas caí naquela atitude cobarde de quem para não ter que dar uma explicação (aliás inevitável) acaba por agravar a situação. De tudo peço que me desculpe, ainda que reconheça que tem boas razões para estar magoado comigo.


Legenda: José Rodrigues Miguéis, desenho de André Carrilho

segunda-feira, 13 de março de 2017

NEM SEQUER ESTREBUCHAMOS


Essa sede de notícias, bem a compreendo. Mas o pior é que não as há. A inconsciência em que se vive em Portugal, seria enternecedora se não fosse trágica. E de tal modo que vista aqui de dentro a situação, apesar dos gritos de alarme de fora, passam-se os dias, soalheiros ou chuvosos, como se tivéssemos lido no livro do destino o próspero futuro que a Senhor de Fátima tem prometido a Portugal. Graças ao terço que todos nós, duma maneira ou doutra, vamos rezando. Nunca nação nenhuma caminhou para o abismo com tamanha indiferença. Nem sequer estrebuchamos. É claro que acabaremos por abrir os olhos, mas isso será já na queda, quando já nada nos puder salvar.

Carta de José Saramago, datada de 26 de Maio de 1961, para José Rodrigues Miguéis em Correspondência.


Legenda: imagem Pinterest

domingo, 5 de março de 2017

O DIREITO A TER SONHOS PRÓPRIOS


Raul Brandão é um dos escritores abordados na troca de Correspondência entre José Saramago e José Rodrigues Miguéis.

José Rodrigues Miguéis, carta datada de 10 de Abril de 1961, informa que mandou para a Gazeta Musical e de Todas as Artes, um artigo sobre Raul Brandão.

Em carta, datada de 12 de Maio de 1961, Saramago escreve:

Espero com o maior interesse o seu artigo sobre o Raul Brandão, que é uma das maiores e mais velhas admirações minhas em literatura. Um livro como Húmus, por exemplo, como é possível que tanta gente o ignore? Não percebo, palavra. Falava o Régio, já aqui há tempos, no mau gosto de certas passagens. Bolas! Sempre gostava que me dissessem onde há, nos livros do Régio, às vezes de uma pieguice muito professor-de-liceu-em-cidade-da-província, algo que iguale em ternura aquelas «mãos como cepos» da Joana, dessa criação única da nossa literatura que é a mulher da esfrega! «Há sonhos humildes que ninguém quer sonhar: servem à Joana que quando os usa os vira do avesso.» Quantas vezes exprimiu assim a frustração um escritor português, uma frustração que nega até o direito a sonhos próprios?...

E em outra carta, datada de 30 de Junho de 1961, Saramago volta a Raul Brandão:

Saiu a Gazeta, dedicada ao Raul Brandão. Esperava outra coisa. Evocações a mais, e não o estudo lúcido que venha pôr Raul Brandão no altíssimo lugar que lhe compete. O Joel Serrão tê-lo-á tentado, mas falta-lhe sensibilidade e também audácia de dar às coisas os seus nomes: Raul Brandão é dos maiores criadores (não digo escritor) da nossa literatura, se não estou enganado, como diria António Sérgio, ou o seu discípulo Rogério Fernandes (no estilo, entenda-se). Por mim, penso que Raul Brandão é um dos nossos pouquíssimos escritores merecedores de exportação.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

JARDIM À BEIRA-MORTE PLANTADO


Que ideia a sua de cuidar que eu andaria aqui embezerrado, a rilhar enfados e malquerenças! Que grande engano o seu, se o pensou. Os nossos arrufos passavam-se num plano a que se pode chamar «técnico», o qual plano nada tem que ver com o calor da boa e funda amizade que lhe consagro. Fica é entendido que quando o autor-Miguéis tiver qualquer motivo de queixa, por mais insignificante que seja ou pareça ser, rapa da portátil e põe ali, preto no branco, enquanto tiver de ser, os seus agravos. Cã estão os amigos-editores para os escutar e atender. E encerrado o incidente, passo ao restante.
Já cá tinha lido a denúncia miserável do miserável Anselmo. (*) Teria ficado edificado, se o não estivesse há muito quanto à função policial por este «escritor» exercida. Bem compreendo a vontade de voltar que essas coisas lhe estarão dando… Isto por cá está tão podre, meu Amigo, tão triste e tão mesquinhamente pobre! Agora já nem da fachada se cuida: como eu dizia há tempos em carta ao Jorge de Sena: «vive-se num jardim à beira-morte plantado…» em constante incerteza e insegurança, num temor que corrói tudo – a começar pelo futuro. Será que conseguiremos sobreviver? Como lugar geográfico, naturalmente, mas como povo? Que lugar ocuparemos no mundo daqui por cinco, dez anos? Põe-se a gente a imaginar, e o que imagina dá vontade de fugir.

Carta de José Saramago para José Rodrigues Miguéis, datada de 12 de Maio de 1961 em Correspondência.

(*) Trata-se de Manuel Anselmo e de um episódio relatado por Miguéis, em carta para Saramago, datada de 10 de Abril de 1961:

A casa onde moramos, aqui, vais ser finalmente demolida dentro não sei de que prazo, e temos agora a apoquentação duma mudança – com rendas ao dobro! (Era uma casa velha, vasta, de renda fixada por lei.) Basta isto para me desorganizar o trabalho. Foi uma das razões que cá me trouxeram, porque minha mulher, cidadã americana, tem de ter domicílio aqui estabelecido, se quiser residir em Portugal sem perder a naturalização USA – Não sei se sabe que o gatuno encartado Manuel Anselmo acaba de me denunciar (mais uma) no último dos seus Cadernos periódicos: reproduz uma notícia do Avante de 1941, extraída dum jornal americano, sobre um discurso que eu fiz aqui, nesse a ano a respeito da invasão da URSS pelos alemães. Falei ao lado de professores da Harvard e de líderes trabalhistas. Já se vê onde ele quer chegar – atingir o escritor através do homem… de há vinte anos. Estão-me a fazer a cama, e isto dá-me imensa vontade de voltar…

Legenda: fotografia tirada do Catálogo da Exposição comemorativa do centenário do nascimento de Miguéis, 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

MAS DESANIMAR, ISSO NÃO!!!


A carta que a seguir se transcreve, de José Saramago para José Rodrigues Miguéis, gira à volta de considerações sobre a publicação, pela Estúdios Cor, de A Escola do Paraíso, no Natal de 1960 - «Estamos a trabalhar em grande estilo para que A Escola do Paraíso seja o seu presente de Natal ao leitor português», prometera Saramago a Miguéis.
Numa nota de rodapé desta carta pode ler-se: Miguéis escreve por cima «é romance». Sabemos, no entanto, que críticos como Óscar Lopes, por exemplo. Disseram não ter lido A Escola do Paraíso como um romance, o que desagradou a Miguéis.

Carta datada de Lisboa 14 de Outubro de 1960:

Acha realmente aconselhável, ou conveniente tirar do livro a designação «romance»? Pois não será ele um «romance» que é, ao mesmo tempo, um «panorama de uma infância lisboeta»? Pelo que vejo, os meus reparos provocaram-lhe um problema de classificação que não me parece justificável nem estava no meu intuito levantar. Romance é – e como tal será publicado e lido. E não queira saber da bitola dos críticos peguilhentos, no número dos quais, neste caso, me incluo…
E então esse ânimo que se diz vacilante e desesperançado? Tirando os casos da sua vida que, como diz, o estão atormentando de indecisões, e digo tirando porque esses são o nosso tributo de homens que mil prisões tolhem e limitam – que outra coisa se pode esperara desta miséria rasteira e indigna que a si mesma vaidosamente se chama «a intelectualidade portuguesa»? Em Portugal, os bons e os puros não podem trabalhar para, mas sim contra. Trabalha-se para num país são, arejado, vivo, num país como está o nosso, só se pode trabalhar contra: contra a hipocrisia, contra a maldade que se oculta e fere sob a capa da mansidão e da amizade. Mas, pensando bem, esta terra sempre assim foi: e esse é que é o verdadeiro «mal português», a formiga branca que nos rói as energias.
Às vezes dá ganas de desanimar, isso dá. Mas faça a sua obra, deixe-os rosnar e morder, ignore-os. Lembre-se de que é só para o leitor que escreve, esse leitor que, no outro dia no comboio, enquanto eu revia as provas da Escola, lia no banco da frente a Léah - «O Natal do Dr. Crosby»… este é que é o sujeito-de-boa-vontade-gosto que deve interessar-lhe acima de tudo. O resto são os oficiais do mesmo ofício, é a inveja, é o prémio Camilo Castelo Branco que ainda não acabou de passar na garganta de certas pessoas, é o escritor «americano» que vem tirara o lugar aos que cá estavam e viviam na suave e inefável contemplação do próprio umbigo, é a safadeza, a pulhice, a velhacaria que dá palmadas no ombro e punhaladas nas costas.
Sus, cavaleiro, ao infiel! E se o não puder derrubar a lançadas, dê-lhe com a lombada da Escola! Mas desanimar, isso não!!!
O Canhão está apurando contas, a ver em que ponto está o «deve e haver» da nossa contabilidade consigo. Breve receberá notícias e dólares.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

MAS HÁ OUTRAS RAZÕES


Carta de José Saramago, datada de Lisboa, 29 de Janeiro de 1960, para José Rodrigues Miguéis em José Rodrigues Miguéis/José Saramago Correspondência:

Meu caro Amigo

Ouso crer que no meio dos seus mil afazeres (só a Escola do Paraíso valerá por 999), não lhe terá passado despercebido o meu silêncio. Uma gripe seguida de uma pequena pneumonia secou-me a veia epistolar e a tagarelice e reduziu-me à triste condição de acamado, com suores na fronte e frio mos pés. Misérias desta nossa máquina que uma simples dor de dentes arruma no sótão das velharias!
O nosso amigo Canhão substituíu-me nas notícias escritas, mas uma omitiu por supor que eu já a tinha dado: a recepção, a tempo e horas, do Passageiro do Expresso, Ainda não lhe tocámos, embora eu já o tenha lido. A sua ironia deixa a escorrer sangue meia dúzia de mentiras sociais, daquelas que vão embaraçando a vida da gente. Aquele pastor de almas que foi pelo testamento é que me parece sangrento de mais para o Santo Ofício destes sítios. O mais prudente, de facto, será cortar. Pessoalmente, eu sou pela publicação total de tudo, mas há outras razões, um pouco envergonhadas, sim, mas ponderosas. Uma apreensão faria mal a todos nós.
Conto que em breve possamos iniciar a composição. Quanto à apresentação do livro, bem estudadas as coisas, afigura-se à equipa da COR que o Meia Cara abriu um caminho que deve ser continuado. É a sai colecção, aquela que acolherá o que a Latitude não puder receber. Talvez se use um papel menos bom, mas nas linhas gerais será o mesmo estilo. Publicada isoladamente, com outra vestimenta, pareceria o princípio de nova colecção e o tempo não vai – ainda que o contrário pareça a uns tantos Gallimards cá da terra – para colecções novas. Seja como for, verá que gostará do seu Passageiro quando ele desembarcar…
A Escola, quando abre? A 3ª edição da Léah sai de capa envernizada, toda trique-à-beirinha, de cinta flamante lembrando o prémio e informando o passante de que é 7.º, 8.º, 9.º e 10º milhares. Um best-seller!
Conto em breve ser mais prolixo. Até lá, fica um abraço do seu dedicado amigo e admirador


                                                                  Saramago

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

SARAMAGUEANDO



Carta de Saramago, datada de 22 de Setembro de 1960:

Já temos saudades suas. Quando volta? E a saúde, como vai? As suas cartas dão-me a impressão de um certo desconforto físico e talvez moral. Se assim é, faço votos sinceros por que depressa seja vencida essa crise. Não lhe peço que se confesse, evidentemente, mas conte-me no número de pessoas a quem os seus pesares ou alegrias tocam de muito perto. Ainda dizem que «longe da vista, longe do coração»: pois eu hoje sinto-me mais seu amigo de que no dia da sua partida

Carta de Miguéis para Saramago datada de 12 de Janeiro de 1961

Caí há dias das nuvens (e ainda não parei de cair) ao receber o exemplar encadernado da tiragem especial! («Escola do Paraíso», nota do editor). Não fazia ideia nenhuma de que projectavam esta grata surpresa, que o nosso contrato não prevê, e demonstra uma coragem considerável da vossa parte. A capa está interessantíssima, melhor até que a da Léah III, e tecnicamente mais bem acabada. Peço-lhe que me dê esclarecimentos, poi o volume não traz indicação (ao contrário da Léah especial) de tiragem, assinatura de autor, numeração, etc. Bem sabe que eu sou mais partidário da Perfeição que do Luxo!, e desejo estar ao alcance do público menos abastado: é o que me preocupa quanto á farsa, que em comparação com a Escola, custa muito mais cara. E por sinal, ainda não sei por que se vende: o contrato não indica o preço, e este não vem na capa.
(…)
Diga-me, pelas suas alminhas, como vão saindo os livros, a reação dos leitores e jornais, e o mais que se lhe oferecer. Se fazem já a segunda edição da Escola, quantos exemplares vão tirar? Como isto alterou os termos do contrato quero mandar-lhes a carta nele prevista para a reedição. Brevemente voltarei a escrever. As ofertas aos sábios críticos são do vosso cuidado – eu só faço as pessoais: - desculpem! Diz-me o castro Soromenho que a Arcádia vai adoptar a foto-offset ou coisa parecida para as reedições.

domingo, 2 de setembro de 2012

SARAMAGUEANDO



Mais um passar de olhos pela Correspondência trocada entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago.

Numa carta datada de 31 de Maio de 1960, Miguéis lamenta-se amargamente:

Não recebo uma palavra dum amigo! – Em Portugal estar ausente é estar esquecido.

Saramago entende a tristeza do amigo, e a 7 de Junho  escreve-lhe:

As paredes da sua casa, aí, devem tê-las ouvido das boas a meu respeito! E com carradas da razão. Que silêncio é este? que se passas nos Estúdios Cor? que é feito do Saramago que perdeu o pio? E vai-se procurar os motivos e que encontra? Nada, ou antes, mil e uma pequenininhas coisas, todas igualmente significantes, mas que juntas fazem uma rede capaz de amansar Hércules – o dos doze trabalhos.

Se realmente vem em meados deste mês (e oxalá venha, que já tarda) esta carta vai encontra-lo em preparativos de partida. Não importa. Não vou deixar escapara esta oportunidade de vestir a pele de crítico, a mais sovada e dura pela da Criação.

Nesta longa carta, Saramago fala da Escola do Paraíso, de que acabara de ler o manuscrito,  e no final da carta, releu o que escrevera e conclui que não disse metade do que teria para dizer.

Que é, cá no meu fraco entender a Escola do Paraíso? Um prodigioso inventário, já o disse. Todos vão procurar «o» romance no seu livro – e não «o» vão encontrar. (Como «o» não encontrar na Recherge du Temps Perdu.) E esse será o seu grande «crime». Porque nada mais atrapalha as pessoas de índole classificador (e sabemos bem quanto os lusos são dessas tais), que não saberem onde meter a ficha a que sempre reduzem as obras de arte. Por mim, confesso que até um terço do livro me senti dérouté: a todo o momento me parecia ter um fio condutor na mão, e logo, ele se partia, substituído imediatamente por outro que também me levava longe. E a minha franca admiração por si perguntava, desolada: «Aonde quer chegar este homem? isto é partida que se faça ao leitor de boa fé (ou má) que compre o ‘romance’?» Até que percebi, ou melhor, até que encontrei a «minha» explicação: a Escola é uma exploração da memória, levada telescopicamente ao infinito, desdobrando-se e repartindo-se em todas as direcções, passando e repassando infatigável, até restituir em cor e sabor, em som, tacto e olfacto (todos os cinco sentidos) uma época, um estilo de vida, um conjunto social que não se extinguiram de todo, apesar dos cinquenta anos decorridos, de duas guerras, vinte revoluções e trinta-anos-de-cultura.

 Quando acertei a minha rota pela sua agulha (ou o que eu suponho ter sido a «sua» agulha), o constrangimento e o embaraço sumiram-se, e eu desci consigo à investigação minuciosa e apaixonada do tempo da «sua» infância. E embora uma adolescência nos separe (eu tenho 37 anos), descobri na minha memória inúmeros ecos da sua. Eu conheci algumas pessoas «assim», houve ruas, jardins e quintais comos os seus na minha infância. Em cada página me acontecia um sobressalto de ressurreição, e momentos houve em que o autor do livro (não sorria, por favor) era eu e ninguém mais… Cheguei ao fim como quem termina uma viagem que não devia acabar, porque as terras da memória estão sempre por descobrir, porque o «inventário» nunca está terminado.

Já disse: a carta é longa, mas arrisco, ainda, este pedacinho sobre o entusiasmo de Saramago perante o extraordinário livro de Miguéis:

Que se pode dizer do seu estilo que não esteja dito já? Somente que me pareceu mais vivo e mais alerta que nunca, lira de mil cordas, que vai do riso à lágrima, da ternura à ironia, com o ar (aparente) de quem respira sem esforço, de árvore que cresce «ali» porque «ali» está, confiante nas raízes que a sustenta de terra e no sol que a sustenta de luz.

Retenho a frase de Saramago: porque as terras da memória estão sempre por descobrir, porque o «inventário», porque o «inventário» nunca está terminado.

É assim, que alguns bons anos depois, iremos desaguar em As Pequenas Memórias.

Está lá a epígrafe tirada de O Livro dos Conselhos:

Deixa-te levar pela criança que foste.  


Legenda: José Rodrigues Miguéis a comprar jornais num quiosque em Nova Iorque.

terça-feira, 17 de julho de 2012

SARAMAGUEANDO


Mais uma espreitadela à correspondência de José Saramago e José Rodrigues Miguéis.

Em carta datada de 22 de Março de 1960, José Saramago acusa a recepção dos primeiros capítulos de A Escola do Paraíso:

Vou ler a Escola desde o princípio, regaladamente, com vagares de sibarita. Sem intenções de crítico, que o não sou, mas com os olhos que puder arranjar, lerei – e direi o que me parecer: tome a minha futura apreciação pelo que vale. Quanto ao Mário Dionísio, nós não temos de estar de acordo, uma vez que o nosso desacordo seria estulto e um pouco impertinente. O meu caro amigo é que dirá se efectivamente deseja que outros leiam o seu trabalho: de antemão concordamos com o seu desejo.

Deliciosa a parte final da carta:

Uma coisa continua a ser verdadeira: para best-seller só lhe falta que Portugal tenha 80 milhões de habitantes, em vez dos escassos 8 milhões, com 50% de analfabetos e 45% de leitores de letras gordas…

Numa carta de Nova Iorque datada de 12 de Maio de 1960, Migueis lamenta-se dos elevados custos das despesas de correio que tem de desembolsar para mandar livros e cópias corrigidas para a Editorial Cor. O lamento mostra, uma vez mais, as muitas e terríveis dificuldades económicas que sempre teve de enfrentar durante o seu exílio americano.

Acabo de botar no Correio, com destino ao reino di-a (sic) COR, as últimas 100 folhas (épico) do Paraíso: boa viagem e good luck, como se diz deste lado do rio. O pacote vai por via marítima, por economia – mesmo assim foram mais de 30 esc. Por avião seria uma barbaridade.

Esta carta tem um outro aspecto curioso: Miguéis conta que o capítulo O Pântano Fermenta da Escola do Paraíso sofreu censura familiar.

O penúltimo episódio (Pântano) acaba com uma cena para-pornográfica (?) que me fez suar: estava uma maravilha, mas a minha mulher protestou e foi um trabalhão para reduzir a isso. Mesmo assim talvez não possa passar. Quero a sua opinião desassombrada, no fim. Isto é um romance panorâmico, epocal, diferente, sem enredo nem intriga, cuja acção está no crescimento do pequeno Gabriel, que é o fulcro de tudo. Não sei se há outro parecido na nossa terra. Estou a terminar a Nota Explicativa («entrevista comigo mesmo») que talvez não junte ao livro, mas reserve para ser distribuída com as ofertas aos Proficientes Zoilos.


Legenda: José Rodrigues Miguéis, com a mulher Camila,, em Central Park no ano de 1939.
               Fotografia tirada do catálogo da exposição comemorativa do centenário do seu nascimento.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

SARAMAGUEANDO


Durante mais de vinte anos José Saramago foi director literário na Editorial Estúdios Cor.

 Serafim Ferreira (1) realça a importância de Saramago à frente da editora.

É  sob a sua direcção que são publicados Histórias das Grandes Literaturas, História do Romance Português de João Gaspar Simões, Dicionário de Pintura Universal em três volumes e um deles exclusivamente dedicado à pintura portuguesa, planeado e coordenado por Mário Tavares Chicó, Armando Vieira Santos e José-Augusto França, as obras completas de Tchekov, Guy de Maupassant, a publicação de escritores como José Rodrigues Migueis, José Marmelo e Silva e Jorge de Sena.

O seu trabalho com José Rodrigues Migueis está amplamente descrito na troca de correspondência que com ele manteve.

Em carta dirigida a José Rodrigues Migueis, Saramago escreve:

Já terá sabido que saio da editora. Hoje é o último dia que aqui estarei. São largos anos de trabalho que aqui me ficam, sem falar nos sacrifícios pessoais de toda a ordem. Aguentei esta casa de pé até ao momento conveniente… para os outro. É uma história algo suja que talvez ainda acabe por vir a público (se a tanto me forçarem) mas de que, em qualquer caso, lhe darei conta quando nos encontrarmos…

Em carta a José Rodrigues Migueis, datada de 8 de Novembro de 1971, Saramago desabafa:

Demiti-me da editora em virtude de me terem criado uma situação vexatória, qual seja admissão de um novo director literário (Natália Correia), imposto pelo grupo financeiro que tomou posição na firma.
Tudo isto se passou na minha ausência em férias (entre 15 de Outubro e 2 de Novembro), e depois de ao longo de anos se ter dito aqui, em todos os tons, que nunca se quereria um director literário realmente director. E quando a questão foi posta aos Srs. Canhão e Correia, estes senhores não tiveram a coragem moral mínima de defenderem a minha posição aqui dentro, o meu trabalho de quinze anos. Aceitaram tudo a troco do prato dos feijões. Venderam-me, supondo que eu estava à venda. No que se enganaram
Aliás, tudo isto já vem de longe. Por alguma razão as suas cartas têm caído num poço de silêncio. Tenho-me recusado a tratar de certos assuntos enquanto toda  a minha situação na editora não fosse esclarecida de vez. Acabou por sê-lo agora em termos que, confesso, não esperava. Porque a safadeza ainda foi maior que a minha ingenuidade.
Saio no dia 31 de Dezembro para entregar com tempo, os assuntos noutras mãos, mas foi a partir do dia 3 de Novembro que deixei de tratar de qualquer questão para além do que considero ser minha estrita obrigação. Outras pessoas comunicarão consigo para tratar dos seus assuntos.
E é tudo. Se no dia em que sair daqui não estiver ainda (já) outro emprego, começo o ano da estaca zero, completamente desprovido. Mas continuo a ter uma grande consideração por mim mesmo!

Segundo Serafim Ferreira, Natália Correia ainda emprestou à Cor uma certa fulgurância editorial, mas foi sol de pouca dura, como diz a sabedoria popular, porque de seguida, depois de Abril ter chegado, eclipsou-se quase por completo.

Nas conversas que Saramago manteve com João Céu e Silva, fica a saber-se que, pouco depois após a saída da Cor, José Cardoso Pires indicou o nome de José Saramago para o Diário de Lisboa, porque o jornal precisava de alguém para escrever uns editoriais. Por ali esteve entre 1972 e 1973 onde se ocupava em tarefas muito dispersas.

Para além dos editoriais, Saramago dirigiu o Suplemento literário do jornal.

(1)   Olhar de Editor, Editora Escritor, Lda, Lisboa Outubro 1999
(2)  
(3)   José Rodrigues Miguéis/José Saramago, Correspondência 1959-1971, Editorial Caminho, Abril 2010.


Legenda. a ilustração do texto é a capa de A Escola do Paraíso, um dos livros de José Rodrigues Migueis que a Cor publicou enquanto Saramago foi seu director literário.
Numa carta a Migueis Saramago escreverá que A Escola do Paraíso é a sua melhor obra e um dos melhores livros destes tempos.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

CORRESPONDÊNCIA



José Rodrigues Miguéis/José Saramago Correspondência 1959-1971

Organização e notas de José Albino Pereira
Capa de Rui Garrido
Editorial Caminho, Lisboa Abril 2010.

Já, mais de uma vez, por aqui se falou da importância que José Saramago dedicava à correspondência trocada, não só entre os seus pares, mas também com os seus leitores.

Estas cartas que José Saramago trocou com José Rodrigues Miguéis, e vice-versa, reunidas em volume pela Editorial Caminho, dizem respeito ao tempo em que José Saramago esteve à frente da parte editorial e administrativa na Editorial Estúdios Cor.

Volta e meia virei aqui com excertos das cartas que ambos trocaram:

Afinal, a sua ilha «deserta» de não sei quantos milhões de habitantes, para onde algumas vezes lhe ouvi dizer aqui que lhe apetecia fugir, não tem já solidão bastante para o fazer esquecer os 100 terríveis metros da calçada do Chiado, o Chiado-de-Espingarda-ao-ombro, igualzinho e tão provinciano como o Freixo-de-Espada-à-Cinta! O viajante das sete partidas, o homem instável, o calcorreador de horizontes, suspira pelas raízes que começavam a romper-lhe a sola dos sapatos! Era de esperar: também o pintor enamorado da anamita muitas vezes se lembrou da parvónia, do Aterro, da Avenida dos Aliados, destes quatro palmos que medem Portugal… Pois cá o esperamos e que venha em bem como dantes se dizia.

Da carta de Saramago para Miguéis, datada de Lisboa no dia 16 de Setembro de 1959.

Migueis responde de Nova Iorque no dia 27 de Setembro.

As agruras do exílio de Migueis deixavam-no destroçado: dificuldades económicas para sobreviver, o estar longe de amigos e familiares amarguravam-no. 

No final da carta desabava:

Desculpe o tom corrido –o exílio obriga-me a escrever dezenas de cartas, o que me arrasa. Para não se lhe tornar pesado escrever-me (não falo das «cartas oficiais» basta anotar em dois rabiscos o que for tendo a dizer-me, e depois mete tudo num envelope; duas fls leves custam 4$50, creio. Não quero roubar-lhe um tempo preciosos