sábado, 20 de maio de 2017

NÃO HÁ POVO COMO O PORTUGUÊS


Carta de José Saramago, datada de 8 de Maio de 1967, para José Rodrigues Miguéis:

Leva uma pessoa quase uma vida a sonhar com Paris, e depois chega lá, olha em redor, vê o Sena que é assim a modos que o Tejo visto do outro lado do binóculo, e murmura, decepcionado: «Afinal é só isto?» Pois é, é só aquilo. Duas horas depois, porém, começa a sentir-se que a cidade vai entrando, e daí a nada levantamos a bandeira branca: rendição! Foram quatro dias de re-descoberta, que é aventura bem melhor que a descoberta. Vi o que era possível ver em tão pouco tempo e andei quilómetros de enfiada, ali, a pé. Imagine se eu ia perder uma passada que fosse… Ficou-me foi a ideia fixa de voltar…
Mas descobri uma coisa muito séria: é que nós, portugueses, somos, afinal, um excelentíssimo povo! Talvez eu esteja enganado, mas não creio que os franceses (ou os parisienses) mereçam a cidade que têm. Aquilo pode ser a douce France, mas o povo é que não tem nada da tal douceur de vivre tão apregoada. Ponho-me a pensar que grande troca seria pôr em Paris os alfacinhas e em Lisboa (vá lá) os parisienses. Faziam-se duas grandes cidades… A sério: ou eu estou muito enganado, ou não há povo como o português. Apelo para a sua experiência de vagamundo. Estou errado?

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